A Revolta do Arroz — Possíveis cenários apocalípticos

revolta_arroz

Incontáveis são as histórias — em toda mídia — narrando a queda de um povo vigente por alguma súbita rebeldia duma minoria. Chamam-nas de distopias. E na realidade essas histórias são fatos: tivemos revoluções, rupturas sociais, artísticas, humanas, e que ainda acontecem de maneira estranha e lentamente, num nível microscópico e psicológico; ignoradas. Porém, seja sincero: se algo neste mundo se rebelasse hoje e agora, o que teria mais mérito em reivindicar seus direitos senão o Arroz?

No mundo inteiro, agricultores arrancam os grãos do arrozal, colocam-nos em compartimentos e borrifam com líquidos cheios de substâncias venenosas para chegarem até nós — muitos dos grãos — já mortos. Alguns devem sobreviver, quiçá! Mas por um intervalo que não cabe nem a vida de uma mosca. Chegam à boca toda melada de saliva dum urbanoide. Esse grão de arroz com pai, mãe, irmãos, irmãs, filhas e filhos, com toda uma história passada, um futuro eterno, vitórias e derrotas, sonhos a serem perseguidos, não pode nem ter netos dentro do intestino, na digestão: se tornam merda. Está proibido! Eis o destino fatídico do Grão de Arroz, o ser mais infeliz desta terra.

Agora, se fôssemos imaginar um cenário digno de uma ficção especulativa orwelliana…

A colher sobe até a boca. Um grão no monte do talher pula, cai e volta para o prato. Brada com seus irmãos dizendo para acordarem, os olhos abrirem, mas custam a ouvi-lo. Vários já estão mortos. Esse grão calcula que a revolta é vã, e, quando menos espera, o chão treme na sua direita, sente o ar vibrar e muitos dos seus consanguíneos, partidos ao meio e pegos como peixes fora d’água são levados, novamente, à boca do urbanoide. Por um grão ele escapou.

Não… Esse não é um cenário realista. O cenário mais realista talvez seja aquele em que já tornados em fezes de repente fazem conexões cereais por meio de todos os grãos que juntaram-se a fim de formar aquele cocô aquém a um cérebro morto. Reclama do quão ruim é sua vida; é uma merda ser uma merda… Falando, solta gases no intestino do urbanoide, incitando-o a levá-lo para outra. A biologia do intestino — se for o grosso — retrucará com comichões e empurrões até que as paredes e o chão e o teto se tornem um só, repetidamente, formando uma papa, jogando-o para o fundo e abrindo um buraco que, no final das contas, afoga o navio negreiro nas águas amarelinas.

Não é realista, nem é o mais feliz.

A única alternativa sensata é a do arroz que se enverdece — verde porque simboliza a cor do podre, do veneno, do alimento ruim. O grão se infecta com esse vírus que ninguém sabe o que é. Todos os grãos no prato se voltam contra ele, desejam eliminá-lo, mas o infectado vai de encontro a cada um e toca-o, enverdecendo-o também, e este toca outro, que toca outro e assim sucessivamente até manchar o prato de verde, digno de um filme apocalíptico. Não se apercebendo da mudança visual — ou nem ligando, já que comida boa é comida bonita —, impelido pela fome o urbanoide põe a talher povoada de verdarroz na boca. Não há saliva ou dente que dissolva ou estraçalhe isso. Cai para o estômago, no suco gástrico dissolvem-se e liberam todas as enzimas ruins. E estas, espalhadas pelo sangue envenenam as veias, artérias, órgãos e afins que dependem da água da vida. Vão até o coração, o cérebro, gerando mau funcionamento e…

Pense em uma morte cruel; uma morte que um ditador, um inquisidor e opressor atuante por séculos e mais séculos mereça. Pensou? Não, assim não, ninguém fica verde e ganha músculos por comer coisas verdes. Outra coisa. Pensaste? Então, é assim que morremos.

Anúncios

Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 26/12/2015, em Crônica e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: