Arquivos do Blog

On the Nanquim: Supermam: As 4 Estações – O Slice of Life do homem de aço

Inicialmente eu não era fã do Superman. Um herói cheio de poderes, praticamente invencível. Parecia ser uma leitura sem proposito, com final fixo. Ele sempre vence. Por mais que esse seja o padrão de milhares de outras histórias, de outros personagens. O famoso clichê. Eu olhava aquilo e não acreditava no potencial. Igual a Lois Lane descreve seus primeiros encontros com o homem de aço em Superman: As Quatro Estações (For All Seassons).

E esse talvez seja o ponto mais legal da obra. Esse é um HQ do Superman, obvio, mais é muito mais sobre Clark Kent. O menino da fazenda de Smallville. Narrado por aqueles mais próximos do herói, assim demonstrando de forma fantástica o lado humano do homem mais poderoso da terra.

Tal qual o nome 4 estações, o quadrinho separa seus capítulos pelas mesmas. Tudo começa na primavera, com Jonathan Kent, o pai de Clark, narrando o enredo. Mostrando uma história onde o superman ainda não existe. É o começo de tudo, de maneira bem crível, sobre um jovem descobrindo seus poderes e decidindo seu destino. So que visto pelos olhos de um pai apreensivo, que enxerga o super somente como seu garoto que está em mais uma fase da vida.

Nos demais capítulos, ou estações se preferir, temos alguns saltos no tempo para mostrar momentos chaves da vida do herói, cada um com um propósito de mostrar o fantástico e trazer isso a terra, humanizar o personagem. Tanto que por mais que tenhamos o homem de aço fazendo atos incríveis, como parar um trem ou apagar incêndios, o quadrinho seque com um teor mais de slice of life com uma bela pitada de drama. E isso é super gostoso de ler.

Cada um desses capítulos também é narrado por outro personagem. Começamos com Jonathan, e vamos a Lois Lane escrevendo um artigo emotivo, e disso vai direto pra Lex Luthor e suas tramoias, terminando com Lana Lang, a amiga de infância, e eventualmente temos os pensamentos do próprio Clark, terminando com um monologo de um coadjuvante que não vou mentir, e de bater palmas. E tudo perfeito, muito bem encaixado, e por mais que cada capítulo, cada estação, funcione de forma individual como leitura, o correto e certamente apreciar essas ligações e enxergar cada vez mais o super como mundano.

O meu favorito pessoal é o Outono, o capítulo 3. Você não dá nada pro Lex Luthor quando e a narração da Lois, talvez por ela o enxergar assim. Mas quando e a vez dele narrar, ai nos aprofundamos mais do passado do personagem e entramos um pouco na sua mente. Tudo isso culminando num momento extremamente desumano. É dialogo atrás de diálogo de tirar o folego. Algo que, ao menos para mim, joga esse Lex lá no topo, como uma das versões mais bem escritas e assustadoras do personagem.

E é isso. Um texto curto, eu sei. Mas acredito que não precise dizer mais que isso sobre As 4 Estações. Os personagens são muito bem escritos, os diálogos arrasam e a arte cai como uma luva, elevando cada momento.

Eu amo como como o talento artístico de Tim Sale (Batman: O Longo Dia das Bruxas, Mulher-Gato. Cidade Eterna) e Bjarne Hansen (B.P.R.D., Starman) se combinam criando belos por-do-sol e riscos de velocidade. E elogios, como deu para se ver, não me faltam para o roteiro de Jeph Loeb (Batman: O Longo Dia das Bruxas, Smallville). Se você ainda não leu esse quadrinho, vá atrás. Pois é um deleite para qualquer fã do super e uma das obras mais fantásticas de heróis que eu pude ler.

Resenha: Lore Olympus

Resenha com base nos capítulos de 1 a 98

Se você tem o aplicativo WebToon deve estar familiarizado com esse nome. Lore Olympus é um dos maiores sucessos desse app de quadrinhos online, ao ponto de ficar incontestável nos tops de romance e no próprio top de melhores do aplicativo. É literalmente o número 1, o mais popular com 99,999 likes em cada um dos capítulos, sem exceção.

E eu não queria ler. Sabe, eu não sou o maior fã de histórias de romance e segui lá no aplicativo procurando coisas mais de ação, indo em obras questionáveis como Elf & Warrior, até que fiquei de saco cheio. Pois nessa minha de ir atrás das coisas evitando gêneros e buscando por conta própria eu so achei 3 obras sequenciais boas.

Ai na falta do que ler fui em cada um dos tops e abri o primeiro capítulo de cada para dar uma espiada rápida. E o primeiro ponto que me conquistou em Lore foi a arte. Aquela mescla de cores cheias de simbolismo, cenas mais artísticas e belos personagens. Julguei pela capa sim, e nessa vez foi algo bom eu ter feito isso.

