Ser justo não é saudável

justo

É foda, viu? Que que é foda? Não é foda de bom, de maneiro, é foda porque me fode no sentido negativo da palavra. É foda que eu não seja foda o suficiente — agora no sentido positivo — para escrever e criar simpatia ou empatia. É foda, viu? Vir aqui todo sábado como um trabalho não remunerado dizer nada com nada a fugir do formato de diário e não alcançar uma poesiazinha da vida, nenhuma verdade cabal escondida lá na física do cotidiano, no rosto das pessoas, nas narrativas de nossas vidas… E ainda me vêm e falam que a crônica pode ser tudo, porque qualquer coisa é crônica, e graças a Deus que elas sejam; se uma pedra pudesse falar comigo sabendo que a pus num texto talvez agradecesse “Obrigado por ter feito de mim uma crônica”.


Às vezes, o que encontramos não é poesia nem literatura — nada que seja bonito, e num primeiro momento você se pergunta “Devo falar disso?”, mas arte emociona tanto quanto choca e já diziam os filósofos que a filosofia nasce do espanto, mais do que do deslumbramento.

Algum tempo hesitei se devia fazer desta história uma anedota realista ou uma fábula alegórica, isto é, se escreveria o que houve ou a sua mensagem.

A resumir a ópera sucedeu-se que certo dia soltei do ônibus e fui até uma conhecida, cumprimentá-la. Ela tinha uma fileira de colegas ao lado andando no mesmo ritmo lento. Fiz que conversaria com ela, mas aconteceu uma banalidade que até hoje não sei explicar. Os sensatos desconsiderariam tudo isso e seguiriam em frente, e, de certa forma, foi o que fiz. Mas o fato de ter continuado andando e passado o grupo dela mostra de duas, uma: 1) Davam passos tão arrastados que não acompanhei-os, humanamente impossível que era; 2) Pararam do nada, no meio do caminho, e só de filhadaputismo me deixaram andando e falando sozinho, sem sentirem culpa por isso.

A palavra-chave aqui é culpa. Hoje mais ninguém sente culpa de nada e, quando é culpado, tenta colocá-la no outro. Além de quem comete gestos transgressivos e não sinta culpa, outros fazem de tudo para fugir deste peso, levando uma vida ilusoriamente boa e justa enquanto o mundo os esmaga e os pressiona a adotar o sistema vigente de ser sem amarras morais, desprendido de princípios, valente, um contemporâneo que abraçou a pós-modernidade e aplica a falta de sentido da vida moderna para usufruir de seu niilismo. No Brasil isso é sintetizado no famoso “jeitinho brasileiro” do qual as pessoas são encorajadas a passarem a perna, darem uma de malandros, e saírem por cima mesmo que em detrimento alheio. Os que não fazem isso são pejorativamente vistos como inocentes, puritanos, e alguns acham até que “Tem que se foder mesmo”.

Esses preceitos são baseados na suposta existência de Deus, e se Dele advir a moralidade. Desconsiderando a Sua existência o mundo vira um lugar nocivo, perverso e indiferente a qualquer ideia ou sistema de linguagens inventado pelo ser humano. A natureza é amoral tanto quanto o homem pode ser, não consegue sentir culpa, e se vinga de justos e injustos porque em última análise é a principal vítima dos atos levianos.

Na parábola de Jó, Jó larga a família, deixa os amigos e sua rotina para seguir o que acha certo, com sua fé sendo testada a cada instante, e no fim — segundo algumas interpretações teológicas — seu único e maior pecado foi a idolatria da virtude divina. Parsifal, herói épico que representa a jornada masculina, seguiu os conselhos ingênuos de sua mãe que só queria o proteger e fez merda no processo, por mais que fosse bom e justo para ela.

Recentemente vivi um episódio cujo notei que é errado agir certo. Ser bom, como diria Huberto Rohden, é doloroso, sacrificial. Quando o outro nos culpa é sinal de que existe certa falha de caráter naquilo que somos — e sempre somos aquilo que fazemos. Se a culpa vem de dentro como um reconhecimento, por mais nobre que seja é um sofrimento surdo, cuja maioria conscientemente evita sentir. A falta dessa culpa reconhecida e a busca autodestrutiva de se sentir bem, mesmo que o mundo se acabe, leva a maioria para uma dormência ética.

Ninguém pode negar que tudo começa na pequenitude e insignificância desses atos tão desvalorizados em suas magnitudes que reflexões como esta são feitas, textos como este são postados, e os gestinhos transgressivos se empilham até Brasília, transformando homens bons em corruptos. É a natureza se vingando.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 08/01/2017, em Crônica e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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