Estamos viciados em narrativas?

narrativas

O cidadão acorda com o alarme. Só levanta uns cinco ou dez minutos mais tarde. Escova os dentes, se arruma, pega o trânsito. Permanece cerca de oito horas ou mais no que podemos chamar de uma jornada do infeliz, para conseguir uma grana que o mantenha vivo e possa usufruir do que comprar com aquele dinheiro. Ele chega em casa, sem muito tempo para se situar no mundo ou aproveitar o dia, já se preparando para a luta seguinte. A culpa não é do indivíduo. O tempo é curto mesmo, eis que os entretenimentos são rápidos. Visam uma grande catarse em poucas horas. Pois bem, o cinema é um exemplo disso.

Se uma pessoa lê um livro de duzentas páginas em oito horas, pode ver o filme do livro — um audiovisual — com mais rapidez e facilidade, sem ter de imaginar os personagens, as suas ações, a imagética das metáforas e outros recursos textuais; sem ter de fazer um esforço mental para absorver aquela história. Aqui está um exemplo de como o audiovisual prevalece sobre a leitura, e talvez sobre qualquer outra atividade de lazer nos dias de hoje. O cinema é a sofisticação dos mitos: se tudo é narrativa, não existe melhor meio para se contar uma história senão pelo audiovisual; mais rápido, de fácil digestão e não força a pensar — seja um desenho animado ou captura de movimentos reais.

Gladiator

Há uma busca desenfreada por narrativas atualmente. Tudo ao nosso redor, desde jogos até uma imagem, está contando uma história. E não necessariamente essa história é ficcional: noticiários, fofocas, depoimentos, anedotas contadas por bêbados em esquinas, reforçam a ideia do Homem ser um produtor e apreciador exclusivo de narrativas. Nós somos Homo narrans — homem narrador. Sejam as narrativas ficcionais ou verdadeiras, é curioso se possuem algum aspecto místico que atraia o Homem para contemplá-las. Talvez, se voltarmos um pouco ao passado, podemos saber o porquê de isso acontecer a ponto da ficção invadir a realidade com objetos e experiências inspiradas nos mesmos do âmbito ficcional.

Quando falo em Narrativa, me refiro tanto à ficção (invenção, mentira) como a um fato no passado (biografia, notícia). Mas, neste caso, tomemos o conceito de ficção (mentira) para entendermos melhor.

Desde sempre as narrativas (ficcionais) tiveram um papel fundamental na cultura dos povos. Fábulas, lendas, contos de fada, mitos, um bando de narrativas, não importa se orais ou escritas, passadas de geração para geração, de homem para homem, de humano para humano. Essas narrativas — acredita-se com maior veemência hoje em dia — contêm um fundo de verdade e até certo valor moral. No mínimo, traçam um aspecto da natureza humana, ou seja, comentam sobre o Homem em si. Os próprios mitos gregos são o exemplo mais notável desse tipo de narrativa que teve êxito ao teste do tempo, e eu vos digo o porquê: os deuses da Grécia, por definição, eram divindades, distintos do ser humano; diferentes de nós, talvez pelos seus poderes, ou seu aspecto natural de negar a morte. Porém, de certa forma eles eram gente como a gente: não estavam isentos de erros, nem intrigas familiares ou sentimentos como inveja, ciúme, atos ignóbeis de traição, luxúria, etc. Por um lado, eram deuses com características humanas, por outro, eram humanos com características divinas.

Toda civilização antiga — e até moderna — possuiu e possui o seu panteão de deuses, sua coleção de mitos que narram sobre eles próprios, gente como eles. A mitologia grega é tão famosa até hoje por seu aspecto universal no que concerne aos comentários — às vezes até críticas! — da natureza humana; quer dizer, os deuses gregos são os deuses que melhor conversam com o ocidental. Por haver essa comunicação pessoal, a empatia por eles no Homem desperta com maior facilidade. Porventura, se tememos aquilo que desconhecemos, simpatizamos com aquilo que conhecemos.

decameron

E todo contador de histórias, todo narrador, o cara por trás da indústria de entretenimento, independente da mídia, está ciente que o sucesso de uma boa narrativa jaz no contar de gente como a gente; é aquela que conta sobre a vida épica do trabalhador numa selva de concreto, sobre a menina que mistura ficção com realidade e se desilude com o real, sobre o jovem que falha, erra e fracassa, mas não desiste… são histórias que remetem às grandes obras das narrativas: Ilíada, Odisseia, Hamlet, Macbeth, Madame Bovary, entre outras; poderíamos até pensar que, na verdade, são essas narrativas que remetem à nossa grande história no mundo.

Não há narrativa de sucesso que seja sobre um animal, um pássaro ou um leão (Rei Leão se encaixa na narrativa que fala da condição humana tão profundamente quanto outras). O Homem aprecia narrativas que seja sobre ele próprio.

É possível que a explicação da busca do cidadão comum às narrativas, seja ou não como uma forma de escapismo, possua um quê antropológico. Afinal, boas histórias contêm valores morais, falam de um povo, de uma época, comentam sobre nós mesmos. Um papagaio cantará um poema articulando sons humanos, mas ninguém além de nós mesmos decodificará aquele som como um poema. Toda a Arte é feita do e sobre o Homem.

Não existe quem desgoste que comente-se ou fale-se sobre ele próprio. Nós gostamos de falar sobre nós mesmos para outrem, e as narrativas são outros — autores, artistas, escritores, etc — falando sobre nós. A Narrativa é uma exaltação egoísta e humanista do Homem para o Homem, como um tributo. Talvez por isso a ficção, a melhor ferramenta para falar sobre nós, esteja prevalecendo em todas as esferas do entretenimento, e mais e mais as pessoas passam o tempo produzindo e absorvendo histórias.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 06/07/2015, em Problematizando o Trivial e marcado como , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

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