Futuro do presente

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Acabei de matar uma barata. Digo, uma baratinha. Não sinto nenhuma culpa por tê-la matado, nem acho que deveria sentir; ao contrário, sinto que galguei alguma coisa, que não sei bem, de aspecto metafísico ao solapá-la com o chinelo contra o chão. Isto não costuma acontecer a quem está ocupado demais lendo textos de blogs — não digo matar a barata, isso todo mundo faz (é até bom que façam), me refiro ao ato de parar pra pensar na morte de um bicho como uma barata e o que ela pode representar.

Hoje, há tantas pessoas fazendo as mesmas coisas de diversas formas, ou então, várias pessoas fazendo coisas diferentes, mas, mesmo e justamente por serem várias, nenhuma se sobressai. Esta discussão é recorrente nas poucas discussões que tenho com meus amigos. Por meio de nossos gostos e senso crítico nada comum tentamos prever o que será realmente bom, ou notável, daqui a cinco anos, dez, talvez mais. Porém, não queremos esperar pelo filtro do tempo para dizer o que de fato foi relevante na época de nossas previsões.

Nem sabemos se estaremos vivos até lá.

No fundo, quero aproveitar o que o mundo atual está produzindo de relevante. E seria mentira dizer que não há certa conquista quando faço uma previsão certeira — ou pelo menos quando sinto que minha certeza é mais do que cinquenta por cento. Pessoalmente não sei como está o mercado da fonologia, o mercado de livros, de jogos, do cinema, de desenhos, e o que mais for que tenha relação com a arte (que hoje em dia, infelizmente, tornou-se mero entretenimento). Até chegará uma época em que poderemos inserir ondas sensoriais de histórias, de músicas, de filmes, de imagens, de jogos, etc, etc, dentro de nosso cérebro. Vai matar tempo pra caralho. Mas onde estaria a maravilha do ato? É o que está acontecendo com nosso mundo: são tantas coisas para se consumir, e, tão pouco tempo para apreciar tudo que a única opção, aparentemente a mais viável, é absorver rápido, economizando tempo. Nessa brincadeira toda quem fica para trás são os livros, que há séculos estudiosos e intelectuais ousados vêm dizendo que está morrendo; o teatro, talvez a forma de entretenimento mais antiga de todas; a própria música morreu; os salões de curiosidade onde era reunido obras de arte para serem contempladas — é isto que perdemos, e se não, vamos perder gradativamente: o ato de contemplar, de se maravilhar.

Que há para se maravilhar na morte de uma barata? Muitas coisas. Eu não sei quais são essas coisas, confesso, só sei que são muitas, e como sou tal qual você, que aos poucos está perdendo essa capacidade de se maravilhar, não consigo identificá-las.

No fim não há nada a se fazer. Coisas boas, verdadeiramente boas, não são produzidas em massa como ocorre nessas fábricas de entretenimento. Vá lá, demora cerca de cinco anos, ou dez, pode ser que seja mais, para que algo que cause impacto no mundo apareça e marque uma época.

Por ora, eu e meus amigos tentamos identificar que obra de que mídia, ou se de todas, representa a nossa geração.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 11/10/2015, em Crônica e marcado como , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Interessante.. Seria bacana você falar sobre essas obras que você prevê que marquem a nossa geração também.

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  1. Pingback: Crônicas crônicas | Letras Rabiscadas

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