Arquivo da categoria: Crônica

Crônica: Eterna questão

eterna

Para resolver uma questão. Um infundamento cujo qual ninguém bate a cabeça, pois são príncipes textuais, e teclam como não se teclava. Que escritor, no entanto, foi autoconfiante? Um monte, quem sabe; até penso em um. Porém apesar do perfeccionismo, a autodúvida e sabotagem pertençam uma época alheia à modernidade, são as principais características de uma alma conturbada pela arte. Eis a questão: digitado ou à mão?
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Crônica: Um problema chamado Overwatch

over

É incrível como algo tão simples como um evento de halloween num jogo, o qual eu não tocava a meses, me faria perder a noção do tempo e quebrar a minha promessa de post com no máximo 4 dias de diferença, mesmo que por uma margem tão ínfima. Leia o resto deste post

Suicídio Pensado

suicidio

Vocês já pararam para pensar como é a vida de um ser depressivo movido pela lógica? Parece uma pergunta estranha, mas é assim que me sinto constantemente. Um homem adulto sem emprego, amores ou amizades, e uma urge tremenda de acabar com este sofrimento.

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Intermitência intermitente

intermitencia

— Alô. Sofrimento?
— Não. Ligou errado. Aqui quem fala é a Inspiração.  Leia o resto deste post

Tragédia moderna

Evito conversar, particularmente, num ônibus encharcado de passageiros cujo motorista se acha um relâmpago que só falta trovoar. Mas esse camarada, não; fala mesmo; fala, brada até, como se quisesse que o outro lá da frente ou atrás ouvisse. Cata muita atenção, me obriga a passar vergonha junto dele mas, como nesse dia, tem vezes que vem com uns papos que se eu não o conhecesse me meteria no diálogo só para trocar umas ideias com o cidadão.

Escuso seu nome para a anedota. Conta suas fábulas que pelo menos eu nunca ouvi por outrem. Sempre têm uma intenção parabólica, se é que posso chamar assim, com cunho cômico. O próprio seria uma figura digna de protagonizar algum texto; espero que jamais leia isto.

Tal dia, no ônibus, contava-me a história sobre dois caras…

— Presos. — dizia. — Um é veterano de guerra, e o outro, tá lá injustamente.
— Hã.
— Aí acontece uma coisa e eles têm a oportunidade de fugir. Só que…

Por motivos de dramaticidade pegarei sua ideia e darei um toque literário:

Feijão e Dudu: eis os detentos. O primeiro, ali há mais de oito anos, e o segundo faria o quinto aniversário de prisão no dia seguinte. Feijão vive bolando planos de fuga e estratégias mirabolantes; no intervalo, geralmente é ele quem mestra os RPGs. Pertinentemente encosta o rosto na grade olhando tudo passar mas com uma feição serena e ao mesmo tempo desesperançada de quem viu o fim por uma revelação divina. Já Dudu aproveita o que pode da vida: com os demais se corroendo atrás das grades, Dudu agradece a todos os animais sacrificados por ainda estar vivo.

Certa noite, ambos dormindo, ouvem passos rápidos de uma multidão. Feijão desperta e acorda Dudu que custa a levantar as pálpebras. Tinha um tira libertando os presos!

— Isso aí é muito estranho… — comentou Dudu.

O tal tira abriu a sela deles e falou, “Pode sair”.

Feijão, desafiador, indagou:

— Sair por quê, seu guarda? Viraram teu cu do avesso?
— Pode sair. — repetiu o tira implacável.

Feijão olhou seu reflexo no guarda, relanceou Dudu com a boca semiaberta, fitou o guarda mais uma vez e viu atrás dele um bando de homens sem e com camisa formando uma baderna no corredor.

— Ih, Dudu… Vumbora sair daqui, meu chapa.
— Estou a fim não, Feijão…
— Vamos ser livres, porra!

O guarda some da sela e abre as outras, a medida que o debate se segue.

