Lojas

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Em lojas de roupa não se compra e nem se vende; medimos o status e a classe social. Sobretudo nas lojas de vestes, sou um mosquito em colmeia. Porém não invado-a só: existem gafanhotos, joaninhas, formigas, marimbondos e mais que a diversidade humana não equivale, tornando todos, na hora de escolher, experimentar e comprar, duelistas entre seres de ego carnívoro. 

Os jogos de poder invisível ocorrendo nesses locais são sublimes. O vendedor descredibilizando o comprador aparentando escassez financeira; o cliente vestido para comprar e o vendedor que se aproxima como uma abelha no mel. Se negro então, o cara lhe chega da mesma forma, ou na assunção de que nego no pedaço é certo o pecado, ou, disfarçadamente, o ignora. Fazem coisas interessantes: mostram com fim próprio produtos caros e utilizam de retórica sofista a dizer que o belo existe e ele não é só elegante, útil também. Se sentir algum Sauron te observando, não ligue, é só o segurança.

Há, porém, vendedores tão alto astrais que no lugar de passar boa impressão, assustam o cliente.

Fui numa livraria comprar caderno e caneta e um vendedor, que nem estagiário mas velho demais para tal, me abordou mal pus o pé na loja. Perguntou o que procurava, e eu, no marasmo habitual, respondi que queria apenas um caderno de 100 folhas, de preferência.

— De cem folhas não temos não, senhor.

Me aproximei duma estante com diversos cadernos e peguei num.

— Este aqui, de noventa e seis folhas eu quis dizer. Também serve…

Meu olhar sério e os lábios cerrados não tiraram seu sorriso, como o geral. No caixa fiquei a olhar os livros de ficção que eles tinham, e indaguei se lá havia um tal Sete do André Vianco.

— André Vianco? Você lê André Vianco?!
— Conheço ele, mas nunca li nada. Quero ler.
— O Sete, né? Deixa eu ver se tenho aqui… Ih, não tenho, senhor, mas estou vendo aqui que temos na nossa filial da ***. Se quiser posso ir lá pegar pro senhor.
— Não precisa não.
— Não? Sou rápido. Vou correndo.
— Não, não… Outro dia eu passo aqui e compro.
— Então tá.

Desde então passo em frente à livraria de segunda à sexta, a cara virada ou reta olhando o horizonte — os ônibus, no caso. Se ele de fato não me vê, e bem provável que não, é, contudo, incerto. Se perguntar se vi o cidadão que me tratou com acômodo e deixou uma marca do comportamento cuja vários pecam hoje em dia, quero dizer que sim, ainda que não hoje, ou amanhã, mas num futuro infelizmente incerto.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 09/10/2016, em Uncategorized e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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