Especial Oscar 2015

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Olá, leitores do Mangatom! Vocês provavelmente não me conhecem, mas eu sou o Pedro, que escrevia pro Mangathering sob o nome de Daisuke. Bom, eu amo cinema, adoro acompanhar premiações e também adoro escrever sobre isso, então fui convidado a publicar o meu texto sobre o Oscar aqui no blog. Espero que gostem!

Antes de tudo, devo explicar o formato do post. Como eu não quero que o texto fique muito grande ou cansativo, não comentarei todas as categorias, mas apenas as mais “badaladas”, que são: melhor roteiro original, melhor atriz coadjuvante, melhor ator coadjuvante, melhor atriz, melhor ator, melhor diretor e melhor filme. Dividirei cada categoria em três partes: O Favorito, onde eu falarei do resultado esperado para o Oscar, isto é, o indicado mais cotado a levar o prêmio em tal categoria; O Voto do Redator, que é, como o nome indica, quem eu gostaria de ver sendo premiado (e, obviamente, em algumas oportunidades é possível que o meu favorito seja também o provável vencedor, e nesse caso as duas categorias estarão juntas); e Ficaram de Fora, onde eu falo de pessoas e filmes que não foram indicados, mas que poderiam ter sido, ou seja: falo de injustiças entre os indicados, de alguns que eram cotados mas foram ignorados pela Academia e também de outros destaques do ano na categoria. Além disso, em alguma parte (talvez junto ao Favorito ou ao Voto do Redator), eu comentarei todos os indicados. Ah, mais uma coisa: evitarei falar de sinopses para não deixar o texto insuportavelmente grande.

OBS: Não comentarei a categoria de melhor roteiro adaptado porque Vício Inerente (um dos filmes que eu mais aguardava, por ser de um dos meus diretores favoritos) não foi lançado no Brasil e, até o momento em que redijo este texto, não teve uma legenda decente disponibilizada na internet.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

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O Grande Hotel Budapeste levou o prêmio do sindicato dos roteiristas recentemente, o que o credencia como a aposta mais segura para o Oscar. O filme, dirigido por Wes Anderson (que assina o roteiro junto à Hugo Guinness), tem um texto muito inteligente que leva uma trama simples ao universo peculiar do cineasta, onde os personagens ganham um quê de excentricidade e habitam um cenário graciosamente construído em meio a diversas “camadas” de trama, estabelecendo belos diálogos e sacadas divertidas. Se o argumento do filme caísse em mãos erradas, O Grande Hotel Budapeste poderia ser apenas mais uma obra clichê sobre a disputa por uma herança, mas a inventividade e o estilo peculiar de Wes Anderson fazem com que este seja um filme incrível.

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Confesso que essa é uma daquelas categorias em que eu preferia não ter de escolher um favorito. Tudo isso simplesmente porque eu considero quatro dos cinco indicados extremamente merecedores do prêmio. A cada dia da semana eu mudo a minha opinião sobre essa categoria, e a verdade é que se a vitória de Wes Anderson por seu O Grande Hotel Budapeste se confirmar, será bastante justa. Porém, pelo menos hoje, o meu favorito é Birdman, escrito por Alejandro González Iñárritu (o diretor), Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris e Armando Bo. Ao mostrar uma nova guinada na carreira de um ator que outrora interpretara um super-herói de sucesso, o roteiro de Birdman tece uma sagaz crítica à indústria cinematográfica e à produção exaustiva de blockbusters que mal estimulam o pensamento crítico do espectador. O excelente texto se sustenta em uma metalinguagem inteligente e construída exemplarmente, como um desabafo de Iñárritu e seu astro, Michael Keaton, contra uma indústria que estimula a produção em massa de obras rasas e que gera uma dicotomia na carreira de diversos artistas, que muitas vezes não conseguem conciliar a qualidade de suas produções com o sucesso comercial. Por meio de metáforas geniais, o roteiro metalinguístico de Birdman faz uma representação em menor escala de Hollywood no teatro (na Broadway) e discute questões ligadas à produção cinematográfica hollywoodiana, levando em consideração até o papel dos críticos e atores no meio.

Sobre os outros indicados: Boyhood – Da Infância à Juventude, obra-prima do grande Richard Linklater, traz em seu roteiro uma das características marcantes que fizeram com que o cineasta alcançasse a fama com sua maravilhosa trilogia Before (Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia Noite): os diálogos perfeitamente naturais e magistralmente redigidos. Extremamente cauteloso ao construir as relações entre seus personagens, o diretor e roteirista de Boyhood nunca se equivoca ao montar diálogos maravilhosamente críveis e bem estruturados, capazes de simular com maestria as conversas da vida real. À primeira vista, o roteiro parece não ser o ponto forte de Boyhood, e confesso que eu mesmo fui pego por essa ideia equivocada em alguns momentos, mas é justamente a naturalidade de seu texto que o faz tão maravilhoso. A obra maior do universo de Linklater é um manifesto sobre o tempo, representado pelo crescimento de seu protagonista Mason, e o roteiro tenta trabalhar com a vida como ela é: sem protagonismo. Mesmo sendo o protagonista, Mason é apenas mais uma pessoa normal, que leva uma vida normal, isto é: diversas coisas que acontecem ao protagonista (como os problemas com seus padrastos) podem parecer forçadas, mas são eventos que podem ocorrer na vida de qualquer pessoa! Mason não é o mais bonito ou o mais legal de sua escola, não é o primeiro colocado do concurso de fotografias do qual participa -mas sim o segundo, empatado com outros nove concorrentes- e não tem nada de extraordinário. É justamente na simplicidade de evocar os mínimos detalhes da vida em sociedade nessa época, em trabalhar inclusive com o papel da família na formação de uma pessoa, em estruturar diálogos e situações que poderiam acontecer com qualquer um, que consiste o grande trunfo da obra-prima Boyhood, que também é merecedora do prêmio de melhor roteiro original por ter um dos textos mais verossímeis já vistos no cinema.

O Abutre, escrito e dirigido por Dan Gilroy, também não seria uma escolha equivocada da Academia. O thriller tem um texto repleto de ironia para tecer uma crítica ácida à mídia, que coloca o sucesso profissional e financeiro à frente dos valores humanos e se aproveita de tragédias para atingir seus objetivos. O protagonista é um dos personagens mais cínicos e detestáveis dos últimos anos, e representa muito bem essa ganância à qual o filme critica.

Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo, na verdade, não choca tanto quanto o ridículo subtítulo brasileiro indica. É o único dos indicados que não parece ser genuinamente merecedor do prêmio. O roteiro promete muito: às vezes parece estar se transformando em um estudo de personagem, enquanto em outras oportunidades parece estar apenas tentando construir um clímax empolgante, mas ele nunca explode. O filme não se decide muito bem e acaba não tendo uma forma definida, não servindo nem como estudo psicológico e nem como uma trama chocante. Não que Foxcatcher tenha um roteiro ruim, não é isso! Mas a verdade é que grande parte do mérito do filme se deve mais à direção, que consegue ambientar bem o roteiro, do que ao texto de Dan Futterman e E. Max Frye em si. Na categoria de melhor roteiro original, não teremos uma parte para o Ficaram de Fora porque não tivemos tantos roteiros originais entre os filmes “oscarizáveis”, e os textos que mais se destacaram foram indicados.

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Patricia Arquette é quase unanimidade nessa categoria. Em Boyhood, a moça interpreta Olivia, mãe do protagonista Mason. A performance de Patricia é, acima de tudo, extremamente carismática: todo o esforço de sua personagem para cuidar de seus filhos, mesmo com tantos obstáculos da vida, é muito bem representada pela moça, que assume um ar maternal que permite uma fácil identificação do espectador com os laços familiares dos personagens. Em um momento chave da trama, Patricia tem de explorar mais seu lado dramático para expressar os sentimentos de uma mãe que vê seus filhos adentrando a vida adulta e deixando sua casa, e com um domínio invejável de suas expressões, a moça faz com que o espectador sinta sua angústia por ter completado um ciclo e agora não saber mais o que esperar da vida. Patricia Arquette faturou praticamente todos os prêmios mais relevantes por seu trabalho em Boyhood, então parece pouco provável que ela perca a estatueta esse ano.

Quanto às outras indicadas, Emma Stone tem uma performance surpreendente e explosiva em Birdman, mostrando muita personalidade e talento em uma das melhores atuações da sua curta carreira. Keira Knightley faz um trabalho bastante competente em O Jogo da Imitação, mas muitas vezes é ofuscada pelo monstruoso Benedict Cumberbatch. Mesmo assim, a moça consegue protagonizar alguns bons momentos do filme. Não surpreende ver Meryl Streep indicada ao Oscar –esta é sua décima-nona indicação-, mas sim ver a experiente atriz sendo lembrada por seu trabalho em um musical de fantasia da Disney, Caminhos da Floresta, onde ela interpreta uma bruxa. Filmes com teor mais infantil e fantasioso não costumam ser lembrados nas principais categorias, especialmente no que se refere às atuações, visto que por mais interessante que seja a composição dos personagens, a atuação nesse tipo de filme teoricamente não exige tanta carga dramática dos intérpretes. Meryl tem uma atuação bacana e carismática, mas realmente não é muito desafiadora – especialmente para uma atriz desse calibre-, e ela provavelmente foi lembrada pela Academia por respeito à bela carreira e a versatilidade da atriz. Já Laura Dern tem uma participação minúscula no chato Livre, aparecendo apenas em alguns flashbacks espalhados pelo filme. O que a Academia viu de tão especial em sua atuação é um grande mistério.

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A única atriz que realmente fez falta entre as indicadas, não só por ter feito um belo trabalho mas também por ter sido lembrada em outras premiações, é Jessica Chastain, que arrasa em O Ano Mais Violento, conseguindo capturar toda a apreensão da atmosfera sufocante do filme e dando vida a uma personagem forte, mesmo com tantas adversidades. Por problemas com a data de estreia nos EUA, Mapas Para as Estrelas, do grande David Cronenberg, não poderia concorrer ao Oscar. Mesmo sabendo que não havia a possibilidade de indicação da moça pelo motivo citado, gostaria de lembrar do excelente trabalho de Mia Wasikowska, uma atuação que realmente me surpreendeu. Rene Russo, apesar de ofuscada pelo brilhante Jake Gyllenhaal, também merece ser citada por seu bom trabalho em O Abutre. Ah, Carrie Coon está ótima em Garota Exemplar, mas a Academia parece não ter gostado tanto do filme. Já a sensacional Naomi Watts, companheira de Emma Stone em Birdman, também poderia ser lembrada.

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A vitória de J. K. Simmons nessa categoria já parece certa, visto que ele ganhou praticamente todos os prêmios relevantes por sua monstruosa performance em Whiplash: Em Busca da Perfeição. No filme, Simmons interpreta Terrence Fletcher, um rigoroso regente que tenta extrair o máximo de sua banda, mesmo que para isso tenha que ser agressivo e desrespeitoso. Fletcher é um personagem arrogante, metódico e explosivo: ele não parece se importar muito em humilhar ou mesmo agredir seus músicos para que eles toquem do seu jeito. Simmons é perfeito ao trabalhar com o caráter agressivo do personagem, operando com uma constante expressão ranzinza de descontentamento (o rosto do ator por si só já é bastante intimidador), que em muitas vezes se transforma em um olhar raivoso enquanto ele grita e trabalha maravilhosamente bem seu lado explosivo nos momentos mais intensos e dramáticos do filme. Porém, o personagem de Simmons não vive apenas de acessos de raiva e gritos, visto que em algumas cenas, o ator tem de sustentar um semblante mais sereno, demonstrando invejável destreza com suas expressões. Fletcher é um homem completamente imprevisível, por isso o contraste entre a calmaria de seu rosto cansado com seus gritos e acessos de raiva é essencial para ressaltar essa característica do personagem, que impõe respeito sempre que aparece em cena, se tornando o centro das atenções pela sua personalidade dominadora e também pelo respeito e o medo que os outros personagens – no caso, o protagonista Andrew – sentem frente à sua figura. A composição quase solene de J. K Simmons para seu personagem, somada a esse contraste que representa sua instabilidade, talvez seja o motor de Whiplash. Simmons é monstruoso!

É fundamental lembrar do excelente desempenho de Edward Norton em Birdman, onde ele dá vida a um talentoso ator que gera vários problemas nos bastidores da peça em que está trabalhando, visto sua persona difícil e arrogante. É impossível não reparar no brilhante trabalho de Norton – um dos melhores de sua geração, sem dúvida alguma -, que explora magistralmente a faceta cínica de um personagem instável, que ao menos ainda parece ter um resquício de bom senso perdido em um mar de arrogância e egocentrismo. Extremamente à vontade no papel, ele constrói uma química invejável com o resto do elenco, especialmente com Emma Stone e com Michael Keaton, este último que vive o protagonista da peça, muitas vezes ofuscado pelo caráter arrogante do personagem de Norton, que, por sua vez, rouba quase todas as cenas do filme em que aparece. Curiosamente, é dito que apesar de seu talento descomunal como intérprete, Norton, assim como seu personagem, não é uma pessoa muito fácil para lidar nos bastidores, e é interessante ver como ele abraça essa ironia ao compor um caráter tão egocêntrico com tamanha naturalidade, trabalhando muito bem com as nuances cômicas que o roteiro exige.

