O Ripicéfalo

Ripicéfalo

Milhares de centímetros andados e só agora chego aos pés, uma negra floresta, fétida, suja e de relevos côncavos — poderia ser melhor? O vento corre, o chão treme e a vida passa rápida no meu periférico: nalguns momentos vislumbro as mesmas cenas. Há segundos estava ali, depois fui para outro lugar em uma velocidade estupenda e voltei para cá. Ele não para, e o vento, alguém, tudo pode derrubar-me nesta altura. Hei de chegar nalgum pico plano, mas com estes pés fracos talvez não haja o passo seguinte. Lentamente finco minha unha, esta, aquela, mais outra, mais aquela, aquela dali e por último esta outra; todas com uma força inexplicável. Eu estou morrendo.

Há um matagal negro a minha frente; fiapos maiores do que eu. Sorte minha que posso aparar esse mato com meu bigode. Quiçá não há no mundo caminho inexplorável para mim. E a terra é macia e quente — como dizem uns camaradas, de uma fincada. O mau são os diversos terremotos, e, por vezes, sinto a gravidade me puxar para baixo, até me faltar. Sim, sim: vou para campos do espaço que normalmente jamais galgaria, mas graças a este chão, este ser que me leva até lá em cima, vejo coisas que os mortos vez alguma já viram. Só preciso achar local ideal para fazer moradia.

Vagueia uma lufada de sangue; alguém morou aqui. Aquilo ali vindo na minha direção, julgo eu, parece… Um camarada! Está se aproximando. Conjuntamente vem outro, menor. Deve ser o filho. E a esposa? Será que morreu? Melhor erguer-me e mostrar que cheguei primeiro.

— Amigo, com licença…
— Oi?
— Você pode cuidar desses ovos para mim, fazendo favor? Eu vou descer o morro, talvez construir uma casa lá embaixo. — era uma mãe!
— Lá embaixo? Com aqueles matos?!
— Sim. — mais três saíram de trás dela, envergonhados. — É mais seguro para meus filhos.
— Eu acabei de chegar. E não sei se vou ficar muito tempo aqui não. Mas se quiser deixar esses ovos comigo, vou fazer o que posso.
— Ah, obrigada.

E estes ovos? Ela deixou uns dez aqui! A cada passada, pulada e virada — pior ainda! — prevejo eles rolando terra abaixo; e não há fincada que segure. Eis que prometi algo que não posso cumprir. E além disso… Ovos não matam ninguém, não é verdade? Talvez se eu abrir só um desses, e comê-lo, a minha fome passe. Nem precisarei de fazer moradia aqui. Os outros ovos, bem, que o mais velho cuide do resto.

Estou pesado como um dedo. Talvez não consiga alcançar aquela testa. Agora o vento é uma brisa, o treme-treme não me abala e estou aparentemente imune à física. Porém, olho para o lado e vejo o que parece ser um fim de mundo: matos e mais matos caem da terra até o chão, planando no ar. Será que aquela mãe sobreviveu? Não importa, o que importa é que falta pouco para chegar lá. Meu próprio corpo, robusto como está é o único empecilho. Mas de súbito sinto um tremor, o chão inclina-se para cima e fica reto para uma paisagem. Estou vendo manchas brancas num plano azul. Seria isso o céu? De fato, eis aí uma visão que nenhum morto viu…

***

No chão duro e frio uma faixa de sangue com ele estraçalhado em pedaços.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 19/12/2015, em Crônica e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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