As mentiras que contamos a nós mesmos

Me sinto dormente. Só quero confessar isto, que me sinto dormente. Pra ser preciso, uma dormência mental, pois para certas coisas é melhor viver inconsciente do que se passa ― a isso atribuo o estado de “dormência mental”: a fim de fugir de certas percepções equivocadas e desagradáveis, torna-te dormente, finge-te inconsciente que nem uma pedra. Abafa o sofrimento. Viva como se morto. Pro bem ou pro mal. No meu caso mais pro mal do que pro bem, pois a lá um zumbi filosófico não experiencio o mundo como poderia e tudo isso poda minhas habilidades observatórias, faz de mim menos escritor, e quando não me fogem palavras ou ideias para uma crônica, acho todas elas ruins, parecem um diário, estilo o qual tento fugir ao máximo, mas não consigo, porque até hoje não sei exatamente o que constitui uma crônica, tendo sido as minhas incursões no gênero mais pro lado metafísico, ensaístico, quase, do que adequadamente urbano, igual a maioria. Em resumo, escrever crônicas já me foi mais fácil. 

Se tivesse que apontar onde foi que pensei pela primeira vez “Ih caraca. Isso aqui que eu faço não é crônica não”, acho que seria na época em que lia as crônicas do Drummond, o de Andrade (porque no Brasil temos quatro “de Andrade”, sem que sejam irmãos: Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Manoel de Andrade, Oswald de Andrade). O filho da musa foi quem me ensinou a mentir em crônicas. Das dele, cada uma era mais invejável que a outra. Quando abria o caderno ou notebook para escrever as minhas, ficava até com vergonha de ousar imitá-lo. Ele, conhecido mais como poeta, era inclusive melhor cronista que os demais cronistas. Um Rubem Braga pra mim, por exemplo, por mais clássico que fosse nunca me impressionou. Olhava-o como aquele velho saudoso do passado que transcrevia o que a memória conservou. Não podia tê-lo como mestre; ainda sou jovem e mesmo se minha infância fosse digna de se romantizar, se é, a memória falha. Também sequer moro no Rio para escrever num estilo urbano-clássico como um João do Rio, Lima Barreto ou Machado de Assis. Em certo aspecto sou o menos apto para a crônica: cético, cínico, misantropo, observo gente que não gosto para talvez fazer bem um ofício que digo gostar, mas me mata por dentro. Evitar é inútil; homens como eu estão presos à escrita; outro ofício criativo que me dispusesse a fazer não conseguiria pôr o afinco que pus à escritura. Meio que cheguei naquele ponto em que minhas únicas opções são escrever ou morrer.

Aí chega o Sabino com suas crônicas-conto ou contos-crônica ― aquilo é indefinível. Drummond ficcionalizava suas crônicas usando de seu esmero narrativo e o domínio sobre as palavras; ninguém lia nenhum problema nisso. Mas até para saber se um livro do Sabino é de conto ou crônica só pelo título, é difícil. Nas suas entrevistas dizia que só virou escritor porque já era mentiroso. Mentia pelos cotovelos e pelos textos também. Mas num lugar costumado a mostrar a crueza da realidade e o horror da verdade como o jornal ― nem sempre, convenhamos ― sobrava um cantinho para a mentira, alívio do fim da página.

Fui obrigado a inventar, sobretudo quando me aproximava da data do prazo que eu mesmo estipulei, ao ler Luís Fernando Veríssimo, porque aquelas histórias que ele conta não têm como serem verdades. O povo nem liga. Se a história é boa, engraçada e possui um tema interessante, é como toda ficção, a gente sabe que é de mentirinha e ainda assim paga pra ler. O que sempre me encabulou tanto com o de Andrade, Sabino e Veríssimo, é colocarem a alcunha de “crônica” nalgo que obviamente se afigura como ficção. Existe um meio-termo entre esta e aquela que esses caras dominam, e eu não capto? Qual é, não sei, embora eu também tenha os meus pecados: dar a textos de diário a alcunha de crônica.

É mais fácil começar um texto num estado de bloqueio por meio de uma abordagem confessional. Como se ninguém fosse ler aquilo, logo não tem problema ficar uma merda. Mas ― já entrando numa veia metalinguística, cuja não consigo escapar ― desde que comecei este, por mais que pensasse “Isso é uma confissão. Deixe o texto ir.”, lá no fundo da mente, igual um cantinho reservado só para ela, ouvia uma voz dizer que, no fim das contas, isto seria uma crônica. Justo os textos que eram pra ser uma “crônica” nunca viram a luz do dia, e aqueles que passaram da fase de revisão e me deram o trabalho de me conectar a uma internet, acessar o site e postá-los aqui, são aqueles sem-querer, sem aparente preparo prévio, que vêm num vômito.

Por último, não menos cronista que os demais, Saramago, a quem me ensinou que não há problema confessar que cedo ou tarde todo cronista passará por esta vergonha: a falta do que dizer. Logo ele, o mais verborrágico dos quatro, tratou disso melhor do que eu poderia tratar. E é como converso e desconverso com o Rafael: se isto aqui fosse um trabalho, se eu fosse um cronista de verdade, e se tudo aqui fosse verdadeiro, eu já teria sido demitido.

Sobre Sancarmo

Todas essas coisas, por enquanto só amadoramente: tradutor, escritor, roteirista e crítico.

Publicado em 28/10/2017, em Crônica. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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