Relação autor, personagem, leitor.

 Relação autor, personagem, leitor


Em geral, quando pensamos em boas histórias imaginamos narrativas que nos trazem grande reação emocional, que, em outras palavras, se chama catarse. E toda história que existe — por pior que seja — tem intenção de causar catarse no leitor/espectador. É assim que os autores pensam quando criam suas narrativas: visam a maior catarse que o leitor/espectador poderá ter no final da narrativa, obtendo êxito se este de fato reagir emocionalmente. N’A Poética, Aristóteles expôs os principais elementos que fazem de uma tragédia uma boa tragédia, isto é, aquela que indubitvalmente gerará uma catarse no espectador — viu o que funcionava nas melhores tragédias e por que funcionavam, listando e explicando-as nesse livro. Outro narratólogo, mais moderno, também fez isso e até hoje no cinema muitos roteiristas seguem a fórmula que Christopher Vogler montou n’A Jornada do Escritor baseado nos seus estudos d’O Herói de Mil Faces de Joseph Campbell.

Aqui vou expôr algumas observações minhas sobre a relação que se dá entre autor-personagem-leitor tanto em livros e quadrinhos (será o foco principal) e como essa relação pode influenciar mais, ou menos, dependendo dos casos, a relação que o leitor faz com a história e o risco de ter uma maior catarse. Antes, devo dizer que se trata de um texto muito mais útil para contadores de histórias (meu caso) do que leitores somente, mas você também pode vir comigo problematizar essa banalidade e talvez descobrir o porquê das coisas serem como são.


No Texto

Ao lermos um texto narrativo, um livro, basicamente estamos passando os olhos nas palavras e interpretando seus significados. Estamos ciente que elas contam uma história. Mas existe alguém, dentro desse texto, que nos apresenta a história por meio dessas palavras. Esse alguém é o narrador. Ainda assim, ali dentro, além do narrador, existem outros elementos como as personagens, citações de outrem e em alguns casos até imagens ilustrativas. Quando acontece desse texto mudar de elemento, como quando uma personagem inicia a fala ou o narrador volta a narrar, ele nos indica essa mudança seja por “–” (travessão) ou no caso das citações, as próprias aspas (“”). E embora o narrador conte-nos a histórias e fale-nos das personagens (estas podendo falar de si próprias quando são permitidas pelo “–” a se apresentarem no texto), como a leitura de texto exige que o leitor tome uma postura mais ativa do que em outros meios, é natural (embora numa esfera inconsciente) ele raciocinar que todos aqueles pensamentos e falas se tratam de ideias e concepções de um ser humano – o próprio autor comunicando sua filosofia e seus ideais por meio das personagens, usando o narrador como um canal. Há até quem possa pensar que o narrador e o autor são uma coisa só, mas essa é uma consideração que não vem ao caso agora.

Em alguns textos não será o narrador em terceira pessoa quem narrará a história, mas as próprias personagens em primeira pessoa, contando sua história ou a história de uma terceira. De uma forma ou de outra, é complicado tirar da consciência que aquelas palavras se tratam das palavras do autor, por mais que ele emule o estilo e a persona do narrador-personagem. O que se dá, afinal, é uma espécie de conversa entre o narrador (autor) e o leitor, em que aquele apresenta a este um episódio da vida de uma ou mais terceiras pessoas. O que remeteria às próprias conversas casuais em que alguém está comentando com outro sobre uma pessoa que não se encontra presente no momento do diálogo. Particularmente eu gosto de dizer que isso é “fofoca”, e é exatamente esta palavra que costumo usar para a narração do narrador. Não é uma simples conversa, é uma fofoca, em que a terceira pessoa em questão são as personagens.

