Cada um no seu quadrado

quadrado

Cedo ou tarde me confrontam com tal pergunta: “Você é ateu?” Pergunta boba, e esconde um recheio de implicações. 

Primeiro, dizem que tenho cara e modos de “crente” pois sou calmo, tímido, e evito deixar-me levar pelo momento; segundo, convivendo comigo nota-se de mim uma aura de ceticismo emanando quanto a verdades do senso comum — que, diga-se de passagem, vem mais da desconfiança cínica no mundo e na maneira de entendê-lo do que mera vontade de racionalizar tudo — e isto pode sinalizar, dependendo de com quem convivo, um ateísmo passivo. Cara e jeito de crente, porém ateu: tanta contradição numa pessoa só… só pode ser humano.

“Não. Eu acredito na existência de Deus.” respondo, sempre, e quando falo isso é porque antecedentemente já perguntaram “Você é da igreja?” e retruquei “Já fui.” Disposto a explicar como se deu a minha saída, o pessoal teme transformar o papo num interrogatório e para me definir de vez falam “Então você é ateu, satanista, agnóstico, espírita, macumbeiro, pagão, mórmon, maçom?” Mentira. Para o brasileiro médio, de duas, só uma: ou o cara é cristão, ou ele é ateu.

Bom seria contar o que me aconteceu, mas não conto. Quem me lê pode estar a par do que vou contar, sendo ele um dos protagonistas da narrativa. Portanto, conto uma anedota, uma com aplicação universal que serve pra qualquer experiência individual.

Tal anedota é a história do homem racional que, a tudo que ele entendia enquadrava no seu quadrado, e o desentendido deixava de lado. Tentou tornar poliedros em quadrados mas triângulos, hexaedros, retângulos e losangos estavam fora de seu alcance inteligível, exceto o círculo — o círculo ele convertia em quadrado. O restante ele temia, Inequadráveis!, e só os círculos e quadrados eram-lhe enquadráveis. Enquadráveis e inequadráveis: nada além disso, nem meio termo. Era ou um ou outro.

Num dia pacato esse homem se esbarra com um poliedro até então sem igual: círculo, quadrado, triângulo, os três ao mesmo tempo; tomava em si a aura de quadrado, braços e pernas de triângulo, e era um círculo, perfeito para encaixar no seu quadrado. Enquadrável como círculo e quadrado, o triângulo pincelava a contradição que nem os egípcios saberiam desmontar. Incapaz de usar a racionabilidade, usou a sociabilidade flexível e rotulou tal figura inequadrável, deixando-a pra lá.

Por muito tempo conviveu com essa contradição. Tentou esquecê-la, e quanto mais esforços fazia, mais concluía que seu quadrado deveria ser triângulo. Enquadrava aqui, convertia ali, foi tarde na vida que se deparou novamente com o círculo-quadrado-triângulo. O homem, desta vez usando da razão, dividiu um por três e desmontou a figura pondo o quadrado no quadrado, o círculo moldado, e o triângulo deixou de lado. Vagou no mundo a ver as formas inequadráveis e repensando se não se esquecera de algo. Olhou a terra e viu que não sobrou um círculo ou quadrado. Já no seu fim, vendo dezenas de triângulos vagando ao seu lado, imaginou se algum deles era o pedaço inequadrável da figura estranha. Sentiu que os triângulos e todas as demais formas olhavam e falavam com ele, sucumbindo a uma avalanche de perguntas como “O triângulo era quadrado e eu não sabia? Todas as formas restantes são pedaços dos quadrados incompletos que enquadrei? Como converter o triângulo em círculo ou quadrado e pô-lo aqui? Algum dia caberá neste meu quadrado triângulos, losangos, retângulos e mais poliedros?”

Esgotou-se e morreu, consumido pela falta de resposta à contradição. No instante da sua morte esforçou-se para se enfiar no quadrado. Porém, ele mesmo um dodecaedro, não coube no próprio quadrado.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 26/03/2017, em Crônica e marcado como , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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