Ter de ser o outro

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Pedi a uma das secretárias do curso que me transferisse de turma. De todos os alunos do prédio fui o que mais transitou entre salas e horários: manhã, tarde e noite. Por que motivo? Por vários — não valem ser mencionados.

Cheguei na nova turma com três alunos além de mim. Duas moças e um rapaz. Fora da sala o rapaz, de fácil conversação, dialogava com uma menina — que por sinal não era da turma — sobre churrasco, eventos caseiros e coisas do tipo. Eu só olhava. Em seguida nós e mais uma menina que não sei de onde saiu entramos na sala. A garota sentou onde me assentaria e perdi alguns segundos calculando que outro lugar seria o melhor para se assentar.

A princípio cada um permaneceu em silêncio no seu canto — minto, o rapaz falava com o professor e consigo mesmo, às vezes suspirando excertos de músicas inglesas e americanas e outras vezes pensamentos em voz alta.

Mais tarde chegou a outra e última menina. O rapaz pediu que ela se assentasse entre mim e ele alegando que guardara aquele lugar, num tom de brincadeira. O tempo passou e os dois conversaram coisas passadas entre si, facebook e afins, de terceiros ausentes e uma vez ou outra incluíam o professor no diálogo. Quando calhava de eu erguer minha cabeça averiguando que barulho foi aquele, quem entrava ou se alguém me bisbilhotava do lado de fora, disfarçava a fim de ouvir o que ambos tagarelavam. Numa das erguidas o rapaz olhou-me como se tentasse me incluir na conversa. Comentou alguma coisa mundialmente engraçadinha me fitando, mas claramente se dirigindo à menina ao lado, na esperança de que eu compartilhasse da graça da coisa e me arriscasse a palpitar alguma ideia no escopo do assunto. Daí então, quiçá, iniciasse uma amizade.

Às vezes ele ria e sentia-me obrigado a a fazer o mesmo.

Continuei em silêncio, na minha, concentrado no meu dever e mergulhado na solidão. A conversa fluía entre os três conhecidos e, eu, o estrangeiro, sentia a pressão apertar. Foi em meio aos raciocínios linguísticos que minha mente fazia para me adaptar mentalmente ao inglês que veio o pensamento derradeiro da aceitação: este sou eu. E a menina ao lado se movimentando numa leitura corporal que não sei ler, a outra na minha frente quase expondo a calcinha, e eu perplexo na minha quietude testemunhando a existência daquele rapaz, uma pessoa genuinamente extrovertida que não zomba dos seus diferentes…

Por pouco não sucumbi à pressão e deixei de ser eu mesmo me enveredando numa relação interpessoal de que não participo e nem me convém. No fim da aula senti-me mal. Talvez não entendam o meu lado. Não posso atender às expectativas deles; mal consigo ser eu mesmo.

Ao sair, atravessada a porta, olhei para a sala e falei para o pessoal:

— Tchau. Até sábado que vem.

Não houve réplica.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 21/11/2015, em Crônica e marcado como , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

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