A Nogueira

Uma nogueira que ficava à beira de uma estrada na qual os passantes jogavam pedras, gemendo dizia a si mesma: ‘Como sou infeliz, eu que todo ano atraio para mim mesma insultos e dores’.         — Esopo

(Note nesta fábula como o narrador de 3º pessoa nos comunica do que acontece à nogueira e permite que ela apresente o que dizia. A relação se dá, em primeira mão, antes com o narrador, depois a personagem)

Portanto, dependendo do estilo do narrador e a maneira como ele julga essas terceiras pessoas (as personagens), o leitor corre mais riscos de simpatizar com a opinião do narrador sobre elas ou, pode até antipatizar, discordando de seus julgamentos e suas ideias. Percebam que o papel do leitor no texto é muito mais ativo, visto que é uma conversação como estamos tendo agora (já que eu me comunico a você por um texto) e a única relação que o leitor tem com as personagens se dá pelo narrador.

Tudo bem: é certo que uma hora ou outra as personagens falarão por si mesmas. Porém, independente de ser um narrador em terceira ou em primeira pessoa (a própria personagem), a terceira pessoa de que se fala apenas se mostra no texto quando é permitida pelo narrador, indicado pelo “–” (travessão). A relação ocorre muito mais entre o narrador e o leitor, ou em outras palavras: autor e leitor; chamo isso de uma relação autor-leitor. Nesse caso, o leitor simpatiza muito mais com as ideias do autor do que empatiza com as ideias da personagem.

Nos Quadrinhos

No quadrinho o processo de leitura é muito parecido com o do texto, porque afinal, ambos dependem do ato de “ler”. Entretanto, aqui o leitor já não tem uma participação tão ativa quanto no texto, isto é, ele não precisa de fazer esforços mentais como antes. Não quer dizer que não existe uma conversação entre o leitor e algo no quadrinho. Antes, precisamos saber com quem o leitor mais conversa dentro do quadrinho. Para tanto, peguemos alguns elementos do texto narrativo e transportemos para os quadrinhos.

Se, no texto, nós temos a figura do narrador relatando a história das personagens e as próprias, tudo canalizado por palavras, no quadrinho nós também temos a figura do narrador (embora, na narrativa do quadrinho, quase invisível), as personagens e, como acréscimo, o balão e o texto. Pois bem, ao que parece quem executa o papel de narrador, aqui no quadrinho, são os quadros – são eles quem apresentam o que acontece. Os quadros são como recortes de pinturas impressionistas, mostram a ação das personagens em movimento, retratando o seu desenrolar. Porém, isso não é o suficiente para definir os quadros como os narradores da mídia dos quadrinhos. Vejam bem: eles apenas apresentam a história, não a contam unicamente. O narrador do texto apresenta (descreve) e conta (narra) o que está havendo; e, quando permite, apresenta as personagens em si.

Não podemos esquecer que, nos quadrinhos, também há o elemento textual, o diálogo das personagens, pensamentos e, enfim, a mensagem que o autor passava no texto por meio das personagens, agora também nos quadrinhos, canalizada pelos balões – que podemos considerar como o travessão da mídia. Ou seja, é imprescindível saber que na mídia quadrinística, há dois meios narrativos: a imagem (quadro) e o texto (personagem) – reforçando o pensamento: o quadro apresenta a personagem, que só pode mandar mensagens por meio dela; e esta depende do quadro para existir e passar a mensagem. Finalmente, um aspecto complementa o outro.

Donald

Vejam como quem transmite as ideias é o próprio personagem. Agora, imaginem como as falas poderiam ser transportadas para um texto narrativo e de vez ser a personagem falando com um “–“, o próprio narrador narraria e descreveria o que acontece.

Ainda resta a pergunta: quem está contando a história de quem no quadrinho? A primeira vista podemos pensar que é o quadro quem conta a história das personagens e de tudo que aparece naquilo que ele apresenta (a imagem), mas será mesmo?

