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On the Screen: Allegro Non Troppo – A Fantasia italiana que supera o original

Às vezes é interessante ver filmes simplesmente por ver, sem um grande motivo por trás da escolha. Esse foi o caso de Allegro no Troppo, um filme de animação italiano que eu resolvi ver simplesmente por ser italiano e para somar mais um número na minha lista de animações do Letterbox.

E fazer algo assim pode resultar em algo catastrófico, como ver uma bomba daquelas que tem poder de arrasar seu dia de tão ruim. Mas em outras, pode ser que o filme surpreenda e preencha algum tipo de vão que ainda sobrara na sua coleção de memorias. E mais raro ainda, pode este vir a ser um dos filmes da sua vida. Daqueles que dá orgulho de ter assistido.

E eu tenho orgulho de ter visto Allegro no Troppo. Ainda estou indeciso se este realmente é um dos filmes da minha vida ou uma surpresa tão grande que se sobressaiu a toda e qualquer expectativa, ganhando no fim pontos extras pela originalidade.

Um sentimento que vem logo do começo da obra. Não temos animações, mas sim live action. Pessoas atuando ainda em preto e branco, com um micro enredo focado em sarcasmo e críticas sociais. Então, descobrimos ser uma espécie de parodia de Fantasia, o famoso filme daquele que cara com nome que parece Walter Edisley. Uma das primeiras piadas do filme, que seta bem do que se trata toda obra.

Então temos um apresentador ditador que parece muitas vezes falar sozinho em loucura constante, um desenhista escravo perturbado e criativo, um maestro bufão violento e uma orquestra de velhas prisioneiras.

A ideia é ter orquestra e desenho juntos, igual Fantasia, mas com o desenhista fazendo tudo ao vivo, sem edição. Não é o caso, obviamente, mas isso acaba criando ideias únicas, algumas que surpreendem muito por se tratar de um filme dos anos 70 e de um pais pouco conhecido por animações.

Ao entrar nas animações, o desenhista cria mundos então coloridos, destoando completamente da parte mais real, que se focam em contar histórias no ritmo de peças musicais clássicas. O resultado e algo vibrante, com muitos momentos surrealistas e ainda mais críticas a natureza humana. Chegando ao pessimismo, mas ainda assim apresentando tudo de forma bela e agradável.

Com isso o filme vai alternando entre as partes IRL de comedia e os desenhos orquestrados, e nisso acaba superando muito ao meu ver Fantasia, por trazer algo mais adulto, apesar de ainda apresentável a crianças, e principalmente por conta da alternância que gera um intervalo que quebra aquela constante de músicas seguidas de músicas a qual faz Fantasia ser um tanto difícil de acompanhar. Ao menos pra mim aquilo dava sono, e nunca consegui ver o filme da Disney em uma leva.

Já Allegro foi fácil de ver justamente por conta dessa troca de cenário. E a medida que o filme avança, notamos que o que antes parecia ser um micro enredo ganha volume, e muitas das peças animadas complementam a parte com atores, ao ponto de termos inclusive desenhos, ou personagens dos desenhos, ganhando vida e se misturando aos humanos.

E até aqui tudo soa muito fantástico, mas tenho algumas ressalvas similares ao que falaria sobre Fantasia. Primeiro, o estilo de animação é bem único e experimental em algumas peças, se utilizando inclusive de outras técnicas, como rotoscopia e stop motion. Por um lado, acho isso fantástico, mas por outro sei que é um dos pontos que vai afastar muitos espectadores, por ser bizarro demais.

Ao mesmo tempo, nem todos os curtas são de fácil interpretação e a música permanece constante, sem falas, o que pode causar um grande incomodo. Não é um musical padrão, mas sim o que bem disse no começo. Desenhos que acompanham um ritmo. E no mais, caso não goste dos intervalos com pessoas, e inevitável que boa parte do filme vai ser um pé no saco.

Com tudo isso quero dizer que Allegro Non Troppo não é um filme para todos. Talvez você queira ver ele por partes igual eu fiz com fantasia, o que é bem possível, ou simplesmente ver uma ou outra das peças animadas, se se comprometer ao restante do filme. Eu particularmente acho que a melhor e mais enriquecedora forma e ver o filme na integra, assim notando como tudo se encaixa, porem agora vou me ater a descrever as partes animadas para os demais. Dito isso, aqui acabo o meu review de Allegro com um sonoro “vão assistir”.

Agora se realmente quer so ver partes ou busca conhecer cada animação antes de se decidir se verá ou não, ai segue minha descrição de cada uma. Lembrando que terá spoilers, pois é inevitável nesse ponto. E você verá na integra minha interpretação, a qual pode desviar muito da sua. Tenha esses fatos em mente.

ANIMAÇÕES

Ok, o primeiro “curta” segue ao ritmo de Prélude à l’après-midi d’un faune, de Claude Debussy. Nele acompanhamos um velho Sátiro que busca um amor e assim parte a perseguir jovens ninfas, e para isso constantemente tenta alterar sua aparência para algo mais jovial.

A animação segue com um estilo mais erótico e com coloração meio aquarelada e possui um tom constante de comedia, que lembra desenhos mais infantis. Ele trata, obviamente, da obsessão do homem pelo sexo e juventude.

O segundo “curta” vai ao ritmo de Slavonic Dance No. 7, Op. 46, de Antonín Dvořák. E esse pode realmente ganhar o título de curta, sendo possivelmente o menor seguimento do filme, aqui seguindo uma estrutura que lembra muito o sarcasmo de revistas como a MAD.

Na animação um homem começa a se desvencilhar dos outros, criando cada vez mais cenários para se isolar ou se mostrar diferente do rebanho. E uso essa palavra com ênfase, pois sempre que ele cria essas situações os demais seguem à risca. Assim criando algo muito engraçado e que, apesar de ser um desenho dos anos 70, cai muito bem como uma alegoria a certos líderes da atualidade. Mas no filme em si, é uma ofensa direta ao maestro.

Já o terceiro “curta” pega o Boléro de Ravel, de, bem… Maurice Ravel. Sendo esse o seguimento mais famoso, ilustrando pôsteres e capas do filme. E que se inicia com uma transição direta do real para o imaginário, com um maestro arremessando uma garrafa de Coca-cola que cai no meio do nada e desencadeia uma serie constante de evoluções.