Apesar de saber usar seu carisma como elemento essencial para compor a persona terna e sensível de um irmão preocupado com seu caçula, Mark Ruffalo não impressiona tanto em Foxcatcher, tendo uma atuação competente, porém sem tanto apelo dramático. O veterano Robert Duvall emplaca um bom trabalho ao dar vida a um juiz já idoso que tem de lidar com uma acusação de assassinato e com problemas familiares no pouco inspirado O Juiz. Já Ethan Hawke está maravilhoso em Boyhood. Sua atuação como o pai do protagonista lembra bastante o trabalho de Patricia Arquette (a mãe), visto que ambos representam muito bem a ternura e o carinho de pais para com seus filhos. Porém, enquanto Patricia tem mais cenas dramáticas e explosivas, Ethan se destaca por um trabalho minucioso que encanta ainda mais graças aos doze anos investidos em Boyhood: é visível como seu personagem se transforma ao longo do filme, graças a uma composição extremamente crível e sensível. Ele começa como um pai que, mesmo com muito amor para dar aos seus filhos, é jovem, inexperiente e relaxado, e com o passar do tempo vai aprendendo a lidar melhor com suas responsabilidades, e mesmo que seu espírito jovem esteja sempre presente em cena, fica evidente pelas mudanças físicas e a maneira como Ethan se comporta, que ele já sabe lidar com todo o peso da paternidade e que já passou por quase tudo o que esperava na vida.

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A categoria de melhor ator coadjuvante não surpreendeu muito, visto que foram os mesmos indicados do SAG e de diversas outras premiações. Tony Revolori poderia ser lembrado por sua simpática atuação em O Grande Hotel Budapeste, onde ele consegue dar um ar de inexperiência ao lobby boy que interpreta, ainda desfilando uma química invejável com Ralph Fiennes. Ainda no início da temporada de premiações, vários nomes foram cotados, como Josh Brolin e Benicio del Toro, ambos por Vício Inerente; e até mesmo o cantor japonês Miyavi, que participa de Invencível.

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Por ter vencido praticamente todos os prêmios relevantes até agora, parece que finalmente chegou a vez de Julianne Moore receber um Oscar. Sua atuação em Para Sempre Alice eleva muito o nível do filme, que poderia ser apenas mais um clichê sobre doenças e problemas familiares. A sutileza com que Moore encarna os sintomas do Alzheimer impressiona, sua composição é extremamente minuciosa e nunca parece exagerada. Atores inexperientes costumam abusar do overacting e de tiques nervosos para representar qualquer doença de seus personagens, mas a experiente Julianne Moore sabe perfeitamente os momentos de mudar sua intensidade em cena, sabendo carregar o filme muito bem mesmo em momentos mais calmos, onde basta o olhar para mostrar ao espectador toda a tristeza e as preocupações da personagem. O trabalho de Moore também impressiona por conseguir representar muito bem os diferentes estágios da doença de Alice, além de conseguir estabelecer uma relação clara entre o estado emocional da personagem e o seu estado de saúde, piorando gradualmente.

Devo admitir que foi muito difícil escolher minha favorita nesta categoria. Existem pelo menos duas indicadas que estão no mesmo nível da excelente performance de Julianne Moore (mesmo que a não-vitória da protagonista de Para Sempre Alice pareça quase impossível). Rosamund Pike dá um show em Garota Exemplar. O filme foi injustiçado em diversas categorias, mas mesmo a Academia sabe o quão absurdo seria ignorar essa atuação – com o perdão da palavra – exemplar. É difícil falar do trabalho de Rosamund porque ele está diretamente relacionado às diversas reviravoltas do filme, e eu não quero dar spoilers, mas sua atuação é a mais versátil do ano. A moça, que até agora não era muito conhecida do grande público, é um camaleão! Em uma mesma personagem, ela consegue dar vida a diversas personalidades e psiquês: de uma moça apaixonada a uma sociopata, de uma suburbana misteriosa a uma esposa com problemas familiares… bem, ela é praticamente uma femme fatale. A atuação de Rosamund Pike é extremamente sexy: ela compõe sua personagem de maneira convincente, e quando o roteiro exige que ela explore seu carisma e beleza para encantar ao espectador e os outros personagens, ela não falha. Assim como ela também consegue explorar o outro lado da moeda e desfilar cinismo em cena, deixando o espectador até enojado pelo desgaste emocional do relacionamento de Amy e Nick e claro, muitas vezes revoltado com as ações dos personagens.

Outra atuação que bate de frente com a de Julianne Moore é da maravilhosa Marion Cotillard por Dois Dias, Uma Noite. O talento da francesa é inestimável, e quem assistiu Piaf – Um Hino Ao Amor, filme pelo qual ela faturou seu único Oscar, sabe que ela é responsável pela provável melhor atuação do século XXI até o momento. Apesar de não tão impressionante quanto seu trabalho brutal em Piaf, a atuação de Marion em Dois Dias, Uma Noite é estupenda! A sutileza com que Marion dá vida a uma mãe desesperada prestes a perder seu emprego é fascinante, os grandes e expressivos olhos da francesa indicam todo o desgaste de sua personagem, e a moça é impressionante ao retratar toda a tensão e a expectativa daquela mulher enquanto bate à porta de um de seus companheiros de trabalho ou aguarda uma resposta. Suas reações ao veredito de cada personagem são perfeitamente naturais, ostentando uma expressão de desgaste e decepção às respostas negativas e um olhar levemente esperançoso às positivas. A sutileza da atuação de Marion impressiona, assim como a sua indicação: a francesa era pouco cotada ao Oscar porque Dois Dias, Uma Noite sequer foi lembrado na categoria de melhor filme estrangeiro, mas a Academia foi extremamente justa e mostrou que respeita muito a atriz, vencedora do Oscar em 2008. Bravo, Marion!

Apesar de um pouco abaixo do nível das três indicadas citadas, Felicity Jones surpreende em A Teoria de Tudo. Mesmo contracenando com Eddie Redmayne em grande forma na pele de uma figura marcante que é o centro das atenções (Stephen Hawking), Felicity nunca some em cena, sempre se impondo como uma mulher forte e dedicada ao seu debilitado marido. Além disso, ela consegue explorar diferentes facetas de sua personagem, condizentes com o que determinado momento do filme exige: desde o ar inocente e apaixonado do começo do relacionamento entre Jane e Stephen, passando pela força e o carinho da moça pelo marido nas adversidades, até chegar ao ponto em que é necessário representar o desgaste físico e emocional de Jane com a situação. Ao insinuar a degradação de sua personagem, Felicity é praticamente abandonada pela maquiagem do filme, que falha em auxiliá-la a manter uma aparência mais cansada, mas mesmo assim, apenas com a força de suas expressões faciais, a moça consegue convencer o espectador. Atuação surpreendente. Já Reese Witherspoon faz um trabalho competente no fraco e chato Livre. O filme não é grande coisa, mas Reese consegue encarnar bem uma mulher forte que luta entre problemas e incertezas rumo a uma jornada de autodescobrimento e superação. A moça convence, mesmo que nem sempre o roteiro e a direção a ajudem.  Não é uma atuação memorável, mas é competente.