— Meu irmão. Lá fora tem o infinito. Aqui—
— Tem vida. Tem segurança. Lá fora só tem morte e injustiça. Não duvido nada que querendo ou não tu vai vir pra cá, de novo.
— Não sou que nem tu não ô… injustiçado.
— Então vai lá, então. Seja livre. Livre pra morrer.
— Prefiro ser livre pra matar e morrer, e com dinheiro no bolso, do que protegido mas sem poder fazer nada.

Feijão já saía mas Dudu ergueu-se e falou:

— Quem disse que lá fora tu vai estar livre? Aqui você é livre; aqui a liberdade verdadeira existe. Lá, não.
— Livre onde, Dudu? Dentro de quatro paredes que parecem até que querem me matar? A gente sofre, mata, vive um inferno, pra quê? Pra ficar seguro dentro de quatro paredes numa falsa segurança só esperando a puta da morte?
— Cara. — suspirou. — Essa merda é que nem amor, felicidade e perfeição. — apontou o dedo para cabeça. — Só existe aqui. É teoria, conceito; se a gente deixa de pensar nisso, puff, já era. Tu só é livre aqui. — e, novamente, apontou e pressionou a cabeça.
— Você quase me convenceu…

O guarda que abriu as selas sumira. Passou-se algum tempo até o fato virar notícia e Dudu confirmar na televisão a morte dos detentos que fugiram; todos.

— Porra, gente aí se matando pra ter emprego pra ter dinheiro pra ter segurança, e o cara joga a coisa fora de graça. — comentou.

Dois anos depois do incidente, Dudu morria vítima de sífilis.

Ele não usou essas palavras. Quando terminou, e só quando terminou, falei que era uma anedota niilista e trágica demais para ser uma parábola. Ele riu com gosto. Todos ouviram. Reconstituo aqui, não sem esforço, as palavras que, sem olhar-me, falou:

— Trágico é você pensar que estou falando de bandidos atrás das grades.

Uma boa companhia

boacompania

No entardecer daquele dia minha mãe e eu fomos para a casa de uma irmã dela. Antes de embarcarmos quase pegamos um ônibus que pifou; sorte que depois passou outro de igual itinerário e nele seguimos. Se não me engano, isto deve ter uns três ou quatro anos.

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Comida do passado

Comida do passado
Já dizia o meu professor de história há muito tempo: o que não muda está morto. E a comida do congelador é como um gato de Schrödinger: viva porque tende à própria morte, o apodrecimento, e morta porque, afinal, é o pedaço de um animal morto. Mas tal como um gato que está morto e vivo, ou vivo e morto, não sei que estado em que ela está no momento que escrevo isto. Pergunto-a, mas ela é muda. Ouço só o som da entidade a que chamam de frio, um zumbido na verdade que se trata do compressor. A comida está parada no seu canto, congelada, como um gelo. Mas quem para, para em algum lugar, e se parada ela está, parada exatamente onde? No espaço, óbvio. Mas só no espaço?

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“Pense em Deus”

deus
O que é Deus?

É desconfortável receber essa questão assim, diretamente; tal pergunta me foi feita na pré-adolescência, quando enganava-me que tinha um conceito sobre isso. Ainda não tenho. Naquele tempo fora a um centro espírita com minha mãe — primeira vez em tal lugar. Seguia-a para todo lado. Na parte de cima a qual subimos por uma escada havia várias pessoas vestidas de branco e sentadas em torno duma mesa comprida. Segundo o que raciocinei, eram médiuns.

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Jornada de Mim Mesmo

jornada

Mundo comum

Lá vai o misantropo ao mundo além da porta. Uma campanha. Faz o que há de fazer e ao final segue em linha reta à livraria ali perto. No caminho um rapaz e uma moça encostados numa parede entregavam panfletos para os transeuntes. Ele passou quando a moça — uma menina aparentemente da mesma idade — estendeu o braço na sua frente e fez-lhe um impasse. Só empurrando-a ele seguiria. Obrigado a tomar o panfleto pegou-o da mão dela e, antes de colocar na sacola azul a qual levava em volta de si, olhou para a menina. Ela travara, os olhos arregalados fitando-o, congelada no tempo. Sem se dar por entendido, entrou na loja e comprou O Livros das Mulheres e No Sufoco.

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