“A verdade vos libertará”

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Se tivesse de ser professor, seria de Filosofia. A matéria mais difícil de ensinar; como explicar que a Filosofia estuda isto e aquilo igual se diz que Química ou Física estudam os átomos, suas reações e movimentos na natureza? Diferente da Matemática, História ou Química, Filosofia é o único estudo com verbo: filosofar. Para entender o que faz a Filosofia é preciso saber o que faz quem filosofa e quais áreas da natureza ele está preocupado em explicar. 

Há dois professores numa sala de aula: um de Física, outro de Filosofia. O de Física explica, A física estuda o movimento dos corpos no mundo e a natureza desses movimentos, Como assim natureza, pergunta um aluno. A condição que esses movimentos são feitos no mundo, por exemplo, uma bola só rola se abandonar sua inércia ao sofrer atrito suficiente de uma força, o aluno acena com a cabeça e o professor segue, Pois inércia, força, atrito, aceleração e velocidade são conceitos distintos um do outro, e juntos com tempo e distância explicam o básico da movimentação dos corpos. A filosofia estuda a natureza como ela é, diz o de Filosofia. Isto não é o que todas as outras matérias já fazem, questiona o aluno — afinal, a natureza é o que é. O professor de Filosofia então pede pro aluno pegar o lápis dele e falar o que é o lápis, Um lápis, responde. O professor aponta para a borracha na ponta do lápis e indaga, Isso também é o lápis, indica o grafite e questiona, Isso também é o lápis? Teimoso e incomodado o aluno diz que sim, tudo aquilo é o lápis, e o professor, sorrindo filosoficamente, Por quê? Mudo, o aluno pensa, fita o lápis, olha ao redor e vê os lápis dos colegas, tão diferentes nas cores e formato, e responde, Não sei, professor. Você não sabe, quer saber, acha que sabe mas é vaidoso demais para renegar isso. Tem vontade de aprender de verdade, pergunta o professor, e quando o aluno fala um “sim” tímido é porque não está preparado para lutar com monstros sem medo de virar um. É na jornada autêntica dessa investigação incessante do saber a verdade onde se acha aquilo que chamamos como o estudo da Filosofia.

Filosofia é os faunos perseguindo as ninfas intocáveis, o ato próprio de correr atrás delas, tombar, cair, ser atingido pelos raios e espadas dos deuses, contemplar e desejar as suas belezas, um deleite para os amantes. Como ensinar um homem a ser fauno? Como obrigar alguém a amar? É impossível e infelizmente isso é feito nas escolas. O amor, seja para o que for, vem de dentro para fora. Tal como amar o dom de pensar está dentro de nós a ser despertado, usado e aperfeiçoado. Quem filosofa pensa, e pensar está para desejar saber, quem quer saber quer a verdade sobre todas as coisas ainda que inalcançável, mas se alcançada, nenhum prazer no mundo se iguala àquele que sabe a verdade. Por ora só sabemos que não sabemos a verdade.

Imagine que uma amiga mente a outra. A amiga oculta suas relações com o namorado da outra, confunde, esconde e engana para manter isso sob segredo, e o namorado vira cúmplice deste crime onde todos saem ganhando. Um dia alguém diz para a outra que seu namorado está a traí-la. Pasmada, desacredita, nem passa na sua mente a ideia de que seja com sua amiga, e o semeador daquela discórdia, futuro conflito, é tido como um tramoia. Ela ignora, vive em parcimônia, se encontra com o namorado constantemente e confia intimidades à amiga. A ignorância dá benção na paz, ninguém se machuca, pois o que os olhos não veem o coração não sente.

Ai daquela que, num mundo paralelo, sai da zona de conforto, investiga, deseja saber o que houve, a verdade. Acaba a amizade, desfaz o namoro, talvez se rebaixe ou machuque no processo, mas saberá a verdade. E se ela se feriu, perdeu coisas e nada é como antes, por que quis a verdade? Poderia ter ficado em paz vivendo na ignorância sem se sujeitar; apesar da traição, ainda teria sua amiga e seu namorado. Por quê?

Ardia nela a vontade pela verdade. Certas pessoas lutam por algo que as põem a perder tudo, o que mais valem pra elas agora e depois; o que se consegue é de um bem maior que a própria vida. A verdade foi mais que a amizade, mais que o namorado, mais importante que a integridade pessoal. Ela descobriu ser seu namorado infiel, sua amiga uma cobra e, a partir deste conhecimento, partirá para outra, renovada, procurando alguém que seja melhor para si, abandonando o que antes era perigoso, limitante e insatisfatório. Contudo, se a jornada finda é só uma novela policial. Continuando a pesquisa descobrirá por que seu namorado a traiu, por que sua amiga mentiu, esta e aquela coisa, efeito de tal e tal causa, reconhecendo o crime mas sem enxergar culpados, pois todos padecem das mesmas dores e estão sujeitos a iguais necessidades, assim como ela que tinha uma chama dentro de si e a urgência de pô-la pra fora, queimou o mundo velho e das cinzas construiu um novo.

É isto que a verdade nos traz: novos olhares, precisamente novas perguntas. Existem mais verdades além desta? Será que esta verdade é de fato uma verdade? O que é verdade? Como saber o que é verdade? Como saber que eu sei? Por que eu sei? Por que eu? Por quê?

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 29/04/2017, em Crônica e marcado como , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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