Talvez não caia no gosto de todos esse estilo, com os personagens fugindo muito do manhwa, que é o principal do app, e caindo mais para uma mescla de mangá com quadrinhos alternativos americanos, mas é justamente nessa diferença que eu vejo a beleza no traço.

Para completar isso, esse HQ traz uma mescla de mitologia grega com os tempos modernos, e ver esses personagens adaptados para esse traço e essas condições é algo fenomenal e um prato cheio para todos os amantes de história. Sendo esses dois fatores os primeiros que me cativaram na obra.

Era muito gostoso deitar na cama e pegar meu celular para ler cada vez um pouco mais antes de dormir. Eu queria ver o mundo adaptado expandir e apreciar a arte deslumbrante. As cores mesmo, como bem disse, entregam um certo simbolismo, e não para nelas. É tudo muito dedicado ao contexto de cada entidade do panteão grego.

E falando nelas, o terceiro ponto chave foi o carisma. Primeiro vem a fisgada mostrando coisas como deuses em balada ou uma Artemis meio punk, e então por meio desse chamariz conhecemos cada vez mais cada um dos personagens e não da outra. Nesse ponto já não tem volta, você vai quer ler tudo de Lore Olympus, principalmente se gostar de Hades e Persephone.

É uma história de romance, como eu falei no começo. Baseada no mito de Persephone. Você não precisa realmente conhecer toda a história, mas existe genialidade nessa escolha. No tal mito Hades sequestra Persephone, coisas ocorrem em desagrado ao ato, mas no fim ambos acabam se casando.

A parte do sequestro em si obviamente e removida, junto do fato de Hades ser Tio da deusa entre outros, mas a escolha se dá mais por conta de Hades so ter tido amante. Ou em outros termos, ele era o fiel em meio a um mar de deuses promíscuos. E eu particularmente gosto dessa escolha, pois novamente entra naquilo de adaptar as entidades, mas sem remover trejeitos mais marcantes.

E o lance entre Hades e Persephone se dá de maneira bem mais light, apesar de não tão delicada. Tudo começa numa balada, simplesmente por Hades dizer “Persephone é mais bela que Aphrodite”. E então Eros, filho de Aphrodite, leva Persephone a beber demais e a joga na traseira do carro de Hades. Logico que o intuito era causar um confronto entre ambos, porém Hades a conduz para o quarto de hospedes de sua casa, ela eventualmente acorda e em vez de briga, devido a maneira como o deus do submundo se porta, ambos passam a se conhecer numa tranquila conversa.

Voltando novamente ao mito de Persephone, dizem que Hades se apaixonou à primeira vista. E certamente foi o caso, tanto que poderia acabar ali. Porem nesse enredo Hades tem uma namorada Ninfa e vive ocupado com sua empresa, enquanto Persephone faz parte de um grupo de deusas do celibato. Ou seja, que se abstém de relações sexuais. E que caso caia em tentação vai perder a chance de permanecer no olimpo e na universidade.

Com isso o enredo de Lore Olimpus segue num estilo Slice of Life com pitadas de romance e aquele drama bem encaixado. E devo dizer, com diálogos sensacionais e tocando em assuntos bem polêmicos. Como sexo, traição, estupro, difamação e o próprio celibato, entre outros. E de quebra mete alguns mistérios, como o fato de Persephone antigamente se chamar Kore e a relação entre Aphrodite, Eros e uma mortal, em outra história de relacionamento.

E está aí uma palavra que se encaixa muito bem nessa trama. Relacionamento. Não apenas amoroso, mas entre amigos, familiares e colegas de trabalho. Novamente caindo no Slice of Life e abrindo brecha para explorar todos os personagens. E diria mais, não tem um deus que seja apresentado que é mal utilizado e toda a trama flui perfeitamente, como se tudo já tivesse sido bolado a décadas.

No fim Lore Olympus é um quadrinho extremamente agradável e digno de estar no topo de um site tão prestigiado. Uma obra sem igual, em todos os aspectos, com um romance que vai fazer até mesmo o mais enrrustido no gênero apreciar a obra e torcer pelo o casal, por mais que o destino deles esteja escrito em pedra.

On the Screen: I Lost my Body – As desventuras de uma mão decepada

Existem momentos que eu quero apenas parar tudo e ver um filme. Não por entretenimento, mas para ter aquele momento so meu. Me isolar de tudo, entrar em outro mundo, ter a minha solidão controlada. Eu poderia colocar isso de várias maneiras. Mas sim, tem momentos que preciso desse escapismo.

Nisso eu resolvi assistir à animação francesa I Lost my Body. Não cheguei a ver trailers, mas bastou alguns gifs da Catsuka e a sinopse de uma mão andando por aí sem corpo para eu me ver fisgado. Sabia que seria um filme adulto, mas essa premissa me deixava esperançoso por uma aventura a lá Toy Story, naquele típico mundo diminuto, so que com um pedaço de corpo decepado.

