Uma boa companhia

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No entardecer daquele dia minha mãe e eu fomos para a casa de uma irmã dela. Antes de embarcarmos quase pegamos um ônibus que pifou; sorte que depois passou outro de igual itinerário e nele seguimos. Se não me engano, isto deve ter uns três ou quatro anos.

Lembro-me da casa ter desenhos de arquitetura antiga particularmente bonitos, uma cor viva como o amarelo do lado de fora e, no segundo andar da casa, a varandinha externa contígua a um cômodo. Em torno, as casas não possuíam o mesmo aspecto, exceto pelos seus proprietários que compartilhavam a mesma idade avançada que minha tia. Nessa época já me considerava um bom observador embora não escrevesse nada. Cães latindo, morcegos raspando o céu em plena tarde e um gato pingado de gente na rua. Aconchegamo-nos lá dentro e outros parentes estavam lá. Vi muitos rostos desconhecidos que me diziam serem conhecidos. Um desses rostos era de um velhinho sentado numa cadeira de balançar.

Após as confraternizações e rápido almoço que têm nessas reuniões, cada grupo foi para seu canto. Bato papo com os mais velhos, porém, quando escarnecem o fato de “não ser do tempo” deles aí já não é comigo. A parte contígua-externa da casa deixou-me curioso; fui para lá e encontrei o velhinho com quem conversei. Iniciou o diálogo de forma clássica, perguntando do tempo. Vi que usava uns óculos com lentes de fundo de copo, fumava um cachimbo, e em geral se portava a lá Sherlock Holmes com as pernas cruzadas e aquela coisa na boca — só faltava o deerstalker e começar a dizer, “Então, meu caro…”

Numa hora ou noutra tomou partido de tópicos mais livres que gente normal — coisa que eu não sou — evitaria falar.

— Tem quantos anos? Dezesseis? É jovem… O meu estado, filho, me dá a liberdade de fazer essas loucuras. Se eu me suicidasse ninguém ia falar. “Tava velho, morreu porque tinha que morrer. Ele merecia descansar. Foi pruma melhor.” — o tom distinto até lhe causou tosses.
— O senhor tem quantos anos?
— Eu? Tsc… Não conto meus aniversários faz uns cinco anos. Depois de um incidente, filho, parei de contar. Nasci de novo.

Trocou-se uma série de ideias entre nós; o velho me olhou, fitou-me por mais tempo que o permitido e mandou:

— Filho, você acredita em espíritos? — respondi que tanto faz, essas coisas não me botam medo. Acrescentei também que na minha família nunca houve um caso de cunho sobrenatural. Daí, se me lembro bem, continuou: — Eu também não. Mas quando todo dia você pensa que a morte vai chegar de qualquer jeito, você começa a ver coisas. Ver o que não deveria estar ali, ali.
— Ué, mas a pessoa pode estar maluca. Tem vários—
— Aí que te pergunto: quem causa a loucura nas pessoas?

De repente alguém gritou meu nome de outro cômodo — era minha mãe. Tive que ser rápido; é insuportável imaginar que todos saberão seu nome dessa maneira. E falando em nome, fui-me embora sem saber quem era aquele senhor. Na hora não perguntei aos demais convivas ou mesmo vizinhos que estavam lá, como fiquei sabendo mais tarde. Semanas depois comentaram dessa reunião no celular e lembrei desse velho. Questionei quem era ele, e muitos nem lembravam que tinha um velhinho. Só essa tia, a dona da casa, me respondeu depois que descrevi sua fisionomia:

— Ah sim. Era o seu ***. Ele foi major do exército; aqui na rua aqui todo mundo conhecia ele. Era uma boa companhia. Por que pergunta? Já tem uns cinco anos que ele faleceu.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 13/02/2016, em Crônica e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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