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On the Screen: Allegro Non Troppo – A Fantasia italiana que supera o original

Às vezes é interessante ver filmes simplesmente por ver, sem um grande motivo por trás da escolha. Esse foi o caso de Allegro no Troppo, um filme de animação italiano que eu resolvi ver simplesmente por ser italiano e para somar mais um número na minha lista de animações do Letterbox.

E fazer algo assim pode resultar em algo catastrófico, como ver uma bomba daquelas que tem poder de arrasar seu dia de tão ruim. Mas em outras, pode ser que o filme surpreenda e preencha algum tipo de vão que ainda sobrara na sua coleção de memorias. E mais raro ainda, pode este vir a ser um dos filmes da sua vida. Daqueles que dá orgulho de ter assistido.

E eu tenho orgulho de ter visto Allegro no Troppo. Ainda estou indeciso se este realmente é um dos filmes da minha vida ou uma surpresa tão grande que se sobressaiu a toda e qualquer expectativa, ganhando no fim pontos extras pela originalidade.

Um sentimento que vem logo do começo da obra. Não temos animações, mas sim live action. Pessoas atuando ainda em preto e branco, com um micro enredo focado em sarcasmo e críticas sociais. Então, descobrimos ser uma espécie de parodia de Fantasia, o famoso filme daquele que cara com nome que parece Walter Edisley. Uma das primeiras piadas do filme, que seta bem do que se trata toda obra.

Então temos um apresentador ditador que parece muitas vezes falar sozinho em loucura constante, um desenhista escravo perturbado e criativo, um maestro bufão violento e uma orquestra de velhas prisioneiras.

A ideia é ter orquestra e desenho juntos, igual Fantasia, mas com o desenhista fazendo tudo ao vivo, sem edição. Não é o caso, obviamente, mas isso acaba criando ideias únicas, algumas que surpreendem muito por se tratar de um filme dos anos 70 e de um pais pouco conhecido por animações.

Ao entrar nas animações, o desenhista cria mundos então coloridos, destoando completamente da parte mais real, que se focam em contar histórias no ritmo de peças musicais clássicas. O resultado e algo vibrante, com muitos momentos surrealistas e ainda mais críticas a natureza humana. Chegando ao pessimismo, mas ainda assim apresentando tudo de forma bela e agradável.

Com isso o filme vai alternando entre as partes IRL de comedia e os desenhos orquestrados, e nisso acaba superando muito ao meu ver Fantasia, por trazer algo mais adulto, apesar de ainda apresentável a crianças, e principalmente por conta da alternância que gera um intervalo que quebra aquela constante de músicas seguidas de músicas a qual faz Fantasia ser um tanto difícil de acompanhar. Ao menos pra mim aquilo dava sono, e nunca consegui ver o filme da Disney em uma leva.

Já Allegro foi fácil de ver justamente por conta dessa troca de cenário. E a medida que o filme avança, notamos que o que antes parecia ser um micro enredo ganha volume, e muitas das peças animadas complementam a parte com atores, ao ponto de termos inclusive desenhos, ou personagens dos desenhos, ganhando vida e se misturando aos humanos.

E até aqui tudo soa muito fantástico, mas tenho algumas ressalvas similares ao que falaria sobre Fantasia. Primeiro, o estilo de animação é bem único e experimental em algumas peças, se utilizando inclusive de outras técnicas, como rotoscopia e stop motion. Por um lado, acho isso fantástico, mas por outro sei que é um dos pontos que vai afastar muitos espectadores, por ser bizarro demais.

Ao mesmo tempo, nem todos os curtas são de fácil interpretação e a música permanece constante, sem falas, o que pode causar um grande incomodo. Não é um musical padrão, mas sim o que bem disse no começo. Desenhos que acompanham um ritmo. E no mais, caso não goste dos intervalos com pessoas, e inevitável que boa parte do filme vai ser um pé no saco.

Com tudo isso quero dizer que Allegro Non Troppo não é um filme para todos. Talvez você queira ver ele por partes igual eu fiz com fantasia, o que é bem possível, ou simplesmente ver uma ou outra das peças animadas, se se comprometer ao restante do filme. Eu particularmente acho que a melhor e mais enriquecedora forma e ver o filme na integra, assim notando como tudo se encaixa, porem agora vou me ater a descrever as partes animadas para os demais. Dito isso, aqui acabo o meu review de Allegro com um sonoro “vão assistir”.

Agora se realmente quer so ver partes ou busca conhecer cada animação antes de se decidir se verá ou não, ai segue minha descrição de cada uma. Lembrando que terá spoilers, pois é inevitável nesse ponto. E você verá na integra minha interpretação, a qual pode desviar muito da sua. Tenha esses fatos em mente.

ANIMAÇÕES

Ok, o primeiro “curta” segue ao ritmo de Prélude à l’après-midi d’un faune, de Claude Debussy. Nele acompanhamos um velho Sátiro que busca um amor e assim parte a perseguir jovens ninfas, e para isso constantemente tenta alterar sua aparência para algo mais jovial.

A animação segue com um estilo mais erótico e com coloração meio aquarelada e possui um tom constante de comedia, que lembra desenhos mais infantis. Ele trata, obviamente, da obsessão do homem pelo sexo e juventude.

O segundo “curta” vai ao ritmo de Slavonic Dance No. 7, Op. 46, de Antonín Dvořák. E esse pode realmente ganhar o título de curta, sendo possivelmente o menor seguimento do filme, aqui seguindo uma estrutura que lembra muito o sarcasmo de revistas como a MAD.

Na animação um homem começa a se desvencilhar dos outros, criando cada vez mais cenários para se isolar ou se mostrar diferente do rebanho. E uso essa palavra com ênfase, pois sempre que ele cria essas situações os demais seguem à risca. Assim criando algo muito engraçado e que, apesar de ser um desenho dos anos 70, cai muito bem como uma alegoria a certos líderes da atualidade. Mas no filme em si, é uma ofensa direta ao maestro.

Já o terceiro “curta” pega o Boléro de Ravel, de, bem… Maurice Ravel. Sendo esse o seguimento mais famoso, ilustrando pôsteres e capas do filme. E que se inicia com uma transição direta do real para o imaginário, com um maestro arremessando uma garrafa de Coca-cola que cai no meio do nada e desencadeia uma serie constante de evoluções.

De início vemos uma criatura sem forma, saído da ”soda primal”, que se auto remodela constantemente, então passando para segmentação em diversas criaturas que vão de encontro a predação e evolução como meio de escape a predação, assim surgindo a seleção natural e dando início a um constante acasalamento, sempre a cada novo ato segmentando e evoluindo cada vez mais.

Isso por fim culmina em criaturas gigantescas, similares aos dinossauros, partindo numa marcha constante e sendo eliminadas aos poucos por constantes alterações no planeta, com destaque a um indivíduo, um macaco, que sempre se sobressai, de forma abominável, em cada uma das situações.

A animação nesse caso mostra a evolução das espécies, a supremacia humana e como o homem vai aos poucos destruindo cada vez mais a natureza em prol do progresso. No fim, temos o primeiro personagem a transcender do desenho para o real.

Na quarta parte, Valsa triste, de Jean Sibelius. Uma animação bem soturna, que mostra um gato escalando a última parede de um edifício e vivenciando em memoria os tempos áureos de uma vila. Aqui com pessoas de verdade projetadas de forma transparente no desenho para dar sensação de espíritos e reforçar a ideia de memoria.

Esse é outro seguimento bem curto, com um final bem triste. Ainda assim talvez o mais fraco do filme. Vale notar que a parede do edifício em diversos momentos parece uma lapide.

Na sequência, Concerto in C major, RV 559, de Antonio Vivaldi. Aqui fazendo uma mescla de animação clássica com rotoscopia, em algo mais leve e vivido, provavelmente para se sobressair a melancolia do último seguimento.

Enredo simples, de uma abelha querendo jantar e relaxar, mas que não consegue, pois um casal de humanos busca fazer o mesmo, e num ato de romance e tensão sexual acabam destruindo a natureza envolta. Possivelmente querendo mostrar que o mais mínimo de nossos atos gera alguma consequência ao mundo.

Na penúltima sequencia temos The Firebird Suite, de Igor Stravinsky. E se antes tivemos a seleção natural, agora é a vez do mito de criação, assim iniciando a animação com cenas de stop motion que se utiliza da argila para exemplificar a criação do ser humano. No caso, Adão e Eva.

Quando estes são criados eles se encontram nus, no vazio, e logo a serpente da tentação chega com o fruto proibido. So que temos aqui uma brilhante inversão, onde Adão e Eva recusam a fruta e a serpente prova de seu próprio veneno, digamos.

Ao engolir a maçã a serpente e transportada a um mundo quase alucinógeno comandando por demônios, e numa sequência extremamente rápida, quase impossível de se tirar um print em contexto, vemos deslumbres da vida moderna envolta de pecados como ganancia e luxuria. Criticando assim todo o modo de viver do homem, enfatizando como gostamos de coisas inúteis.

E para o grã finale, o epilogo, temos uma espécie de Igor a lá Frankenstein, procurando o final perfeito. Essa peça especifica não fica bem se vista individualmente, mas so para registrar, nela pulamos entre as músicas Hungarian Dance No. 5, de Johannes Brahms, Toccata and Fugue in D minor, de Johann Sebastian Bach, Hungarian Rhapsody No. 2, de Franz Liszt, e novamente Slavonic Dance No. 7, Op. 46, de Antonín Dvořák. Fora outras músicas não listadas.

E é isso, esse é o todo de Allegro Non Troppo, tirando a parte real que basicamente mostra figuras ditatoriais judiando das pessoas e um pobre e apaixonado desenhista. Eu ainda reforço que é melhor ver o filme inteiro, mas a escolha é sua. Só espero que no fim se divirta.

GALERIA

On the Screen: Doukyuusei – Um belo romance

Eu resolvi ver Doukyuusei por conta de um gif. Um beijo daqueles bem-dados, só que com um tom muito sereno e animado de forma fantástica, tornando o momento muito belo. Esse beijo era entre 2 homens, os protagonistas Hikaru Kusakabe e Rihito Sajou. E eu me apaixonei naquele momento pela estética da animação e fiquei deslumbrado com a cena. Sou hétero.

