Cego de amor

Conforme o rol de experiências a pôr na página termina, esforço-me para imaginar uma cena. As palavras vem difíceis, e mais parece que exponho meu cérebro e o empalo uma espada do que propriamente escrevo. 

Não é mea culpa. A vida é tediosa. Nenhum homem sob o sol viveu consecutivamente dias de se versar sobre. Quem assim fez morreu novo, por motivos imagináveis. Talvez há, hoje, quem assim faça, mas precisa de um escritor fantasma para pôr sua vida na página. Acho que farei isso… Acho que escreverei aqui alguns dias interessantes que um colega viveu.

Vamos chamá-lo de T. Todo dia, T. pegava certo ônibus, e quase todo dia, no mesmo ônibus, ia uma garota que descia junto. Nas primeiras semanas T. ficou a olhá-la, reparando seus trejeitos intimidantes; só de esguelha, disfarçando sua condição stalker. T. é paciente. Mas como uma corda que estica e estica e estica até não dar mais, ele ficou ávido por rebentar e foi falar com ela. Sentou ao seu lado e puxou uma conversa qualquer. Nada de mais.

Esforçado como T. é, conversou até do que não dominava para agradá-la, e quase entregou o jogo, inutilmente, pois a garota ficou blasé, e as pessoas ao redor percebiam isso. Só T. estava em negação. Há tempos não se interessara por uma menina assim, justificando a teimosia e a insistência nela. Detalhe: toda vez que desciam, T. tomava seu caminho, um sentido oposto, e ela ia até uma amiga. Ambas iam conversando, e como tomavam direções diferentes, jamais soube para onde andavam.

T. comentou com alguns colegas, inclusive comigo. Queria que víssemos a garota e saber se concordávamos que ela era bonita. Nunca a vi, mas pela sua descrição, de um cabelo curto até os ombros e muito bem vestida, diz T., com um aparente senso de moda melhor que maior parte das mulheres, achei bem típico dele, que já falara sobre preferir mulheres de corte curto. Ela não era música, dizia, mas se vestia como uma.

Achou ousado demais perguntá-la onde ia todo dia, então fez uma aposta. Ele acompanharia a garota junto da amiga, pra ver até onde caminhavam. Nesse dia, além de ter se ausentado do local onde deveria estar, deu o azar de ter tido gastos maiores que o planejado. As garotas lhe pediram isso e aquilo, e T. as deu, ingênuo como um cão. Parece que no dia seguinte ela o chamou pra mesma coisa, e T., bêbado de paixão, foi. Quando as meninas novamente fizeram as manhas, ele desmentiu, dizendo que não tinha dinheiro.

Feriu o orgulho? Feriu, disse. Pôs-se a testá-la. Parou de lhe falar, passava longe, só a olhava com distância. Quanto mais a observava, mais a admirava. De minha parte, não é de hoje que colegas se perdem por causa de paixão. Com T. não foi diferente, só mais irônico.

Um dia desses ele estava numa praça com outros colegas nossos e avistou ela. Após admitir pra si mesmo que suas chances acabaram, foi lá falar com a garota, por pressão do grupo. Disseram que a cara de T. foi impagável. Ela estava sozinha, mas por breves segundos. Logo apareceu outra garota que T. nunca vira e, assim que brotou, se agarraram e enfiaram as línguas uma na outra. Imagine o estado do meu colega: desacreditando nos próprios olhos, tudo que o sustinha por dentro desmoronou.

Moral da história: a garota era lésbica, pegava a amiga com que sempre se encontrava, e chamava T. junto para abusar de sua cegueira.

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Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 05/08/2017, em Crônica e marcado como , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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