Memória Anacrônica

memoria

Agora, é noite. Talvez de madrugada, não sei, não estou vendo o relógio do computador. Lembro-me da época em que conversei com Raphael no twitter e ele me convidou para escrever no site, falando que teria uma nova abordagem sobre os tópicos e que eu poderia fazer alguma diferença lá — na verdade, esse papo de lembrar as coisas põe em dúvida se foi isso mesmo ou eu que me voluntariei, não faço a mínima ideia. Mas então, aceitei o convite. Já escrevia no meu site pessoal, um “portfolio” para mostrar alguns contos e outros textos avulsos. Negligenciei a escrita por algum tempo. Não tinha um assunto estabelecido, um tema próprio do qual as pessoas lessem e pensassem “É aquele cara que tá escrevendo”. O que escrevia no meu site, quando não era ficção, era só porcaria: pseudofilosofias, reflexões ingênuas do dia a dia, achismos literários, autocríticas amadoras, e alguns tipos, para não falar todo pois não escrevi todo, de textos que se pensa ser normal de um jovem que se diz escritor mas não tem é nada publicado.

Uma semana mais tarde — foi uma? — conversamos no skype. Li escritores americanos falando sobre o profissionalismo do ofício e isso me afetou profundamente. Na conversa deixei claro, “É agora”. Minto, não foi exatamente isso, mas assim se resumiu. A parte irônica foi na escolha do título da coluna. Uma colega que também escrevia já tinha seu “Canto Literário”, e meu repertório de palavras relacionadas à literatura se esgotou. Estava naquele momento eufórico em que mando meus amigos para a casa do diabo e fica por isso mesmo, a sinceridade chiando que nem uma panela de pressão. Com uma pitada de falta de medo de ser julgado, sentenciei:

— Acho que um bom nome (caso venha a ser mesmo uma coluna) seria “Problematizando o Trivial”; porque, acho que minha proposta principal será fazer o leitor lançar um olhar diferente para as coisas do cotidiano que ele está acostumado a ignorar; tentarei expor algumas observações minhas que acho interessante, para ver se incute uma ideia nas pessoas e, por fim, façam elas olharem o mesmo objeto mas com olhos diferentes, percebendo e considerando mil e outras coisas.

Logo comecei minha empreitada no site, dizendo a mim mesmo e para Raphael que escreveria semanalmente, na segunda semana que seria quinzenalmente, e agora só Deus sabe lá em que periodicidade será. A princípio pensei que a falta de ideias seria o mau, mas destas tenho um monte. As pesquisas é que são um problema. Surge uns tópicos que qualquer um julgaria interessantes, mas quem é que tem bagagem para discorrer sobre? A última postagem que fiz pesquisei e li assuntos e textos que não costumo ler; deu trabalho, demorou não sei quantos dias por causas dos rascunhos que redigia, deletava e rerredigia. O texto me matava a cada tentativa, literalmente, escrevia no papel, no computador, tudo para ver se em algum lugar dava certo. Pelo menos no fim posso dizer que o texto me obrigou a aprender coisas que não sabia, e aprender nunca é um mal, não é?

Com tanto projeto que eu tenho na semana, contos em outro site, cursos da vida, trabalho — que ainda não tenho, mas quanto tiver… —, conto mensal, leituras diárias e semanais, leituras de pesquisa, e o Mangatom propriamente, é natural ser impossível manter o ritmo para textos daquele naipe. E quer saber por que aceitei o convite, ou me voluntariei (nesse ponto já não importa mais a verdade)? Escrever. Nada mais nem menos que melhorar a escrita, minha prosa, facilitar a manifestação da voz. E para isso só a prática, seja diária ou semanal. Toda data, mas a mesma data, que nem a Páscoa, mesmo se não ficar bom, entregar um texto.

— Não deixa eu ficar mais de três semanas sem escrever não, nem duas. Fica me perturbando aqui pra escrever, qualquer coisa, só não me deixa sem escrever. — implorei a Raphael.

Agora, escrevendo esta crônica, me pego num compromisso com o leitor. Crônica não é comigo não; crônica é pra quem vive, e a vida que tenho é só a que me contam. Então me resta mentir, se Deus quiser, toda semana.

Pra mim isso é fácil, visto que minha memória falha mesmo, vivo mentindo sobre o passado.

O mau é mentir sobre o futuro.

Anúncios

Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 22/08/2015, em Crônica, Uncategorized e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: