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O mundo está acabando e tem duas crianças chorando. Eles estão na sua frente, uma menina e um menino. O menino chora como uma menininha, isto é, “chora” no sentido eufêmico de escândalo. A menina chora só do olho esquerdo, e você, bem, você, meu camarada, você olha a cena e a vive com tanto pesar — o choro fere a tua alma, e você quer matar o menino por isso — como se a culpa do mal na Terra fosse sua. Mas tem um detalhe, detalhe ínfimo, fatídico: você tem um lenço na mão.


Você, então, esperto como um chimpanzé 2.0, faz a seguinte equação: lenço + menina + menino = zero chororô. É tão simples que você prevê o menino e a menina felizes, como um futuro irramificável. No entanto, frita um pouco mais os neurônios que entram em curto vendo a si próprio com o braço despelado, e intui, infelizmente que, se o menino ainda não chegou à idade que divide os pertences, não quererá emprestar pra menina; quem dirá, então, da menina querer passar no rosto aquele lenço com suor alheio, fedido a homem?

Você pensa, repensa, perde as mãos que viram pés e lamenta, pois agora articula lamentações. Antes era melhor, sem tristeza, sem reflexão, sem sentimentos pelo mundo que nunca foi bom, mas você também não tinha conhecimento do mal dele. Graças a essa interpretação do mundo, tu, meu amigo, chimpanzé 3.0, tu, meu camarada, também vê que o lenço não é qualquer lenço: é longo, extenso.

As crianças não param de chorar e o mundo vai acabar. Só tem vocês três nesse cenário — mais o lenço — e tu poderia se matar estrangulando-se ou enfiando algo pontiagudo no pescoço — e, ainda assim, ouviria por éons e mais éons o escândalo daquele menino, fora a maldita imagem cravada na cabeça de uma menininha chorando; nem que seja de um olho só.

Sabe o que você pensa? Imagina-te rasgando o lenço em dois, dando um para cada, porem, tu não tem força no braço e não há nada cortante o suficiente para partir o tecido. Você, chimpanzé 4.0, criativo, se vê num futuro borboletado a segurar a tesoura e partindo o lenço para o menino e para a menina. Nessa mesma imagem futurista, vê os dois cessando as lágrimas mas alguém continua a chorar; digo, em função da verdade, que esse alguém é você, que chora de repente.

Todavia você pensa naqueles que não se importam de chorar, e lembra-se que não é um deles — ninguém é. Se for pra chorar, que chore, mas com um lenço na mão. Conforme o mundo acaba o lenço se estende e se for cortado dá para você, pra menina e pro menino. Basta dividi-lo em três com a tesoura — mas cadê a tesoura?

Se eu digo que não tem tesoura, de que caralhos infernais tirará a tesoura?

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 25/02/2017, em Crônica, Uncategorized e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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