Vilã da história ou o que embeleza a vida?

vilã

Lá no final do século XVIII, Luís XVI, último rei do último reinado da França, também conhecido como “Capeto” pelos opositores, foi guilhotinado pelos furiosos revolucionários republicanos.

Antes de descer até a morte derradeira, ele e a família — a esposa Maria Antonieta, a irmã Elizabeth, a filha Maria Teresa e o filho Luís Carlos — foram encarcerados num templo que uma vez pertenceu aos templários. Logo que Luís XVI foi chamado à guilhotina, em meio a toda a turbulência que ocorria do lado de fora, a mãe de Luís Carlos, a rainha, disse ao seu filho: — Seu pai morreu. Agora você é Luís XVII da França.

Sucedeu-se que Luís XVII, Luís Carlos, ou como era conhecido entre os carcerários, “Filho do Capeto”, passou por coisas que nenhuma criança deve passar. Alguns dizem que naquele templo ele foi trocado por outra criança e conseguiu fugir; outros, que ele morreu no templo, pois nunca fora trocado. Porém, jamais encontraram o caixão do delfim desaparecido, e os únicos ossos enterrados perto da igreja do templo, que por muito tempo pensou-se serem os de Luís XVII, foram decretados pelo teste de DNA como de outra criança. Até hoje não se sabe se ele morreu no templo, se fugiu e morreu, ou se fugiu e viveu noutro lugar. Particularmente, acredito que o delfim teve um triste fim e morreu no templo mesmo. Como? Não sei, mas, fugindo ou não, ele morreu.

O intrigante dessa história, que não é uma história qualquer e sim um mistério, é que ela não termina na morte do protagonista. Ela perdura até hoje.

Cientistas tentam descobrir com a ajuda dos testes de DNA se algum das centenas de falsos delfins que surgiram clamando serem o verdadeiro foi mesmo injustiçado na época ou se mereceram a rejeição que obtiveram. O mais famoso deles foi um tal de Naundorff, que por muito tempo persistiu a ser o herdeiro do trono da França, numa época em que a monarquia se extinguira. A tecnologia desmascarou os seus perjúrios. Também houve um médico chamado Pelletan que, quando fazia a autópsia no corpo do Menino do Templo (vamos chamar assim), pegou e escondeu o coração do cadáver no seu bolso, e por anos deixou-o guardado dentro de uma caixa de cristal com álcool. Mas você sabe como é a vida, sabe ainda menos como era naquele tempo: a caixa viajou para lá e pra cá, colocada próxima de outras caixas, quebrara, o coração levado para outras caixas… Enfim, tornou-se uma desordem!

A certeza de que as pessoas têm hoje em dia é que o coração apresentado aos cientistas não é o do delfim desaparecido. Furtaram o coração? Pelletan foi um farsante que apenas almejava o dinheiro régio? Erraram na troca de coração de caixa e na caixa de coração? O cadáver autopsiado e, por sua vez, a criança de que Pelletan escondeu o coração, o Menino do Templo, não era o delfim — os cientistas descobriram isso no final do séc. XX, confirmando a teoria de que o príncipe foi trocado no templo. Para muita gente e até para a linhagem real de Maria Teresa — a única sobrevivente daquele terror de revolução — não importa se o coração é de um menino anônimo — o coração trata-se de um símbolo, um símbolo de que Luís Carlos existiu e se tornou imortal graças a esse mistério.

Outro mistério não tão intrigante porém mais fascinante é o de Kaspar Hauser. Um menino avulso chega em Nuremberga (cidade alemã) com roupas estranhas, não fala direito e se comporta retardadamente. Conforme recebia educações formais, se demonstrou um futuro prodígio. Porém, não viveu tanto.

Ninguém sabia de onde ele veio, quem era sua família, para onde ia, mas, perceberam que tinha gente querendo matá-lo. Acharam que fosse o filho perdido de um duque devido a uma história que rondava na época acerca de filhos de um tal nobre serem mortos e enviados à masmorras; esse tipo de coisa que você só vê em filmes. Kaspar Hauser morreu próximo ao memorial de um poeta chamado Uz. Alguns acreditam que ele foi um impostor e tentou se suicidar a fim de despertar a afeição dos circundantes. Entretanto, os médicos modernos alegam que a ferida no peito era grave demais para uma tentativa falhada de suicídio. Alguém queria matá-lo e conseguiu. Por quê? Ninguém sabe, e não importa, nem para eles, nem para as pessoas envolvidas e nem para nós.

Luís XVII da França e Kaspar Hauser foram ninguéns que mal viveram para ter grandes feitos e mesmo assim se imortalizaram na história. Tornaram-se símbolos, enigmas nacionais: um de um exemplo dum rei que injustamente jamais pôde reinar e o outro de uma figura a lá Cristo, devido às suas purezas incorruptas pela sociedade na época em que chegou em Nuremberga.

Cada um desses mistérios caberia facilmente num romance policial ou num filme de detetive. Eles mostram que diferente da ficção, a realidade se desdobra de uma maneira muito mais complexa e intrigante. Porém, a ironia desses mistérios históricos é justamente a fascinação que as pessoas têm por eles: todo mundo sabe da verdade mas a rejeita. Delfim teve um fim tristíssimo; Kaspar era só um menino desprovido de bons ensinamentos. E mesmo sabendo dessas coisas, o ser humano sempre escolhe a versão que mais fascina.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 26/09/2015, em On the Screen e marcado como , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

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