Não comerás desta fruta

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“Eu queria ser a pedra no caminho/que não sofre a tortura do pensar…” versa Florbela Espanca no poema sem título. Perdão; não queria te envolver numa elucubração juvenil que se repete há dias, mas meu quê solidário diz ter de compartilhar essa epifania — se já não a teve antes de mim —, e como de praxe nestes textos talvez faça você, leitor, ver o mundo por outro prisma, o de um pessimista.  

Pensar é ruim — e já parou pra pensar como vivem os animais? Compare a sua vida com a de um cachorro, um gato, ou uma mosca. Por certo já se comparou com seu vizinho, seu amigo, ou parente, e sentiu inveja deles, dó, quem sabe, mas um factual senso de terem algo que você não tem na sua vida, seja isso bom ou ruim. Se se comparou com qualquer animal que seja, por exemplo, um cão, então já fez o infame comentário de conhecer gente que tem “vida de cão”. Não faz mal, na Grécia antiga houve toda uma filosofia derivada da palavra cão, em grego: kyôn. Comparar-se a um cão na chance de ser igual um cão é quase cínico. Cínico mesmo, porém, é admitir que quer ser igual a um cão — e todos queremos.

Aceite: vida de cachorro é comer, dormir, e trepar, se divertir sem se preocupar, não pensar ideias abstratas nem sofrer e desesperar-se justo por elas. Todo animal é como um cão, todo animal só come, dorme, trepa, e pra variar faz o que é do instinto de cada, mas num mundo ilógico e absurdo. Nós, humanos, os únicos racionais, temos que dar sentido ao que vemos, inventar teoremas, narrar mitos que justifiquem a caoticidade da natureza — na mitologia grega, veja só, o ser que originou tudo se chamava Caos — e consumi-los, pois senão, essa coisa na nossa consciência chamada razão rejeita tudo aquilo que não tem lógica.

Destaco os gregos pois, permita-me, puta que pariu!, esses caras foram demais. Fundaram o pensamento ocidental sem lerem o livro que falou da razão cuja virou essência: a Bíblia. O que a Bíblia tem a ver com tudo isso? Me acompanhe.

Antes de Sócrates usar da ironia, Parmênides disse: o ser é, o não ser não é. Depois que Sócrates usou da ironia, Aristóteles disse: se A = A, B = B, A = B se contradiz, é falso. No séc. XVII, Descartes disse: Cogito, ergo sum; ou seja — no mais grosso dos modos —, ele cogita a sua existência e o ato de cogitá-la comprova a priori que ele é. Mas será que Descartes considerou os seres vivos que de fato existem, por tudo que seus sentidos o dizem, e não sabem que são? Vide um cão. Um cão existe, sente que existe, entretanto existe ignorante à condição de ser enquanto cão. Surgem duas contradições, conforme o que Parmênides e Aristóteles afirmaram: 1) Se o cão é um cão apesar de que sendo cão não se vê como cão, como se justapõe entre ser o que ele não é? 2) Cão = Cão, Não cão = Não cão, porém Cão = Não cão embora contraditório, é verdadeiro pelo que nossos sentidos revelam, pois um cão é mais do que o conjunto de suas partes, e o cão não deixa de ser cão por isso.

Os gregos disseram que não se pode conhecer algo e desconhecê-lo ao mesmo tempo; ou conhece, ou desconhece, dialética básica. Sócrates usava da ironia, como falar que A é igual B ainda que na contradição lógica para chegar à verdade de que A não pode ser B e vice-versa. Um cão e outros animais vivem neste mundo sem finalidade do qual para eles faz sentido e tem direção: comer, dormir, transar. Isso per se é ilógico, afinal, como dizer que está tudo em ordem se na verdade está um caos? Guerras parecem por vir, homem derrama sangue de homem, e o ser humano trai a espécie por motivos banais, considerando que isso não ocorre nas outras. Mas o problema do absurdo é de uma natureza até simples: como se dar bem com uma pessoa, se você nem a conhece?

Jesus montaria a pergunta com outras palavras, sem usar a absurdo: por que não amar teu inimigo, se ele é teu igual? É aí que entrariam os cínicos e diriam “Por que amar meu igual, se eu sei que não sou digno de amor?” Coincidentemente macho e macho, e fêmea e fêmea de cães se arrebentam sob o mesmo teto.

Há uma ironia latente nisso tudo. Qual? Somos tão animais quanto esses animais e nos achamos melhores por ter a dádiva da razão dando sentido ao que não tem sentido. G. K. Chesterton uma vez disse: “Você só pode usar a lógica para encontrar a verdade se você já a tiver encontrado sem o uso da lógica.” Que verdade? Thomas Ligotti, no seu A Conspiração Contra a Raça Humana interpreta a frase como se Chesterton estivesse a dizer que a lógica é irrelevante para a verdade. Eu vou na dele. Os nossos sentidos indicam que, embora irracionais, os bichos agem dentro da irracionalidade de modo que ser ilógico faz parte da natureza do mundo e estão de acordo com isso. Nós, lutamos para moldar o mundo ao quadro solipso de nosso entendimento e até hoje sofremos para entender a natureza ilusória de certas coisas, os mistérios da vida. Em vez de dádiva, a razão está mais para uma maldição

Você deve conhecer a história do primeiro livro da Bíblia, Gênesis. Deus criou Adão, Eva, e ambos viveram em harmonia com as outras espécies. Conviviam tão bem que se olhássemos um retrato da cena, veríamos que o casal e os demais animais eram indistinguíveis entre si. Deus disse: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás que morrer.” Então a serpente apareceu e deu o conhecimento do bem e do mal à Eva, que deu a Adão, na qual ambos, segundo Deus, “morreram”.

