Dentro do teatro a céu aberto

Dentro do teatro a céu aberto
Das pouquíssimas vezes que vou na rua, geralmente em virtude de algum compromisso importantíssimo — como foi nesse dia — sinto como se pisasse em Nárnia. Noto e esbarro com coisas que preferiria deixá-las naquele plano de existência. Mas nesse fatídico dia fui e cheguei noutra conclusão: a vida é um teatro a céu aberto; estas são outras palavras para dizer o que Shakespeare aforismou cinco séculos atrás.

Aproveitando a data da Black Friday, foi nessas caixas lotéricas a fim de pagar em boleto uma compra que vislumbrei personagens com feições dignas de um teatro. E foram três as que mais me chamaram a atenção.

Não levo celular para essas ocasiões. Se levo não uso justamente para observar as pessoas, afinal, faz parte do meu trabalho como escritor — e espectador. Então veio uma idosa com blusa branca e saia longa preta na fila preferencial. Era o tipo de pessoa que se encontra na rua mas só você se lembra de vê-la passar, ela não. Me pus a observá-la. Fui olhando e olhando atentado a alguns detalhes do rosto que todo velho tem: verrugas, pele murcha, óculos dum grau obscuro, trejeito conservador e que de alguma forma esbanja experiência e segurança. Meus olhos deslizaram para baixo. De repente olhei os seus pés. Usava sandálias muito aquém a chinelos e, logo em seguida, como um detalhe que preza por secretar-se, vi os dedos. Era tão inimaginável e portanto indescritível que só posso dizer que me causou um horror lovecraftiano ao olhar: um dedo dobrado sobre o outro no qual o osso era uma mola congelada! Revi os meus pés e agradeci a Deus por não serem os meus.

Outrora era uma velhinha no caixa de jogos sem uma particularidade tão escondida assim: corcunda, salientemente corcunda. Além de baixa, do tamanho de uma criança — não era anã — possuía uma corcova inclinando seu pescoço para frente. Não sei se foi pelo tamanho pueril ou pelo rosto também pueril porque a velhice resgata certas características de quando se é criança, mas, quis tratá-la tal como uma. E por que não? Teria êxito se me deixassem, penso que essas pessoas precisam de cuidados tal qual.

E por último porém não menos esquisito e interessante, um rapaz que a princípio vi e pensei que fosse morador de rua que grita no meio dela dizendo coisas sem coisa; um louco, pois ele engatinhava com as mãos sobre calçados de chinelos, o que reforçou mais ainda a minha conjecturação sobre seu estado mental. Certa ou errada, a questão era duma escala complexa. O sinal fechou para os carros e ele engatinhou até a beirada da calçada, se posicionando para atravessar. Uma multidão veio atrás dele e outra da frente passou por ele, permanecendo a só no meio da rua. Tive dúvidas se ele conquistaria a outra calçada; imaginei que os motoristas esperariam um minuto para deixar aquele homem passar. Finalmente relanceei as soleiras nos seus joelhos. Estava preparado para isso, acostumado com aquilo. Meu pescoço quase torceu quando vi que ele chegou do outro lado são e salvo. Mais uma banalidade do seu dia-a-dia.

A fila tarda e chega uma mãe com a filha, o filho e a irmã, ou amiga. Olhei para o filho até que ele me olhou de volta e viu minha cara de sério. Assim que o fez seu sorriso no rosto se desfez e também ficou sério, ao ver que eu o via. Quis lhe dizer do mal que há em quebrar a quarta parede, mas, talvez, o autor sabe melhor do que eu pra que servem esses detalhes ínfimos.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 28/11/2015, em Crônica e marcado como , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

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