Pode parecer estranho terminar a frase anterior assim, com “Sou hétero”. Mas existe um motivo. Com isso quero afirmar que Doukyuusei é uma obra que transcende a barreira da sexualidade. Você pode ir lá assistir sendo heterossexual, homossexual ou qualquer que seja a sua orientação sexual, que a obra vai ter o mesmo impacto.

Logico que existem outras obras das quais eu poderia falar o mesmo, não se engane. Eu não estou descobrindo esse tipo de romance somente agora. É mais que existem obras mais explícitas voltadas para o público LGBTQ, com cenas mais calientes e muito fanservice, da mesma forma que existe isso aos montes para o público hétero.

Porém é difícil achar algo tão puro, focado e bem-feito como Doukyuusei. Você poderia trocar os personagens por duas garotas, ou um homem e uma mulher, que daria na mesma. Isso faz parte do charme da obra e da facilidade de se consumir o produto. É tudo muito natural. Mas ao mesmo tempo a escolha no sexo dos protagonistas é certeira.

De um lado temos esse romance colegial, com todas as intrigas pelas quais muitos passamos nesse período. Desde ciúmes ao sentimento de que tudo vai acabar no terceiro ano, passando por vergonhas e desejos sexuais. Do outro temos um grande slice of life que mostra o amadurecimento de dois rapazes e a descoberta de algo novo e arrasador.

Novamente, tudo isso poderia ter sido passado por qualquer casal, mas a grande diferença fica com a mensagem de aceitação. Isso é tabu para a sociedade, infelizmente, ainda mais entre homens, e à medida que a obra evolui notamos cada vez mais essas nuances até chegar ao fim e mostrar que toda essa vergonha não deveria existir, que devemos ser quem somos, independente de opiniões, e isso é uma mensagem muito forte.

E não é uma mensagem somente para os gays, mas para nos aceitarmos e aceitarmos nossas decisões independente do que seja. Só que, ao ir por esse lado, o filme enfatiza um grupo que merece ser mais aceito. Por isso eu recomendo o filme para que vocês vejam que um romance entre gays é a mesma coisa que qualquer outro romance.

Eu já passei por essas coisas com garotas e foi muito fácil me identificar com os protagonistas, que, diga-se de passagem, são muito carismáticos. Não tem como ver esse filme e não torcer por eles e ficar encantado com um relacionamento tão belo. E completando tudo isso temos uma estética de cair o queixo e dubladores de primeira que trazem uma narração quase poética.

Os únicos pontos que me incomodam são a estrutura do filme e onde ele termina. Tudo ocorre com timeskips constantes e começa do nada e vai parecer a alguns que também chega ao nada. Existe a tal mensagem no final, pontuando muito bem, mas ainda fica aquela sensação de que faltou algo. Ou talvez seja só eu querendo acompanhar mais da vida desse lindo casal.

Dito tudo isso, recomendo fortemente que assistam o belo Doukyuusei. Façam um esforço, vai, confiem em mim nessa, pois a obra é de outro nível.

On the Screen: Kipo e os Animonstros – Um apocalipse diferente

Kipo e os animonstros (Kipo and the Age of Wonderbeasts) é mais uma série animada da Netflix, encomendada diretamente da Dreamworks. Mas o que me chamou atenção para ler foi o fato de que era baseada num quadrinho online chamado Kipo. E nesse ponto vou nem menti. So quis assistir para ver se gerava material para um “versus” entre a animação e o comic. Um jeito fácil de pegar algo mais atual e juntar com o foco central do blog.

O problema, ao menos para mim, e que o tal webcomic desapareceu da face da terra, salve algumas imagens usadas em matérias de review ou arquivadas em sites como o Pinterest. Logo o máximo que posso dizer em comparação é que alguns personagens tiveram uma leve mudança de design, as cores ficaram mais vivas e que tem certas páginas que parecem um story board para a série em si.

E talvez aí que esteja a resposta. O plano desde de o começo era transformar numa animação ou o conteúdo do quadrinho era tão similar que resolveram desativar o site de leitura. Não sei exatamente qual o passado de Rad Sechrist, criador de Kipo, mas ele trabalhando atualmente para a Dreamworks colabora com essa teoria.

Por um lado, isso pode ser considerado bom para evitar vazamento de roteiro. Mas para mim isso é um completo descaso com o original. Imagina se lançam uma adaptação de um quadrinho ou mangá maior e fazem o mesmo. “Ah, tem 120 capítulos? Não importa. Esconde isso ai.”. O quanto de gente que ia olhar torto e reclamar dessa ação não é brincadeira.

Logo eu realmente torço que isso tenha sido uma escolha do autor. Que ele tenha de fato sempre idealizado isso e preferiu seguir como roteirista e design da série. Pois se foi uma escolha da Netflix, Dreamworks ou estúdio coreano Mir, eu abomino essa decisão.

Não que eu diga isso tentando incentivar o boicote da série. Não.  Eu simplesmente não gosto de ver algo sumindo em prol da criação de outro algo, entende. Mesmo que a peça final seja muito melhor. Não consigo de fato afirmar isso em cima de Animonstros, mas ao menos posso falar que é um desenho bom pra caramba.

No início eu me incomodei. Nem sabia dessa história do comic, mas algo no cartoon tava off pra mim. O mundo era muito legal, com perigos disfarçados a todo canto. Como coelhos gigantes e abelhas beat box. Porem eu não curti os personagens e o enredo era bem besta, talvez simples até demais para mim. Mas o pior eram as músicas.

Não é aquele tipo de show focado em canções a lá Disney, mas constantemente eram colocadas músicas como fundo das cenas, principalmente ação, e puta que pariu… desculpem o jeito que falo, mas não podiam escolher algo pior? Essa era minha reação. A música quebrava completamente as cenas em algo que parecia mais uma playlist pessoal do estúdio que por algum motivo vazou no produto final. Não encaixava.

Fora que eu não gostava da Kipo e seu lado super mega otimista “vamos ser todos amigos”. O desenho logicamente não foi feito pensando na minha faixa etária. Meu deus, eu estou nos meus 30. Mas eu olhei esse começo pensando em como seria o meu eu do passado assistindo isso nas manhãs da TV aberta, e olha… eu ia me incomodar da mesma forma.

O lado bom disso tudo é que é uma primeira impressão. Um inicio fraco, que logo dá lugar a algo realmente bom, como eu já havia mencionado. As músicas começam a se encaixar melhor, ao ponto de ter alguns momentos que ficaram mais épicos por causa delas. E os personagens, não apenas a Kipo, melhoram cada vez mais a cada novo episódio, saindo da impressão inicial e mostrando mais faces de um mesmo personagem. E isso é ótimo.

Fora isso os combates vão ficando muito melhores, apesar deu achar que ainda falta um polimento nessa parte, e o enredo de cada um dos episódios se mostra melhor que o anterior, transformando o plot simples em uma grande jornada de aventura e descobrimento, que no fim puxa assuntos como preconceito, traição, traumas, perda, sexualidade, entre outros. E algo mostrado com uma visão mais leve, mas ainda assim é muito bom ver isso.

No fim Kipo se mostra um show super divertido, que eu agora sim consigo ver o meu eu do passado gostando ao ponto de não perder um episódio. Até porque eu gostei da obra e acabei adorando os personagens. Eu maratonei, e eu, o atual mesmo, quero ver mais temporadas.

Agora sem mais egocentrismo. Por mais que eu ache ruim o lance do quadrinho eu não tenho como não recomendar Kipo. Pode não ser o melhor desenho do mundo, mas me surpreendeu bastante e eu consigo ver um tremendo potencial na obra. Assista você, chame um amigo, apresente para seu filho ou sobrinho e vamos juntos passar o otimismo da Kipo à frente. Sim, no final até isso eu acabei gostando.

On the Screen: Hakujaden – O primeiro filme de anime em cores

Sabe, eu adoro procurar animações novas para ver, principalmente filmes. Ao ponto de me considerar quase que um “historiador”. Ok, talvez menos. Aficionado, fã, otaku. Daqueles que vai atrás não apenas dos lançamentos, como de coisas super antigas e que marcaram a indústria. Não importa quem fez, críticas e notas, ou o que seja. Pareceu interessante eu vou lá e assisto com prazer.

Particularmente, eu acho uma atividade extremamente recompensadora, pois quebra um pouco aquela visão de que apenas o estilo atual presta. Que é o superior. Se não ficamos cegos achando que apenas o corriqueiro da indústria, que em sua maioria é um copy paste do estilo do momento, e a arte que devemos idolatrar. E isso não faz bem.

E o mesmo vale para direção, roteiro, efeitos, trilha sonora e até mesmo dublagem. Falta fazer aquela distinção entre o que realmente é bom e ruim levando em conta estilo e época. Além de que deveria ocorrer uma certa apreciação pelo que marcou a indústria, como bem falei no começo. Você achando o filme bom ou não.

Rotoscopia em O Senhor dos Aneis, de 1978.

Um exemplo que eu acho ótimo é o filme de animação de O Senhor dos Anéis, de 1978 de Ralph Bakshi, que influenciou a rotoscopia. Acho ele muito chato, não tem final, mas indiscutivelmente marcou, revolucionou e é um objeto de estudo. E por mais que eu não esteja fazendo um review deste, ou um texto sobre animações no geral, eu acho esses dados fundamentais para o restante da resenha e acredito que a essa altura nem preciso dizer o quão importante eu acredito ser as pessoas mudarem sua maneira de pensar a respeito dessas obras.

Mas enfim. O filme aqui analisado em questão é Hakujaden, também conhecido como The Tale of the White Serpent. Foi o primeiro longa-metragem japonês em cores, tendo estreado nos cinemas em 1958, posteriormente ganhando as telonas mundo a fora em 1961. Ao longo dos anos este foi conhecido por diversos nomes, como Panda and the Magic Serpent, Legend of the White Snake, The Great White Snake e The White Snake Enchantress.

