Motio-boy

moto

Certa vez me dirigia ao ponto de ônibus, a fim de voltar para casa. Fizera compras e estava cheio de sacolas nas mãos. Distante de mim, atrás, na esquina da rua, estava um rapaz encostado com o ombro no poste, às vezes me olhava e às vezes olhava para o outro lado. Ele vestia um colete preto com detalhes verdes por cima das vestes comuns, tênis ou sapatos escuro, confesso que não sei distinguir; também havia uma moto próxima dele, não muito bonita. Era um motoboy.

Trocamos olhares por um tempo: eu sabendo o que ele queria de mim e ele pensando que sabia o que eu queria. Ir pra casa, era isso que eu queria, mas não na moto.

Uma vez fui de moto com meu primo na casa da minha tia. Percorremos um trajeto de não sei quantos quilômetros, bem longe, ele fez algumas manobras que só motoqueiro entende, nada radical. Em todo o percurso, com medo de cair para trás, não tirei as mão dos dois ferros que tem atrás da motocicleta. Mais tarde, logo depois que chegamos, meu primo comentou que não sei montar em moto e por causa do meu — segundo ele — nervosismo, até atrapalhei-o nalgumas horas. Isso ficou na minha cuca. E agora tinha aquele cara ali, me chamando com os olhos; e o ônibus nada de vir, como se o universo conspirasse para isso; e finalmente, perdendo as esperanças, o ônibus veio. Dessa vez só não fui mesmo porque estava com as bolsas.

Outro dia, novamente, mesmo ponto de ônibus, mesma situação. Sem as bolsas. O mesmo motoboy, agora num poste mais próximo. Ele conversava com outro cara, mas, quando eu ia passando, abaixou a cabeça. Segui em frente com a minha erguida, olhando as coisas que nem um turista. Quem me visse acharia que eu era um robô. Do ônibus, nada.

O ônibus vinha no mesmo sentido de onde ele estava. Não podia nem disfarçar olhando para o outro lado. Ele olhava pra mim e parecia que me marcara. Acho que da outra vez ele se sentiu mal por eu não ter ido de moto. Tanta gente que desmaia, enlouquece, pira, adoece, se transforma sob o calor, e eu ali, jogando fora a oportunidade. Sou um babaca mesmo. “Coé, cara, não vai de moto, não?”, o olhar dele já me dizia. Se depois de tudo ele se enraiveceu de mim, não o culpo. A gente não sabe os motivos por trás do que as pessoas escolhem, eis o mistério da vida.

Nesse dia, consegui voltar para casa de ônibus. Sempre que vou na minha cidade fazer alguma compra e não volto andando, pego ônibus naquele ponto. Pelo visto vou ter que travar uma batalha psicológica toda vez que for comprar algo.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 17/10/2015, em Crônica e marcado como , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

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