Diagnóstico

diagnostico

Por que eu, que escrevo há um tempo considerável, sinto esta ansiedade ao me pôr diante de uma tela em branco; este medo de “dar ruim”, esta insegurança — até mesmo infantil —, de que as pessoas vão me “descobrir” e saberão quem eu sou realmente? Tenho vergonha de me expôr, isso é nítido para quem me conhece e convive comigo. Porém, vivo me revelando pela escrita, a maior ferramenta de dar a alma a tapa. Não sei por que continuo.

Por exemplo, agora mesmo fui telefonar para o curso a fim de perguntar se tinha o livro que queria e, se não tinha, se poderiam guardar para mim. Nem cheguei perto do telefone e freei o movimento e pensamento num dilema comportamental do tipo, “Que que eu vou falar? Pergunto se eles têm o livro? Mas eles já devem ter, e seria insensato perguntar isso. Seria melhor perguntar logo se eles podem encomendar para mim? Espera aí, o certo seria encomendar ou guardar? Eu quero que eles guardem pra mim para quando eu chegar lá é só comprar e pegar. O que é encomendar? Porra, será que estou falando as coisas certas? Pedir pra guardar ou encomendar? E se não tiver? Peço pra encomendar para mim? Não seria muito arrogante e egoísta…”

A mulher atendeu. Era uma tal de Fernanda. Experiente e direta ao ponto, talvez fruto de várias falhas e repetidas práticas falando pelo telefone. Falou de maneira que até me intimidou; quase gaguejo. Se gaguejei mesmo nem percebi, só senti que fui falando coisa sem coisa, que noutra ora era com coisa, e, quando pensei sobre isso, mais dei a impressão de um destrambelhado do que conseguir o que queria, que era saber se tinha ou não tinha o livro.

Não tinha, nem consegui pedir para se chegasse um dia desses que fosse guardado para a minha pessoa. Só pude terminar, indagando:

— Tem previsão para quando vai chegar?

Fernanda respondeu laconicamente:

— Não, não temos não, senhor.
— Tá legal. ‘Brigado.
— Nada…

Esse “Nada…” é que me fere. Como assim “Nada…”?! Pelo contrário, minha filha, é tudo!

Está evidente que ela notou o meu desespero e nervosismo, a falta de preparo social para esses tipos de situações. Aposto que enquanto escrevo isto ela deve estar escarnecendo mentalmente sobre o tipo de distorcidos sociais, autistas ou pessoas estranhas a quem a instituição dá aula. Eu sou uma dessas pessoas! Mas ela não me conhece, não viu meu rosto… Também não sei quem ela é.

Agora a vergonha toma conta de todas as minhas ações! A mente luta e reluta, me dizendo que é assim mesmo, natural, todos passam, vai passar. Mas essa exposição da minha inaptidão para conversas sociais de âmbito casual afeta drasticamente a maneira como encaro os meus textos.

Preciso, no entanto, resolver logo o que será da reescrita de um dos contos que terminei, antes que chegue à noite e junto com ela pessoas da casa, e já não possa mais dar uma de maluco perturbando os vizinhos lendo em voz alta os meus pensamentos que se transformaram numa história.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 12/09/2015, em Crônica e marcado como , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. A escrita vem da pratica, coloque tudo no papel sem preocupar-se com erros ou imperfeiçoes não precisa publicar se preferir, mas tire todas as angustias para o papel, e na vida real as pessoas, é tudo improviso mesmo deixa acontecer nada esta programado, comece com um sorriso e deixa o resto fluir! Abraços e belo diagnostico o seu, muito sincero.

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  1. Pingback: Crônicas crônicas | Letras Rabiscadas

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