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Tragédia moderna

Evito conversar, particularmente, num ônibus encharcado de passageiros cujo motorista se acha um relâmpago que só falta trovoar. Mas esse camarada, não; fala mesmo; fala, brada até, como se quisesse que o outro lá da frente ou atrás ouvisse. Cata muita atenção, me obriga a passar vergonha junto dele mas, como nesse dia, tem vezes que vem com uns papos que se eu não o conhecesse me meteria no diálogo só para trocar umas ideias com o cidadão.

Escuso seu nome para a anedota. Conta suas fábulas que pelo menos eu nunca ouvi por outrem. Sempre têm uma intenção parabólica, se é que posso chamar assim, com cunho cômico. O próprio seria uma figura digna de protagonizar algum texto; espero que jamais leia isto.

Tal dia, no ônibus, contava-me a história sobre dois caras…

— Presos. — dizia. — Um é veterano de guerra, e o outro, tá lá injustamente.
— Hã.
— Aí acontece uma coisa e eles têm a oportunidade de fugir. Só que…

Por motivos de dramaticidade pegarei sua ideia e darei um toque literário:

Feijão e Dudu: eis os detentos. O primeiro, ali há mais de oito anos, e o segundo faria o quinto aniversário de prisão no dia seguinte. Feijão vive bolando planos de fuga e estratégias mirabolantes; no intervalo, geralmente é ele quem mestra os RPGs. Pertinentemente encosta o rosto na grade olhando tudo passar mas com uma feição serena e ao mesmo tempo desesperançada de quem viu o fim por uma revelação divina. Já Dudu aproveita o que pode da vida: com os demais se corroendo atrás das grades, Dudu agradece a todos os animais sacrificados por ainda estar vivo.

Certa noite, ambos dormindo, ouvem passos rápidos de uma multidão. Feijão desperta e acorda Dudu que custa a levantar as pálpebras. Tinha um tira libertando os presos!

— Isso aí é muito estranho… — comentou Dudu.

O tal tira abriu a sela deles e falou, “Pode sair”.

Feijão, desafiador, indagou:

— Sair por quê, seu guarda? Viraram teu cu do avesso?
— Pode sair. — repetiu o tira implacável.

Feijão olhou seu reflexo no guarda, relanceou Dudu com a boca semiaberta, fitou o guarda mais uma vez e viu atrás dele um bando de homens sem e com camisa formando uma baderna no corredor.

— Ih, Dudu… Vumbora sair daqui, meu chapa.
— Estou a fim não, Feijão…
— Vamos ser livres, porra!

O guarda some da sela e abre as outras, a medida que o debate se segue.

— Meu irmão. Lá fora tem o infinito. Aqui—
— Tem vida. Tem segurança. Lá fora só tem morte e injustiça. Não duvido nada que querendo ou não tu vai vir pra cá, de novo.
— Não sou que nem tu não ô… injustiçado.
— Então vai lá, então. Seja livre. Livre pra morrer.
— Prefiro ser livre pra matar e morrer, e com dinheiro no bolso, do que protegido mas sem poder fazer nada.

Feijão já saía mas Dudu ergueu-se e falou:

— Quem disse que lá fora tu vai estar livre? Aqui você é livre; aqui a liberdade verdadeira existe. Lá, não.
— Livre onde, Dudu? Dentro de quatro paredes que parecem até que querem me matar? A gente sofre, mata, vive um inferno, pra quê? Pra ficar seguro dentro de quatro paredes numa falsa segurança só esperando a puta da morte?
— Cara. — suspirou. — Essa merda é que nem amor, felicidade e perfeição. — apontou o dedo para cabeça. — Só existe aqui. É teoria, conceito; se a gente deixa de pensar nisso, puff, já era. Tu só é livre aqui. — e, novamente, apontou e pressionou a cabeça.
— Você quase me convenceu…

O guarda que abriu as selas sumira. Passou-se algum tempo até o fato virar notícia e Dudu confirmar na televisão a morte dos detentos que fugiram; todos.

— Porra, gente aí se matando pra ter emprego pra ter dinheiro pra ter segurança, e o cara joga a coisa fora de graça. — comentou.

Dois anos depois do incidente, Dudu morria vítima de sífilis.

Ele não usou essas palavras. Quando terminou, e só quando terminou, falei que era uma anedota niilista e trágica demais para ser uma parábola. Ele riu com gosto. Todos ouviram. Reconstituo aqui, não sem esforço, as palavras que, sem olhar-me, falou:

— Trágico é você pensar que estou falando de bandidos atrás das grades.