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Amy Adams, que faturou o Globo de Ouro em Melhor Atriz de Filme em Comédia/Musical por Grandes Olhos, foi esnobada pela Academia. Sua forte atuação é muito inteligente por se utilizar de um recurso sempre destacado pela própria direção de Tim Burton: o olhar. Enquanto sua personagem constantemente justifica os grandes olhos de suas pinturas com frases como “os olhos são a janela da alma”, Burton adora dar close-ups ou simplesmente colocar sua protagonista em evidência com planos mais fechados para ressaltar a expressividade de seus belos olhos. Muito auxiliada pela importância que a direção e o roteiro dão ao olhar, Amy consegue deixar o espectador a par dos sentimentos conflituosos de sua personagem em uma atuação sólida.

Como dito anteriormente, Mapas Para As Estrelas não poderia concorrer ao Oscar por problemas com sua data de estreia. Por isso, a atuação que deu a Julianne Moore o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes acabou ficando de fora. Sim, além de seu belo trabalho em Para Sempre Alice – pelo qual a experiente atriz provavelmente será premiada -, ela ainda teve outro trabalho fantástico, talvez uma atuação tão boa quanto aquela pela qual foi indicada. Jennifer Anniston foi cotada por seu trabalho em Cake.

Não que eu tivesse qualquer esperança de ver uma atriz brasileira indicada ao Oscar esse ano, mas a verdade é que com sua atuação em O Lobo Atrás da Porta, Leandra Leal come com farofa qualquer uma das atuações indicadas. Eu realmente não tenho palavras para descrever o desempenho monstruoso de Leandra ao encarnar “a fera da Penha”. A maneira como o roteiro se desenvolve, alternando entre um humor sério maravilhosamente decadente, um drama e um thriller macabro, privilegia muito a atuação da moça, que representa muito bem essas variações ao transitar por diferentes personas – assim como faz Rosamund Pike em Garota Exemplar -, desde momentos como uma mulher apaixonada, passando por trechos dramáticos e tensos acarretadas pela inconsequência de sua personagem, até chegar ao final, um dos mais perturbadores dos últimos anos, Leandra Leal é absurda, monstruosa, perfeita em cena, e encarna maravilhosamente bem o roteiro sensacional de Fernando Coimbra. Evidentemente, seria praticamente impossível ver a moça indicada ao Oscar, mas vale lembrar de seu trabalho maravilhoso, a melhor atuação feminina do ano.

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Em algumas categorias não muito bem definidas, vem acontecendo um fenômeno bastante interessante: um dos indicados ganha vários prêmios, chega com muita força e, nas duas ou três semanas que antecedem o Oscar, perde nas premiações mais importantes e acaba perdendo também o seu favoritismo. Ao faturar recentemente o prêmio do Sindicato dos Atores, Eddie Redmayne chamou mais atenção para a sua atuação em A Teoria de Tudo, e mesmo com menos prêmios do que Michael Keaton (Birdman), já é cotado para vencer o Oscar. É exagero dizer que Eddie é o favorito da categoria, mas a verdade é que a situação não está muito bem definida: entre ele e Keaton, ninguém sabe quem vai levar o prêmio. Aqui, coloco Eddie como o favorito por ser a minha aposta.

Uma eventual vitória de Eddie Redmayne não seria injusta. O rapaz interpreta Stephen Hawking com muita competência, conseguindo deixar evidente a piora gradual do estado de saúde de seu personagem, sempre incorporando algum elemento novo sem parecer forçado. O trabalho de Eddie comove não só por mostrar um Stephen Hawking falante e alegre trilhando por caminhos trágicos, mas também pela inteligência do ator ao utilizar suas expressões como método comunicativo do personagem quando este sequer pode falar. Se o roteiro construísse Stephen e Jane de maneira menos apressada, talvez sua performance tivesse ainda mais força, tendo em mente que o contraste entre os diferentes estágios da doença seria ainda maior. Mesmo assim, pela maneira como Eddie concebe seu Stephen Hawking, o contraste já é suficientemente forte para comover o espectador. Além disso, a sua atenção aos detalhes – à forma de falar, de andar, ao posicionamento dos ombros e a todos os sintomas da doença – é impressionante e denota um sutil e inteligente trabalho de caracterização.

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Por mais que a disputa pelo prêmio pareça bastante fechada entre Michael Keaton e Eddie Redmayne, e que ambos estejam excelentes em seus trabalhos, meu favorito dentre os indicados é Benedict Cumberbatch, protagonista do filme O Jogo da Imitação. Depois de algumas participações como coadjuvante em alguns filmes relevantes, o astro da excelente série Sherlock (na qual ele também tem uma atuação exemplar) finalmente agarrou um papel de destaque no cinema, e não decepcionou: Benedict é estupendo! Seu Alan Turing é um gênio da matemática que apresenta também sua faceta de homem reservado, com seus receios quanto à interação humana e uma deficiência no que diz respeito ao bom senso para a vivência em sociedade. Benedict explora muito bem esse lado antissocial de Alan, dando diversas respostas ácidas e desrespeitosas com um olhar inocente, como alguém que realmente não sabe como lidar com as convenções sociais das quais participa. Além disso, há um trabalho meticuloso quanto às reações de Alan a acontecimentos e gestos dos outros personagens, sempre soando como algo característico do matemático. Nos momentos mais dramáticos, Benedict é maravilhoso, trabalhando muito bem sua expressão corporal e operando com trejeitos intensos que soam bastante verossímeis nessas situações. Já no terceiro ato do filme, ele consegue atender ao que o roteiro pede e brinda o espectador com uma explosão dramática extremamente inteligente e bem realizada, coroando sua grande atuação.

Michael Keaton ainda tem boas chances de faturar o prêmio por seu trabalho em Birdman, visto que foi vencedor de diversas outras premiações – mesmo que ele tenha perdido um pouco seu favoritismo para Eddie Redmayne nos últimos dias. Keaton está inspiradíssimo! Seu personagem tem uma necessidade muito grande de ver seu trabalho sendo reconhecido e de ser lembrado, e para isso, precisa seguir com a sua carreira mesmo vários anos após seu grande sucesso comercial, e por isso decide dirigir e protagonizar uma peça de teatro – ele não quer ser lembrado apenas por ter interpretado um super-herói famoso no passado, mas sim por seu talento. Fora da ficção, Keaton passou por algo semelhante, visto que teve poucos trabalhos de destaque depois de abandonar os trajes de Batman, e Birdman foi a sua oportunidade de voltar aos holofotes. Sua atuação é repleta de intensidade, trabalhando com muita sensibilidade nos monólogos de Thomson, e sabendo criar uma aura ansiosa e até paranoica para o personagem, sempre assombrado pela figura do próprio Birdman. A química de Keaton com o resto do elenco – especialmente com o brilhante Edward Norton – é maravilhosa, e se a Academia optar por premiá-lo no domingo, certamente será um resultado justo.