Uma película de 62 anos de idade que impressiona em diversos aspectos, apesar de indiscutivelmente ter ficado datada. E logo no início o filme já mostra isso. “Uma história muito, muito antiga” é cantada num estilo oriental, tanto em ritmo e estilo, como em animação, quase que lembrando uma espécie de cutout com pinturas. Na letra falando sobre um jovem e sua paixão por uma serpente branca de estimação. “Uma história muito, muito antiga” que data da dinastia Song (China, 920-1279), e é intitulada exatamente The Tale of the White Serpent.

O restante do filme então passa a mostrar o jovem, Xu Xian, já adulto e apaixonado por Bai Niang, que seria o avatar humano da serpente branca, agora uma Yokai. Seguindo então em parte o conto folclórico chinês. Digo isso pois metade do filme se foca em “Panda”, como um dos títulos bem diz. Praticamente uma história paralela, meio desconexa em diversos momentos, que mostra as aventuras dos animais de estimação de Xian. Um panda sem nome e um panda Vermelho, chamado Mimi.

A jovem Xiaoqing, o avatar de um peixe Yokai, também se mostra desconexa em diversos momentos, transitando entre o folclore da serpente e as aventuras do panda. E eu diria que essa mistura e o ponto mais fraco de toda a obra. Quebra muito o ritmo e fica parecendo que quando o enredo chinês está mais morno entram os animais para tentar dar um boost na película e trazer ela mais para o estilo ocidental.

É indiscutível que a Toei, estúdio responsável pelo filme, estava buscando se tornar a Disney do oriente. Ao ver o filme logo se nota inspirações nos filmes da Disney, especialmente os dos anos 40 e os curtas de Silly Symphony, além de outros clássicos americanos, como o Popeye de Max Fleischer. Algo presente nas músicas, nas partes dos pandas e em diversos secundários ao longo do filme.

Em contrapartida o filme segue com os principais em um estilo chinês, característico de pinturas clássicas. Tanto isso, quanto a temática central do conto, foi algo escolhido a dedo pelo presidente da Toei, Hiroshi Ōkawa, que desejava por meio do filme amenizar a antiga rivalidade étnica entre Japão e China. Algo histórico que surgiu devido a guerras e que permanece em parte até hoje, sendo um grande ponto de preconceito étnico cultural no pais.

Acho louvável ver um filme tão antigo discutindo essas ideias, mas o ponto mais interessante, e importante, e o próprio conto da serpente. Pois é uma saga bela e trágica de romance envolta em questões de preconceito. Onde a yokai Niang entra com o papel de vítima, sendo constantemente dita como ruim. Primeiro por adultos na abertura do filme e depois, diversas vezes, pelo antagonista Fahai. Um poderoso monge que expurga espíritos desse mundo, e considera todos os entes sobrenaturais como malignos.

Além disso temos partes com teor similar, como quando Xian é exilado e a interação dos pandas com outros animais. Algo bem interessante, ainda mais se visto hoje em dia, devido a discussão constante que temos sobre o preconceito que nos rodeia. Da para associar, entende, por mais que a ideia inicial de tudo isso seja para abordar apenas a xenofobia.

E é isso. Como podem ver existem muitos detalhes legais de se observar em Hakujaden, por mais que seja um filme mal elaborado, confuso e datado, que foi criado para promover o ideal capitalista de se tornar a próxima Disney. Tem realmente muitos, trocentos pontos ruins, e ainda assim eu recomendo o filme. Como estudo, para ver esses detalhes de mensagens políticas e também para se divertir até um certo ponto.

Se você gosta de filmes Disney, contos folclóricos e animações como Popeye, dá para ignorar a literal mescla de dois filmes em um e se diverti um pouco. Não vai ser nada de outro mundo, mas dá para se apreciar sem olhar tantos detalhes a animação fluida, belas músicas e o conto da serpente branca em si.

Eu acho que dava pra ser mais Disney, no sentido de desvirtuar mais o conto em prol de algo épico, removendo a parte dos pandas, ou dividir 100% em dois filmes. Mas não tem como não ficar impressionado no fim, ainda mais se tratando de uma animação de 58.

E um último adendo, mais como curiosidade. O filme nos estados unidos foi um tremendo fracasso e ele se deu razoavelmente bem na Europa. Nos EUA ele foi picotado, renomeado (Panda and the Magic Serpent) e teve diversos pontos orientais “adaptados” para a cultura norte americana. Isso inclui chamar o panda vermelho de gato… Me pergunto o porquê o filme não foi bem aceito.

On the Screen: I Lost my Body – As desventuras de uma mão decepada

Existem momentos que eu quero apenas parar tudo e ver um filme. Não por entretenimento, mas para ter aquele momento so meu. Me isolar de tudo, entrar em outro mundo, ter a minha solidão controlada. Eu poderia colocar isso de várias maneiras. Mas sim, tem momentos que preciso desse escapismo.

Nisso eu resolvi assistir à animação francesa I Lost my Body. Não cheguei a ver trailers, mas bastou alguns gifs da Catsuka e a sinopse de uma mão andando por aí sem corpo para eu me ver fisgado. Sabia que seria um filme adulto, mas essa premissa me deixava esperançoso por uma aventura a lá Toy Story, naquele típico mundo diminuto, so que com um pedaço de corpo decepado.

 E olha, o filme entrega nessa parte. As cenas da mão, que por sinal tem desde o início, sequem um estilo bem de jornada do herói, apesar de não sabermos de fato como ela se soltou e porque tudo o que é mostrado… bem… é mostrado.

Alternando com a mão em apuros temos cenas de lembranças do membro, muito bem orquestradas, que parecem focar nos momentos mais importantes do uso das mãos do protagonista Naoufel. São momentos tênues, de nostalgia, que se repetem muito durante o filme, so que cada vez com mais detalhes adicionados. O ponto perfeito para partir do agradável ao dramático.

Com o tempo descobrimos que Naoufel é órfão devido a um acidente e ao invés focar apenas no passado distante o filme passa a mostrar um passado próximo, pouco antes de ocorrer a perda. Nesse ponto o enredo passa para drama, slice of life e romance. E eu devo dizer, isso foi algo muito bem-vindo

O diálogo que inicia tudo isso é simplesmente genial e o filme segue assim se segurando nesses diálogos e na urge do espectador de descobrir não apenas o mistério da mão e se Naoufel está vivo, como também descobrir mais sobre a vida e personalidade do protagonista. Além de entendermos melhor os secundários Gabrielle, Gigi e Raouf.

Você fica completamente imerso ao filme, talvez saindo dessa apenas quando ocorre queda de frames. Isso pois existem alguns momentos, especialmente na oficina de Gigi, que o filme parece dar umas engasgadas na animação. O que é bem estranho, visto que nenhuma das cenas rápidas tem esse problema. O filme engasga justo em diálogos, e isso não dá para aceitar. Por mais que seja um por menor que não estraga nada do filme.

Apenas quero dizer que o estúdio deveria ter tido mais cuidado com isso, por mais que esse filme tenha cara de ter tido uma animação demorada e custosa. Não tenho certeza do que vou falar aqui, pois não achei fontes. Porém o filme me parece ter sido feito em rotoscopia. Isso quer dizer que pessoas reais foram gravadas e então o artista fez cada frame em cima dos frames captados pela câmera. Algo que poderia justificar minha reclamação anterior e comprovar a teoria de que isso aconteceu por falta de tempo.

Eu baseio isso que digo por um único comentário que achei na Variety, onde o animador dizia que eles tiveram de gravar a mão em diversos ângulos. Assim dando a entender que uma mão, ainda presa a um braço, espero, haha, foi gravada fazendo os movimentos das cenas de ação. So não digo 100% que isso foi rotoscopia, pois gravar algo assim pode apenas ser um ponto de referência. Entender melhor ângulos de câmera e movimento dos dedos, por exemplo.

Porem sendo rotoscopia ou não, tendo falha nos frames ou não, o filme ainda é extremamente bem animado. Ele é bem fluido, orgânico, e com um estilo que me lembra quadrinhos. Foge de heróis? Logico. Mas eu falo mais de obras voltadas ao Slice of Life, como Local, que é bem a ideia do filme. Vermos o cotidiano do principal.

A mão é interessante e tem um propósito que gostaria de mencionar no final desse texto, mas o astro e sem dúvida Naoufel. O corpo, digamos. Pois é muito fácil você assistir e conseguir simpatizar com ele e os demais personagens e até mesmo se botar na situação dele, por mais que todas elas sejam bem absurdas, quase surreais para o mundo real, e ainda assim extremamente criveis.

O roteiro, da maneira que é apresentado, com a troca entre a mão e o garoto e todo o jogo de edição, dubladores excelentes e músicas muito bem selecionadas é foda. Não tem outra palavra para descrever. O filme é superinteressante, e é por isso que seu maior pecado é terminar. E não falo isso pois eu queria mais. Digo isso pois era necessário mostrar mais.

I Lost My Body é claramente algo experimental, e por isso eu meio que duvido de uma sequência. Não existe um grande plot twist no final ou o que seja. O filme chega num clímax, que eu até diria que é bom, e então acaba. So que o ruim é que ele não encerra absolutamente nada. Não tem final. O momento impactante vem, graças a deus descobrimos como ele perdeu a mão e os créditos rolam. E isso para mim, desculpa, é uma merda.

E eu já sei o que vai rolar. Eu usei a palavra M num review. Vão ignorar todo o resto que tenho para dizer e me xingar, pois a desgraça da falta de interpretação leva a acharem que eu odeie o filme, apesar de todos os elogios.

O filme é bom, vale a pena ver sim. Mas o final é frustrante e poderia ser muito melhor. So que o lance é o seguinte, eu não posso falar desse final sem dar spoilers. Eu eu genuinamente não quero entregar nada muito relevante do filme. Eu nem ao menos queria mencionar os pais do garoto, e olha que isso o filme entrega rápido.

Porém, eu gostaria de comentar um spoiler especifico, sobre a mão, que tem a ver com o final. Logo a partir desse ponto peço que pare de ler se não viu o filme. Assiste ele e então vem aqui, leia o resto do texto e depois bora conversar. Beleza?

Para ler o resto, click na página 2 abaixo.

