Tragicomicidade

tragi
Francisco Teixeira de Souza Pontes é um selerepe que faz uso de quaresmas para ganhar o pão do dia seguinte. Protagonista de um dos meus contos preferidos do Monteiro Lobato, e por que não, herói trágico, leva a vida nessa comicidade eterna, deflagrando gargalhadas dos conhecidos só com a evocação de seu último nome. Ao cabo de um incidente, ele decide mudar de vida, resigna-se em ser levado a sério. Não obstante, os camaradas não compram a sua seriedade e Pontes se vê tentado a política como única alternativa. Ele conhece o major Bentes e arma uma para lhe suceder ao descobrir que o dito cujo é incorruptível pela graça, sobretudo por um problema interno. No estopim do seu estratagema ele mata o major, estourando uma de suas artérias de tanto rir duma anedota feita por encomenda unicamente para ele. Mas por razões que opto por omitir, Pontes não sucede o major. Com medo da consequência de seus atos, suicida-se, e, recebe como redenção, nas palavras do narrador, “[…] meia dúzia de ‘quás’ — único epitáfio que lhe deu a sociedade.”

O gênero da tragicomédia é senão o mais brasileiro o maior entre a própria tragédia ou a comédia. Lendo cada uma atentamente, consigo encontrar comédia na tragédia ou tragédia na comédia. Quando li Macbeth, por exemplo, explodia de rir pelo desespero do personagem título monologando sobre os desastres que seus atos poderiam lhe causar. Até quando vejo pessoas desesperadas por razões bobas acho um motivo de risada, e nessas horas tenho que me conter pondo a mão sobre a boca ou abaixando a cabeça para não pensarem que sou um psicopata ou sádico.

Mas a tragédia é levada como o gênero superior, como o drama dramático por si mesmo, enquanto que a comédia, coitada, é para quem come na mesa das crianças, como diz um ditado popular.

Eu tenho por mim que todo autor bom começou por escrever comédia. Este gênero é difícil de dominar completamente e mesmo que não o faça, ele é o que abre mais portas para qualquer outro gênero. Dentro dela você pode ter tudo, ação, romance, mistério, e a própria tragédia. Talvez o extremo polar dela não seja sua irmã, mas o gênero horror. É impossível eles conversarem. E no campo da comédia ainda há a sátira, muito semelhante com o que pode-se chamar de tragicômico.

Nosso maior escritor era autor de textos tragicômicos. Seu romance mais conhecido, creio eu que seja antes Memórias Póstumas de Brás Cubas do que Dom Casmurro, é recheado de uma comicidade, de um tom satírico, irônico, mas ao cabo de tudo, só podemos pensar que se trata de uma tragédia brasileira. Mas não de uma tragédia qualquer, pois sendo brasileiro, só pode ser verdadeiramente uma coisa: tragicomédia.

Este gênero que permeou a história de nosso país e cada um que pisa sobre esta terra vive uma anedota a lá a de Francisco Teixeira de Souza Pontes.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 06/12/2015, em Crônica e marcado como , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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