De início vemos uma criatura sem forma, saído da ”soda primal”, que se auto remodela constantemente, então passando para segmentação em diversas criaturas que vão de encontro a predação e evolução como meio de escape a predação, assim surgindo a seleção natural e dando início a um constante acasalamento, sempre a cada novo ato segmentando e evoluindo cada vez mais.

Isso por fim culmina em criaturas gigantescas, similares aos dinossauros, partindo numa marcha constante e sendo eliminadas aos poucos por constantes alterações no planeta, com destaque a um indivíduo, um macaco, que sempre se sobressai, de forma abominável, em cada uma das situações.

A animação nesse caso mostra a evolução das espécies, a supremacia humana e como o homem vai aos poucos destruindo cada vez mais a natureza em prol do progresso. No fim, temos o primeiro personagem a transcender do desenho para o real.

Na quarta parte, Valsa triste, de Jean Sibelius. Uma animação bem soturna, que mostra um gato escalando a última parede de um edifício e vivenciando em memoria os tempos áureos de uma vila. Aqui com pessoas de verdade projetadas de forma transparente no desenho para dar sensação de espíritos e reforçar a ideia de memoria.

Esse é outro seguimento bem curto, com um final bem triste. Ainda assim talvez o mais fraco do filme. Vale notar que a parede do edifício em diversos momentos parece uma lapide.

Na sequência, Concerto in C major, RV 559, de Antonio Vivaldi. Aqui fazendo uma mescla de animação clássica com rotoscopia, em algo mais leve e vivido, provavelmente para se sobressair a melancolia do último seguimento.

Enredo simples, de uma abelha querendo jantar e relaxar, mas que não consegue, pois um casal de humanos busca fazer o mesmo, e num ato de romance e tensão sexual acabam destruindo a natureza envolta. Possivelmente querendo mostrar que o mais mínimo de nossos atos gera alguma consequência ao mundo.

Na penúltima sequencia temos The Firebird Suite, de Igor Stravinsky. E se antes tivemos a seleção natural, agora é a vez do mito de criação, assim iniciando a animação com cenas de stop motion que se utiliza da argila para exemplificar a criação do ser humano. No caso, Adão e Eva.

Quando estes são criados eles se encontram nus, no vazio, e logo a serpente da tentação chega com o fruto proibido. So que temos aqui uma brilhante inversão, onde Adão e Eva recusam a fruta e a serpente prova de seu próprio veneno, digamos.

Ao engolir a maçã a serpente e transportada a um mundo quase alucinógeno comandando por demônios, e numa sequência extremamente rápida, quase impossível de se tirar um print em contexto, vemos deslumbres da vida moderna envolta de pecados como ganancia e luxuria. Criticando assim todo o modo de viver do homem, enfatizando como gostamos de coisas inúteis.

E para o grã finale, o epilogo, temos uma espécie de Igor a lá Frankenstein, procurando o final perfeito. Essa peça especifica não fica bem se vista individualmente, mas so para registrar, nela pulamos entre as músicas Hungarian Dance No. 5, de Johannes Brahms, Toccata and Fugue in D minor, de Johann Sebastian Bach, Hungarian Rhapsody No. 2, de Franz Liszt, e novamente Slavonic Dance No. 7, Op. 46, de Antonín Dvořák. Fora outras músicas não listadas.

E é isso, esse é o todo de Allegro Non Troppo, tirando a parte real que basicamente mostra figuras ditatoriais judiando das pessoas e um pobre e apaixonado desenhista. Eu ainda reforço que é melhor ver o filme inteiro, mas a escolha é sua. Só espero que no fim se divirta.

GALERIA

On the Screen: Doukyuusei – Um belo romance

Eu resolvi ver Doukyuusei por conta de um gif. Um beijo daqueles bem-dados, só que com um tom muito sereno e animado de forma fantástica, tornando o momento muito belo. Esse beijo era entre 2 homens, os protagonistas Hikaru Kusakabe e Rihito Sajou. E eu me apaixonei naquele momento pela estética da animação e fiquei deslumbrado com a cena. Sou hétero.

Pode parecer estranho terminar a frase anterior assim, com “Sou hétero”. Mas existe um motivo. Com isso quero afirmar que Doukyuusei é uma obra que transcende a barreira da sexualidade. Você pode ir lá assistir sendo heterossexual, homossexual ou qualquer que seja a sua orientação sexual, que a obra vai ter o mesmo impacto.

Logico que existem outras obras das quais eu poderia falar o mesmo, não se engane. Eu não estou descobrindo esse tipo de romance somente agora. É mais que existem obras mais explícitas voltadas para o público LGBTQ, com cenas mais calientes e muito fanservice, da mesma forma que existe isso aos montes para o público hétero.

Porém é difícil achar algo tão puro, focado e bem-feito como Doukyuusei. Você poderia trocar os personagens por duas garotas, ou um homem e uma mulher, que daria na mesma. Isso faz parte do charme da obra e da facilidade de se consumir o produto. É tudo muito natural. Mas ao mesmo tempo a escolha no sexo dos protagonistas é certeira.

De um lado temos esse romance colegial, com todas as intrigas pelas quais muitos passamos nesse período. Desde ciúmes ao sentimento de que tudo vai acabar no terceiro ano, passando por vergonhas e desejos sexuais. Do outro temos um grande slice of life que mostra o amadurecimento de dois rapazes e a descoberta de algo novo e arrasador.

Novamente, tudo isso poderia ter sido passado por qualquer casal, mas a grande diferença fica com a mensagem de aceitação. Isso é tabu para a sociedade, infelizmente, ainda mais entre homens, e à medida que a obra evolui notamos cada vez mais essas nuances até chegar ao fim e mostrar que toda essa vergonha não deveria existir, que devemos ser quem somos, independente de opiniões, e isso é uma mensagem muito forte.

E não é uma mensagem somente para os gays, mas para nos aceitarmos e aceitarmos nossas decisões independente do que seja. Só que, ao ir por esse lado, o filme enfatiza um grupo que merece ser mais aceito. Por isso eu recomendo o filme para que vocês vejam que um romance entre gays é a mesma coisa que qualquer outro romance.

