Resenha + On the Screen? Confira Old Boy, o mangá e o filme.

oldboy

Digamos que um dia você acorde em um ambiente desconhecido. Um local fechado, sem janelas, cuja única saída é uma porta revestida de metal. Você observa um corredor através de uma portinhola de comida, pede ajuda, se movimenta desesperado, até se dar por vencido.

“O que aconteceu no bar? Será que fui preso?” E então se deita, se acomoda a aquele ambiente, e o tempo passa. Um ano, três anos, cinco anos, dez anos. Após incontáveis horas de treino, dezenas de noticiários assistidos e um gosto de comida chinesa impregnando o céu da boca resolvem te liberar.

Tóquio mudou, evoluiu, se repaginou. Mas isso não importa. Em um rompante estrondoso milhares de perguntas vem à tona. “Quem me trancafiou?” “O que fiz?” “Qual o motivo?” “O que aconteceu com minha namorada, amigos e família?” Imagine o terror que seria passar por tudo isso. Ainda assim Shinishi Gatou se mostrou incrivelmente são é calmo.

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Esse era o momento que ele esperou por dez anos, a hora de realizar sua vingança contra o ser que destruiu sua vida sem um motivo aparente. Nisso se inicia um perigoso jogo cujo único final possível envolve a morte de um dos participantes.

O interessante do mangá, ao menos ao meu ver, é como tudo isso é mostrado de maneira razoável. Digo, Garon Tsuchimya propõe uma história ambientada nos tempos modernos e é exatamente isso que ele entrega. Não espere feitos impossíveis, deus ex machina ou cenas com martelo.

E é isso, não tem muito mais o que falar. Existe um romance bem vago, poucos personagens são introduzidos, maioria serve apenas como uma extensão da personalidade de Garo ou do vilão. Diria que o único destaque cai sobe Yoyoi Kasuma, uma misteriosa escritora que entra como principal no que gosto de chamar de segundo arco.

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Fica até difícil imaginar como algo tão simples gera oito volumes. Existe um único ponto central, previsível. E mesmo que não fosse o autor entrega muito rápido. Essa é uma estória sobre como chegaram nesse desfecho. E um conto de jornada, digamos, e acabou nisso. Se o mistério te fisgou, ou se é teimoso, fique à vontade e leia. Caso contrário, sinto dizer isso, mas não está perdendo muito.

Logico, digo isso assumindo que não e um fã do clássico filme coreano de 2003. Se este for o caso a obra ainda serve como uma curiosidade. Afinal, quais as diferenças entre o original é a adaptação? Eu por vez, como todo fã de quadrinhos, me proponho cegamente a afirmar “O mangá é sempre melhor.” Estou errado.

O filme começa distorcendo o personagem, o colocando como um bobo da corte. Não existe mais Gatou, agora e Oh Dae-sun. Esqueçam o cara de cabelo certinho e pose firme, pois meus amigos, Choi Min-sik nos entrega o Coringa. A própria essência da loucura.

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Vemos ele bêbado, indignado de maneira pastelão, desconfiamos da qualidade da película e do nada nosso amigo macaco cai na arapuca. Acorda na famosa sala, no entre andares já mencionado. Agora mais luxuosa, realmente simulando o que seria um local de fuga para políticos e mafiosos, fato mencionado apenas no HQ.

E é nisso que o filme se supera, mostrando o meramente mencionado. Até então não tínhamos uma visão do personagem no passado, tão bem apresentada em flashbacks e na palhaçada do início. Um delinquente, um assalariado que passou da conta numa noite de sábado. Temos algo para comparar com o agora, e isso faz a diferença. Um parâmetro para as mudanças causadas pelo confinamento.

No quadrinho so enxergamos a determinação. Fica aquela visão de que o sujeito sempre foi daquela forma, sempre teve a mesma postura, os mesmos pensamentos. Para o leitor ele não passa de um hospede que fechou a conta da estadia. Estive ali, agora estou aqui.

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Já no filme, o sujeito banhado em lagrimas, e provavelmente urina, se cala também. Até treina e aprende usando a TV, sua nova amiga, companheira, amante. Vem a loucura e a passagem de tempo mais fantástica que já presenciei. Um quadro forma sua imagem, uma agulha marca a passagem de tempo, um plano caracteriza sua determinação e a mente, bem, prega peças.

Isso foi o que mais senti falta no original. Ele é moderno, atemporal, não tem bugigangas datadas. Seu confronto e muito certinho, muito intelectual, pé no chão. E isso contraria todo o resto, pois apesar de condizer com a era não é crível justamente pelo que ele passou. Uma pessoa normal ficaria insana, assim como Dae-sun.

Agora não pense que estou colocando Old Boy, o filme, num pedestal. Lembra que mencionei que não existia motivo para 8 volumes? Que ficou longo? Então, aqui nada justifica a correria. Não sabemos o porquê os personagens foram comer bolinhos, ou olhar velhos álbuns escolares, algo tão bem explicado no quadrinho e que demoraria nem 5 minutos de rolo.

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Ficou longo? Corte um pouco da ação ou talvez da caminhada até a cena do espelho. Todos vangloriam a parte do corredor, o “martelo assassino” que mal acerta alguém e mostra a realidade de que Shadow Boxing não te transforma no Robocop. Eu poderia citar boxeadores, mas sejamos francos, quantos derrotariam 20 homens num espaço confinado? Zero.

“Porra, seu FDP. Isso é um marco do cinema, para de cagar pela boca!” diz aquele que leu meu texto sem tentar raciocinar por um mísero segundo. Acho excelente a direção de Park Chan-wook, poucos teriam a coragem, e habilidade, de filmar uma cena sem cortes. O parágrafo anterior foi um elogio. Apenas reafirmo que poderia ser investido mais no enredo, retirando um minuto ou dois de outra parte. Fica feio ver os atores aparecendo num prédio, como o do final, por apenas ser um lugar alto.

E meu deus, que final foi aquele? Não vou reclamar da falta de exploração no romance, no sumiço da escritora, o tratamento com o amigo ou o espião que transformaram num lutador mudo. Não daria tempo para inserir tudo. Se o original era um conto de jornada esse é de conclusão. Não é algo realista, mas sim o que a obra merecia. A mudança do motivo, e diferença na vingança, fazem toda a diferença.

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É nos entregue numa bandeja de ouro algo cru, perturbador, que nos ofende sem ao menos ser grotesco, pelo menos no visual. São valores deturpados e atos de insanidade que chegam a dar pena, mas não aquela em que você leva um estranho para almoçar, e sim a que te incomoda a ponto de desviar o caminho. Isso é genial.

Então, no fim, temos um filme cujo o miolo, parte que se destaca no mangá, acaba sendo o ponto fraco. Diria que uma obra complementa a outra e, ao mesmo tempo, não recomendaria nenhuma. Beira ao mediano. São trabalhos incompletos, ao meu ver, que poderiam ter ido muito mais a fundo nos enredos. Tinham a faca e o queijo, mas resolveram almoçar na sarjeta.

Porém, se eu for obrigado a indicar um, eu certamente ficaria com o filme. Serve para passar o tempo, sem dúvida é divertido e as atuações, efeitos, ângulos de câmera… enfim, tudo menos o enredo, com exceção do final deste, é fantástico.  E por favor, não me confundam com o filme americano de 2013.

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Sobre Zigfrid

Administrador e redator do blog Mangatom. Viciado em games, amante incondicional de quadrinhos e cinéfilo enrustido.

Publicado em 10/10/2015, em On the Nanquim, Resenha e marcado como , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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