Primeiras Impressões: Calexit

calexit

Antes de iniciarmos o review propriamente dito vale entrar em mais detalhes sobre o título da obra, Calexit, e explicar um pouco do contexto sobe o qual essa ficção especulativa foi construída. Lembrando que como crítico e não cidadão estadunidense eu faço esse texto com o intuito de julgar apenas a obra e não me posiciono de forma política. Por isso peço que evitem discussões fervorosas sobre o tema nos comentários.

Calexit é um dos muitos nomes populares dados a Yes California Independence Campaign, ou “SIM. Campanha por uma Califórnia Independente. ” Uma campanha que visa a secessão, ou separação se preferir, do estado da Califórnia do restante da região estadunidense. O nome original “Yes” vem do movimento “Yes Scotland” que visa a separação da Escócia do Reino Unido, enquanto o popular “Calexit” é derivado do mais conhecido “Brexit”, o qual separou o Reino Unido da União Europeia.

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Então entramos no cenário do HQ, onde Donald Trump é eleito pela segunda vez e o pais se encontra numa espécie de guerra civil em determinados pontos, incluindo a já mencionada California. Tal ideia vem de Trump ter uma posição radical quanto a imigrantes em seu país, que combinado ao estado da California ser muito liberal, a existência do já mencionado “Yes” e de o atual presidente ter perdido nos votos da região, acaba por criar a ideia de conflito mencionado.

Como este surge realmente? Bem, reforço que se trata de uma ficção especulativa e acrescento que não sei discernir o que poderia ou não vir a ocorrer durante um mandato político, pois desconheço a área, principalmente se tratando de um governo estrangeiro. Mas pelo descrito nas páginas do HQ o presidente e posto como figura suprema, representando todo um pais como praticamente um soberano. Um avatar do governo eu diria. E como tal ele bombardeia, não de forma literal, o estado da Califórnia, com proibições bruscas, como corte do suplemento de eletricidade, vigia constante e revogação de leis.

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Assim se cria um ambiente de ficção moderno, tendencioso, que deve ser alterado, como bem afirma o autor Matteo Pizzolo, no mesmo ritmo que a história é feita, pois são acontecimentos que se dão no presente que geram inspiração para o quadrinho, e existe ainda uma necessidade de se manter como especulação. Não por querer se manter fora da controvérsia política, mas por querer criar algo autoral sem uma inclinação tão óbvia. O que de fato ocorre no primeiro capítulo, que fora sua introdução se mostra algo que diverge muito da realidade, apesar de assustar alguns.

A verdade e que o futuro aqui descrito, detalhe por detalhe, e extremamente improvável, mas ainda possui um vínculo muito forte com o atual, e isso que cria todo um charme. É uma ficção de um tempo muito recente, apesar da utilização de maquinário futurista vez ou outra. E que talvez seja um reforço para a ideia de ser autoral ou uma tentativa de divergência quanto a ser “muito real”.

Possuindo dois núcleos distintos o quadrinho apresenta poucos personagens, o que na verdade contribui para o enredo, sendo três deles decorrentes. Zora, Jamil e Rossie. E por mais que vocês devam estar pensando que este é um HQ world driven, o trio é quem rouba a cena, deixando realmente pouco espaço para a construção do mundo, fora narrativa e ações, assim focando fortemente nos diálogos e criando vínculos, tanto com principais como secundários.

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Você realmente se importa com o mais ínfimo dos personagens, seja de forma positiva ou negativa. Eles te atraem ou geram repulsa, e o autor se utiliza muito bem disso. Dos três citados diria que Zora e o coringa. A carta branca que ainda falta ser preenchida, e que exerce um papel maior em criar as situações e explicar o mundo por meio de suas ações e encontros do que qualquer outra coisa. Ela e a face tanto de quem sofre como de quem se rebela. Já Jamil e o típico personagem que quer se meter com ninguém, mas sempre faz merda. Provocativo, sacana, daquele tipo que vive mesmo das ruas. Cara safo, e de personalidade absolutamente cativante, sendo o melhor do trio. E por fim temos o padre Rossie. Vilão absoluto. Psicopata. Sério, qualquer adjetivo que sirva para mostrar o quão o cara é um filho da puta cabe aqui como uma luva, e ainda assim cruel ganha de todos. Nem sua aparência calma e comportamento sutil escondem a sede por sangue desse autointitulado “monstro”.

Sei que é estranho eu não ter mencionado o plot ainda, me focando muito em “como o mundo foi construído” e em “estes são os personagens”, pois a real é que este é o capítulo 1 em suas gloriosas 52 páginas. Tudo se resume a uma garota fugindo, um cara que quer matar ela e esse outro… que so quer grana, sabe? Por isso é tão importante eu colocar aqueles outros elementos antes, pois é o que faz o leitor seguir em frente. O mais perto que chegamos de um desenvolvimento e o final, onde Jamil recebe a proposta de transportar Zora, o que apenas une os dois núcleos e da dica de uma possível road trip.

Porem a cola que une tudo isso certamente e a fantástica arte de Amancay Nahuelpan, que se mostra sempre em sintonia com o roteiro, assim apresentando sequências de ação incríveis e até mesmo experimentando quando tem a liberdade em alguns quadros inusitados. Algo digital, visível nos retoques, efeitos e coloração, que dá a obra um tom mais que perfeito para acompanhar o seu enredo moderno. Um detalhe que também chama atenção é a clara inspiração em figuras reais para os personagens, que acaba dando um ar meio que de filme a obra.

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Quanto a mim, o que mais me deixou animado foi o dialogo inicial entre Jamil e um guarda, que demonstra um humor negro fantástico, seta bem o clima, entregando a parte do sci-fi, da depressão e do gore. Além de dar uma aula de como se criar bons personagens. Ah, e o robô pássaro, Liveware? Totalmente desnecessário, mas ainda assim um toque de gênio. XD Lore, piadas e remoção de cenas inúteis num único ponto.

Como podem ver Calexit é polêmico, interessante, divertido e bem trabalhado. Fica até difícil cair em cima desse primeiro capítulo, e por isso eu recomendo fortemente a leitura. Ignore toda a politicagem. Se quiser até pule as entrevistas e comentários extras, por mais que isso o aliene. Se for so pelo enredo, personagens e arte, cara, vai ter um deleite. Agora se deseja mesmo cair de cabeça na parte mais séria, vai fundo também. Ame ou odeie, ainda dou meus parabéns a editora por sempre ter bolas na hora da escolha dos temas.

Calexit é escrito por Matteo Pizzolo (God Killer, Young Terrorists, Occupy Comics) e ilustrado por Amancay Nahuelpan (Clandestino, Young Terrorists, BOY-1). Produzido pela editora Black Mask, e estará disponível para compra (em inglês) através do link na imagem abaixo, a partir do dia 12/07/2017.

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Sobre Zigfrid

Administrador e redator do blog Mangatom. Viciado em games, amante incondicional de quadrinhos e cinéfilo enrustido.

Publicado em 10/07/2017, em On the Nanquim, Primeiras Impressões, Uncategorized e marcado como , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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