Com o fruto, Adão e Eva ganharam o conhecimento do bem e do mal e souberam discernir o que era bom e mau para eles; o que era bom não poderia ser mau, o que era mau jamais seria bom — é, aqui, a dialética grega e logos ateniense que apesar de nenhum contato com a Bíblia durante as épocas dos principais filósofos, ressoou com a ideia bíblica de que, a partir do ponto que o homem discerniu ser do não ser, ele morreu como simples animal.

Isso nos leva ao paradoxo de Epicuro. Um dos mais famosos exemplos usados por ateístas a fim de provar o absurdo da existência e benevolência de Deus. É observável que existe mal no mundo, mas se Deus é onisciente, aparenta não saber disso, se Ele é onipotente, não faz nada para mudar, e se é benevolente, escolhe quem salvar. A tradição epicurista desse pensamento tem origem na mitologia grega, cujos deuses intervinham quando queriam nos assuntos terrenos e não estavam preocupados com o bem-estar humano. Hoje, no entanto, ateus usam esse argumento para provar o quão paradoxal Deus é, e Ele é, no sentido ilógico que tais danam a se esquecer de que Deus é benévolo e malévolo ao mesmo tempo, é e não é simultaneamente, e está além dos conceitos de bem e mal ou ser e não ser. A dialética do paradoxo falha na razão de que, pensando fora da lógica, e é assim que Deus quer ser pensado — ser ilógico é ruim pela ótica limitada da lógica — Ele é bom e mau ao mesmo tempo; pela lógica, Deus é irônico.

A razão humana impõe limite quando diz que o que é é, e o que não é não é. Imagine você, mãe de um casal, ouvir dos seus filhos que é um absurdo você ser mãe e pai ao mesmo tempo. É como um insulto, e só prova que seus filhos não se desligaram dos conceitos limitantes de pai e mãe.

Por meio da razão o homem matou Deus e, matando Ele, ficou entregue aos próprios demônios. Quando Descartes propõe que, se duvida, só pode estar a existir para poder duvidar e isto é certo na condição de que, se ele pensa, ele existe, se se pensa em Deus, põe-se Deus no terreno da razão por meio da dúvida, então Deus existe ou não existe, contudo se ele é uma coisa quando não é outra jamais se pode conhecê-Lo em sua totalidade — Deus tal como é deixa de ser entendível pela lógica dialética grega, a razão humana, e, como disse Lovecraft, tememos aquilo que não podemos conhecer.

Um cão não limita nem define nada, por isso, talvez, para ele é mais fácil conceber Deus do que para nós. Vive com a tal harmonia com tudo como vivíamos no Éden. Duvido que meu cachorro gostaria de ser eu, mas não sei se eu gostaria de ser meu cachorro só para sofrer sem saber. Só sei que, de acordo com alguns otimistas, o mundo que temos é o paraíso do Éden, mas não sou cínico o suficiente para aceitar isso.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 04/03/2017, em Uncategorized e marcado como , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Essa é uma reflexão fascinante. Já tinha pensando em algo nessas linhas, talvez não com tanta profundidade – a propósito, Ligotti tá na minha lista faz um tempo já, preciso comprar alguma coisa dele. Onde eu “cheguei” – como se desse pra chegar em algum lugar nesse assunto -, foi que a história do ser humano é a da luta contra a natureza. Quanto mais o ser humano se deixa fazer parte da natureza, mais ele se reconhece o animal que é. O problema é que a natureza não se fez com o ser humano em mente, ela não se fez com nada em mente fora uma espécie de equilíbrio e autossuficiência psicopática (vai se livrar daquilo que é frágil ou não se encaixa ou prejudica o andamento das coisas sem pensar duas vezes – até porque natureza não é ser pra levar em consideração essas coisas). Resumindo o baile: é caótica. Num ambiente caótico, o animal ser humano é extremamente mal equipado. Não tem garras ou dentes resistentes, seus instintos tão mais que enferrujados, não aguenta temperaturas muito altas ou muito baixas sem todo o tipo de parafernália antinatural possível e imaginável – desde vestir peles de outros animais até máquinas que esfriam ambientes fechados (e os próprios ambientes fechados são, em sua maioria, antinaturais). Acho que é por isso que o ser humano olha pro cachorro, olha pra si mesmo (e todas as abstrações e torturas que nós inventamos pra nós mesmos e batizamos de “vida real”) e escolhe a si mesmo. E aguenta a si mesmo e os outros só por causa da “teoria da administração do terror”, provavelmente.

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    • Assista True Detective. O personagem Rust Cohle pega essa ideia do Ligotti e sintetiza tudo o que falamos aqui: “I think human consciousness is a tragic misstep in evolution.” Tem também o livro Cérebro, mente e cognição de um brasileiro, que fala da problemática da consciência e de que uma teoria da consciência (provavelmente impossível de ser formulada neste século) teria de herdar o mundo, noutros termos, seria a própria teoria de tudo que os físicos buscam. Quanto ao resto, eu deveria ler mais a Bíblia, como uma metáfora para o que a gente já sabe e sente; as pessoas deveriam ler a Bíblia mais como metáfora, não verdade literal nem simples ficção.

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