Steve Carell poderia ter sido encaixado na categoria de melhor ator coadjuvante, visto que não é genuinamente o protagonista de Foxcatcher. Mesmo assim, sua caracterização para o misterioso milionário John E. du Pont é extremamente competente. Desde sua primeira aparição no filme, mesmo sem que se saiba nada a seu respeito, ele já parece um personagem estranho. E é assim durante todo o longa: mesmo sem saber quem de fato é aquele homem ou quais são suas intenções, o espectador sempre é capaz de identificar uma atmosfera esquisita e ameaçadora, como se ele guardasse algum grande segredo ou fosse “explodir” a qualquer momento, tudo isso graças aos trejeitos de Carell. Bennett Miller dirige o filme com base nessa atmosfera misteriosa, e Steve Carell é o principal responsável dentro do elenco por mantê-la em cena.

Bradley Cooper foi uma invenção de última hora da Academia. Ele já não era mais cotado ao Oscar, mas os votantes parecem simpatizar muito com o ator, visto que é sua terceira indicação seguida – terceira indicação questionável seguida, devo dizer. Em Sniper Americano, Cooper interpreta um “herói de guerra” americano, um dos melhores atiradores da história do país. Provavelmente é a melhor atuação de sua carreira até o momento, ou pelo menos a que mais exigiu dele, mas… foi uma péssima escolha da Academia. Não que sua atuação seja ruim, é competente – e só -, mas 2014 teve várias – várias mesmo! – atuações melhores.

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O grande absurdo dessa edição do Oscar foi a ausência de Jake Gyllenhaal entre os indicados por seu trabalho em O Abutre. Essa é simplesmente a melhor atuação masculina do ano! A maneira como Jake interpreta um homem ganancioso e com fortes sinais de sociopatia, que apenas quer lucrar, mesmo que para isso tenha que explorar desgraças de outras pessoas, é assustadora! Seu personagem é um esquisitão que tenta se dar bem a todo custo, e o roteiro exige de Jake doses cavalares de cinismo (e cara de pau). O ator não só concebe seu Lou Bloom como um homem inescrupuloso e cínico, como também sabe explorar a faceta de homem solitário e desajustado para a vida em sociedade, isto é: ao mesmo tempo em que seu personagem é um malandro de primeira, sempre dando um jeito de tirar vantagem das situações, ele também apresenta um grande vazio emocional, como se fosse movido apenas pela sua ganância e não tivesse o mínimo de bom senso, tentando apenas manipular pessoas e situações a seu favor. O excelente roteiro de Dan Gilroy exige muito cuidado com a composição do personagem para dar vida a Lou Bloom, tendo em vista tamanha complexidade de sua persona, mas Jake Gyllenhaal protagoniza o filme de maneira tão impressionante, que é difícil – impossível, na verdade – imaginar qualquer outro ator nesse papel. Definitivamente, a melhor atuação masculina de 2014, e foi ignorada pela Academia. Aliás, O Abutre não foi o único grande trabalho de Jake Gyllenhaal em 2014. Ele também protagonizou O Homem Duplicado, do sensacional Denis Villeneuve, com quem trabalhou anteriormente em Os Suspeitos (quando, ano passado, merecia uma indicação a melhor ator coadjuvante, mas também fora ignorado pela Academia). Sua atuação em O Abutre é melhor, mas Jake também está muito bem em O Homem Duplicado, e muito melhor do que Bradley Cooper em Sniper Americano.

Ralph Fiennes faz um trabalho maravilhoso em O Grande Hotel Budapeste, dando vida a um personagem extremamente carismático. David Oyelowo encarna Martin Luther King em Selma – Uma Luta Pela Igualdade com muita competência, sendo extremamente convincente especialmente por não cair nos clichês habituais desse tipo de papel e de filme, sabendo humanizar seu personagem, permitindo que o espectador não o veja apenas como uma figura histórica importante, mas especialmente como uma pessoa. Ao mesmo tempo, David sabe dar mais intensidade à sua atuação: as cenas em que seu personagem discursa são emocionantes e muito convincentes. Miles Teller é um monstro em Whiplash, retratando perfeitamente todo o desgaste e o empenho de seu personagem e mostrando uma química incrível com J. K Simmons. Em algumas cenas, os dois se comunicam apenas por meio de olhares, como no empolgante final do filme. Christoph Waltz não é muito exigido dramaticamente em Grande Olhos, mas é um grande ator e tem um trabalho muito convincente (poderia ser lembrado na categoria de ator coadjuvante também). Como Vício Inerente ainda não estreou no Brasil, não posso falar muito a respeito do trabalho de Joaquin Phoenix, mas sabendo que é mais uma parceria entre o ator e o diretor Paul Thomas Anderson – um de meus diretores favoritos e um cineasta descomunalmente talentoso em extrair o melhor de seu elenco, como fez com o próprio Phoenix em O Mestre, uma das melhores atuações dos últimos anos -, tenho certeza de que é mais um belo trabalho. Vencedor do prêmio de melhor ator do festival de Cannes, Timothy Spall também era cotado por sua atuação em Sr. Turner. Já Oscar Isaac mostra segurança invejável em O Ano Mais Violento. Ellar Coltrane, o garoto de Boyhood, tem um desempenho impressionante, mas sua ausência entre os indicados é compreensível, visto que a Academia pode considerar que existe certa instabilidade em sua atuação, devido ao fato de o filme ter começado quando Ellar era apenas uma criança. Apesar de não ser o tipo de obra que privilegia tanto as atuações, Interestelar conta com um belíssimo trabalho de Matthew McConaughey.

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Sim, é um empate tanto na categoria de Voto do Redator quanto em Favorito! Bom, a única coisa que se sabe é que a essa altura, apenas dois dos cinco indicados têm chances de faturar o prêmio. São eles: Richard Linklater, por Boyhood; e Alejandro González Iñárritu, por Birdman. O primeiro venceu a maioria das premiações, mas foi preterido pelo Sindicato dos Diretores e agora os dois protagonizam uma disputa acirradíssima. Nem eu consegui decidir quem é o meu favorito.