Eu já passei por essas coisas com garotas e foi muito fácil me identificar com os protagonistas, que, diga-se de passagem, são muito carismáticos. Não tem como ver esse filme e não torcer por eles e ficar encantado com um relacionamento tão belo. E completando tudo isso temos uma estética de cair o queixo e dubladores de primeira que trazem uma narração quase poética.

Os únicos pontos que me incomodam são a estrutura do filme e onde ele termina. Tudo ocorre com timeskips constantes e começa do nada e vai parecer a alguns que também chega ao nada. Existe a tal mensagem no final, pontuando muito bem, mas ainda fica aquela sensação de que faltou algo. Ou talvez seja só eu querendo acompanhar mais da vida desse lindo casal.

Dito tudo isso, recomendo fortemente que assistam o belo Doukyuusei. Façam um esforço, vai, confiem em mim nessa, pois a obra é de outro nível.

O pronunciamento da “GRIPIZINHA” (24/03/2020)

As 22 horas, horário de Brasília, eu comecei a gravar esse vídeo. Terminei as 00:30, não por ser algo difícil de editar, mas sim difícil de dizer. Pois o medo que tenho é colossal.

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UPDATE

Hoje é dia 31/03/2020. Eu pretendia remover este vídeo quando fosse ocorrer um novo pronunciamento do presidente. Como eu acho que a mensagem sobre o Corana Vírus continua sendo importante eu resolvi deixar o vídeo disponível e adicionei ao título a data na qual o gravei (24/03/2020). Se eu por ventura ver que o vídeo está causando algum tipo confusão nas pessoas, então ai sim irei deletar este.

On the Screen: Kipo e os Animonstros – Um apocalipse diferente

Kipo e os animonstros (Kipo and the Age of Wonderbeasts) é mais uma série animada da Netflix, encomendada diretamente da Dreamworks. Mas o que me chamou atenção para ler foi o fato de que era baseada num quadrinho online chamado Kipo. E nesse ponto vou nem menti. So quis assistir para ver se gerava material para um “versus” entre a animação e o comic. Um jeito fácil de pegar algo mais atual e juntar com o foco central do blog.

O problema, ao menos para mim, e que o tal webcomic desapareceu da face da terra, salve algumas imagens usadas em matérias de review ou arquivadas em sites como o Pinterest. Logo o máximo que posso dizer em comparação é que alguns personagens tiveram uma leve mudança de design, as cores ficaram mais vivas e que tem certas páginas que parecem um story board para a série em si.

E talvez aí que esteja a resposta. O plano desde de o começo era transformar numa animação ou o conteúdo do quadrinho era tão similar que resolveram desativar o site de leitura. Não sei exatamente qual o passado de Rad Sechrist, criador de Kipo, mas ele trabalhando atualmente para a Dreamworks colabora com essa teoria.

Por um lado, isso pode ser considerado bom para evitar vazamento de roteiro. Mas para mim isso é um completo descaso com o original. Imagina se lançam uma adaptação de um quadrinho ou mangá maior e fazem o mesmo. “Ah, tem 120 capítulos? Não importa. Esconde isso ai.”. O quanto de gente que ia olhar torto e reclamar dessa ação não é brincadeira.

Logo eu realmente torço que isso tenha sido uma escolha do autor. Que ele tenha de fato sempre idealizado isso e preferiu seguir como roteirista e design da série. Pois se foi uma escolha da Netflix, Dreamworks ou estúdio coreano Mir, eu abomino essa decisão.

Não que eu diga isso tentando incentivar o boicote da série. Não.  Eu simplesmente não gosto de ver algo sumindo em prol da criação de outro algo, entende. Mesmo que a peça final seja muito melhor. Não consigo de fato afirmar isso em cima de Animonstros, mas ao menos posso falar que é um desenho bom pra caramba.

No início eu me incomodei. Nem sabia dessa história do comic, mas algo no cartoon tava off pra mim. O mundo era muito legal, com perigos disfarçados a todo canto. Como coelhos gigantes e abelhas beat box. Porem eu não curti os personagens e o enredo era bem besta, talvez simples até demais para mim. Mas o pior eram as músicas.

Não é aquele tipo de show focado em canções a lá Disney, mas constantemente eram colocadas músicas como fundo das cenas, principalmente ação, e puta que pariu… desculpem o jeito que falo, mas não podiam escolher algo pior? Essa era minha reação. A música quebrava completamente as cenas em algo que parecia mais uma playlist pessoal do estúdio que por algum motivo vazou no produto final. Não encaixava.

Fora que eu não gostava da Kipo e seu lado super mega otimista “vamos ser todos amigos”. O desenho logicamente não foi feito pensando na minha faixa etária. Meu deus, eu estou nos meus 30. Mas eu olhei esse começo pensando em como seria o meu eu do passado assistindo isso nas manhãs da TV aberta, e olha… eu ia me incomodar da mesma forma.

O lado bom disso tudo é que é uma primeira impressão. Um inicio fraco, que logo dá lugar a algo realmente bom, como eu já havia mencionado. As músicas começam a se encaixar melhor, ao ponto de ter alguns momentos que ficaram mais épicos por causa delas. E os personagens, não apenas a Kipo, melhoram cada vez mais a cada novo episódio, saindo da impressão inicial e mostrando mais faces de um mesmo personagem. E isso é ótimo.

Fora isso os combates vão ficando muito melhores, apesar deu achar que ainda falta um polimento nessa parte, e o enredo de cada um dos episódios se mostra melhor que o anterior, transformando o plot simples em uma grande jornada de aventura e descobrimento, que no fim puxa assuntos como preconceito, traição, traumas, perda, sexualidade, entre outros. E algo mostrado com uma visão mais leve, mas ainda assim é muito bom ver isso.

No fim Kipo se mostra um show super divertido, que eu agora sim consigo ver o meu eu do passado gostando ao ponto de não perder um episódio. Até porque eu gostei da obra e acabei adorando os personagens. Eu maratonei, e eu, o atual mesmo, quero ver mais temporadas.

Agora sem mais egocentrismo. Por mais que eu ache ruim o lance do quadrinho eu não tenho como não recomendar Kipo. Pode não ser o melhor desenho do mundo, mas me surpreendeu bastante e eu consigo ver um tremendo potencial na obra. Assista você, chame um amigo, apresente para seu filho ou sobrinho e vamos juntos passar o otimismo da Kipo à frente. Sim, no final até isso eu acabei gostando.

