Intermitência intermitente

intermitencia

— Alô. Sofrimento?
— Não. Ligou errado. Aqui quem fala é a Inspiração. 
— A tá, foi mal. Perdão.
— Nada…
— Sofrimento?
— É ele mesmo. Fala, coração.
— Eu preciso de um programa. Sempre me falaram para não ligar para o senhor, mas está difícil.
— Difícil o quê, filho?
— Está tudo monótono. Muito feliz, por mais que isto seja difícil de definir, mas o que quero dizer é que as coisas estão dando tão certo que me assusta. Conversar tenho feito com prudência; se falo uma coisa feliz, algo que deu certo, já conspiram para que me ferre. Ou ficam com inveja.
— E tu acha que vou te melhorar em alguma coisa?
— Vou falar o quê? Dos meus projetos? Prefiro falar de desgraça. Melhor ainda se for desgraça alheia. O mal é que nem as minhas estou vivendo plenamente, metafisicamente, pra botar em algum poema.
— …
— Me disseram que você traz criatividade.
— Uhum.
— Então…
— Mas depende, depende. Que programa você quer?
— Quero amor em forma de dor. Ser cético quanto à linearidade dos problemas. Ter elucubrações que faz a gente duvidar da própria capacidade só pra confirmar que não sei do que sou capaz, e pensar muito sobre tudo, que nem um filósofo. Pessimismo para ser prudente, melancolia pra intensificar a alegria e vontades suicidas para renascer sem ter que morrer. Aliás, tem como pôr 12kg na consciência, pois assim não cometo crimes morais, sociais e nem virtuais?
— Meu caro, o lance é o seguinte: já lhe aviso que não trabalho dias de sexta e sábado. É minha folga. Só volto domingo à noite, véspera de segunda. E, olha, segunda é o melhor dia dos meus programas. Trabalho a mil, e se não quiser faço até de graça. O que acha?
— Pra mim tem que ser sábado. Ou quinta, já que não pode sexta, né? Mas, por quê?
— Por que esses dias são minha folga?
— Isso.
— Errei ali. Não é minha “folga”. Só cá entre nós… eu sou demitido na sexta, e fico até o sábado assim. Assim mesmo, sem mais nem menos. O inferno pode trocar de lugar com a Terra mas se lembrarem “Ih, é sexta”, eles me despacham. Na manhã de domingo já barganham em me chamar de volta, e na noite, sempre, sempre é assim, me acham um emprego.
— Entendi.
— Vou ver com meu cunhado Trabalho o que posso fazer por ti. Às vezes dá da Rotina aparecer na telha e trabalharmos em trio. E, modéstia à parte, pode parecer absurdo, mas em ocasiões muito especiais eu e o Amor trabalhamos em parceria. Minhas melhores performas foram com esse chapa. É um bichão esse Amor.
— Só para tirar uma dúvida…
— Sou todo ouvidos.
— Dá pra te emprestar para os outros?
— Aí só com a patroa.
— Como eu a chamo?
— Aí você me fode. Ela trabalha com surpresas, coração. Se ela aparecer, é muito quieta, sabe, muito discreta.
— C-como assim?
— Você não sente até vê-la. Quando você olha pra ela, aí começa a sentir.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 17/09/2016, em Crônica, Uncategorized e marcado como , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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