On the Screen: O Cristal Encantado – A Era da Resistência (Temporada 1)

Também conhecido como The Dark Crystal: Age of Resistance nos EUA, O Cristal Encantado é uma serie norte americana de Tokusatsu, no mais puro significado da palavra. É aquele tipo de show extremamente focado em efeitos especiais, so que mais de que Kamen Rider, Ultraman ou até mesmo Godzilla. Isso por se tratar de algo sem um humano sequer presente. E talvez esse seja o grande chamariz da série.

Isso se dá, pois, os efeitos são em sua maioria feito por meio de marionetes, e o resultado final é sensacional. Isso graças a coprodutora The Jim Henson Company, outrora conhecida como Muppets Inc. E eu sei, e difícil imaginar que uma produtora de filmes e series infantis faria algo tão vale da estranheza, mas na verdade isso não é novidade. Pois Age of Resistence é uma prequel.

Em 1982 a Jim Henson Company criou um filme intitulado The Dark Cristal, também chamado de O Cristal Encantado no Brasil, e dirigido pelo próprio Jim Henson (Família Dinossauros) e Frank Oz (A Pequena Loja dos Horrores). Juntos eles dirigiram o clássico Labirinto – A Magia do Tempo, além de participarem de diversos projetos dos Muppets. Logo podem ver que não é um projeto qualquer.

Visual do filme de 82, O Cristal Encantado.

Sei que a prequel não tem esses 2 talentos, infelizmente, porem muitos membros da antiga Henson retornaram para esse novo projeto. Isso inclui as filhas de Jim, Brian Froud, o artista conceitual original e o restante da família Froud, designers de maquetes e afins. Além de muitos mestres em marionete, sem contar outras incríveis adições.

Quem mais me surpreendeu nisso foi o diretor, Louis Leterrier (Carga Explosiva 1 e 2, Cão de Briga, O Incrível Hulk [2008], Fúria de Titãs [2010] e Truque de Mestre). O nome dele certamente traria ação para o filme, e realmente não faz feio nessa questão. Mas fico estupefato como ele ajudou no roteiro, edição e até mesmo assumiu papel de câmera, mostrando total dedicação ao projeto e se equiparando nesse sentido diria que a todo o cast, do pintor de cenários a quem faz os movimentos dos terríveis Skeksis.

O visual, a fluidez e o mundo recriado de Thra, com a mais perfeita fidelidade é algo de cair o queixo. Isso tudo também graças a notas dos já mencionados Jim e Frank, sobre detalhes mil esse mundo de um imaginário sinistro.

Louis Leterrier e o general Skeksis.

Eu não vi o primeiro filme, algo que desejo fortemente reparar, mas pelas imagens, vídeos e o documentário de produção do Netflix e inegável as similaridades entre os projetos e a paixão de todos os envolvidos. Por ser uma chance única, por ser algo que marcou a infância, por ter sido do crew original. E isso transparece na qualidade do show.

Jamais imaginei ver marionetes tão bem construídas e interpretação tão convincentes saindo delas. Você fica imerso, por mais que exista aquela sensação inicial que mencionei de vale da estranheza. Pois é tudo muito orgânico, por mais que sejam bonecos em tela verde e cenários de isopor.

E falando em tela verde. Existe grande uso de técnicas modernas, de animatrônica a CGI. Em alguns momentos infelizmente isso quebra a imersão, principalmente em cenas de movimentos mistas entre marionetes e modelos 3D e quando os bonecos são completamente removidos em prol de algo mais rápido, por limitações nas articulações e movimento dos próprios ventríloquos.

2 cenas para comparação, do que se vê em tela e de como a serie foi produzida.

Por outro lado, a serie apresenta aumentos no realismo vindos do 3D, como certas movimentações de rosto dos Gelflings, animais e cenários que não destoam nem um pouco, e que só dá para notar vendo o documentário já mencionado. O que me deixa ainda mais boquiaberto.

Fora que muito desse mundo me lembra produções dos anos 80, com um que de H. R. Giger e Abe’s Oddysee. Fascinação, medo e muita nostalgia. E o roteiro não fica atrás. Parece um épico de alta fantasia a lá Senhor dos Anéis, e já foi dito publicamente que o show foi muito inspirado em Avatar: A lenda de Aang e Game of Thrones. Até mesmo na contagem de corpos e elementos políticos.

 O Cristal Encantado: A Era da Resistência é um show tenebroso, que não tem medo de exaltar questões adultas em algo de classificação baixa. A todo momento achei que alguém iria morrer, principal ou não, o que gera tensão. E os momentos trágicos por morte, traição ou o que seja não são poucos. É um mundo muito mágico, distante, mas ainda assim crível nos momentos certos.

Os terríveis Skeksis.

E se eu não falei nada do enredo até agora é porque ele é basicamente isso. A descoberta de um mundo fantástico para o espectador e a urge de ver o que vai mudar na solene canção de Thra. Um mundo está caindo, coberto pela escuridão e clãs da mesma espécie se veem separados sobre o domínio dos malévolos e imortais skeksis. O resto e o resto, pois tem certos caminhos que so você pode ver, como diria a carismática Aughra.

Sei que estou jogando nomes difíceis a torto e a direto, como Thra ou Gelflings. Mas isso é porque a lore da série é tão fantástica que decorei o nome das raças e o nome de cada personagem. Algo que ao menos comigo não acontecia a um bom tempo.

Elogios para a série não me faltam, como podem ver. Mas por mais que isso tudo seja surpreendentemente fantástico, o destaque pra mim fica com os antagonistas Skeksis. Cada um deles animado por um mestre e dublados por nomes como Benedict Wong, Jason Isaacs, Simon Pegg, Awkwafina e Mark Hamill.

Poderia ficar horas sem fim falando de Dark Crystal, mas vou encerrar aqui com um sonoro ASSISTAM. Não é todo dia que falo de series aqui no blog, logo podem ver o quanto gostei dessa bagaça.

On the Screen: Infinity Train (Temporada 1) – Surpresas infinitas

Eu normalmente não falo de temporadas aqui e raramente escrevo sobre series em andamento, mas Infinity Train é uma exceção. Isso pois esse cartoon seque uma estrutura similar a series como True Dectetive onde cada temporada é um enredo, com a diferença de que a temporada 2 puxa elementos e personagens da primeira, até porque se passa no mesmo mundo. O tal trem infinito.

Mas como se deu isso numa serie do Cartoon Network? Bem, Infinity Train surgiu como um piloto de uma serie em meados de 2010, então em 2016 foi publicado como um curta no aplicativo VOD do Cartoon Network e no canal do YouTube, de maneira similar ao que faziam no Cartoon Cartoons, um antigo bloco de curtas que anteriormente eram pilotos. E que foi de onde surgiu clássicos do canal, como O Laboratório de Dexter, Meninas Super Poderosas, A Vaca e o Frango e Coragem, o Cão Covarde.

So que o Cartoon Cartoons já tinha o intuito de ver a popularidade e então dar sinal verde para a produção das series. Enquanto Infinity Train foi disponibilizado apenas para preencher vaga, se não porque ele ressurgiria 6 anos após a concepção? Era pra ser apenas mais uma opção dentre tantas outras para se assistir.

Porém, o curta de Infinity Train chegou a ultrapassar a marca de 1 milhão de visualizações em tempo recorde e logo surgiu uma petição para que o Cartoon fizesse o show. Isso tudo ainda em 2016. E parece que a empresa viu o recado e resolveu agradar os fãs, assim lançado Infinity Train em 2019.

Mas nem tudo é tão fácil. Provavelmente queriam uma serie longa, tal qual um Hora de Aventura. So que por mais que a Cartoon tenha sido boazinha, ainda é uma empresa. E nisso Infinity Train foi idealizado como uma minissérie de 10 episódios, cada 1 com 11 minutos. E por mais que isso pareça um problema, sinceramente eu acho que fez o desenho ser ainda melhor.

Sim, eu dei algumas voltas. Pois acho essa “história de origem” bem interessante e porque eu queria chegar nesse ponto da duração. Da forma como isso foi idealizado a primeira conclusão e de que seria um cartoon sem tempo suficiente para apresentar um enredo decente. Porem o que recebemos, graças ao time criativo por trás de Infinity Train, é algo sem furos e com episódios repletos de conteúdo.

Não parece que você está assistindo 11 minutos. Parece que você assiste longos seguimentos que mais parecem um filme Ghibli misturado com algo surreal como Twin Peaks. É um mundo único de fantasia e ficção jamais visto. Mas o melhor mesmo é o mistério interligado diretamente a cada um dos personagens e ao desenvolvimento da protagonista, Tulip.

O trem infinito realmente é um local bizarro, com mundos inteiros em cada vagão e seres ainda mais curiosos. Porem nada é mais intrigante do que a numeração na mão de tulip, que cresce e decresce sem um motivo aparente.  

E acima disso temos vozes misteriosas, monstros tenebrosos e o One-One. Um robozinho com dupla personalidade que busca sua mãe. E sim, até ele é mais um dos mistérios dessa jornada. Com um lado cheio de hype e outro depressivo, que lembra muito O Guia do Mochileiro das Galaxias.

Completando o trio de heróis, temos Atticus, o rei Corgi. Um corajoso e carismático cão que não apenas fala, mas se porta como nobre. E os 3 juntos são simplesmente incríveis, talvez sendo o grupo mais divertido e inusitado que vejo em anos, ao menos se tratando de desenhos. É ótimo ver eles se aventurando em reinos que variam desde montanhas de cristais a um vagão lotado de patos.

Porem a estrela ainda é Tulip e seu drama pessoal. Afinal não começamos no trem, e sim no mundo real com a protagonista fugindo de casa. E esse ponto faz toda a diferença. Um desejo negado, uma família problemática, infância dura, pais separados. Esses e outros detalhes vem a tona constantemente ao decorrer dos episódios, assim tocando em temas bem únicos para algo focado no público infantil.

Além de englobar fantasia, mistério, aventura e sci-fi, Infinity Train é também um coming of age. Uma história de amadurecimento, 100% focada no drama familiar. E eu não poderia enaltecer o quanto isso é importante e como tudo isso transforma a serie numa das melhores coisas que já assisti.

Eu falei acima que é algo para o publico infantil, mas so que de uma forma similar a como as revistas japonesas separam demografias. O foco do Cartoon Network sempre foi crianças, portanto esse é o publico alvo. Porem isso não quer dizer que a obra não possa ressoar com outras faixas etárias.

