Mito do Inferno

Ali, muito, quase tudo, era vermelho; exceto o rio de fogo cujas vezes cuspia pro alto e o homem que conversava com o demônio; bom, ele não era, mas gradativamente ficava vermelho conforme os dois desciam numa estrada em círculo.

Com as solas do pé direto no chão quente era como a rã: no começo sentia que nem pisar em brasa, depois o calor diminuiu e se acostumou à temperatura alta. Igual na parábola da rã na panela morrera por uma razão que ainda desconhecia, e só de recordar causava uma dor na mente, porém, tal como a rã, estava morto ou numa justaposição entre morto e consciente que lho impedia de morrer novamente. O demônio, tão incomum quanto tudo o mais, disse tê-lo visto no rio de fogo quando chegou ali, dormindo; ao acordar, a ver suas roupas intactas e sem queimaduras, perguntou o porquê, e o demônio respondeu com um sorriso:

— Magia.

Lá havia pessoas iguais ele. Gente que enfiavam espetos em si numa ação bastante vaidosa pois não surtia efeito em seus corpos, e como o demônio havia lho dito, era impossível morrer naquele lugar. Havia gritos mais de desespero que de dor. Quanto ao demônio o homem tinha lá as suas dúvidas.

— Que foi? Queria algum Virgílio? Me perdoe…

Era amigável. Tal como os demais, todo vermelho, com cerca de trinta dentes no total, só caninos; a narina avantajada, orelhas pontudas, tinha o corpo e a estatura de uma criança, menos a cara, cuja está além do descrever; possuía os pés longos e achatados, e diferente de alguns de seus irmãos não tinha do quadril para baixo pelos e patas de bode, nem chifres. Um detalhe o diferia de todos os mais: suas mãos eram furadas. Sobre isso:

— Porque tudo o que está na minha mão, cai.

Desciam; cá e acolá o demônio parava o homem, apontava pra baixo nalgum bando de diabinhos assaltando pessoas e explicava:

— Vê lá, aquela raça? Talvez você conheça ou lembra de algo…

Vários demônios corriam atrás de uma jovem num desfiladeiro. Por um momento pareceu-lhe como um sonho, onde a moça movimentava as pernas mas não tomava distância dos demônios, ao contrário, algo a puxava para eles. Quando a pegaram dois ou três subiram em cima dela, a prenderam no chão, e um enfiou as unhas na sua face, a arrancar o rosto da mulher.

— Meu…
— Surpreso? Foi Deus quem nos mandou fazer isso.
— Por quê? O que ela fez?

Outros corriam pelos lados do desfiladeiro, e assim como com a jovem deslizavam e caíam de volta até os demônios.

— É melhor ver do que dizer…

Colocavam os rostos arrancados na própria cara e imitavam os humanos; os demônios cantavam e dançavam, atuando os momentos mais importantes e imbecis daquelas vidas.

A dupla continuou a descida e na estrada se depararam com um grupo de pessoas correndo em sentido oposto. Pareciam recém-despertados de um pesadelo. Quando viram o demônio das mãos furadas pararam e o atacaram. Empunhavam armas rudimentares, como pedras afiadas ou pedaços de ossos pontiagudos; tentaram acertá-lo, porém o mão-furada ergueu as mãos; os golpes passaram através dos furos e logo os braços daquelas pessoas caíam no chão. Ainda sem os membros perseveraram sob desespero, e o demônio se esquivou agilmente dos ataques, revidando porradas que tal qual as suas mãos abriram enormes buracos no meio das barrigas deles.

— Esse pessoal não respeita a lei lá de cima nem a daqui. — comentou — Mas é como eu falei, tudo que está na minha mão cai.

Permaneceram andando. O homem, incerto das ações e o alcance do poder do demônio, prosseguia. O cenário revelava pouco mas percebera e pensara, a rir mais pra dentro que pra fora, a ironia de que havia no inferno mais gente do que demônios. No entanto, essa gente era subjugada pela crueldade demoníaca e parecia indefesa contra seus truques estranhos. Às vezes vislumbrava pessoas que conseguiam fugir.

Passado algum tempo que andavam em círculos, ainda a descer, tossindo e limpando a garganta o homem tenta tirar um assombro da mente:

— …Pra onde nós estamos indo?
— Ah… Você quer mesmo saber?
— …Estamos há… sei lá quanto tempo descendo. O que é que tem lá embaixo?
Foi inútil.
— Se quer tanto saber, vai lá e vê.

Saiu brevemente do caminho, olhou pra baixo, e não soube definir o que era aquilo que viu.

— O que é aquilo lá?
— Ainda não posso te dizer.
— Por que não? …Ah esquece… Lá é o fim? É lá que vai tudo acabar?
— Não. É o começo. Eu vou te levar para um lugar feito pra você, que nem os outros. Calhou de esse lugar ficar no final da nossa jornada.
— Eu… Fiz algo errado? Cometi algum crime?
— Não se lembra?
— Um pouco. Quase nada, na realidade. Mas eu lembro que quando era vivo nunca violei a lei. E pode ver pela minha índole que eu—
— É o que todos falam. Se está aqui, é por algum motivo.
— Então está me dizendo que não tem jeito?
— Não.
— Não existe saída?
— Sabia que é um humano de muitas perguntas? Se tivesse, até o Diabo já teria saído.
Realmente não tem saída?
— Eu não sei.