O mexicano Iñárritu é responsável por um trabalho maravilhoso em Birdman. Junto a seu grande diretor de fotografia Emmanuel Lubezki (vencedor do Oscar de melhor fotografia pela obra-prima Gravidade), Iñárritu bolou uma maneira de fazer com que o filme todo parecesse um único e engenhoso plano-sequência. Evidentemente, existem cortes no filme, mas estes são “disfarçados” para passar a sensação de que Birdman consiste em um único take – algo semelhante ao que Hitchcock fez em seu sensacional Festim Diabólico (mas, nesse caso, havia cortes não exatamente pela engenhosidade dos planos, mas também devido à necessidade de mudar de rolos). Há quem diga que essa escolha de Iñárritu é apenas um virtuosismo estético desnecessário, mas a verdade é que o grande plano-sequência de Birdman tem uma função narrativa muito interessante. A sensação de continuidade provocada pela montagem do longa nos permite acompanhar melhor a movimentação dos personagens em cena, e o design de produção do longa concebe o cenário do filme (um teatro, na maior parte do tempo) como um lugar desarrumado e claustrofóbico, fazendo com que o plano transmita uma sensação de caos, diretamente ligada à mente do protagonista e à maneira como ele vê as coisas. Além disso, por se passar nos bastidores de uma peça teatral, o filme ganha muito com essa técnica justamente por sua capacidade de representar a continuidade típica do teatro, o que também exige um trabalho exemplar do elenco – que é maravilhoso e muito bem coordenado pelo diretor.

Se o trabalho de Iñárritu é impecável do ponto de vista técnico, por outro lado, não seria exagero algum dizer que a direção de Linklater é uma das mais sensíveis e sutis dos últimos anos. Enquanto o mexicano esbanja ousadia ao fazer com que seu Birdman pareça um plano-sequência único, o americano ousou ao rodar seu Boyhood por doze anos, reunindo seu elenco por alguns dias a cada ano para filmar um pouco. Linklater sempre valorizou o tempo em suas obras, e já havia feito uma brincadeira semelhante com sua trilogia Before, cujos filmes foram lançados com um espaçamento de nove anos, enquanto na própria trama se passou o mesmo período de tempo, mas o que ele faz em Boyhood vai além disso, e o resultado é estupendo. Como roteirista e diretor, Linklater esbanja talento e sensibilidade, e mesmo que tivesse filmado Boyhood de uma vez só – utilizando atores semelhantes para substituir as crianças e abusando da maquiagem para envelhecer os adultos -, provavelmente teria concebido um bom filme do mesmo jeito. Porém, sua escolha de filmar o crescimento literal de seu elenco é extremamente inteligente por intensificar a experiência do espectador, isto é: ao ver os mesmos atores crescendo – especialmente no caso das crianças – e sabendo da maneira como aquilo foi feito, é muito mais fácil para quem assiste ao filme se apegar aos personagens e realmente se importar com o que acontece a eles. A mão do diretor é sempre firme, ao mesmo tempo em que apresenta leveza e destreza invejáveis: a maneira como Linklater conduz seu épico sobre o tempo impressiona pelo bom gosto e os detalhes, como o uso da trilha sonora para indicar o ano em que trama se encontra ou simplesmente pela maneira como ele faz com que o crescimento e a passagem do tempo pareçam tão naturais, ao mesmo tempo em que faz o espectador se preocupar com os rumos de cada personagem ou até mesmo sentir orgulho pelas realizações de cada um.

Linklater e Iñárritu apresentam duas das direções mais ousadas e inteligentes do século XXI até o momento. Enquanto o primeiro é impecável no que diz respeito à sensibilidade, o segundo não falha com sua ousadia técnica e estética – e, ao mesmo tempo em que um filme se caracteriza pelos sentimentos e o outro pela técnica, é inegável que ambos têm muita qualidade tanto no fator emocional quanto técnico. Independente de qual dos dois for premiado no domingo, o resultado será justíssimo.

Quanto aos outros indicados: Wes Anderson é responsável por um trabalho excelente em O Grande Hotel Budapeste, que dentre seus filmes, é o que melhor reúne todos os elementos característicos de seu cinema. Os planos simétricos, o humor visual e o trabalho maravilhoso com as cores, elementos marcantes de sua carreira, estão presentes em mais uma obra certeira e carismática do diretor. Morten Tyldum demonstra um bom domínio sobre seu ótimo O Jogo da Imitação: não é uma direção muito inventiva e não foge muito aos clichês de filmes biográficos de época, mas é bastante competente pela forma como trabalha com as sutilezas do roteiro e com o seu elenco. Já o vencedor do prêmio de melhor diretor do festival de Cannes, Bennett Miller, aposta em uma direção fria que confia na força de seus atores para sustentar a atmosfera misteriosa e o clima de tensão esquisito – no bom sentido, acho – de Foxcatcher. O trabalho de Miller muitas vezes indica que o filme quer ser um estudo de personagens complexo – o que faria muito bem para a obra -, mas tanto sua direção quanto o roteiro parecem indecisos quanto a isso, e o filme fica no meio termo entre um suspense atmosférico e um estudo de personagem.

f5

A ausência do genial David Fincher por seu trabalho maravilhoso em Garota Exemplar é inadmissível! Fincher é um dos melhores diretores em atividade, isso é inquestionável, e em Garota Exemplar ele acrescenta mais um brilhante thriller à sua filmografia, mas não apenas isso: o filme é extremamente corajoso ao apresentar diversas reviravoltas que o fazem ir além de um suspense habitual, levando-o ao campo do estudo de personagem e de relacionamentos – como uma análise sutil do desgaste de um casal, fantasiada de filme policial. Fincher é um diretor extremamente habilidoso, de muito bom gosto e que compõe seus filmes com um esmero técnico invejável, não à toa é o homem por trás de uma das grandes obras deste século, A Rede Social, e de tantos outros filmaços. Em Garota Exemplar não é diferente: os enquadramentos inteligentes são marca registrada do diretor e de sua equipe – destaco uma cena sensacional que coloca Amy, a personagem de Rosamund Pike, no centro da tela de um ponto de vista detrás de uma porta, fazendo com que o contorno da porta feche um pouco mais o plano para passar a sensação de tensão e preocupação da personagem. Além disso, a equipe que trabalha com Fincher em seus filmes é uma das mais eficientes em atividade hoje, e o diretor sabe aproveitar o talento de seu maravilhoso montador Kirk Baxter e a trilha de Trent Reznor e Atticus Ross. Em Garota Exemplar, Fincher apresenta um dos melhores trabalhos de direção do ano – atrás apenas de Linklater e Iñárritu -, e merecia demais a indicação ao Oscar (preferencialmente no lugar de Bennett Miller ou Morten Tyldum).