E eu acredito que Infinity Train é algo para qualquer idade. O roteiro é fenomenal, os personagens são cativantes, o mundo e encantador, e não me faltam elogios aqui. Eu recomendaria essa temporada a qualquer um de olhos fechados, até porque termina. Tudo tem um desfecho, e ai entra a questão de como foi idealizada a temporada 2.

Bem, se você ainda não viu o trailer, fique tranquilo. Eles optaram pela única saída cabível. Em vez de resetar o plot com algum motivo besta eles mantiveram o trem e introduziram um novo personagem, um novo passageiro. E por fim colocaram um secundário da temporada anterior como parte do novo trio central.

Minha única questão mesmo com a temporada 2 vai ser se vão utilizar e como vão utilizar os demais personagens que sobraram. No resto, pode ter certeza de que eu já estou no hype. XD Infinity Train é bom d+.

On the Screen: Godzilla Raids Again (1955) – Sequencia desnecessária?

Seguindo com a maratona de Godzilla, chegamos ao segundo filme da era Showa. Godzilla: Raids Again. Um longa que sai apenas um ano após o original, em 55, e que tenta ser a sequência direta do clássico.

E coloco ênfase nesse “tenta”. O filme é literalmente uma sequência, porem elimina diversos fatores que fizeram do primeiro um sucesso. O cast inteiro foi trocado, com exceção de breves aparições de Takashi Shimura. A direção passou do incomparável Ishirō Honda para Motoyoshi Oda. E o que muitos consideram a pior parte. O roteiro remove quase que 100% as menções a armamentos nucleares, guerra e preservação de espécies, deixando apenas o mínimo possível para ser considerado uma sequência.

E agora você deve estar se perguntando, afinal, sobre o que é esse filme? E eu posso dar duas respostas a isso. A primeira é que se trata de uma tentativa de lucrar em cima do grande kaijuu, iniciando assim a leva de filmes “Godzilla Versus” com a primeira aparição do monstro Anguirus.

O embate entre os monstros é mostrado de forma muito estranha, colocando eles como antigos rivais. Tudo é realizado de dia, eliminando assim o terror presente no primeiro. Mas o ponto que mais me irrita, aqui entrando em spoilers do filme de 54, é que o antigo Godzilla morreu e aqui existe outro Godzilla, filho do primeiro, e acabou ai a explicação. E tudo isso dá uma sensação tremenda de filme meia boca construído as presas pra gerar grana.

As únicas coisas que se mantem do primeiro é que se trata de um filme mais sério, com grande foco nos personagens. E eu gostaria muito que isso tivesse sido removido. Pois o plot inteiro, ao menos na minha opinião, parece ser algo que deveria ter recebido um tom mais cômico com foco nos monstros, tal qual muitos filmes que veriam a seguir na série.

Digo isso pois se tirarmos que existe o monstro, o filme inteiro é sobre a vida do personagem Koji Kobayashi, interpretado por Minoru Chiaki. E eu não sei quanto a vocês, mas eu fui ver Godzilla e não esse cara. Se o enredo ainda fizesse sentido colocando o monstro no centro eu relevaria, mas se trata de uma série de cenas inúteis que tentam inutilmente construir o personagem para o grande clímax do filme. E mais uma vez o longa falha miseravelmente.

Nada tem impacto em Rides Again. É um filme tremendamente chato, sem proposito para o espectador e que apesar de ter somente 82 minutos eu tive de assistir no período de 3 dias, tamanha minha insatisfação com o filme, mais o fato de que é chato pra caralho, e repito mais umas mil vezes se precisar. É muito, muito CHATO!

Um longa tão ruim que eu quase desisti de fazer essa maratona com o segundo filme e eu imagino que seja a maior barreira existente na hora de ir atrás da franquia Godzilla. Pois todo mundo nessa altura do campeonato sabe que os filmes mudam após o primeiro, e assistir isso logo na sequencia causa a impressão de que todo o resto vai ser uma tremenda merda.

Na minha opinião é um filme desnecessário que não so pode, mas deve ser pulado. A não ser que você já seja um fã hardcore do lagarto e queira marcar os checkbox da sua listinha para dizer que viu absolutamente tudo de Godzilla.

O único detalhe que passa para o filme seguinte, King Kong vs Godzilla, é a questão do iceberg que remete ao final de Raids Again. E mesmo isso pode ser ignorado, so servindo como um misero detalhe que tenta ligar os filmes.

Mas enfim, o pior acabou, ou assim espero. No próximo texto dessa maratona vou encarar o “clássico inusitado” King Kong vs Godzilla. Que já adianto, é melhor do que eu esperava. E que comparado a Raids é uma obra de arte.

On the Screen: Godzilla (1954) – A era do grande kaiju começa!

Recentemente resolvi rever Godzilla, o filme de 1954. O primeirão mesmo. Preto e branco raiz, produzido no Japão. Sei que muitos iam preferir ler sobre um filme mais moderno, como os Godzillas da Legendary, ou o Shin Godzilla do Hideaki Anno, diretor de nada mais que Evangelion. Até porque batem sempre na mesma tecla de “vejam o clássico” e “ele é sobre bombas nucleares”.

So que sim, vejam os clássicos, e sim, tem as paradas da bomba sendo referenciadas, e isso é foda. Não tem como fugir disso, até por estarmos falando de um filme da década de 50, cheio de efeitos práticos que ainda assim convence muito. Acredite, saber que é um homem numa roupa de borracha destruindo maquetes não muda o fato de que aquele é Godzilla.

A presença do monstro é assustadora, e isso para mim faz o filme. Pois enquanto o gigante se esconde as pessoas pesquisam e comentam a respeito dele, quase que como se fosse um deus antigo de Lovecraft. Não tem jump scare, gore ou truques baratos modernos. É um monstro clássico, e isso deveria bastar.

Pois é através dessa formula que ele consegue agradar, ao meu ver, quem busca terror, sci-fi ou um monstrão detonando tudo. Sejá você adulto ou criança, Godzilla é um prato cheio e merece sim o status que possui. Porém, por mais obvio que seja dizer isso, não é para todos e vale algumas ressalvas. Talvez até mais do que vangloriar de pé.

Eu acho que o filme envelheceu muito bem, não apenas nos efeitos. Mas existem momentos em que a época da película fica aparente, fora o fato de ser preto e branco. Acho que é uma barreira que muitos deveriam romper, mas ainda assim uma barreira. Porém o ponto negativo principal fica com o ritmo e atores.

É um filme lento e as cenas de destruição talvez durem mais do que devia. Novamente algo que cai no gosto pessoal, mas que vale a menção. Até porque quando eu era mais novo eu dormia tentando ver Godzilla.

Já quanto os atores, eu não diria que são todos ruins. Gosto muito da atuação de Takashi Shimura, por exemplo. Porem existem cenas em que que os personagens recebem cortes bruscos para mudar de um sentimento ao outro, como por exemplo indo de susto para choro. Não fica natural. E isso é extremamente evidente quando Momoko Kôchi está contracenando.

E isso pode ser erro dos atores de não conseguir fazer a sena sequencialmente correta, como pode muito bem ser uma falha do editor. Sei que é um cargo na produção muitas vezes ignorado, mas é um dos mais importantes na hora de definir se o filme tem um visual de amador ou não. Pois imagine se o Gozilla teleportase pelo cenário o quão ruim seria? Um bom editor evitaria essa sensação mesclando bem as cenas, e infelizmente isso não ocorre com certos atores.

Mas graças a deus nenhuma dessas coisas que menciono são uma constante. O filme é extremamente divertido e interessante. Se você é adulto vai notar a sutileza do plot sobre armamentos nucleares e guerra, enquanto uma criança se divertiria com o monstrão soltando fogo e pisando em prédios. Tanto que após um tempo os filmes seguiram por esse caminho de tentar levar as telas algo mais “infantilizado”. Na falta de outra palavra.

Se isso é bom ou ruim? Olha, depende do filme. Eu gosto muito do tom sério do primeiro, mas o segundo filme tem um plot tão sem graça que eu preferia que fosse algo esculachado. Cada filme tem seu estilo, uns mais zuera que os outros, e é por isso que pretendo continuar essa viagem pelo universo de Godzilla. E quem sabe ao terminar as eras eu não faço um resumo delas como pretendia no começo, não é?

On the Screen: Neon Genesis Evangelion – Do mindfuck ao The End.

Anos atrás, quando eu comecei a entrar no mundo dos animes, Evangelion era uma das maiores febres da internet. Desde então sua relevância não caiu nem um pouco, sendo hoje considerado um dos maiores clássicos da animação japonesa.

E não é para menos. Toda a estética do anime, enredo e personagens chamam muita atenção, sendo possivelmente uma das obras mais memoráveis. Dita por alguns até como uma desconstrução dos mechas ou uma reação “noventista” a segunda guerra mundial e as bombas atômicas.

Da pra se tirar muito desse anime, seja analisando a superfície ou até mesmo pausando e lendo pequenos detalhes ao fundo, reparando em sombras, ou como já dito tentando entender como o contesto histórico influenciou na obra. Daria que até da para fazer paralelos com religião e com a psique do próprio diretor, bastando apenas pesquisar mais a fundo.

Porem isso muitas vezes não é algo que se nota numa primeira assistida. Como falei logo no começo, Eva foi um dos primeiros animes que eu assisti, e eu queria entrar um pouco no contesto dessa primeira vista antes de prosseguirmos.

ASSISTINDO PELA PRIMEIRA VEZ

Evangelion me foi introduzido por um amigo no Yahoo Respostas, e podem rir disso. Eu era novo na internet, finalzinho da era discada, e era noob total se tratando de animes. Eu conhecia no máximo Dragon Ball e Yu Yu Hakusho, sendo as coisas mais “underground” que eu consumi, Samurai Champloo, Kimba e aquele anime horrível de Ragnarok. Tudo na TV aberta.

Logo eu aceitava sugestões de qualquer lugar, e poxa, tem lá um site de perguntas né. E podem me julgar o quanto quiserem, mas o povo lá realmente tentava encaminhar pro “caminho otaku” da forma correta, ou em outros termos, não recomendavam apenas modinha.