Por que ainda vou ao cinema?

por que ainda vou ao cinema

Nessa quinta, dia 11/02/2016, resolvi que iria ver o filme do DiCaprio, sem nenhuma informação sobre, apenas que ele estava no elenco, havia especulação sobre um possível Oscar e que se tratava de um homem tentando sobreviver. Leia o resto deste post

Uma boa companhia

boacompania

No entardecer daquele dia minha mãe e eu fomos para a casa de uma irmã dela. Antes de embarcarmos quase pegamos um ônibus que pifou; sorte que depois passou outro de igual itinerário e nele seguimos. Se não me engano, isto deve ter uns três ou quatro anos.

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Comida do passado

Comida do passado
Já dizia o meu professor de história há muito tempo: o que não muda está morto. E a comida do congelador é como um gato de Schrödinger: viva porque tende à própria morte, o apodrecimento, e morta porque, afinal, é o pedaço de um animal morto. Mas tal como um gato que está morto e vivo, ou vivo e morto, não sei que estado em que ela está no momento que escrevo isto. Pergunto-a, mas ela é muda. Ouço só o som da entidade a que chamam de frio, um zumbido na verdade que se trata do compressor. A comida está parada no seu canto, congelada, como um gelo. Mas quem para, para em algum lugar, e se parada ela está, parada exatamente onde? No espaço, óbvio. Mas só no espaço?

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“Pense em Deus”

deus
O que é Deus?

É desconfortável receber essa questão assim, diretamente; tal pergunta me foi feita na pré-adolescência, quando enganava-me que tinha um conceito sobre isso. Ainda não tenho. Naquele tempo fora a um centro espírita com minha mãe — primeira vez em tal lugar. Seguia-a para todo lado. Na parte de cima a qual subimos por uma escada havia várias pessoas vestidas de branco e sentadas em torno duma mesa comprida. Segundo o que raciocinei, eram médiuns.

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A Revolta do Arroz — Possíveis cenários apocalípticos

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Incontáveis são as histórias — em toda mídia — narrando a queda de um povo vigente por alguma súbita rebeldia duma minoria. Chamam-nas de distopias. E na realidade essas histórias são fatos: tivemos revoluções, rupturas sociais, artísticas, humanas, e que ainda acontecem de maneira estranha e lentamente, num nível microscópico e psicológico; ignoradas. Porém, seja sincero: se algo neste mundo se rebelasse hoje e agora, o que teria mais mérito em reivindicar seus direitos senão o Arroz? Leia o resto deste post

O Ripicéfalo

Ripicéfalo

Milhares de centímetros andados e só agora chego aos pés, uma negra floresta, fétida, suja e de relevos côncavos — poderia ser melhor? O vento corre, o chão treme e a vida passa rápida no meu periférico: nalguns momentos vislumbro as mesmas cenas. Há segundos estava ali, depois fui para outro lugar em uma velocidade estupenda e voltei para cá. Ele não para, e o vento, alguém, tudo pode derrubar-me nesta altura. Hei de chegar nalgum pico plano, mas com estes pés fracos talvez não haja o passo seguinte. Lentamente finco minha unha, esta, aquela, mais outra, mais aquela, aquela dali e por último esta outra; todas com uma força inexplicável. Eu estou morrendo. Leia o resto deste post

Desconhecendo o tédio

tedio

Tédio? Eis aí uma coisa que não me abala mais. Há muito tempo já não sei o que ele é. Estou imune e isento dele. Tanto que, quando amigos e conhecidos comentam que se sentem entediados ou não têm nada para fazer, sinto-me um alienígena. Com a internet abrindo milhões de acessos a coisas que alguns anos atrás não seria possível, tenho uma armazenagem de entretenimento impossível de ser zerada numa única reencarnação. Leia o resto deste post

Ter de ser o outro

terdeseroutro

Pedi a uma das secretárias do curso que me transferisse de turma. De todos os alunos do prédio fui o que mais transitou entre salas e horários: manhã, tarde e noite. Por que motivo? Por vários — não valem ser mencionados.

Cheguei na nova turma com três alunos além de mim. Duas moças e um rapaz. Fora da sala o rapaz, de fácil conversação, dialogava com uma menina — que por sinal não era da turma — sobre churrasco, eventos caseiros e coisas do tipo. Eu só olhava. Em seguida nós e mais uma menina que não sei de onde saiu entramos na sala. A garota sentou onde me assentaria e perdi alguns segundos calculando que outro lugar seria o melhor para se assentar. Leia o resto deste post