On the Screen: Dragon Quest – Your Story | A adaptação polêmica de Dragon Quest V

Sabe, eu nunca joguei Dragon Quest 5. O game no qual o filme Dragon Quest – Your Story se baseia. Mas eu joguei Dragon Quests, no plural, e tenho ótimas memorias desses jogos, principalmente do 8. Que era onde eu já estava mais ligado no enredo, sem aquela urge de pular os textos. Mas também não quer dizer que eu não tenha criado minhas próprias histórias e me divertido nos demais DQs, até mesmo nos que joguei inteiramente em japonês.

E isso me pareceu o suficiente para ir lá e assistir Your Story. Vi a abertura do filme, toda em pixel art, no estilo antigão mesmo, sem dubladores, apenas textos. Uma homenagem clara. Aí entra o 3D, alguns anos se passam, e o herói Luca parte em sua jornada. E sabe o que eu pensei nesse momento? “Mas que merda eu to assistindo?”

Não se trata de ter de conhecer a história do jogo antes de assistir, apesar que acho que isso ajudaria. É mais a forma como tudo foi orquestrado. Na parte da homenagem dentro de uma homenagem, por mais interessante que seja, eu achei difícil acompanhar os diálogos e cabia ao meu ver uma dublagem.

Já quando começa o 3D em si, eu devo admitir, o visual e de cair o queixo. Mas continua tudo muito confuso, muito rápido. O filme fica fazendo cortes abruptos, alguns quase sem contexto, e a legenda do Netflix não ajuda. São os pais de Luca rei e rainha? Eu ainda não entendi depois de ver o filme inteiro, e isso é péssimo.

O filme melhora mesmo quando começa a viagem de Luca até a cidade de… bem, não lembro. Não importa. A questão é que boa parte do início parece desconexo, até um tanto sem proposito, mas ainda assim o filme faz esses pedaços parecerem necessários.

Num resumo, Luca nasce, a mãe é sequestrada, ele treina com o pai, vai visitar um rei, o príncipe é raptado, o pai e derrotado, ele e o príncipe viram escravos, escapam e aí tem essa parte da jornada para a cidade. E esses pontos são tão rápidos e mal colocados que duram cerca de 17 minutos. Tudo isso, em fucking 17 minutos!

Eu entendo que em um RPG isso pode ser não 17 minutos, mas sim 17hs ou talvez ainda mais. São jogos extremamente longos, mas se tais momentos eram importantes, porque não trabalhar eles melhor? Dar um impacto extra, colocar mais minutos e deixar assim picotado so o fundamental. Pois acreditem, tem uma certa lógica em algumas cenas e o filme explica isso muito bem. Mas não precisava dar essa cara de baixo orçamento a todo o começo né, pelo amor de deus.

Quando a jornada a tal cidade começa ainda tem cortes assim abruptos, mas existe uma diferença tremenda. O herói está fazendo um trajeto longo, agora por partes que não importam tanto na trama geral. Toca o tema de Dragon Quest, quase que literalmente anunciando que so começou ali o filme, e o resto é o Luca derrotando diversos monstros em diversos cenários do game.

Nesse ponto faz sentido encurtar. Pois explorar as dungeons, matar os inimigos, procurar itens e enfrentar eventuais chefes demora pra caramba, e por mais que seja algo super legal e divertido num jogo, não tem vez na hora de adaptar para um filme. Logo eu acho que ai sim a escolha de cortes rápidos caiu como uma luva.

O restante do filme continua num ritmo bem acelerado, porem agora sim tratando de dar ênfase em momentos chaves para causar impacto. E começa na tal cidade. Existe um chefe de jogo ali, chamado Bjørn. E quem derrotar o monstro ganha como premiu a mão da bela Nera.

A luta contra Bjørn em si é muito boa, contando com a ajuda de novos e antigos aliados. Mas o destaque fica para a premiação. Casar. Não é todo filme de animação que toca num momento tão importante da vida adulta, e a maneira como Your Story faz é muito charmosa e comovente. Sendo um momento tão bom na trama que faz você torcer o nariz ainda mais para o início, desejando que ele fosse tão bom quanto.

O ponto ruim de toda essa parte são os encontros. “Nera, a quanto tempo!”, “Se não é minha amiga de infância, Bianca!”, “Que bom reencontra-lo, sr. Briscoletti!” E nessa você fica completamente perdido. “Então eu deveria realmente ter jogado o game?”. Esse é o pensamento. E ai vem um misto de ódio por terem cortado tanta coisa e jogado na tua cara sem menos e um certo que de foda-se.

Ai é onde acho que vai separar quem gostou ou não do filme. Eu me incomodei muito, mas na real nada disso atrapalha na interpretação da trama. Você entende a história e está num momento tão lindo e terno de romance e amadurecimento que ao menos para mim o resto parou de importar tanto. Porém, entendo que vai ser ai que muita gente vai droppar, se não antes.

O que sinceramente é uma pena, pois daí pra frente so melhora, ao ponto de que vou soltar um absurdo aqui. Se o filme tivesse um início melhor eu dava o oscar pra ele. Tão entendendo. Eu gostei tanto que dei foda-se para todos os erros e inconvenientes.

O ritmo rápido cai como uma luva pro restante da trama e os cortes escrotos diminuem em 99%. A ação fica cada vez mais presente. Os personagens crescem e você se importa com eles o mínimo necessário para gerar drama. Mas o melhor de tudo são as reviravoltas. Para quem jogou o 5 talvez não seja nada, mas para mim foi de cair o queixo.

Numa dessas inclusive alguns cortes lá do começo são justificados de maneira fantástica, pois eram elementos que so seriam relevantes naquele ponto. E sim, o filme completa as lacunas. E eu adoraria que ele tivesse feito isso com todo o resto de maneira tão natural, por mais que virasse um filme de 3 horas.

Porém o melhor de tudo é o final. Ele foi dito por muitos como polemico, e analisar ele em si aqui seria o maior spoiler de todos, tanto para quem jogou ou não o quinto jogo da franquia. E daqueles que ou você ama ou odeia. E naquele ponto o meu sangue de gamer e minha formação de designer se juntaram e eu so consegui enxergar algo maravilhoso.

Eu amei o final desse filme, ao ponto de ficar de queixo caído e bater palmas. Saiu até uma lagrima aqui. Pois ele subverte tanta coisa, não so expectativas, que ficou difícil segurar o hype de vir escrever esse texto nem 1 minutos depois deu ter terminado de ver o filme. É bom desse tanto, ao menos para mim.

No geral Dragon Quest – Your Story é um filme estranho. Acho que é a melhor maneira de colocar isso. Vai ter quem ame, quem odeie, e eu so estou aqui para falar que vale assistir e que se deve fazer uma força para ir contra esse começo mal trabalhado. Logo, uma recomendação. Por outro lado, esse filme adapta Dragon Quest 5, o que significa spoiler a rodo do game, e se você prefere aproveitar o original primeiro, o filme é um grande não. Vá atrás do jogo e depois busque ver o filme.

On the Nanquim: Supermam: As 4 Estações – O Slice of Life do homem de aço

Inicialmente eu não era fã do Superman. Um herói cheio de poderes, praticamente invencível. Parecia ser uma leitura sem proposito, com final fixo. Ele sempre vence. Por mais que esse seja o padrão de milhares de outras histórias, de outros personagens. O famoso clichê. Eu olhava aquilo e não acreditava no potencial. Igual a Lois Lane descreve seus primeiros encontros com o homem de aço em Superman: As Quatro Estações (For All Seassons).

E esse talvez seja o ponto mais legal da obra. Esse é um HQ do Superman, obvio, mais é muito mais sobre Clark Kent. O menino da fazenda de Smallville. Narrado por aqueles mais próximos do herói, assim demonstrando de forma fantástica o lado humano do homem mais poderoso da terra.

Tal qual o nome 4 estações, o quadrinho separa seus capítulos pelas mesmas. Tudo começa na primavera, com Jonathan Kent, o pai de Clark, narrando o enredo. Mostrando uma história onde o superman ainda não existe. É o começo de tudo, de maneira bem crível, sobre um jovem descobrindo seus poderes e decidindo seu destino. So que visto pelos olhos de um pai apreensivo, que enxerga o super somente como seu garoto que está em mais uma fase da vida.

Nos demais capítulos, ou estações se preferir, temos alguns saltos no tempo para mostrar momentos chaves da vida do herói, cada um com um propósito de mostrar o fantástico e trazer isso a terra, humanizar o personagem. Tanto que por mais que tenhamos o homem de aço fazendo atos incríveis, como parar um trem ou apagar incêndios, o quadrinho seque com um teor mais de slice of life com uma bela pitada de drama. E isso é super gostoso de ler.

Cada um desses capítulos também é narrado por outro personagem. Começamos com Jonathan, e vamos a Lois Lane escrevendo um artigo emotivo, e disso vai direto pra Lex Luthor e suas tramoias, terminando com Lana Lang, a amiga de infância, e eventualmente temos os pensamentos do próprio Clark, terminando com um monologo de um coadjuvante que não vou mentir, e de bater palmas. E tudo perfeito, muito bem encaixado, e por mais que cada capítulo, cada estação, funcione de forma individual como leitura, o correto e certamente apreciar essas ligações e enxergar cada vez mais o super como mundano.

O meu favorito pessoal é o Outono, o capítulo 3. Você não dá nada pro Lex Luthor quando e a narração da Lois, talvez por ela o enxergar assim. Mas quando e a vez dele narrar, ai nos aprofundamos mais do passado do personagem e entramos um pouco na sua mente. Tudo isso culminando num momento extremamente desumano. É dialogo atrás de diálogo de tirar o folego. Algo que, ao menos para mim, joga esse Lex lá no topo, como uma das versões mais bem escritas e assustadoras do personagem.

E é isso. Um texto curto, eu sei. Mas acredito que não precise dizer mais que isso sobre As 4 Estações. Os personagens são muito bem escritos, os diálogos arrasam e a arte cai como uma luva, elevando cada momento.

Eu amo como como o talento artístico de Tim Sale (Batman: O Longo Dia das Bruxas, Mulher-Gato. Cidade Eterna) e Bjarne Hansen (B.P.R.D., Starman) se combinam criando belos por-do-sol e riscos de velocidade. E elogios, como deu para se ver, não me faltam para o roteiro de Jeph Loeb (Batman: O Longo Dia das Bruxas, Smallville). Se você ainda não leu esse quadrinho, vá atrás. Pois é um deleite para qualquer fã do super e uma das obras mais fantásticas de heróis que eu pude ler.

On the Screen: Hakujaden – O primeiro filme de anime em cores

Sabe, eu adoro procurar animações novas para ver, principalmente filmes. Ao ponto de me considerar quase que um “historiador”. Ok, talvez menos. Aficionado, fã, otaku. Daqueles que vai atrás não apenas dos lançamentos, como de coisas super antigas e que marcaram a indústria. Não importa quem fez, críticas e notas, ou o que seja. Pareceu interessante eu vou lá e assisto com prazer.

Particularmente, eu acho uma atividade extremamente recompensadora, pois quebra um pouco aquela visão de que apenas o estilo atual presta. Que é o superior. Se não ficamos cegos achando que apenas o corriqueiro da indústria, que em sua maioria é um copy paste do estilo do momento, e a arte que devemos idolatrar. E isso não faz bem.

E o mesmo vale para direção, roteiro, efeitos, trilha sonora e até mesmo dublagem. Falta fazer aquela distinção entre o que realmente é bom e ruim levando em conta estilo e época. Além de que deveria ocorrer uma certa apreciação pelo que marcou a indústria, como bem falei no começo. Você achando o filme bom ou não.

Rotoscopia em O Senhor dos Aneis, de 1978.

Um exemplo que eu acho ótimo é o filme de animação de O Senhor dos Anéis, de 1978 de Ralph Bakshi, que influenciou a rotoscopia. Acho ele muito chato, não tem final, mas indiscutivelmente marcou, revolucionou e é um objeto de estudo. E por mais que eu não esteja fazendo um review deste, ou um texto sobre animações no geral, eu acho esses dados fundamentais para o restante da resenha e acredito que a essa altura nem preciso dizer o quão importante eu acredito ser as pessoas mudarem sua maneira de pensar a respeito dessas obras.