Conheci muita gente legal lá, que me apresentaram o My Anime List e obras como Trigun, FMP e Ergo Proxy, que hoje são mais mainstream, mas que na época era algo mais abaixo. Não diria que se tratava de algo “true underground” com pouca fanbase, mas era certamente longe do topo.

No meio dessas indicações me falaram de Evangelion, mas da seguinte forma. “Já que você gosta de ação, tem um anime de robôs muito foda, com história legal, que vai ficando confuso, mo mindblow, e que não tem final. Os dois últimos epis não valem. Ah, mas vc pode pular esses e ver o filme que é final verdadeiro. ”

Me pergunto quantas pessoas já ouviram uma descrição assim. Parece até aquele meme do Twitter de “descreva seu anime favorito da pior forma possível”. Dizer que tem ação e algumas partes confusas é ok, mas aqui se trata mais da forma como é dita. Pelo que ele descreveu eu interpretei que seria um anime bom de ação que vai ficando cada vez mais difícil de se entender e que termina de uma forma muito ruim. Para que eu iria ver isso?

Ignorei completamente a indicação. Vi lá meus Samurai 7 e meus Hellsings. Consumi do mais falado ao quase rejeitado, ao menos se tratando do que entrava no conhecimento desses meus amigos, e no fim, na falta do que ver, resolvi pegar Evangelion. Eu já era menos birrento quanto a plot, digamos, e me achava o conhecedor da arte nipônica. Logo, porque não?

Bem, eu não diria que eu era otakinho na época, mas eu assistia animes por um único proposito nesse período. Lutas fodas. Eu gostava de enredos mais complexos, mas se não tivesse aquela luta fantástica de cair o queixo quem caia mesmo era minha vontade de continuar.

Vi o início de Evangelion e segui até aparecer a Asuka. Eu gostei das lutas, mas todo o restante me incomodava. Me dava uma sensação ruim de ver as ações do Shinji e eu sentia um pequeno indicio de depressão vendo a obra. Já o enredo, ignorei, dei o fodesse.

Assisti mais um pouco, não me recordo até qual momento, mas acredito ter sido até o episódio 11, pois ao rever o anime foi até esse ponto que eu tinha algum tipo de lembrança. Mas eu vi tudo, não me entenda errado. Eu parei nesse pedaço e depois fui vendo espaçadamente, empurrando cada vez mais, ao ponto de que assisti algo extremamente picotado e cada vez sem nexo. Eu não conseguia mais juntar o que aconteceu em cada episódio, nem mesmo se tratando dos pontos mais básicos.

Nisso veio os 3 últimos episódios. O episódio 24 é algo que eu me recordo, ao contrário dos outros 15 episódios após o 11º, mas não como algo bom. Eu lembrava desse como sendo algo muito ruim que me incomodou bastante e me deixou mega confuso. E na sequencia temos os episódios 25 e 26, ditos como o mindfuck supremo que deve ser pulado. Imaginem minha reação naquela época a esses 2 episódios. Eu passei a odiar Evangelion, apesar de não o fazer abertamente. Isso pois eu me sentia inferior aos outros por ter entendido absolutamente nada da obra. Ergo Proxy era um passeio comparado a isso.

Anos se passaram, e minha opinião sobre Eva mudou. Eu lembrava desses episódios iniciais como algo muito bom e literalmente apaguei da memória todo o resto, exceto aquela sensação de que era algo confuso e maçante. Mas então 12 anos se passaram, estamos em 2019, e minha mentalidade mudou muito, então porque não assistir para valer e analisar a abra? Foi o que pensei. E olha, acertei em cheio.

REVENDO EVANGELION

Parece piada o que vou falar agora, ainda mais depois de toda essa história, mas ao assistir Eva novamente eu passei a gostar imensamente do anime, ao ponto de que agora eu afirmo com certeza de que essa é uma das melhores obras de animação japonesa que eu assisti. E isso vindo do cara que tinha tanto ódio de Evangelion que isso virou meio que um repelente de todo e qualquer anime do gênero Mecha.

E vamos começar por isso, os mechas. O ponto no qual afirmam que esse anime é uma desconstrução do gênero. Isso pois os robôs Eva não são uma construção inteiramente mecânica, sendo em boa parte algo biológico, como um organismo aliem. E eu acho isso fantástico, pois os próprios robôs existirem e serem os únicos capazes de destruir os ditos anjos é algo extremamente relevante ao plot.

Essas maquinas gigantes não estão ali apenas para serem a “armadura de combate” dos protagonistas. Não são apenas uma casca de metal sem vida para garantir sobrevivência num meio inóspito. Esses mechas evoluem junto dos protagonistas. Não num viés de super robô escrachado como em TTGL, mas como se os próprios Evas fossem personagens com histórias e segredos a serem descobertos ao decorrer da trama.

E o mesmo pode ser dito da organização NERV, a qual comanda as operações realizadas pelos Evas. E eu sei que falar que uma organização evolui é bem mais crível do que apontar esses detalhes num robô, mas ao mesmo tempo é ainda mais bizarro dizer que a organização é um personagem. Afinal, não seria melhor afirmar que são os personagens dentro da organização que a refletem?

Até certo ponto sim. De Ikari, o comandante da NERV, para baixo, a organização e definida por esses personagens e suas ações em cada uma das áreas que eles exercem, tendo conflitos diversos e sim, evolução. So que existe um outro grupo de pessoas acima de Ikari, chamado de SEELE.

Com exceção do inicio do anime e algumas cenas do diretor Keel Lorentz, todos os membros da SEELE são representados por monólitos, e são eles que ditam por cima tudo que deve ocorrer na organização. Não estão literalmente ligados a parte de combate e pesquisa dos Evas, mas são eles que dão o veredito final a diversas questões, inclusive no âmbito internacional e envolvendo outras centrais.


Nesse ponto devo admitir que não entendi bem se eles, SEELE, são realmente os superiores da NERV ou alguma organização internacional, similar a ONU. Isso so ficou claro ao ver o filme The End of Evangelion. Portanto, peço que leiam até a parte do The End desse texto.

E é esse grupo de pessoas que eu considero definitivamente um personagem, incluindo Lorentz. Eles têm vozes e opiniões diferentes, mas sempre são vistos discutindo o mesmo assunto, de forma que fica difícil de não os associar a uma única entidade, mesmo que não seja algo factual. Isso somado a representação deles, faz até parecer ser uma única pessoa com múltiplas personalidades, ainda mais se levar em conta que eles nunca desviam muito do raciocino e sempre chegam ao mesmo resultado.

Mas voltando a NERV.  Essa organização tem uma cadeia de comando bem distinta com comandante, vice comandante, chefe de operações, inspetor, e assim vai até chegar nos child (criança), representados por Rei (First Child), Asuka (Second Child) e Shinji (Third Child). Ou em outros termos, os pilotos dos mechas. Sendo a própria nomenclatura deles mais um mistério da trama.

E assim segue Evangelion com diversos mistérios em cima dessas questões de organização, Evas, Childs, Anjos, entre outras, que vão cada vez se aprofundando mais ao decorrer do enredo. Mas sendo os principais e mais interessantes mistérios, ao menos para nos telespectadores, aqueles que envolvem a psique dos personagens.

Não temos aqui um anime com tropes claros de cada arquétipo de personagem. Cada um dos integrantes da NERV, e não incluo apenas as crianças nisso, tem segredos ou apenas detalhes que são escondidos de quem assiste até o momento H, para assim causar um maior impacto. E é através desses pontos, mais os conflitos subsequentes que ocorrem no presente, que vemos a fantástica evolução desses seres que não são nem heróis nem vilões.

E sei que pode parecer estranho tocar nisso so agora, mas vamos ao plot em si. Eva começa com o chamado Segundo Impacto sendo algo bem recente. Um evento quase apocalíptico que destruiu uma área considerável do mundo, e que na sequencia fez com que os Anjos, inimigos da humanidade, voltassem a aterrorizar o planeta. Agora cabe a NERV e aos pilotos do projeto EVA acabar com essa ameaça.

Por tudo que eu falei até então esse parece ser um plot bem raso. Ele é centrado numa ideia bíblica envolvendo coisas como Adão e Eva, lança de Longino e Manuscritos do Mar Morto, até a óbvia reinterpretação do Juízo Final. Porem para aqueles que não estão tão ligados a religião, fica de fato algo de difícil interpretação, e para mim ao menos os acontecimentos que se deram por sequência são apenas referências e no mais o clichê de monstro da semana.

Sei que deve ter algo mais profundo quanto a vinda de 13 anjos e a tentativa de proteção do mundo. Mas para mim foi exatamente o que eu falei. Monstro da Semana. Não consigo pegar a fundo essas partes bíblicas, mas ao menos posso notar a influência de Tokusatsus, Gundam e até mesmo Ideon.

Para saber mais sobre as influências de Evangelion recomendo ler esse Thread e depois ir atrás das obras. https://twitter.com/Nintakun/status/1067398232702107650

E é nesse mundo de monstro da semana que a gente conhece melhor cada personagem, so que de uma forma meio distorcida, digamos. Shinji é aquele principal medroso. Algo visto em obras B como Deadman Wonderland e Mirai Nikki. Mas não apenas por ser um cagão sem poderes que vai ficar no plot quase que como observador. Não. Ele é o mais forte, mais capais, porém mais indeciso e traumatizado. Tem um motivo para ele agir assim, e é por isso que eu não entro no grupo seleto de pessoas que detestam o Shinji.

Ao menos colocando aqui meu ponto de vista sobre o personagem no anime, e excluindo o filme por agora.

Shinji para quem não sabe é um dos protagonistas mais odiados pelos otakus, por conta dessa atitude de bunda mole. O cara que não quer fazer as coisas. So que ele está num contexto muito bem explicado, crível quanto ao afastamento dele e que disponibiliza meios dele se defender, sendo, portanto, um personagem mais incluso em seu próprio mundo, digamos. Ao invés de um chorão que sobrevive por ter amigos fortes.

Fora que a mentalidade dele vai evoluindo de uma forma fantástica ao decorrer da série, segurando bem a tocha de protagonista. Tendo alguns episódios bem marcantes com apenas ele sozinho, em momentos de depressão.


