Deus, revoluções, Napoleão, 1808, física quântica, viagem no tempo, dinheiro, e-reader, texto e você

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Há uma semana que lia 1808 do Laurentino Gomes, livro que narra com detalhes técnicos e históricos a vinda da família real portuguesa ao Brasil, e me peguei pensando, ou melhor, devaneando, sobre as peripécias do universo e ignomínias da viagem no tempo. Não tenho ideia de como fui parar de Napoleão para reflexões sobre ser um deus por meio da viagem no tempo.

Já li vários livros de ficção e, recentemente, tratei de me aventurar com livros de não-ficção também. De repente noto que pareço gostar mais destes do que daqueles. Às vezes me questiono, por que ler ficção, se não nos diz nada sobre o mundo concreto e a diversão que esperamos é totalmente incerta? Talvez se esse 1808 fosse uma ficção, não incitaria o mesmo devaneio que tive onze horas da noite num desses dias aí da semana passada. Todos na casa dormindo e eu na sala, sob a escuridão, com a luz do e-reader fuzilando meu rosto. Tinha que ver: falava sozinho, argumentando e contra-argumentando meus próprios argumentos como se fosse dois em um. De que modo uma única pessoa como Napoleão foi importantíssima para a história ocidental? O homem por si só é um grande evento histórico! Como se não bastasse, ele foi fruto (ou, pelo menos, os atos dele e as suas consequências) da Revolução Francesa. Esta que, por sua vez, é o fato histórico que mais marcou o mundo, dividiu a história da humanidade em duas eras. Até o início do século XVII só existia uma maneira de governar um povo. Com essa revolução, surgiu outra forma de governar e organizar a sociedade, literalmente do nada. E não para por aí: esses eventos influenciaram filósofos e pensadores que deram nascimento a conceitos como capitalismo, socialismo, direita e esquerda. Ideias originadas a cerca de dois ou três séculos atrás e que até hoje sofremos seus impactos.

A revolução francesa e a industrial são duas e talvez as únicas dignas de serem categorizadas como revoluções. Do jeito que o mundo corre hoje, para não dizer anda, é evidente que haverá outras. Seja no campo da robótica, ou da realidade virtual, serão eventos que marcarão o mundo, mudarão a sociedade e, como ocorreu com as ideias da revolução francesa, darão nascimento a novos conceitos e termos filosóficos para a nova abordagem que essa nova era exigirá de si mesma.

Mas e se Napoleão nunca existisse? Ou se a família portuguesa fosse subjugada pelo exército francês e jamais viesse para o Brasil; se a revolução industrial nunca ocorresse, ou se existisse mas num tempo bem mais distante, seja para o passado ou para o futuro. Ou pior ainda, se a Revolução Francesa fosse um evento ficcional? O mundo seria outro. Tenho medo só de pensar naquele que, por exemplo, viajasse no tempo. Se for possível andar pelo tempo para lá e pra cá, sobretudo para trás, quais mudanças imutáveis seriam cruciais para a história que conhecemos? O nascimento de Napoleão? A vida de Robespierre? Talvez um amigo que o conhecesse? A árvore que deu o fruto que caiu na cabeça de Newton? Parando pra pensar, não são os grandes eventos que são cruciais. Por exemplo, na física quântica (isto é, a física que trata do microcosmo enquanto a moderna, newtoniana, trata do macrocosmo), pode-se dizer que o segredo de como o universo funciona, sua estranheza e complexidade, está na composição do átomo, aquelas coisas que terminam em “ôns”, tão pequenos e insignificantes que por um bom tempo desprezamos a sua existência.

Imagine que esse viajante do tempo, só para testar ou experimentar a sua influência na história acreditando que as mudanças ocorrem sob condições, fizesse alguma travessura na vida de um cidadão anônimo, removendo ou acrescentando um detalhe desprezível na vida deste. Depois ele volta para o tempo presente, confiante de que nada mudou pois o cidadão não era uma figura importante. Entretanto, esse mínimo detalhe mudado, apesar de ser pequeno e desprezado por você, talvez não seja o mesmo para a engenharia cósmica do universo. Pois então, esse desajuste foi vital para aquele dia do cidadão e muda sua vida drasticamente. Numa reação em cadeia ele influencia a vida de outrem que por sua vez influenciam a vida de outros, mesmo que dure meses ou mais para, por fim, chegar nalguma figura importante que tem na mão uma nação inteira. E aí, salve-se quem puder.

Um filme de ficção científica que aborda a viagem no tempo neste sentido escatológico, voltando-se para a importância das coisas que consideramos mais banais, não existe. O mais realista que conheço, Primer, não tem essa visão por se tratar de uma volta ao passado em intervalo de horas — mas que não deixa de nos mostrar os perigos e as consequências desse pequeno intervalo para o tempo.

Acho que se um dia viajarmos no tempo, será um criminoso aquele que viajar. Um crime tanto para a sociedade quanto para o universo, porque as leis deste não permitem, afinal, é uma violação em todas as esferas científicas da natureza. Seria como brincar de Deus. E isso me faz pensar se não existe mesmo um arquiteto que cunhou toda a complexidade deste universo em que vivemos, pois tudo é assustadoramente lógico, misteriosamente conectado e absurdos como voltar no tempo é uma das poucas coisas que todos consideram como definitivamente improvável e impossível.

Por um lado é muito bonito pensar que o copo d’água que deixei de beber mais cedo terá uma influência importante, mesmo que mínima, no resto do meu dia ou futuramente. Lembra poesia. Mas cavando fundo no pensamento, é medonho: estamos a mercê de coisas que não conseguimos controlar.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 05/09/2015, em Crônica e marcado como , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. Larika dos Mulekes

    Gostei, seu texto faz o meu tipo.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Tem uma série canadense ou que se passa no Canadá, Continuum veja uns capítulos talvez te interesses por ela. Até a segunda temporada eu gostei, o final da terceira foi-me interessante.

    Talvez você goste de como eles tratam o tema: Viagem no Tempo, mudanças, o que provoca, que futuros existem se alguém mudar algo no passado… por ai.

    Quanto a sua observação sobre a importância de Napoleão, é intrigante como parece que certos homens, mulheres, eventos, coisas, estão ali por que deveriam estar ali.

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    • Continuum — vou pôr na lista.

      Sobre o Napoleão, é sublime pensar que ele não foi um homem como Newton, Galilei, Platão, Jesus ou qualquer outra figura que contribuiu para a sociedade nalgum campo em específico. Acho que não há como defini-lo. Não foi só um gênio militar, tinha uma ambição centenas de milhares de vezes inversa ao seu tamanho, o que era irônico, e uma força de vontade evidente no que os colegas escreveram que ele dizia. Tenho por mim que ele foi o mais Homem de todo homem que já pisou na Terra, não limitando-o à sua condição como macho, me referindo no sentido de que se existiu algum Ubermensch, foi Napoleão.

      Nas palavras de um inimigo dele, “O mais poderoso sopro de vida humana que já tinha passado pela face da Terra”.

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    • Engraçado mencionar isso, eu comecei a ver Continuum semana passada. Não me interessou os 2 primeiros epis, mas darei uma chance pelo teu comentário.

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  1. Pingback: Crônicas crônicas | Letras Rabiscadas

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