Ritual prático para invocação da musa

ritual

Toda vez que escrevo sem estar bêbado, ou seja, naturalmente criativo, me analiso da ponta à cabeça e corro a registrar todas as sensações, pensamentos e afins no instante desse milagre para que ele possa ser repetido.


Filho do meio, não sou o primeiro e nem o último a dizer o quanto é difícil ser escritor — escrever é fácil, escrever bem já é outros quinhentos. Pra muitos existe uma fórmula, um roteiro, ritual metódico de invocação da musa, que gera uma dormência mental a qual outros dizem ser o estado que a narrativa engrenou e está se escrevendo.

Hoje deixarei aqui, a você — e a mim mesmo quando reler este texto —, algumas observações e possíveis dicas do que se passa na mente e no corpo no estado de criatividade. Crianças, não tentem isso em casa.

Tenha esquizofrenia — pelo menos o mínimo. Como você acha que os diálogos de Star Wars foram escritos? Acha que Lawrence Kasdan é completamente são? Pra poder escrever frases de efeito clichês mas efetivas sem se sentir esquisito consigo é preciso ser meio esquizofrênico. Aquela vozinha na cabeça está certa — mas não a ouça! Este é o momento de se permitir ser o que é de verdade: louco.

Respiração equivale a ritmo — o processo de escrita é como uma meditação da qual inspirar e expirar tem uma velocidade constante e, como na música — ou na poesia —, mede-se o seu tempo pelo ato de respirar. A mente entra num profundo estado de concentração.

O corpo, estranhamente, afeta o texto — não mexa as pernas, senão da cintura pra cima. Pois é, como se dançasse com o tronco e os braços durante a escrita. Além de ajudar a se entusiasmar com qualquer rabisco que faça, você verá seus dedos sambando no teclado e tocará violino com a caneta.

Já fez pipoca? A criatividade é que nem pipoca. Precisa de um preparo, e as ideias estouram a princípio tão devagar e mais tarde tão rápidas quanto as pipocas. Criatividade — é o que falam neurologistas — tem a ver com a velocidade com que “pipocamos” ideias. E como tal, são sempre as do fundo da panela que têm o melhor gosto.

Escreva pornografia — vá aos recônditos mais fétidos de tua alma, pegue aquele fetiche obscuro e escreva se autoprojetando sendo chupado por uma súcubo, cujo você não sabe se suga o teu sêmen ou teu espírito, ou se seu sêmen é seu espírito e o demônio sexual na verdade é uma parte de você só que vestido de diabinha. Um ótimo exercício pra originalidade.

Escreva sobre o nada até vir alguma coisa. Sabe o que é o nada? Sabe o que existia antes do universo nascer? É isso que está na sua cabeça, esse vazio gestor de ideias, mas como todo nada é de onde surge tudo. Reflita.

Tenha a mesma rotina durante um mês. Só assim tudo aqui recomendado fará efeito. É como musculação; você só vê os resultados depois de certa repetição. Mas tome cuidado pra não saturar!

Saiba que você está errado por escrever — poderia advogar, medicar pessoas, lecionar nalguma escola, construir novas tecnologias, enfim, contribuir para o avanço tecnológico e social da sociedade. Ninguém te pediu para escrever, ninguém te pediu para ser artista. Tenha isto em mente e use para melhor se esforçar.

Como disse Luís Fernando Veríssimo, a boa inspiração é o prazo. Mas, em função da precisão dos fatos, seria mais exato dizer que em última análise a inspiração vem do desespero. Então seja um obcecado, ambicioso e desesperado.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 14/01/2017, em Crônica e marcado como , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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