Uma das minhas partes favoritas do anime, sem dar spoilers, e uma que começa com o Shinji falando “Isso é cheiro de sangue?” E o resto do episódio segue sem se desvencilhar dessa única frase, terminando com o shinji aproximando seu braço da face e falando “O cheiro de sangue não sai”.

Já a Asuka é outra história. Muitas pessoas também detestam ela, e no decorrer do anime eu consegui muito bem entender o porquê. No início eu achava ela apenas uma garota metida, que escondia seus sentimentos e que estava sempre feliz.

So que Asuka evolui tanto quanto o Shinji ao decorrer da série, mostrando sua completa arrogância, traumas e todo o resto. Ela vive uma vida falsa, e se sente frágil o tempo tonto. Existe de fato um porque muito bom de ela tentar sempre ser a melhor e buscar superar o Shinji. Mas eu não consegui não ter raiva e sentir uma certa pena dela, principalmente próximo dos últimos episódios.

Meu momento favorito da Asuka é algo que vai na contramão de todo o resto do anime. Tem um episódio que ela e o Shinji tem de treinar juntos para amplificar a sincronização com os mechas, e eles fazem isso praticando dança sincronizada. O episódio acaba com eles dois lutando em sincronia num bale orquestrado de forma brilhante.

Então temos a Rei. E eu sinceramente não tenho uma opinião sobre ela, sendo está a favorita do público. Talvez por ela ser usada mais como uma ferramenta de narrativa do que como um personagem em si, o que me fez enxergar ela como algo mais próximo aos EVAs desde o começo do anime.

Rei certamente evolui, mas o lance de ter sentimentos reprimidos faz com que essa evolução seja inconstante, e eu particularmente acho que personagens secundários como Ikari e Ritsuko trazem mais a mesa quanto ao lance de sentimentos e drama, mesmo ambos também sendo bem fechados e tendo um papel mais focado em como comandam suas respectivas áreas.

O ponto de maior impacto se tratando de Rei e um pequeno momento em que ela aperta os óculos de Ikari e caem algumas lagrimas. Algo extremamente rápido, mas com uma mensagem bem importante quanto a personagem, e que reflete bem como a sua evolução é mais fechada.

Sei que muitos não consideram, mas eu acho a Misato uma personagem com grau de protagonismo bem maior que a Rei. A chefe de operações da NERV e tutora de Shinji e Asuka passa por algumas das evoluções mais impactantes de todo o anime e é a responsável pela maioria das interações com o restante da NERV.

Fora isso temos o triangulo amoroso entre ela, Ritsuko e Kaji, com direto a intervenção de Asuka e Shinji em alguns momentos mais inocentes. Gosto muito desses períodos mais slice of life que o anime proporciona vez ou outra. E eu adoro como que o Kaji é quase que parte integrante da personagem da Misato.

Para mim o mais impactante em Misato não é um momento, mas a construção para um momento. É ela guardar muitos segredos, ao mesmo tempo que desconhece tantos outros e busca a verdade. Isso leva a uma das cenas de maior drama da obra.

Ou seja, todos os personagens da trama são imperfeitos, com fortes sintomas de depressão, traumas e meio que sem um objetivo de vida. Nenhum deles está na NERV para salvar a humanidade, mas sim para realizar objetivos egoístas, assim nos fazendo refletir sobre a essência do ser humano.

Não existe um vilão claro. Todos os personagens demonstram poder ser capazes tanto do bem como do mal, mas não de forma escrachada, e sim humana. É algo extremamente crível e relacionável. E é por conta disso que Evangelion consegue ser tão impactante.

No máximo daria para dizer que Ikari é o vilão, pois algumas de suas ações gerou sofrimento a boa parte dessas pessoas. Ainda assim ele é mais um ser frustrado, traumatizado, e que demonstra fortes sentimentos quando se trata de Rei, enquanto esconde muitos quanto ao Shinji. E isso sem contar que ele aparenta ser o mais focado na questão de salvar o mundo, não importando que sacrifícios terão de ser feitos.

E em meio a todo esse drama, as lutas meio que ficam em segundo plano. Certamente é legal ver aquelas coreografias fodas e ideias surreais para os anjos, mas é bem mais interessante acompanhar as mudanças causadas ao mundo, os conflitos internos e a evolução no psicológico das pessoas. A ponto de poder se dizer que os Anjos invadindo é meio que o plano de fundo para vermos interações humanas em cenários hostis. Num viés similar o que dizem atualmente sobre os zumbis de The Walking Dead.

E tudo isso junto, ao menos para mim, já é motivo de recomendação. E olha que eu não mencionei a trilha sonora impecável de Shiro Sagisu (Nadia, Bleach, SSSS.GRIDMAN) que usa de música clássica em diversos momentos, mas que surpreende mesmo ao incorporar barulhos que contribuem a tensão ou simplesmente cortar toda a música deixando apenas som ambiente ou em muitas vezes o completo silencio. E sim, esse silencio impacta de forma estupenda.

No tema principal temos Yoko Takahashi (Shakugan no Shana, Pumpkin Scissors, This Ugly Yet Beautiful World), cuja a música mais famosa é justamente A Cruel Angel’s Thesis. Uma das músicas mais marcantes de qualquer anime. E mal tenho espaço aqui para falar da animação. Eles trocam muito de animador, mas fica algo quase imperceptível. O mais chamativo na animação, além da fluidez das lutas, certamente e o já mencionado uso de mensagens subliminares nos fundos, os belos cenários e o corte completo de cenários mais o uso de imagens estáticas. Algo que parece besta, e que certamente teve de ser usado por corte de gastos, mas que claramente foi bem utilizado ao máximo. Graças também à direção impecável de Hideaki Anno (Gunbuster, Nadia, Valis).

Ou seja, até o episódio 24 Neon Genesis Evangelion é altamente recomendado. Mas é se levarmos em conta os dois últimos?

FINAL (EPISÓDIOS 25 E 26)

Essa é a parte mais polemica da obra, pois consiste em 2 episódios, quase que inteiros, com textos passando rapidamente, imagens piscando e dando a sensação de se mesclarem, além de muitas coisas se repetindo e outras deixadas claramente em aberto para interpretação do espectador.

Acreditasse que o motivo disso ter ocorrido seja a falta de verba para o show, ainda mais que aquilo que falei de imagens estáticas e outros efeitos, como aquilo de se piscar imagens que acabei de falar, aparece mais predominante a medida que se aproxima do final da série. Sendo os 2 últimos episódios construídos com o mínimo de dinheiro possível, repetindo inclusive linhas de diálogos e frames antigos de animação.

Porem isso explica apenas a parte da animação. Apesar de ter essa repetição de diálogos, muito do texto desses dois episódios ainda é original. Talvez algo escrito as presas, formulado para substituir o original pois não iria bater com a animação.

Ainda assim existem outras teorias mais predominantes, ao menos quanto ao enredo desses dois últimos episódios. Tem aquilo de que Anno deu realmente o foda-se pro anime e resolveu tacar ali o seu ponto de vista sobre a indústria. Algo que não descarto, pois tem um seguimento inteiramente animado do jeito clássico que parodia o início de um anime escolar, sendo talvez a parte mais digerível desse mindfuck.

Porem essa hipótese eu deixaria exclusiva para esse seguimento, e ao mesmo tempo descartaria. Pois veja, o restante desses dois episódios não encaixa na ideia de mostrar a revolta quanto a indústria. Pois realmente é passado algo dentro de contexto se prestar atenção mais a fundo.

A repetição é sim extrema, talvez para gerar a ideia de estarmos vendo um conflito interno muito grande. Tudo realmente gira entorno disso. Conflitos internos dos personagens Shinji, Asuka, Rei e Misato. São dois episódios inteiros sobre depressão, drama, trauma, e outros temas levantados ao decorrer da série, mas excluindo a ação e demais pontos relevantes apenas a NERV.

Nisso entra a teoria de que eu mais gostei, e que eu fortemente aceito, ao menos nesse momento. Que seria a de que o anime acabou de fato no episódio 24 e que tudo isso mostrado na sequência e apenas um complemento, um prologo. Algo mostrando alguns acontecimentos extras, mas que como já falei se foca demais nessa ideia da mente das pessoas, desejos, objetivos, etc.

Ao mesmo tempo outra boa teoria, que quase que complementa essa, e a de que esses trechos mais vagos e complexos foram montados dessa forma para que cada espectador encontrasse ali o seu próprio entendimento do que ocorreu no anime.

Acho isso interessante pois a parte de complemento ao enredo e notas do psicológico entra melhor no episódio 25, enquanto a parte de interpretação e o descontento com a indústria, porque não, encaixa melhor no 26.

So que isso também gera outro problema. O do 26 ser o real mindfuck da porra toda. Ele é o episódio onde tem mais disso de interpretação de cada espectador e teorias para lá e para cá. E acho que boa parte disso se deve a menção de instrumentalidade e a questionável cena de “Parabéns Shinji!”

Instrumentalidade é uma teoria surgida da teologia. E eu mesmo entendi o conceito bem por cima, por isso deixo aqui um link para melhor entendimento. (Em inglês) https://en.wikipedia.org/wiki/Instrumentality_(theology)

Pelo que entendi sobre instrumentalidade, isso entraria no contexto da obra sobre a ideia de deus e o homem terem interpretações diferentes sobre o texto sagrado, assim justificando a visão de Anno sobre o apocalipse e demais eventos, ou o entendimento de personagens como Ikari daquilo profetizado no decorrer do anime. O que por vez faria de Shinji nesse último episódio apenas um avatar do espectador, já que tanto ele quanto quem assiste está sendo teoricamente ensinado sobre a instrumentalidade.

E esse ensinamento da instrumentalidade é mais uma das teorias que tentam justificar o final. E ainda assim é mais uma que não consigo enxergar sozinha, pois como já falei é algo quase que exclusivamente pertinente ao episódio 26.

Quanto a cena do “Parabéns Shinji!”, essa eu acredito ser a parte mais sem nexo do anime. Não entendo se é uma mensagem do diretor para com os espectadores, para com a indústria ou até mesmo algo mais pessoal ou religioso, visto a linha “meus filhos”. Eu não consigo deixar de pensar que é um momento desnecessário e surreal.

