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Mito do Inferno

Ali, muito, quase tudo, era vermelho; exceto o rio de fogo cujas vezes cuspia pro alto e o homem que conversava com o demônio; bom, ele não era, mas gradativamente ficava vermelho conforme os dois desciam numa estrada em círculo. Leia o resto deste post

“A verdade vos libertará”

Se tivesse de ser professor, seria de Filosofia. A matéria mais difícil de ensinar; como explicar que a Filosofia estuda isto e aquilo igual se diz que Química ou Física estudam os átomos, suas reações e movimentos na natureza? Diferente da Matemática, História ou Química, Filosofia é o único estudo com verbo: filosofar. Para entender o que faz a Filosofia é preciso saber o que faz quem filosofa e quais áreas da natureza ele está preocupado em explicar.  Leia o resto deste post

6 Anos de Mangatom!

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2017, um novo ano, é sabe o que isso significa? Ok… um novo ano. Mas nesse dia? 16 do 4? Números? Não, uma data especial. Nascimento de Charlie Chaplin. Algo que realmente deveríamos comemorar, mas estamos aqui perdendo tempo para celebrar o 6º ano de vida de um blog muito especial, o Mangatom. Leia o resto deste post

Cada um no seu quadrado

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Cedo ou tarde me confrontam com tal pergunta: “Você é ateu?” Pergunta boba, e esconde um recheio de implicações.  Leia o resto deste post

Não comerás desta fruta

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“Eu queria ser a pedra no caminho/que não sofre a tortura do pensar…” versa Florbela Espanca no poema sem título. Perdão; não queria te envolver numa elucubração juvenil que se repete há dias, mas meu quê solidário diz ter de compartilhar essa epifania — se já não a teve antes de mim —, e como de praxe nestes textos talvez faça você, leitor, ver o mundo por outro prisma, o de um pessimista.   Leia o resto deste post

Ritual prático para invocação da musa

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Toda vez que escrevo sem estar bêbado, ou seja, naturalmente criativo, me analiso da ponta à cabeça e corro a registrar todas as sensações, pensamentos e afins no instante desse milagre para que ele possa ser repetido.

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Crônica: Eterna questão

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Para resolver uma questão. Um infundamento cujo qual ninguém bate a cabeça, pois são príncipes textuais, e teclam como não se teclava. Que escritor, no entanto, foi autoconfiante? Um monte, quem sabe; até penso em um. Porém apesar do perfeccionismo, a autodúvida e sabotagem pertençam uma época alheia à modernidade, são as principais características de uma alma conturbada pela arte. Eis a questão: digitado ou à mão?
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Intermitência intermitente

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— Alô. Sofrimento?
— Não. Ligou errado. Aqui quem fala é a Inspiração.  Leia o resto deste post

Primeiras Impressões: After Death

AD

Para você o que seria a pós morte? Um templo no céu? Uma clareira com frutas silvestres? Um calabouço sombrio? Rochas derretidas pelo magma? Seja algo bom ou ruim, existem milhares de visões sobre o que pode vir a ocorrer depois do falecimento, mas a única coisa em comum entre todas estás e que se trata de ficção. Ninguém de fato sabe, e jamais saberá, a resposta para este mistério. Leia o resto deste post

Tragédia moderna

Evito conversar, particularmente, num ônibus encharcado de passageiros cujo motorista se acha um relâmpago que só falta trovoar. Mas esse camarada, não; fala mesmo; fala, brada até, como se quisesse que o outro lá da frente ou atrás ouvisse. Cata muita atenção, me obriga a passar vergonha junto dele mas, como nesse dia, tem vezes que vem com uns papos que se eu não o conhecesse me meteria no diálogo só para trocar umas ideias com o cidadão.

Escuso seu nome para a anedota. Conta suas fábulas que pelo menos eu nunca ouvi por outrem. Sempre têm uma intenção parabólica, se é que posso chamar assim, com cunho cômico. O próprio seria uma figura digna de protagonizar algum texto; espero que jamais leia isto.

