Crônica: Eterna questão

eterna

Para resolver uma questão. Um infundamento cujo qual ninguém bate a cabeça, pois são príncipes textuais, e teclam como não se teclava. Que escritor, no entanto, foi autoconfiante? Um monte, quem sabe; até penso em um. Porém apesar do perfeccionismo, a autodúvida e sabotagem pertençam uma época alheia à modernidade, são as principais características de uma alma conturbada pela arte. Eis a questão: digitado ou à mão?

Neil Gaiman e Stephen King — os primeiros pipocarem à mente — dispensam apresentações. Minha opinião sobre ambos é de cunho impopular; arme seus paus e pedras. Nunca passei do primeiro capítulo dos romances de King. Só digeri Gaiman com Sandman. King é um nítido digitador. Palavras desnecessárias sobram na prosa, entra em esquinas da narração alongando o caminho sem por que e seu(s) final(is) desvaloriza(m) a jornada. O horror que lho atribuem está menos nas histórias do que na robustez de seus livros. Gaiman entretanto não é culpado se ler os seus livros é como ver um roteirista tentando se passar por romancista; seria cômico se não fosse trágico. Basta fazer bons diálogos e se afastar do texto narrativo. Mas ambos têm uma característica em comum dos seus primeiros trabalhos, que me impressiona quanto suas obras posteriores: escreveram à mão.

Se o escritor é quem escreve não há nada que o faça mais escritor do que uma caneta e papel — ou lápis, guardanapo, até o próprio sangue e pele. Escrever à mão é domar o cérebro ao ritmo do raciocínio, narrar mais com menos, prever e rever o futuro no meio duma frase e reescrever a vindoura, tudo mentalmente; ser desenhista das letras, pintar o papel, dar realidade ao que é só uma ideia pois na tela tudo é virtualidade. Raras vezes a sensação apoteótica da mão caneticida, com a palma em dor, terminando com euforia a última linha da última página de um caderno ocorre no computador. A maioria dos profissionais da escrita hoje usa o computador como ferramenta primária. Escritores do final do séc. XX como Fernando Veríssimo, escrevendo como podiam em idades tenras, não sei por que confessam ter migrado para a máquina digitadora. Sua relação com a palavra escrita é nula, e, nos romances policiais de Veríssimo, se vê a ausência de veia literária.

Quem contribui a essa paraliteratura são os leitores — estou te olhando — que leem três palavras por milissegundo. Seres que comem um volume de A Song of Ice and Fire por semana — acredite, eles existem — mas não contam de frente para trás o que se antecedeu n’O Pequeno Príncipe. Transformam a ficção numa comida e retira dela o potencial de nutrientes a se absorver. Vejo no futuro — sempre distópico — uma divisão nos livros: aqueles escritos à mão e os escritos num teclado. Uns, pra mim, sempre serão melhor que outros, e já deixo aqui as minhas apostas.

O leitor também não sabe — e nem deveria se importar em saber — que tudo isto é fruto tardio de uma guerra psicológica travada entre o tempo e eu — para resumir a epopeia.

Em meados de 2015, lendo Todos os Nomes, notei que escrevia quase tal como Saramago. Seu narrador e sua forma de montar frases e ordenar as palavras remetiam às minhas incursões no caderno. Então passei a escrever ficção só na tinta, gastando folhas, canetas e dinheiro, desesperado pensando em enveredar na carreira literária atual competindo com autores que escreviam no computador melhor do que eu. Não tenho boas referências de quem escreve à mão, pois até os meus favoritos — como o próprio Saramago — pintam e bordam no teclado. Quando revelei meu dilema para um amigo:

— Você tá de sacanagem? — também pergunta o leitor. — Escreve e pronto, deixa de frescura.

E a meus colegas escritores:

— Pra mim — resumindo a visão de todos. — tanto faz.

Esquecem ou desconsideram o fato de que num é mais rápido, porém, menos estético, noutro, é estético, literário, bom, o texto sai sem precisar de revisão, no entanto, demora e gasta folha, e custa dinheiro.

“Agora vai!”, falo pro computador, mas logo volto ao caderno. “Agora vai”, falo pro caderno, e até vou quando a dúvida não é maior. Se for costume — passei anos escrevendo à mão nas escolas — ou alguma mentalidade oculta que esse pessoal sabe e eu não, desconheço. Será uma questão irresolvida se não separar a minha particularidade de escrever à mão da minha aspiração profissional de escrever no computador — ou juntar as duas. O ideal, verdadeiramente, seria chamar alguém confiável e ditar o texto.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 19/11/2016, em Crônica, Uncategorized e marcado como , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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