A melhor interpretação que consigo dar para aquilo seria uma parabenizarão por entender sua psique, a instrumentalização, e outras coisas faladas no final e ao decorrer da série, incluindo a conclusão da parte dos Anjos. E ainda fica o questionamento se tem mesmo tudo isso interligado, ou nada, ou somente um elemento que faz sentido dentre tantas teorias.

Talvez por isso que tantos aceitem a teoria de que o final é uma grande merda, e não to brincando aqui. Falo de que o anime ficou sem verba, Anno não teve como fazer o final que queria e então tacou um monte de coisa sem contexto na tela, com uma, muitas ou talvez até nenhuma informação. Mas que se foda, pois este não seria o verdadeiro final.

Como falei antes, eu no momento inclino mais para a falta de verba e a parte sobre fechar buracos, mais o prologo sobre o psicológico de cada personagem. Isso no episódio 25 e 26. Já pensando no 26 e naquilo que apenas ele traz a mesa, ai eu realmente não sei o que pensar. A parte da instrumentalidade, se eu tiver entendido, e interessante, mas desnecessária. E acho que esse é quase que o sentimento unanime quanto ao final do anime. Acho o 25 é passável, mas quando são 2 episódios assim acho que até o mais assíduo dos fãs se questiona se não era melhor ter tido so um “mindfuck” ou ter acabado no 24.

Sei que existe ainda a questão contratual, e uma vez contratados para fazer 26 episódios não seria viável, mesmo sem verba, parar antes do 26. Mas ainda assim eu gostaria que o anime não tivesse ido tão longe nessas loucuras todas, e olha que eu genuinamente gostei dos 2 últimos episódios nessa segunda assistida.

Logo, apesar de todos os porem, eu acredito que valha sim assistir Neon Genesis Evangelion até o 26, sem pular do 24 para o filme. Principalmente por esse anime ter sido um marco histórico da animação japonesa e que vale ser assistido tanto para entender o que presam nele como para ver aquilo que consideram tão polêmico.

Quanto aquela teoria do final falso. Ela dita que o final verdadeiro seria o filme The End of Evangelion, enquanto tem uma última teoria que diz que os episódios 25 e 26 se passam na mente do Shinji, e que o filme seria os acontecimentos em tempo real. E vamos tirar a limpo se é isso ou não agora, assistindo The End of Evangelion.

THE END OF EVANGELION

E caso eu não tenha deixado claro no parágrafo anterior, eu estou escrevendo essa parte do texto após ver The End of Evangelion. Ou em outros termos, eu escrevi um monte sem realmente assistir ao final verdadeiro da série.

Sim, esse é o final, e aquilo de final falso para o episódio 25 e 26 ainda não faz o menor sentido. E sabe o que também não tem nexo? O final da série ser os pensamentos de Shinji e o filme ser as ações do rapaz.

Colocando um pouco mais em contexto. Em boa parte de The End o Shinji fica estático. Parado mesmo, e temos cenas similares com Asuka, mais algumas outras um tanto quanto surreais com Rei, e isso sem entrar em spoilers. Falando primeiramente de pontos que poderiam ter os tais pensamentos, os quais por vez seriam os episódios finais do anime.

So que o primeiro contra-argumento aí seria exatamente esse da Asuka e da Rei. Ambas claramente têm seus arcos de pensamento nos episódios 25 e 26, não apenas o Shinji. E a Misato também tem um arco de reflexão, e no END ela não para um segundo para dar tempo de alguma reflexão mais complexa. Um trejeito bem natural da personagem.

Quanto aquilo de ser o final verdadeiro. Eu diria que ambos são o verdadeiro, so que THE END e o final melhor elaborado e com algumas mudanças. Da para notar isso em parte dos diálogos e por conta de cenas praticamente iguais, so que agora colocadas num melhor contexto, sendo elas aquelas que fechavam pontas no enredo ou que trabalham o já mencionado psicológico do Shinji. O que talvez tenha causado essa confusão quanto a ser um sonho ou pensamento do protagonista.

Isso por vez dita que os episódios finais da série têm revelações relevantes quanto ao filme, e que, portanto, não seria de todo mal pular os episódios 25 e 26 para evitar o spoiler ou simplesmente “fugir” do mindfuck. Ainda assim, eu que vos escrevo, permaneço com a ideia de que se deve assistir o final da série por se tratar de algo que marcou a história dos animes, e para notar o quanto conseguiram fazer com tão pouco. Sem contar que é divertido ver e bolar teorias e os tais spoilers não atrapalham nem um pouco.

Outro ponto a favor disso de ver os finais E o filme, mesmo o filme sendo literalmente duas partes intituladas episódio 25 e episódio 26, e que o longa também é bem confuso. Parece que Hideki Anno planejava sim desde o começo explodir cabeças, e boa parte das pessoas, independente do que assistir, ainda vai ficar bem confusa.

So que o filme também tem os seus pros. Enquanto o final da série mostra um incrível malabarismo de orçamento e apresenta pontos diversos a serem pensados, alguns que nem ao menos são mencionados no filme, a película completa o enredo com um visual deslumbrante, mais digestível, e com muito mais informações pertinentes.

É apenas em The End of Evangelion que vemos e entendemos o final de cada um dos personagens, excluindo completamente o “Parabéns Shinji!” que agora mais do que nunca acredito ter sido uma mensagem pessoal disfarçada. Porém o filme também remove a conversa sobre instrumentalismo e a cena em que Anno dá um esporro na indústria. Dois pontos desnecessários, principalmente no viés de entretenimento, mas que se mostraram no mínimo interessantes.

Voltando ao filme, ele completa o arco de todos os personagens, deixando mais clara a relação que cada um tem com o próximo, sendo as maiores evoluções referentes a Shinji, Asuka, Rei, Misato e Ikari.

Esse último chega a ser algo surpreendente. Pois sabemos de seus sentimentos para com Rei, mas nunca foi de fato mostrado o porque ele fez tudo aquilo, e o filme entrega numa cena perfeita tudo que Ikari foi ao decorrer do anime, o tornando um humano ainda mais falho, e o removendo daquela visão de que ele era o grande vilão.

Na verdade, quem se volta mais para o papel do vilão é a organização SEELE, que erroneamente eu achei ser parte da NERV. A relação das duas fica bem mais clara no filme, apesar de que aquele papo de serem personagens ainda se encaixa perfeitamente. Sendo que o enredo do filme gira exatamente entre o conflito interno de ambas. E devo ressaltar, feito de forma brilhante, ao mostrar que o humano sempre é seu próprio inimigo, seja por atos bélicos, seja por traição, seja por conta de sua própria mente.

Também entendemos melhor por conta do filme o ocorrido no episódio 24, e as implicações do passageiro personagem Kaworu, e temos como bônus um novo prologo. Tudo isso junto resultando num filme fenomenal, com ação, mindfuck, depressão, e todo resto que fez da série tão popular.

E quanto aos principais… SHINJI E UM DOS MAIORES FILHOS DA PUTA DOS ANIMES! Sério, eu tinha de tirar isso do peito. Voltei a gostar um tanto mais da Asuka, e a Rei finalmente parece ser mais relevante do que uma boneca de porcelana que abre a boca vez ou outra. Mas dentre todas as mudanças apresentadas no filme, a maior obviamente foi a do protagonista. Eu achava o Shinji um personagem ok no anime e agora penso seriamente que ele deveria ter morrido uma morte horrível.

Isso que falei acima é extremamente pessoal, e eu não garanto que você vai ter a mesma reação. Eu apenas não gostei do personagem no filme, e acho que boa parte disso é por ele ter tido meio que uma recaída quanto a sua evolução. Sei que é algo que faz sentido mediante o que acontece no episódio 24 e que encaixa perfeitamente no plot, mas EU não consigo gostar. Ele vira mais um instrumento de movimentação do enredo, mais do que a própria Rei, e já sabem minha opinião quanto a isso.

Tem outros detalhes mais cruciais a trama que eu não gostei, mas não vale ressaltar por revelar muito sobre o plot. O que vale dizer aqui é que o filme é bom. Entretém e faz você pensar, seguindo à risca a qualidade da série e demonstrando com primor todas as ideias depressivas e existencialistas de Anno. E, portanto, eu também recomendo o filme, ou melhor, o considero crucial.

No fim eu acabo enxergando Neon Genesis Evangelion com outros olhos. Uma visão mais madura e um tanto quanto focada na análise. Aquele tipo de olhar que busca um algo a mais, e que nesse caso a serie realmente entrega. Eu acho esse um anime quase que perfeito, centrando meu porem quase que exclusivamente nos últimos episódios e no filme, tirando algumas questões menores, como o que aconteceu com os amigos do Shinji. Logo recomendo Evangelion na integra a todos, como um grande fã de animes. Mas ressalto que você deve esperar um plot depressivo, confuso e surrealista, com cenas de gore e relações abusivas. No restante, vejam.

Por fim, so para esclarecer uma pequena polemica quanto ao início do filme vou dar aqui um pequeno spoiler. O review já acabou nesse ponto e você não precisa ler.

The End começa com o Shinji tentando acordar uma Asuka em coma, e em certo momento ele vira o corpo inerte da garota com raiva, assim deixando a mostra os seios e a calcinha da garota. O filme corta, em certo momento mostra a porta trancada, e quando volta Shinji está com as mãos sujas de goza.

Algumas pessoas interpretaram a cena como um estupro, mas não acho que seja esse o caso, pois o corpo de Asuka não foi movido. Shinji deve ter se masturbado com aquela visão, e logo após solta um “i’m so fucked up.”

Não estou aqui justificando a ação. Essa cena é um dos motivos pelo qual eu não gosto do personagem. Todo o tratamento que ele dá para a Asuka no decorrer do filme é de abuso, claramente. E sei que existe o lance da atração de um pelo outro, e que também existe a raiva predominante em ambos. São cenas que fazem sentido no plot, e termino aí.

Se você se sente incomodado (a) por esse tipo de situação, evite o filme. Eu particularmente não achei pesado, e acredito que a mensagem proposta pela cena seja exatamente a da frase “i’m so fucked up.” Mostrando mais uma vez o lado sujo da humanidade e o quanto esse protagonista e o tremendo de um merda.