Nem todo quadrinho utiliza a quadrinização na qual conhecemos, naquela sequência quadro por quadro e etc, etc. Alguns, para exemplificar, não separam os quadros por margens ou calhas, e outros até fazem da própria página (inteira) um grande quadro, como se estivéssemos vendo uma pintura página por página. Sem falar dos quadrinhos experimentais e metaficcionais em que todo esse tipo de padrão é burlado e, às vezes, as personagens desobedecem essas leis narrativas – prestem atenção: as personagens desobedecem as leis narrativas. Em se tratando de narrativas, não é qualquer elemento que consegue burlar tais leis. No texto, geralmente isso fica evidente com a figura do narrador, seja ele um personagem (primeira pessoa) ou uma entidade (terceira pessoa). Isso implica que esses elementos possuem certa capacidade narrativa de tomarem o poder e fazerem o que quiser com ela. Se no texto o narrador pode optar por mentir ou omitir informações, no quadrinho a personagem pode optar por fazer o que quiser com o quadro e pela página. Esse é o ponto central dos quadrinhos: as imagens, os desenhos, as próprias personagens.

Os desenhos que compõem um quadro representam a personagem, dependendo do seu símbolo (significante). Enquanto que no texto sabemos que falamos da personagem Donald quando usamos a significante, isto é, a palavra que remete à figura da personagem, “Donald”, da mesma forma o quadrinho usa um significante, ou seja, um signo com uma determinada forma para indicar que aquela composição de traços e cores representa a figura da personagem “Donald”. Notem bem: no texto, a palavra que caracteriza o símbolo da personagem é o seu nome; no quadrinho, o desenho que caracteriza o símbolo da personagem é a imagem (traços e cores distintas em harmonia) na sua forma estereotipada, ou seja, toda a vez que a personagem aparecer na narrativa será representada por uma imagem própria que não sofre mudanças, sempre sendo a mesma para os leitores a identificarem.

A Galinha Sábia

Percebam como o narrador complementa o que a imagem por si só não conta, formando um todo de texto+imagem.

Diferente do texto, em que é o narrador quem conversa conosco, nos quadrinhos a personagem está muito mais próxima até pela questão de que agora há uma forma para ela (sua imagem/símbolo), e não são apenas palavras diferentes umas das outras. São traços delineados diferentemente, diversas cores que se juntam e se combinam representando a personalidade única daquela personagem. Enquanto no texto apenas a ordem das letras mudava de quem se falava, nos quadrinhos sabemos, com certeza, de quem se fala, por haver mais subjetivismo por parte da personagem.

A relação narrativa do quadro com a imagem ainda é muito sutil, mas acho que podemos concordar que quem conduz a narrativa (para onde ela vai) é a própria personagem, como se ela estivesse nos revelando sua história, e não outrem. Sobretudo, quando tentamos pensar na figura do autor dentro da narrativa, não conseguimos achá-lo logo de primeira como no texto. Se antes ele contava junto com o narrador num âmbito inconsciente, aqui ele é quase invisível, só podendo arriscar a dar as caras nas ideologias transmitidas pelas personagens. Por isso que nos quadrinhos a comunicação se dá antes com a imagem (os personagens) e depois com o texto (supostamente o falar do autor). Se trata de uma relação personagem-leitor.


Então, afinal, o que tudo isso tem a ver com a questão da catarse? Do ponto de vista de um contador de história (na qual eu me posiciono), o autor na maioria das vezes estará mais preocupado na relação que os leitores têm com seus personagens do que com ele próprio, visto que são as emoções dos personagens que se transportarão para os leitores. Nesse caso, é lógico que contar uma história pela mídia dos quadrinhos é melhor do que pela literatura, não? Em parte, sim. Por outro lado, existem histórias que só podem realizar coisas se forem contadas pela palavra. Uma alcança resultados que a outra não pode, por isso existe “mérito artístico” ou “exclusividade da mídia”, que na maioria das vezes é quando o artista leva as possibilidades narrativas daquele formato artístico em questão às últimas consequências, perdendo o impacto narrativo se a mesma história for adaptada para outra mídia.

No fim das contas só o leitor pode dizer o que é melhor para ele mesmo. Creio eu que nesse julgamento entrará em jogo o que ele espera da história e o que essa realmente tem a oferecê-lo. Se for o que ele esperava, ótimo, senão, provavelmente não era a mídia certa.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 25/07/2015, em Problematizando o Trivial e marcado como , , , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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