Mas enfim. O filme aqui analisado em questão é Hakujaden, também conhecido como The Tale of the White Serpent. Foi o primeiro longa-metragem japonês em cores, tendo estreado nos cinemas em 1958, posteriormente ganhando as telonas mundo a fora em 1961. Ao longo dos anos este foi conhecido por diversos nomes, como Panda and the Magic Serpent, Legend of the White Snake, The Great White Snake e The White Snake Enchantress.

Uma película de 62 anos de idade que impressiona em diversos aspectos, apesar de indiscutivelmente ter ficado datada. E logo no início o filme já mostra isso. “Uma história muito, muito antiga” é cantada num estilo oriental, tanto em ritmo e estilo, como em animação, quase que lembrando uma espécie de cutout com pinturas. Na letra falando sobre um jovem e sua paixão por uma serpente branca de estimação. “Uma história muito, muito antiga” que data da dinastia Song (China, 920-1279), e é intitulada exatamente The Tale of the White Serpent.

O restante do filme então passa a mostrar o jovem, Xu Xian, já adulto e apaixonado por Bai Niang, que seria o avatar humano da serpente branca, agora uma Yokai. Seguindo então em parte o conto folclórico chinês. Digo isso pois metade do filme se foca em “Panda”, como um dos títulos bem diz. Praticamente uma história paralela, meio desconexa em diversos momentos, que mostra as aventuras dos animais de estimação de Xian. Um panda sem nome e um panda Vermelho, chamado Mimi.

A jovem Xiaoqing, o avatar de um peixe Yokai, também se mostra desconexa em diversos momentos, transitando entre o folclore da serpente e as aventuras do panda. E eu diria que essa mistura e o ponto mais fraco de toda a obra. Quebra muito o ritmo e fica parecendo que quando o enredo chinês está mais morno entram os animais para tentar dar um boost na película e trazer ela mais para o estilo ocidental.

É indiscutível que a Toei, estúdio responsável pelo filme, estava buscando se tornar a Disney do oriente. Ao ver o filme logo se nota inspirações nos filmes da Disney, especialmente os dos anos 40 e os curtas de Silly Symphony, além de outros clássicos americanos, como o Popeye de Max Fleischer. Algo presente nas músicas, nas partes dos pandas e em diversos secundários ao longo do filme.

Em contrapartida o filme segue com os principais em um estilo chinês, característico de pinturas clássicas. Tanto isso, quanto a temática central do conto, foi algo escolhido a dedo pelo presidente da Toei, Hiroshi Ōkawa, que desejava por meio do filme amenizar a antiga rivalidade étnica entre Japão e China. Algo histórico que surgiu devido a guerras e que permanece em parte até hoje, sendo um grande ponto de preconceito étnico cultural no pais.

Acho louvável ver um filme tão antigo discutindo essas ideias, mas o ponto mais interessante, e importante, e o próprio conto da serpente. Pois é uma saga bela e trágica de romance envolta em questões de preconceito. Onde a yokai Niang entra com o papel de vítima, sendo constantemente dita como ruim. Primeiro por adultos na abertura do filme e depois, diversas vezes, pelo antagonista Fahai. Um poderoso monge que expurga espíritos desse mundo, e considera todos os entes sobrenaturais como malignos.

Além disso temos partes com teor similar, como quando Xian é exilado e a interação dos pandas com outros animais. Algo bem interessante, ainda mais se visto hoje em dia, devido a discussão constante que temos sobre o preconceito que nos rodeia. Da para associar, entende, por mais que a ideia inicial de tudo isso seja para abordar apenas a xenofobia.

E é isso. Como podem ver existem muitos detalhes legais de se observar em Hakujaden, por mais que seja um filme mal elaborado, confuso e datado, que foi criado para promover o ideal capitalista de se tornar a próxima Disney. Tem realmente muitos, trocentos pontos ruins, e ainda assim eu recomendo o filme. Como estudo, para ver esses detalhes de mensagens políticas e também para se divertir até um certo ponto.

Se você gosta de filmes Disney, contos folclóricos e animações como Popeye, dá para ignorar a literal mescla de dois filmes em um e se diverti um pouco. Não vai ser nada de outro mundo, mas dá para se apreciar sem olhar tantos detalhes a animação fluida, belas músicas e o conto da serpente branca em si.

Eu acho que dava pra ser mais Disney, no sentido de desvirtuar mais o conto em prol de algo épico, removendo a parte dos pandas, ou dividir 100% em dois filmes. Mas não tem como não ficar impressionado no fim, ainda mais se tratando de uma animação de 58.

E um último adendo, mais como curiosidade. O filme nos estados unidos foi um tremendo fracasso e ele se deu razoavelmente bem na Europa. Nos EUA ele foi picotado, renomeado (Panda and the Magic Serpent) e teve diversos pontos orientais “adaptados” para a cultura norte americana. Isso inclui chamar o panda vermelho de gato… Me pergunto o porquê o filme não foi bem aceito.

TOP 100 – Melhores quadrinhos e mangás!

Para quem perdeu, lá pela metade de 2019 eu lancei o TOP 50 – Melhores quadrinhos e mangás!”. Então se quiserem podem se ater aquela lista de forma individual, como se fossem os 50 quadrinhos definitivos de acordo com o Mangatom. Ou melhor, de acordo comigo.

Afinal essas listas são sempre algo pessoal, e enquanto eu poderia parar ali e deixar so nos 50 eu senti uma urge de ir atrás de fazer algo maior. Até como uma forma de me auto incentivar a ler mais mangás e HQs, principalmente HQs.

Uns 6 meses e tanto a mais e eu consegui listar mais 50 títulos, totalizando 100. Alguns que esqueci na primeira vez, outros que se mostraram novidades surpreendentes. Mas acima de tudo, uma leva de obras que me marcaram pra caramba no decorrer desses meus anos como leitor.

E eu poderia continuar esse texto, falando e falando cada vez mais o quanto me dá orgulho trazer essa seleção ampliada e explicando regras pessoais e afins. Mas vou acabar por aqui, até para não me repetir com o que falei no post do TOP 50.

Com vocês, o TOP 100 do Mangatom!

