Breve aula de literatura

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“Este é o momento/ em que os cinco sentidos se rebelam/ eles escapariam de bom grado/ como ratos de um navio que afunda”, são versos do poema Cinco homens do poeta polonês Zbigniew Herbert, que continua:

antes que a bala chegue a seu destino
o olho perceberá o voo do projétil
o ouvido registrará o sussurro afiado

as narinas se encherão de fumaça cáustica
uma pétala de sangue roçará o palato
o toque se contrairá e depois afrouxará
agora jazem no chão
cobertos de sombra até os olhos
o pelotão se afasta
suas abotoaduras
e capacetes de aço
estão mais vivos
que os homens prostrados junto ao muro

E o poema segue por mais versos, mas paro por aqui. Basta “as narinas se encherão de fumaça cáustica” e “uma pétala de sangue roçará o palato”. Sem dúvida é uma aula de ponto de vista sobre como fazer o leitor vivenciar o que o personagem vive; neste caso, o momento em que a arma é disparada, “o momento em que os cinco sentidos se rebelam.” 

Lido esse poema reli-o mais vezes até entender porque tinha gostado e quando a eureca veio, que no bom e desavergonhado português saiu como um tímido “Porra…”, entendi o que faz esse poema ser tão bom: o poeta se apoia nas percepções sensoriais, visão, audição, olfato, paladar e tato — que andam juntos —, nesta ordem, a nos transportar para o lugar onde cinco homens serão executados, formando uma imagem que é ao mesmo tempo clara, concreta e sensual.

Em um texto literário o autor tenderá às descrições oculares e auditivas de seu mundo fictício, a usar verbos que expressam as ações visuais e, às vezes, adjetivos que mostram os vários tons dos diálogos entre os personagens. Escritores amadores constroem o seu mundo fictício só na experiência auditiva e visual, ou, noutras palavras, audiovisual, algo que um filme ou jogo poderiam lidar melhor. Existem cinco sentidos, cinco formas de perceber o mundo. Será mais consistente com a percepção audiovisual do personagem se ele só tiver olhos e ouvidos, sem boca, sensibilidade tátil, língua ou nariz. Nesse caso ou ele é um ser mitológico, ou um alienígena.

Por exemplo: n’O Primo Basílio de Eça de Queirós o personagem Jorge procura a esposa, Luísa, que não está onde ela deveria. Ele “foi dar com ela no quarto dos engomados, despenteada, em roupão de manhã, passando roupa, muito aplicada e muito desconsolada”. Ao vê-la Jorge fala:

— Tu estás a engomar?

Com essa fala dá para inferir algumas coisas da cena e seu contexto. Jorge está surpreso em ver Luísa engomando pois no contexto da história é algo que ela, uma aristocrata, não faz e nem precisa fazer. Porém, Eça detalha que Jorge não falou “Tu estás a engomar?” de qualquer jeito; ele exclamou. O texto original é “Tu estás a engomar? — exclamou.”; Jorge está surpreso e indignado que sua esposa, uma senhora, faz com orgulho o trabalho da ama. É um artifício usado pelo escritor — e bons escritores no geral — para nos fazer empatizar com o personagem, tendo a finalidade de em determinados casos sentirmos a dor que lhe dói. Isto se dá na concepção da cena que construímos na mente: Eça nos transporta para a casa em si, procuramos Luísa junto com Jorge e quando a encontramos, pasmos como ele, ouvimos o “Tu estás a engomar?” num tom de exclamação que transparece o estado de Jorge, cujo é, em palavras grosseiras, puto, mas se contendo. A falta do “exclamou”, uma palavra relevante e decisiva para esse worldbuilding psicológico empobreceu o personagem, a tensão da cena, a concepção dela na mente do leitor. Pois é, um simples verbo.

A literatura é das artes a que te permite reconstruir mundos e viver várias vidas sem ter de ser nenhuma delas. Com um livro, o único acesso que você tem a esse mundo criado pelo escritor é a partir da leitura dessas palavras, que nada mais são que tintas na página onde a sua imersão estará comprometida dependendo do silêncio ambiente. Então quanto menos palavras perceptivas da sensação de se estar nesse mundo novo mais pobre será a sua vivência dele.

Cada palavra na leitura do leitor é cada traçado no quadro do pintor. No minimalismo existe muita sugestão com poucas palavras, por exemplo; não quer dizer que seja um estilo pobre, na verdade é o estilo literário onde a regra “cada palavra conta” se faz extrema. Um filme ou um jogo apelam de sobremaneira somente à visão e à audição. Se o autor for bom, o leitor, mais do que ver o personagem e percebê-lo, será como ele, viverá a vida dele — ou como no poema do Zbigniew, morrerá a morte dele.

Mas podemos ir mais fundo.

Se o enredo de um livro se passa na consciência cujo montamos palavra por palavra com nossa concepção sensorial, o autor é — perdoe o clichê — um deus que dependendo dos detalhes entregues podemos viver seu mundo feito de palavras tão vividamente como vivemos o mundo real.

Então se vive realisticamente um mundo fictício, a depender do nível de consciência e os detalhes usados para se estar nele ou senti-lo. Talvez o mundo real seja a mais elaborada de todas essas concepções conscientes. É incerto se a realidade externa inexiste ou existe tal qual a vemos com nossos olhos, pois o cérebro a concebe de tão imediato que nem sentimos coligar áreas do encéfalo como o córtex, hipocampo, a região de Wernicke, neurônios aferentes e uma rede neural manipuladora de imagens para formar o “real”. Interrompendo essa concepção ao dormir ou desmaiar os sentidos desativam e o mundo some. Já não há cheiros nem sons percebidos durante o sono, e dormir profundamente num chão frio e duro proporciona um descanso tão bom quanto dormir com um colchão de penas. A dor é sentida ao despertar, como um computador defeituoso, cujo os sinais do defeito, até então despercebidos, só se mostram ao ligá-lo.

Isso é um flerte com a Teoria das Ideias, o Mito da Caverna, onde as ideias acessadas pelas palavras são as resultantes de tudo isso que sentimos: a ideia de dor, a ideia de cadeira — por mais absurdo que a imagem disso seja a um ser externo — ou a ideia de picanha de churrasco, afinal, reproduza isso na sua mente… Vê como sente o gosto da carne na boca, mesmo ela não estando aí?

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 24/06/2017, em Crônica e marcado como , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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