Outro que merecia mais a indicação do que os diretores de Foxcatcher e O Jogo da Imitação é Damien Chazelle, responsável por um trabalho sensacional em Whiplash. O jovem diretor conduz o filme de maneira exemplar, evitando clichês e lições de moral bobas, enquanto desenvolve um primoroso trabalho na condução de seus atores- um fator fundamental para um momento chave do filme, um desfecho construído sem uma palavra sequer, apenas com olhares e música, uma das cenas mais inventivas e bem dirigidas do ano. Ava DuVernay tem uma direção bastante segura e sólida em Selma, evitando o melodrama durante maior parte do filme – às vezes ele se torna irresistível, e a moça cai em tentação – e sabendo utilizar muito bem o contra-plongée para enaltecer a figura de seu protagonista durante os discursos, mas sem promover uma exaltação exagerada. Como dito anteriormente, Vício Inerente não estreou no Brasil, portanto não pude assistir ao filme. Porém, sabendo que o longa é assinado pelo grande Paul Thomas Anderson, um dos melhores diretores em atividade, acredito que ele seja mais um primor de direção, e chegou a ser cotado para as premiações.

Hora de falar da categoria de melhor filme. Primeiro, falarei dos que ficaram de fora e depois dos indicados.

MELHOR FILME f6

A Academia poderia ter indicado até 10 (dez!) filmes na categoria principal, mas optou por honrar apenas 8 (oito!), o que deixa um gosto meio amargo pela ausência de algumas obras interessantes. Garota Exemplar, de David Fincher, é a principal ausência. O longa merecia a indicação não só a melhor filme, mas também a, pelo menos, melhor diretor; roteiro adaptado; montagem; trilha sonora original; e talvez melhor atriz coadjuvante (Carrie Coon), mas foi lembrado apenas em melhor atriz (Rosamund Pike). O roteiro do filme é sensacional, repleto de reviravoltas que fazem com que ele deixe de ser apenas um thriller para se tornar um grande estudo sobre relacionamentos e uma grande crítica à mídia. A montagem de Kirk Baxter é, como sempre, genial, dando a fluidez de que o filme necessita, trabalhando muito bem com a técnica de fade in/fade out para introduzir o ponto de vista de Amy e, de quebra, ainda brindando o espectador com cortes de uma sagacidade ímpar- pular de um beijo de Nick e Amy para a coleta de DNA na boca do primeiro, por exemplo. Baxter ainda é extremamente eficiente ao conseguir trabalhar com flashbacks sem prejudicar o ritmo do filme, ligando a cena inicial com a final maravilhosamente, e também evitando que o longa se estenda demais (em tom de brincadeira, ele disse em entrevista que teve de cortar closes longos e desnecessários no gato do casal). Rosamund Pike tem uma atuação maravilhosa, e Ben Affleck, que não é bom ator e está sempre com a mesma cara, se sai muito bem no papel especialmente porque Nick não sabe exatamente como se comportar diante do sumiço da esposa, então sua inexpressividade acaba se tornando um trunfo. A trilha de Trent Reznor e Atticus Ross é muito bem utilizada para construir o suspense e até mesmo para acentuar diferenças dos pontos de vista da trama. Garota Exemplar é um filme maravilhoso, magistralmente dirigido pelo grande David Fincher, que merecia muito mais reconhecimento do que obteve. É facilmente um dos cinco melhores filmes do ano, e além de ter sido ignorado na disputa pelo grande prêmio, esteve ausente em diversas outras categorias. Uma pena que a Academia não tenha gostado tanto dessa maravilhosa obra.

O Abutre, de Dan Gilroy, é outro que foi muito injustiçado: foi indicado apenas a melhor roteiro original, e teve a brilhante atuação de seu protagonista ignorada – além de o filme sequer ter sido lembrado na categoria principal. Enquanto Garota Exemplar criticava o circo midiático promovido por jornalistas irresponsáveis e pessoas sem o mínimo de bom senso, O Abutre utiliza a mídia para representar a ganância do homem. No caso, o jornalismo apresentado no filme explora crimes e acidentes para vender imagens chocantes e obter sucesso comercial e profissional, e para isso constrói um sociopata inescrupuloso e cínico que em momento algum parece se preocupar com a moralidade de seus atos. A crítica do filme é ácida, e a fotografia de Robert Elswit e a direção de Dan Gilroy constroem com muita eficiência o cenário noturno de Los Angeles, onde o abutre do título entra em ação. Outro grande injustiçado.

Não que eu ache que Foxcatcher, de Bennett Miller, tenha sido tão injustiçado ao ser ignorado na categoria principal, mas a Academia foi um pouco incoerente ao indicar o filme a melhor diretor, roteiro original, ator e ator coadjuvante (quatro das “principais” categorias) e deixá-lo de fora da disputa pelo grande prêmio da noite. O Homem Duplicado, de Denis Villeneuve, não tinha chance alguma de indicação, mas é um filme sensacional e merece ser citado por aqui. O Ano Mais Violento, de J.C. Chandor, e Vício Inerente, do mestre Paul Thomas Anderson, chegaram a ser cotados para a categoria principal, visto que estiveram presentes em algumas outras premiações.

OS INDICADOS

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Sniper Americano, de Clint Eastwood, é uma grande bobagem: tem um roteiro fraquíssimo que ignora qualquer possibilidade de explorar o estresse pós-traumático – o que poderia resultar em um interessante estudo de personagem –, preferindo seguir por um caminho simplista que aposta em clichês reacionários de “herói americano versus terroristas”, sem apresentar qualquer tipo de abordagem que não seja unidimensional. É bastante incômodo ver um diretor tão habilidoso, e que já demonstrou grande sensibilidade em belos filmes como Gran Torino, Sobre Meninos e Lobos e Menina de Ouro, investir em uma obra tão rasa. Mesmo assim, é inegável o talento de Clint, que consegue conduzir boas sequências de ação, auxiliado por uma montagem decente e um trabalho interessante com a edição e a mixagem de som. Filme dispensável, que poderia muito bem ter ficado de fora da lista dos indicados.

A Teoria de Tudo, de James Marsh, é um filme bastante sensível – e que às vezes passa do ponto nesse sentido – que se sustenta nas boas atuações de Eddie Redmayne e Felicity Jones. A trilha de Johann Johannsson – provável vencedora na categoria de trilha sonora original, apesar de não ser a minha favorita – não é muito inventiva, mas é adequada para o filme; enquanto a fotografia de Benoit Delhomme é inteligente e trabalha muito bem com a iluminação. A principal inconsistência da obra se encontra no roteiro, que parece apressado para chegar às partes dramáticas e não apresenta decentemente seus protagonistas – o que faria muita diferença não só para promover uma maior simpatia por parte do espectador, mas como também privilegiaria as atuações. Às vezes, o longa apela demais para o drama, como já era esperado, mas mesmo com esses excessos, é um bom filme.

A direção sólida de Ava DuVernay faz de Selma um belo filme, que consegue desviar do melodrama durante a maior parte do tempo. Com uma bela trilha sonora e uma boa atuação de David Oyelowo, Selma consegue chocar o espectador ao abordar o racismo enraizado na sociedade da época, e é muito inteligente por fazer refletir: o preconceito enrustido que muitos dos personagens do filme apresentam é muito semelhante à discriminação sofrida por diversas minorias ainda atualmente, sendo acusadas de vitimismo ou mesmo tendo seus direitos privados por mera ignorância. Uma obra muito interessante e, infelizmente, atual.

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O humor inteligente e charmoso da meticulosa direção de Wes Anderson faz com que O Grande Hotel Budapeste seja um grande triunfo. Desde o design de produção (que deve ser premiado) e a fotografia até a maravilhosa trilha de Alexandre Desplat e as carismáticas atuações, tudo contribui para a construção da personalidade inconfundível do filme, que tem a cara de seu diretor em cada cor presente no cenário do majestoso hotel. O Grande Hotel Budapeste é um filme muito leve e divertido, com uma trama aparentemente simples que se divide em mais de uma camada, sem nunca cansar o espectador. É uma obra extremamente charmosa.

Whiplash, de Damien Chazelle, é frenético! O competente roteiro é levado à tela com maestria pelo jovem diretor, que mostra muita personalidade ao promover escolhas ousadas – como a maravilhosa cena final – e evitar caminhos óbvios. A montagem do filme é sensacional, e especialmente nas cenas em que a banda está tocando, viaja com uma fluidez impressionante pelo recinto, “dançando” no ritmo da música enquanto mostra detalhes dos instrumentos e dos músicos com o mesmo virtuosismo com que estes tocam. A trilha sonora dispensa comentários – a faixa que dá nome ao filme fica na cabeça do espectador por muito tempo – e as atuações de Miles Teller e J. K. Simmons são esplêndidas. Ao fim do filme, é impossível esconder a empolgação. Whiplash é cinema puro.

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O Jogo da Imitação, de Morten Tyldum, me pegou de surpresa e agradou bem mais do que o esperado. O roteiro de Graham Moore é estruturalmente simples e recorre a alguns clichês, mas é muito inteligente ao levantar discretamente questionamentos sobre o machismo e o conservadorismo da sociedade à época – e mesmo que em menores proporções, são coisas que ainda se fazem presentes no cotidiano. A direção de Tyldum é pouco inventiva, mas correta; e a montagem triunfa em compor um ritmo agradável enquanto trabalha bem com a inserção de imagens antigas, apesar de muitas vezes falhar em situar o espectador através do tempo. Além disso, o filme tem um bom elenco de coadjuvantes e uma atuação primorosa de Benedict Cumberbatch – este sim, sustenta o filme – e uma trilha linda, maravilhosa, de Alexandre Desplat (que está indicado ao Oscar tanto por O Jogo da Imitação quanto por O Grande Hotel Budapeste, e estou na torcida por ele). O filme não inova muito na fórmula tradicional de drama histórico, mas conta uma história interessantíssima e é capaz de emocionar sem se perder em meio ao drama.

Birdman, de Alejandro González Iñárritu, já foi muito comentado por aqui, mas vale a pena resumir: o excelente roteiro metalinguístico é perfeitamente adaptado para as telas pela direção ousada, inteligente e primorosa do mexicano. A ideia de rodar o filme como um plano-sequência acrescenta muito à narrativa; o elenco está afiadíssimo – com destaque para os indicados Michael Keaton, Edward Norton e Emma Stone -; a fotografia de Emmanuel Lubezki é estupenda e provavelmente será premiada em sua categoria; e a montagem do filme, que mantém a fluidez da obra com os cortes “escondidos” é muito inteligente (e infelizmente foi ignorada na categoria de melhor montagem); e a trilha, composta praticamente apenas de sons de percussão, é muito boa. Birdman é um filme primoroso, e é um dos dois únicos filmes que parecem ter chances de levar o principal prêmio da noite. Esses dois filmes estão praticamente “empatados”: a obra de Iñárritu esteve um pouco atrás durante toda a corrida pelo Oscar, mas recentemente faturou alguns dos principais prêmios e é difícil dizer quem vai levar. Apesar disso, o meu favorito, e o filme no qual eu estou apostando para levar o grande prêmio é…

melhorfilme

Não poderia ser outro filme. Boyhood é perfeito, sensível, delicado, maravilhoso; um dos melhores – senão o melhor – filmes do século. A verdade é que por mais que a obra-prima de Richard Linklater se propunha a acompanhar o crescimento de uma criança ao longo de doze anos, o grande protagonista de seu filme não é o pequeno Mason, mas sim o tempo, que está presente em todas as cenas, interagindo com todos os personagens, dançando por todos os cenários. Certamente, a ideia de filmar por doze anos acrescenta em muito à experiência de assistir ao filme, mas Boyhood não deve ser lembrado apenas por isso, mas também por sua sutileza ao indicar a passagem de tempo para os personagens – graças a uma montagem maravilhosa, que deve ser premiada no domingo – e pela trama verossímil construída em um roteiro inteligentíssimo, repleto de diálogos naturais e fluídos. Mason não é um garoto especial, não é diferente de qualquer outro garoto de sua idade, mas justamente a sua normalidade o faz tão encantador: qualquer um pode se ver refletido nos personagens de Boyhood, que é um manifesto sobre o tempo e o ciclo da vida. Por isso o tempo é o grande protagonista do filme: a passagem dos anos é indicada com muita sutileza pela trilha sonora e também pelo visual dos atores, que, claro, muda naturalmente. Além disso, o roteiro estabelece mudanças graduais e significativas no comportamento de cada personagem conforme o tempo passa, o que faz com que Boyhood seja uma odisseia nostálgica pela vida e o tempo. É impossível não se apegar aos personagens, não torcer por eles, não se preocupar ou mesmo se sentir orgulhoso com seus feitos. Boyhood é perfeito justamente por ser tão simples, por ter grande capacidade de fazer com que o espectador – que certamente já passou por várias situações presentes no filme – se identifique e sinta toda essa nostalgia. A vida, o mundo, o tempo e as pessoas não são extraordinários, mas justamente por isso se tornam tão fascinantes. Além de um filme maravilhoso de sensibilidade ímpar, o longa ainda conta com cenas que lembram muito alguns momentos da trilogia Before de Linklater – talvez propositalmente -, gerando sorrisos de quem conhece as outras obras fantásticas do diretor. E justamente em uma dessas cenas, o filme se encerra abruptamente, indicando que a vida continua, que enquanto o espectador deixa a sala de cinema, Mason, seus parentes e o tempo continuam vivendo por aí. E fica aquela sensação de que o filme poderia nunca acabar, fica a vontade de acompanhar toda a vida daqueles personagens. E a marcante música que toca em determinado momento do filme (esta!) começa a ecoar na cabeça do espectador. Linklater, você conseguiu. Muito obrigado. Boyhood merece todos os prêmios possíveis.

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Sobre Daisuke~

Amante de cinema (e de arte e entretenimento de forma geral), adora escrever sobre filmes, livros, mangás, etc.

Publicado em 19/02/2015, em Uncategorized e marcado como , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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