Por fim chegavam ao destino. Estavam numa planície vermelha, abaixo era o chamado “rio de fogo”, e variados seres como o seu suposto amigo ao lado haviam lá. Singulares, mas com características faciais semelhantes; do quadril abaixo uns eram antropomórficos, outros, os pelos púbicos se alastravam até o par de patas equídeas. Enquanto o demônio da mão furada não tem chifres, estes são proeminentes nos demais, sendo às vezes curvos ou em forma de espiral, menos em um que sentava num enorme bloco de rocha a apoiar o queixo nos nós dos dedos. Deve-se dizer, seus chifres eram tão pequenos comparados aos outros que nem pareciam coroas.

— Aqui, vê… Ai, não dá pra ver mas dá pra constatar que…

Haviam pessoas presas em cadeiras de pedra. Pouco antes viu-as vivazes em fugir, agora tinha ali gente que parecia morta por dentro. Pressentia algo ruim.

— Estão sonhando. Pra cada uma dessas pessoas tem um grupo de demônios. É uma magia conjunta, senão seria difícil para nós, pois sabe o que a gente mete nas suas cabeças? Sonho. É um sonho de estarem vivos sem saber que já estão no inferno. Quero dizer, pelo menos até um momento.
— …
— Eu não deveria te contar isso. Não, não vou. Digo, não deveria. Mas você foi um homem diferente de todos os que já vi até aqui… Às vezes entramos nesses sonhos e falamos com o sonhador, só para brincar. É num ponto interessante que isso acontece. Dizemos que estão vivendo algo que se repetiu antes e se repetirá de novo, pra sempre. Em algum ponto dessas vidas uma coisa dá errado e vocês se desesperam pondo tudo a perder. Na urgência de acabar com o sofrimento se matam; e isto é que é engraçado. Tudo faz o suicídio; é uma comédia.
— Pra quê, se já estamos no inferno?
— Porque queremos criar pesadelos, e pra fazê-los tem que sonhar primeiro. O pesadelo é resultado de um sonho que deu errado.

Se aproximava de uma cadeira de pedra onde demônios o esperavam. O mão-furada os afastou, como a dizer que só ele bastava. Ofereceu o assento ao homem, estendendo a mão. O homem não sentou.

— Sente-se.
— Por quê? E-eu não fui hipócrita.
— Sente-se por favor.
— Você mesmo falou, nunca violei nenhuma lei, nunca matei ninguém.
— É a vontade de Deus, amigo.
— Então… Por que eu estou num inferno?

Quando o demônio ergueu sua mão até o homem este se moveu bruscamente, abrupto; empurrou a criatura no rio de fogo e enquanto ela caía pôs-se a correr. Os demais se ocupavam com seus sonhadores, visto que aquilo exigia deles, mas outros demônios interromperam suas magias e correram atrás do homem. Ele voltou todo o caminho na esperança de que se no início da estrada estava a suposta entrada, haveria alguma saída. Na estrada deparou com pessoas que morreram e outras que fugiram; ao verem-no a correr com os demônios atrás, correram também às costas destes. O homem tombou no meio do caminho e cairia no rio de fogo se não fosse o rápido agarrar-se à beirada da estrada, ao passo que os demônios lho alcançavam. Foi coberto pela sombra de um ser alado, ouvindo bateres de asas.

— Pega na minha mão! — disse uma voz amigável também familiar.

Assim como no início tudo, era muito estranho… Olhou os demônios que o perseguiam serem atacados e dominados pelas pessoas, que por sua vez eram dominadas por uma revolta. Para cada demônio havia três ou quatro humanos. O homem olhou em torno e ainda viu, agora com nitidez, gente a fugir e correr dos truques diabólicos. Era um pandemônio que fora posto de ponta cabeça; quem era demônio e quem era humano ficou difícil dizer.

— Segura a minha mão. — disse o mão-furada estendendo as palmas.

Para a surpresa e decepção do demônio, o homem largou a beirada da estrada e deixou-se cair.

— Ah… Merda. Esqueci que este lugar é o sonho de qualquer suicida. — suspirou.

De uma hora para outra o inferno tinha ficado mais… infernal. Os humanos que conseguiram escapar de seus demônios corriam em hordas atrás das pobres criaturas que agora faziam expressões inéditas; estavam tão furiosos que suas medidas de contra-ataque eram desumanas. Alguns de seus irmãos desafiavam esses humanos, vermelhíssimos pelo calor, mas em vão pois superavam seus truques mágicos pela simples força bruta. Vários caíam no rio de fogo empurrados ou tentando escapar. Viu partes decepadas dos corpos demoníacos serem jogadas pro alto e visto que eles não tinham grito de dor, só se ouvia o brado catártico dos humanos. Alguns pegavam essas partes, rostos ou chifres, e colocavam na própria cara que fora arrancada; eram demônios castigando demônios.

Sentado estava o diabo, incomodado e meio diferente da figura que aparecera antes; procurava algo entre os destroços que se formavam; quando achou o que queria, levou até a cabeça um par pequeno de chifres, diminutos, pra ninguém dizer que era um rei sem coroa onde cidadãos vestiam as suas maiores que a dele.

Testemunhando toda essa parafernália, o único demônio de mão furada, meio assustado e meio esclarecido, disse, com esperança vã:

— Hágase el milagro y hágalo el diablo.

Anúncios

Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 21/05/2017, em Crônica e marcado como , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: