Desconhecendo o tédio

tedio

Tédio? Eis aí uma coisa que não me abala mais. Há muito tempo já não sei o que ele é. Estou imune e isento dele. Tanto que, quando amigos e conhecidos comentam que se sentem entediados ou não têm nada para fazer, sinto-me um alienígena. Com a internet abrindo milhões de acessos a coisas que alguns anos atrás não seria possível, tenho uma armazenagem de entretenimento impossível de ser zerada numa única reencarnação.

Ainda entro em desespero ao não ter tempo de levar minha rotina a cabo. São muitas coisas embora todas arbitrárias. Às vezes opto por virar a noite ou dormir quatro ou cinco horas por dia para ter tempo de, no dia seguinte, fazer tudo o que devo, quero e posso. Noite virada e chegado o meio do dia pego naquele sono tardio que os cientistas alegam ser o verdadeiro. Porém li uma notícia falando que a privação de sono pode levar à morte; parei de dormir como dormia. Um cientista quis experimentar os efeitos da longa privação de sono e permaneceu em vigia por uma semana: sua visão desfocou, teve alucinações e recebera um leve deficit de atenção. Outro camarada — um cara como eu e você — fez o mesmo mas, no início do terceiro dia, de súbito morreu de ataque do coração.

Como um robô, uma fábrica ou uma indústria, todo dia quero produzir conteúdo de boa qualidade. Mas, trago toda semana estes textos nos quais a qualidade supostamente vem diminuindo. Seria culpa da privação de sono? Dizem que causa estresse e, de fato, quando não consigo escrever um bom texto e rerrascunho ad infinitum até vir num tom que me agrade, desespero e destruo tudo para ver se na destruição acho algo de bom.

Penso que os demais que perdem tempo em redes sociais assistindo a vídeos ou afins, segundo o que dizem, “passando o tempo”, estão sim entediados. Essas atividades são boas maneiras de iludirem-se de que não estão. Evito isso. A vida é finita — e curta. Provavelmente morrerei sem ter lido, ouvido, visto ou jogado tudo o que quero ou posso. O tempo, veja só, já acaba: estou com o pé em 2016 indo para 2017, cético o bastante sobre se tudo ocorrerá como planejei, apesar do otimismo, da disposição e da coragem. Um pouco de niilismo, no final das contas, alivia o meu fracasso.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 12/12/2015, em Crônica e marcado como , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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