Essa coisa chamada tempo

Existem escritores com um volume de obras conhecidas, obscuras e as que ainda estamos por conhecer, e os escritores que escreveram uma novela e dois romances meio novela, como Kafka, Juan Rulfo, ou até Joyce, dos quais toda a sua obra é isso, cinco, quatro ou três livros. Eu não quero ser como eles, nenhum deles. Mas também não quero ser como um Robert A. Heinlein, Philip K. Dick, ou meio que o Alan Moore, cujo têm uma obra extensa que, no entanto, te faz perguntar: vale a pena ler tudo isso?  

Com o pouco que a gente conhece das coleções de contos do Machado ou do Tchekhov, fico meio chocado quando dizem que um escreveu duzentos contos, o outro mais de quatrocentos. Você pega a maior antologia que há de contos do Machado e nela só tem 50 textos. Que fique bem enfatizado: Machado de Assis, um dos maiores escritores brasileiros e da língua portuguesa, com uma qualidade literária quase absoluta e, mais de 200 textos na obra, temos disponíveis em edição (física) apenas ¼ de tudo que ele produziu. Aí vem e me chega o Sabino falando que o Machado também escreveu mais de mil crônicas. Se me permite, afinal de contas, onde foi parar toda essa porra?

Se você é um cara do séc. XIX, especificamente um escritor, e vive da escrita, escrever com uma pena molhada em tinta provavelmente não vai te levar muito longe. Sejamos realistas: o primeiro obstáculo será a dor na sua mão; a menos que você seja um asceta celibatário masoquista, ou esteja sob efeito de álcool, é meio difícil seguir escrevendo algo de 300, 400 ou 700 páginas como um Moby Dick sem destruir sua mão no processo. “Ah, mas Tolstói escreveu Guerra e Paz”. — Tolstói era maluco! Não vê aquela barba dele? Ela provavelmente escrevia pra ele quando a mão começava a doer.

O segundo obstáculo é que a quantidade de papel que tem para escrever é proporcional à quantidade de dinheiro que tem para comprá-lo. Eu escrevo à mão e fiz as contas: aqui no Brasil, com a linha de cadernos Kajoma (200mm x 275mm), 4 folhas que são 8 páginas dá cerca de 2.000 palavras, dependendo do número de diálogos que ocupam uma linha por travessão ou intervalo de parágrafos. Normalmente um Kajoma de no máximo 96 folhas (192 páginas, e isto mal é um romance, logo mostro o porquê) custa em média R$10,00, mas pra nossa conveniência e pressupondo que no séc. XIX papel não era abundante como é hoje, vamos colocar que custa R$20,00. Se for assim, pra cada intervalo de 4 folhas no total de 96 dá 24, que multiplicando por 2.000, ou seja, 24 vezes 2.000, dá 48.000. Geralmente um livro padrão tem 50.000 palavras, que dá entre 200 páginas. Se o seu objetivo for escrever 300, 400, 800 páginas de um maldito livro, vá por mim, seja abastado. Tudo isto, claro, a grosso modo, pois existe uma caralhada de variáveis: o tamanho da sua letra, o comprimento do caderno, a formatação e fonte que será usada quando passar para o computador (e, aqui, páginas e mais páginas não são nada, pois do caderno pro PC tudo muda, e parece que você escreveu menos do que pretendia) e sem falar dos rascunhos e afins que podem tomar algumas páginas — o certo, na verdade, seria comprar um caderno separado só para rascunho, pois se você for caprichoso e perfeccionista, aí que ferrou mesmo.

Agora, uma conta interessante seria ver quantos cadernos você precisaria e quanto gastaria neles se quisesse escrever com a pena uma saga que nem As Crônicas de Gelo e Fogo, que no momento deste texto ainda nem lançou o sexto de sete livros. Pelos meus cálculos — considerando os valores escritos acima — seria preciso desmatar a Amazônia inteira. Brinco — seriam necessários 37 Kajomas de 96 folhas, que daria R$740,00.

Já ia me esquecendo dele, o terceiro obstáculo: tempo. Essa coisa de “tempo é dinheiro” só surgiu na nossa época onde, literalmente, o tempo que gastamos nalgum produto virtual dá dinheiro aos seus criadores. Como no séc. XIX não existia internet e tampouco computador, havia menos distração e, portanto, mais tempo para escrever uma obra — ou assim parece. Nós seres humanos somos criaturas diurnas. Sem lâmpada e sem eletricidade, você teria que escrever de preferência pela manhã até a tarde e deixar a noite para tarefas mais passivas. Só que você é como um Machado, que escreve 200 contos pra cá, 1.000 crônicas pra lá, fora os poemas, os romances, as peças, as críticas, as traduções e tudo mais que deve te manter um bom tempo acordado. Pra isso você vai precisar de uma vela, mas cuidado: seria uma catástrofe sem precedentes caso os papéis de sua obra pegassem fogo. Sem perder tempo e sem gastar luz, você ia escrever como tantos outros já escreveram. Porém quantos mais enlouqueceram com a fusão de solidão com escuridão? Quantos mais sobreviveram até o fim de seus dias, que não eram muitos, vencendo uma doença aqui e outra ali até completarem as suas obras? Dois séculos atrás a média de expectativa de vida das pessoas era de 43 anos. Tchekhov, que era médico, foi um desses autores que morreu novo, com 44 anos. Em 44 anos Tchekhov escreveu mais de 400 contos, não era pra menos: se não se há tempo como se há hoje, você, escritor do séc. XIX que, como o Machado, escreve à mão, deve levar esse livro a cabo logo, pois existe autor defunto, mas não defunto autor.

Levando todas essas coisas em consideração me faz questionar: o que é melhor, escrever obras grandiosas mas poucas, ou escrever muitas mais-ou-menos, algumas boas e uma ou duas grandiosas? O leitor vai achar isso anticlimático, mas eu só estou aqui pra semear a reflexão. Cada um sabe o que é melhor pra si, e a resposta desse questionamento é de pura subjetividade. Dizem — e isso todo mundo sabe — que a vida é finita e a morte é a única certeza; isto é um fato que não mudou de duzentos anos atrás pra cá. Outro que também não mudou mas não nos damos conta é de que mesmo o prospecto de longevidade sendo maior, a vida continua sendo curta, finita e curta. Sequer li alguns dos autores que citei no início deste texto, estou cada vez mais ficando velho e, enquanto ano após ano surgem coisas novas, ainda não joguei os jogos que quero jogar.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 11/06/2017, em Crônica e marcado como , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Muitos manuscritos do Machado de Assis foram em papel fornecido pela Academia Brasileira… ou seja, nem sempre tinha a despesa com o papel! Quanto ao tempo, eles tinha tempo; bastante tempo. Nós é que nos ocupamos demais com séries, livros, internet, TV, lutas, esportes, trabalho, família, animais, política, futebol, religião… etc.

    Ótimo texto para reflexão!

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