1 ao 50 – Click aqui para ver na resolução máxima

51 ao 100 – Click aqui para ver na resolução máxima

E é isso. Torço para que realmente tenham curtido esse top, sem colocação, no qual mostro alguns favoritos. Sei que nenhuma lista desse tipo é perfeita ou definitiva, mas eu apenas espero que com isso você encontre algo novo para ler. ^^

On the Nanquim: DCeased – Os zumbis da DC

Sagas de zumbis podem ser um completo desastre. Começa já com você sabendo que todos vão morrer ou da alguma esperança, joga uns personagens legais na trama e depois se perde. Afinal, todo mundo deve morrer? Deve ser achada uma cura? E assim vai… parece que não existe uma resposta satisfatória, apenas a chance de contar uma boa história mediante ao fim. E ainda assim, continuamos atraídos por tais historias, como os próprios zumbis sedentos por sangue.

DCeased, um péssimo trocaralho entre DC e deceased, do inglês “falecido”, e um título da DC, ACREDITEM SE QUISER, que segue mais o menos esse rumo. Já tivemos a minissérie intitulada apenas Deceased, com 6 volumes e um final até que aceitável, estamos tendo o spin-off DCeased: A Good Day to Die e já foi anunciado para 2020 DCeased: UNKILLABLES. E por mais que os zumbis DC ainda tenham muito chão para correr, resolvi vir aqui hoje falar o porquê essa obra é tão boa, por mais que tenha no fim rolado um gostinho de decepção.

Acho que o primeiro ponto contra é ser justamente uma mini-serie. E não digo isso me posicionando contra a obra. É que como tal, com os 6 volumes já definidos de entrada, o tempo e limitado e por conta disso existem alguns saltos no tempo, ou cortes digamos, para aproveitar melhor o número limitado de capítulos. Fora o inevitável personagem X ou Y que so aparece de fundo ou é muito mal aproveitado.

E eu reclamo disso pois acho que se tivesse dado mais espaço, o autor Tom Taylor (Injustice: Gods Among Us / All-New Wolverine) teria sem dúvida alguma criado uma saga de arrepiar os cabelos. Não que não já tenha, ou que ainda vá fazer algo melhor nas sequencias e spin-offs, mas acho que dava para transformar o ótimo em memorável, por mais que isso soe como papo de maluco. Aqui atestando mais uma vez como eu gostei da minissérie e das ideias nela implementadas.

Para começo de conversa, não são zumbis. São algum tipo de criatura surgida devido a corrupção da equação da anti-vida. E no momento que eu disse essa frase um monte de gente que nunca leu DC saiu correndo. Mas na real? Não importa. Você não precisa saber o que é anti-vida, apenas que é um troço de um planeta aliem. E diria que não precisa nem conhecer muito dos heróis para gostar da obra, por mais que seja um prato cheio de fanservice.

Mas se quiser entender um mínimo, eu recomendo ver o filme Justice League: War. E a forma mais fácil e rápida, ao meu ver, de ser introduzido a origem do herói Cyborg e entender um pouco que seja sobre o vilão Darkside e o planeta Apokolips.

Mas voltando ao que eu ia dizendo. A equação da anti-vida estava incompleta, com metade dela no corpo de Darkside. Aí descobriu-se que o resto da equação estava no corpo do Cyborg. Rola umas conversas, nada muito relevante, e termina tudo com o Darkside enfiando uma mangueira na morte e introduzindo parte dela a equação. E olha, não precisa ser um gênio para saber que ia dar merda. E se deu merda viu.

Nisso o paciente zero, o hospedeiro do vírus criado nesse acidente cósmico, se torna o Cyborg. E para evitar a contaminação de Apokolips, o homem máquina e enviado de volta à terra e se conecta a internet. E eis a sacada genial da porra toda. Wi-fi, redes sociais e toda essa bagaça. Tu tá lendo isso e já pode ter sido infectado e nem percebeu.

Mas relaxa. Não tem vírus aqui, baixa a paranoia. Porém é exatamente assim que se deu o apocalipse zumbi da DC. O sangue ainda é um fator muito importante na contaminação, então o clássico não é completamente excluído, porem a grande ameaça e olhar informações da equação anti-vida em qualquer tipo de tela de aparelhos com acesso à internet. Sim, o vírus e digital e transfere para a mente das pessoas por meio de um simples olhar. E como a internet já está na casa de bilhões de pessoas, imaginem a velocidade de contagio.

À primeira vista essa ideia de usar a internet para contaminar é algo absurdo e bem idiota, e eu mesmo não quis ler o comic por um bom tempo por conta disso. Mas basta deixar de lado o ridículo, que aí sim dá para ver o quão assustador é esse meio de infecção. E digo mais. Lhe garanto que a cada nova página o autor vai justificar cada vez melhor o terror aqui apresentado, e essa é a magia do HQ. Ao menos no começo…

É meio obvio que fazer uma obra, mesmo que somente com 6 capítulos, inteiramente baseada no medo de telas não ia dar muito certo. Aí entra a fase de lutas de heróis. É obvio que alguém relevante seria infectado. E se no início nos apegamos a obra para saber mais sobre o vírus e quem morreu, no restante nos vemos presos pensando quem vai aparecer, quem vai morrer e como vão escapar. As lutas são muito boas, algumas com soluções bem boladas, mas são segundo plano perto do restante da trama. O foco é a tensão.

O problema mesmo é como tudo termina. O jeito de resolver a situação é muito fora de qualquer enredo de zumbis, o que é ótimo, mas é algo previsível dentro do mundo DC. E ao mesmo tempo que a obra termina, muito fica em aberto, e no fim nem mesmo o final realmente deixa aquele gosto de conclusão. Ou talvez seja eu querendo algo épico d+, tal qual eu deixei claro nos primeiros parágrafos.

É ótimo ver o caminho até esse fim e depois, por meio dos spin-offs, acompanhar outros sobreviventes. As sacadas, como já mencionei, são muito fodas. Desde o lance da internet a quem sobrevive e morre. Além de como coisas banalizadas pelo uso continuo em outras obras, como o sangue, podem vir a ser algo colossalmente desastroso apenas por se tratar do mundo da DC.

Ou seja, é inegável dizer que o HQ é muito bem escrito. Mas ainda me senti um tanto mal com a conclusão abrupta e o uso mínimo de certos personagens e tramas. É o típico caso de perspectiva quebrada. Eu desejava que tudo, sem ponta solta alguma, acaba-se ali. Fim. The End. Pois eu também tenho um certo medo de que com tantos spin-offs aquela conclusão ainda permaneça por um bom tempo, estagnada, ou pior, que nunca venha a surgir uma sequência.

