Arquivo do autor:Sancarmo

Cego de amor

Conforme o rol de experiências a pôr na página termina, esforço-me para imaginar uma cena. As palavras vem difíceis, e mais parece que exponho meu cérebro e o empalo uma espada do que propriamente escrevo.  Leia o resto deste post

Breve aula de literatura

lit

“Este é o momento/ em que os cinco sentidos se rebelam/ eles escapariam de bom grado/ como ratos de um navio que afunda”, são versos do poema Cinco homens do poeta polonês Zbigniew Herbert, que continua:

antes que a bala chegue a seu destino
o olho perceberá o voo do projétil
o ouvido registrará o sussurro afiado

as narinas se encherão de fumaça cáustica
uma pétala de sangue roçará o palato
o toque se contrairá e depois afrouxará
agora jazem no chão
cobertos de sombra até os olhos
o pelotão se afasta
suas abotoaduras
e capacetes de aço
estão mais vivos
que os homens prostrados junto ao muro

E o poema segue por mais versos, mas paro por aqui. Basta “as narinas se encherão de fumaça cáustica” e “uma pétala de sangue roçará o palato”. Sem dúvida é uma aula de ponto de vista sobre como fazer o leitor vivenciar o que o personagem vive; neste caso, o momento em que a arma é disparada, “o momento em que os cinco sentidos se rebelam.”  Leia o resto deste post

Essa coisa chamada tempo

tempo

Existem escritores com um volume de obras conhecidas, obscuras e as que ainda estamos por conhecer, e os escritores que escreveram uma novela e dois romances meio novela, como Kafka, Juan Rulfo, ou até Joyce, dos quais toda a sua obra é isso, cinco, quatro ou três livros. Eu não quero ser como eles, nenhum deles. Mas também não quero ser como um Robert A. Heinlein, Philip K. Dick, ou meio que o Alan Moore, cujo têm uma obra extensa que, no entanto, te faz perguntar: vale a pena ler tudo isso?   Leia o resto deste post

Mito do Inferno

hell

Ali, muito, quase tudo, era vermelho; exceto o rio de fogo cujas vezes cuspia pro alto e o homem que conversava com o demônio; bom, ele não era, mas gradativamente ficava vermelho conforme os dois desciam numa estrada em círculo. Leia o resto deste post

“A verdade vos libertará”

vdd.jpg

Se tivesse de ser professor, seria de Filosofia. A matéria mais difícil de ensinar; como explicar que a Filosofia estuda isto e aquilo igual se diz que Química ou Física estudam os átomos, suas reações e movimentos na natureza? Diferente da Matemática, História ou Química, Filosofia é o único estudo com verbo: filosofar. Para entender o que faz a Filosofia é preciso saber o que faz quem filosofa e quais áreas da natureza ele está preocupado em explicar.  Leia o resto deste post

Cada um no seu quadrado

quadrado

Cedo ou tarde me confrontam com tal pergunta: “Você é ateu?” Pergunta boba, e esconde um recheio de implicações.  Leia o resto deste post

Não comerás desta fruta

nao-comeras-desta-fruta

“Eu queria ser a pedra no caminho/que não sofre a tortura do pensar…” versa Florbela Espanca no poema sem título. Perdão; não queria te envolver numa elucubração juvenil que se repete há dias, mas meu quê solidário diz ter de compartilhar essa epifania — se já não a teve antes de mim —, e como de praxe nestes textos talvez faça você, leitor, ver o mundo por outro prisma, o de um pessimista.   Leia o resto deste post

Empreende®dor

empreendedor

O mundo está acabando e tem duas crianças chorando. Eles estão na sua frente, uma menina e um menino. O menino chora como uma menininha, isto é, “chora” no sentido eufêmico de escândalo. A menina chora só do olho esquerdo, e você, bem, você, meu camarada, você olha a cena e a vive com tanto pesar — o choro fere a tua alma, e você quer matar o menino por isso — como se a culpa do mal na Terra fosse sua. Mas tem um detalhe, detalhe ínfimo, fatídico: você tem um lenço na mão.

Leia o resto deste post

Ritual prático para invocação da musa

ritual

Toda vez que escrevo sem estar bêbado, ou seja, naturalmente criativo, me analiso da ponta à cabeça e corro a registrar todas as sensações, pensamentos e afins no instante desse milagre para que ele possa ser repetido.

Leia o resto deste post

Ser justo não é saudável

justo

É foda, viu? Que que é foda? Não é foda de bom, de maneiro, é foda porque me fode no sentido negativo da palavra. É foda que eu não seja foda o suficiente — agora no sentido positivo — para escrever e criar simpatia ou empatia. É foda, viu? Vir aqui todo sábado como um trabalho não remunerado dizer nada com nada a fugir do formato de diário e não alcançar uma poesiazinha da vida, nenhuma verdade cabal escondida lá na física do cotidiano, no rosto das pessoas, nas narrativas de nossas vidas… E ainda me vêm e falam que a crônica pode ser tudo, porque qualquer coisa é crônica, e graças a Deus que elas sejam; se uma pedra pudesse falar comigo sabendo que a pus num texto talvez agradecesse “Obrigado por ter feito de mim uma crônica”.

Leia o resto deste post