Tal dia, no ônibus, contava-me a história sobre dois caras…

— Presos. — dizia. — Um é veterano de guerra, e o outro, tá lá injustamente.
— Hã.
— Aí acontece uma coisa e eles têm a oportunidade de fugir. Só que…

Por motivos de dramaticidade pegarei sua ideia e darei um toque literário:

Feijão e Dudu: eis os detentos. O primeiro, ali há mais de oito anos, e o segundo faria o quinto aniversário de prisão no dia seguinte. Feijão vive bolando planos de fuga e estratégias mirabolantes; no intervalo, geralmente é ele quem mestra os RPGs. Pertinentemente encosta o rosto na grade olhando tudo passar mas com uma feição serena e ao mesmo tempo desesperançada de quem viu o fim por uma revelação divina. Já Dudu aproveita o que pode da vida: com os demais se corroendo atrás das grades, Dudu agradece a todos os animais sacrificados por ainda estar vivo.

Certa noite, ambos dormindo, ouvem passos rápidos de uma multidão. Feijão desperta e acorda Dudu que custa a levantar as pálpebras. Tinha um tira libertando os presos!

— Isso aí é muito estranho… — comentou Dudu.

O tal tira abriu a sela deles e falou, “Pode sair”.

Feijão, desafiador, indagou:

— Sair por quê, seu guarda? Viraram teu cu do avesso?
— Pode sair. — repetiu o tira implacável.

Feijão olhou seu reflexo no guarda, relanceou Dudu com a boca semiaberta, fitou o guarda mais uma vez e viu atrás dele um bando de homens sem e com camisa formando uma baderna no corredor.

— Ih, Dudu… Vumbora sair daqui, meu chapa.
— Estou a fim não, Feijão…
— Vamos ser livres, porra!

O guarda some da sela e abre as outras, a medida que o debate se segue.

— Meu irmão. Lá fora tem o infinito. Aqui—
— Tem vida. Tem segurança. Lá fora só tem morte e injustiça. Não duvido nada que querendo ou não tu vai vir pra cá, de novo.
— Não sou que nem tu não ô… injustiçado.
— Então vai lá, então. Seja livre. Livre pra morrer.
— Prefiro ser livre pra matar e morrer, e com dinheiro no bolso, do que protegido mas sem poder fazer nada.

Feijão já saía mas Dudu ergueu-se e falou:

— Quem disse que lá fora tu vai estar livre? Aqui você é livre; aqui a liberdade verdadeira existe. Lá, não.
— Livre onde, Dudu? Dentro de quatro paredes que parecem até que querem me matar? A gente sofre, mata, vive um inferno, pra quê? Pra ficar seguro dentro de quatro paredes numa falsa segurança só esperando a puta da morte?
— Cara. — suspirou. — Essa merda é que nem amor, felicidade e perfeição. — apontou o dedo para cabeça. — Só existe aqui. É teoria, conceito; se a gente deixa de pensar nisso, puff, já era. Tu só é livre aqui. — e, novamente, apontou e pressionou a cabeça.
— Você quase me convenceu…

O guarda que abriu as selas sumira. Passou-se algum tempo até o fato virar notícia e Dudu confirmar na televisão a morte dos detentos que fugiram; todos.

— Porra, gente aí se matando pra ter emprego pra ter dinheiro pra ter segurança, e o cara joga a coisa fora de graça. — comentou.

Dois anos depois do incidente, Dudu morria vítima de sífilis.

Ele não usou essas palavras. Quando terminou, e só quando terminou, falei que era uma anedota niilista e trágica demais para ser uma parábola. Ele riu com gosto. Todos ouviram. Reconstituo aqui, não sem esforço, as palavras que, sem olhar-me, falou:

— Trágico é você pensar que estou falando de bandidos atrás das grades.