Eu torço muito para que DCeased continue divertido nos spin-offs e vou aguardar com gosto uma continuação. Mas ao mesmo tempo torço para que não seja mais um mundo morto, que existe apenas para gerar mais historias gore de heróis morrendo. Ao menos não mais do que já é.

On the Screen: I Lost my Body – As desventuras de uma mão decepada

Existem momentos que eu quero apenas parar tudo e ver um filme. Não por entretenimento, mas para ter aquele momento so meu. Me isolar de tudo, entrar em outro mundo, ter a minha solidão controlada. Eu poderia colocar isso de várias maneiras. Mas sim, tem momentos que preciso desse escapismo.

Nisso eu resolvi assistir à animação francesa I Lost my Body. Não cheguei a ver trailers, mas bastou alguns gifs da Catsuka e a sinopse de uma mão andando por aí sem corpo para eu me ver fisgado. Sabia que seria um filme adulto, mas essa premissa me deixava esperançoso por uma aventura a lá Toy Story, naquele típico mundo diminuto, so que com um pedaço de corpo decepado.

 E olha, o filme entrega nessa parte. As cenas da mão, que por sinal tem desde o início, sequem um estilo bem de jornada do herói, apesar de não sabermos de fato como ela se soltou e porque tudo o que é mostrado… bem… é mostrado.

Alternando com a mão em apuros temos cenas de lembranças do membro, muito bem orquestradas, que parecem focar nos momentos mais importantes do uso das mãos do protagonista Naoufel. São momentos tênues, de nostalgia, que se repetem muito durante o filme, so que cada vez com mais detalhes adicionados. O ponto perfeito para partir do agradável ao dramático.

Com o tempo descobrimos que Naoufel é órfão devido a um acidente e ao invés focar apenas no passado distante o filme passa a mostrar um passado próximo, pouco antes de ocorrer a perda. Nesse ponto o enredo passa para drama, slice of life e romance. E eu devo dizer, isso foi algo muito bem-vindo

O diálogo que inicia tudo isso é simplesmente genial e o filme segue assim se segurando nesses diálogos e na urge do espectador de descobrir não apenas o mistério da mão e se Naoufel está vivo, como também descobrir mais sobre a vida e personalidade do protagonista. Além de entendermos melhor os secundários Gabrielle, Gigi e Raouf.

Você fica completamente imerso ao filme, talvez saindo dessa apenas quando ocorre queda de frames. Isso pois existem alguns momentos, especialmente na oficina de Gigi, que o filme parece dar umas engasgadas na animação. O que é bem estranho, visto que nenhuma das cenas rápidas tem esse problema. O filme engasga justo em diálogos, e isso não dá para aceitar. Por mais que seja um por menor que não estraga nada do filme.

Apenas quero dizer que o estúdio deveria ter tido mais cuidado com isso, por mais que esse filme tenha cara de ter tido uma animação demorada e custosa. Não tenho certeza do que vou falar aqui, pois não achei fontes. Porém o filme me parece ter sido feito em rotoscopia. Isso quer dizer que pessoas reais foram gravadas e então o artista fez cada frame em cima dos frames captados pela câmera. Algo que poderia justificar minha reclamação anterior e comprovar a teoria de que isso aconteceu por falta de tempo.

Eu baseio isso que digo por um único comentário que achei na Variety, onde o animador dizia que eles tiveram de gravar a mão em diversos ângulos. Assim dando a entender que uma mão, ainda presa a um braço, espero, haha, foi gravada fazendo os movimentos das cenas de ação. So não digo 100% que isso foi rotoscopia, pois gravar algo assim pode apenas ser um ponto de referência. Entender melhor ângulos de câmera e movimento dos dedos, por exemplo.

Porem sendo rotoscopia ou não, tendo falha nos frames ou não, o filme ainda é extremamente bem animado. Ele é bem fluido, orgânico, e com um estilo que me lembra quadrinhos. Foge de heróis? Logico. Mas eu falo mais de obras voltadas ao Slice of Life, como Local, que é bem a ideia do filme. Vermos o cotidiano do principal.

A mão é interessante e tem um propósito que gostaria de mencionar no final desse texto, mas o astro e sem dúvida Naoufel. O corpo, digamos. Pois é muito fácil você assistir e conseguir simpatizar com ele e os demais personagens e até mesmo se botar na situação dele, por mais que todas elas sejam bem absurdas, quase surreais para o mundo real, e ainda assim extremamente criveis.

O roteiro, da maneira que é apresentado, com a troca entre a mão e o garoto e todo o jogo de edição, dubladores excelentes e músicas muito bem selecionadas é foda. Não tem outra palavra para descrever. O filme é superinteressante, e é por isso que seu maior pecado é terminar. E não falo isso pois eu queria mais. Digo isso pois era necessário mostrar mais.

I Lost My Body é claramente algo experimental, e por isso eu meio que duvido de uma sequência. Não existe um grande plot twist no final ou o que seja. O filme chega num clímax, que eu até diria que é bom, e então acaba. So que o ruim é que ele não encerra absolutamente nada. Não tem final. O momento impactante vem, graças a deus descobrimos como ele perdeu a mão e os créditos rolam. E isso para mim, desculpa, é uma merda.

E eu já sei o que vai rolar. Eu usei a palavra M num review. Vão ignorar todo o resto que tenho para dizer e me xingar, pois a desgraça da falta de interpretação leva a acharem que eu odeie o filme, apesar de todos os elogios.

O filme é bom, vale a pena ver sim. Mas o final é frustrante e poderia ser muito melhor. So que o lance é o seguinte, eu não posso falar desse final sem dar spoilers. Eu eu genuinamente não quero entregar nada muito relevante do filme. Eu nem ao menos queria mencionar os pais do garoto, e olha que isso o filme entrega rápido.

Porém, eu gostaria de comentar um spoiler especifico, sobre a mão, que tem a ver com o final. Logo a partir desse ponto peço que pare de ler se não viu o filme. Assiste ele e então vem aqui, leia o resto do texto e depois bora conversar. Beleza?

Para ler o resto, click na página 2 abaixo.