 E olha, o filme entrega nessa parte. As cenas da mão, que por sinal tem desde o início, sequem um estilo bem de jornada do herói, apesar de não sabermos de fato como ela se soltou e porque tudo o que é mostrado… bem… é mostrado.

Alternando com a mão em apuros temos cenas de lembranças do membro, muito bem orquestradas, que parecem focar nos momentos mais importantes do uso das mãos do protagonista Naoufel. São momentos tênues, de nostalgia, que se repetem muito durante o filme, so que cada vez com mais detalhes adicionados. O ponto perfeito para partir do agradável ao dramático.

Com o tempo descobrimos que Naoufel é órfão devido a um acidente e ao invés focar apenas no passado distante o filme passa a mostrar um passado próximo, pouco antes de ocorrer a perda. Nesse ponto o enredo passa para drama, slice of life e romance. E eu devo dizer, isso foi algo muito bem-vindo

O diálogo que inicia tudo isso é simplesmente genial e o filme segue assim se segurando nesses diálogos e na urge do espectador de descobrir não apenas o mistério da mão e se Naoufel está vivo, como também descobrir mais sobre a vida e personalidade do protagonista. Além de entendermos melhor os secundários Gabrielle, Gigi e Raouf.

Você fica completamente imerso ao filme, talvez saindo dessa apenas quando ocorre queda de frames. Isso pois existem alguns momentos, especialmente na oficina de Gigi, que o filme parece dar umas engasgadas na animação. O que é bem estranho, visto que nenhuma das cenas rápidas tem esse problema. O filme engasga justo em diálogos, e isso não dá para aceitar. Por mais que seja um por menor que não estraga nada do filme.

Apenas quero dizer que o estúdio deveria ter tido mais cuidado com isso, por mais que esse filme tenha cara de ter tido uma animação demorada e custosa. Não tenho certeza do que vou falar aqui, pois não achei fontes. Porém o filme me parece ter sido feito em rotoscopia. Isso quer dizer que pessoas reais foram gravadas e então o artista fez cada frame em cima dos frames captados pela câmera. Algo que poderia justificar minha reclamação anterior e comprovar a teoria de que isso aconteceu por falta de tempo.

Eu baseio isso que digo por um único comentário que achei na Variety, onde o animador dizia que eles tiveram de gravar a mão em diversos ângulos. Assim dando a entender que uma mão, ainda presa a um braço, espero, haha, foi gravada fazendo os movimentos das cenas de ação. So não digo 100% que isso foi rotoscopia, pois gravar algo assim pode apenas ser um ponto de referência. Entender melhor ângulos de câmera e movimento dos dedos, por exemplo.

Porem sendo rotoscopia ou não, tendo falha nos frames ou não, o filme ainda é extremamente bem animado. Ele é bem fluido, orgânico, e com um estilo que me lembra quadrinhos. Foge de heróis? Logico. Mas eu falo mais de obras voltadas ao Slice of Life, como Local, que é bem a ideia do filme. Vermos o cotidiano do principal.

A mão é interessante e tem um propósito que gostaria de mencionar no final desse texto, mas o astro e sem dúvida Naoufel. O corpo, digamos. Pois é muito fácil você assistir e conseguir simpatizar com ele e os demais personagens e até mesmo se botar na situação dele, por mais que todas elas sejam bem absurdas, quase surreais para o mundo real, e ainda assim extremamente criveis.

O roteiro, da maneira que é apresentado, com a troca entre a mão e o garoto e todo o jogo de edição, dubladores excelentes e músicas muito bem selecionadas é foda. Não tem outra palavra para descrever. O filme é superinteressante, e é por isso que seu maior pecado é terminar. E não falo isso pois eu queria mais. Digo isso pois era necessário mostrar mais.

I Lost My Body é claramente algo experimental, e por isso eu meio que duvido de uma sequência. Não existe um grande plot twist no final ou o que seja. O filme chega num clímax, que eu até diria que é bom, e então acaba. So que o ruim é que ele não encerra absolutamente nada. Não tem final. O momento impactante vem, graças a deus descobrimos como ele perdeu a mão e os créditos rolam. E isso para mim, desculpa, é uma merda.

E eu já sei o que vai rolar. Eu usei a palavra M num review. Vão ignorar todo o resto que tenho para dizer e me xingar, pois a desgraça da falta de interpretação leva a acharem que eu odeie o filme, apesar de todos os elogios.

O filme é bom, vale a pena ver sim. Mas o final é frustrante e poderia ser muito melhor. So que o lance é o seguinte, eu não posso falar desse final sem dar spoilers. Eu eu genuinamente não quero entregar nada muito relevante do filme. Eu nem ao menos queria mencionar os pais do garoto, e olha que isso o filme entrega rápido.

Porém, eu gostaria de comentar um spoiler especifico, sobre a mão, que tem a ver com o final. Logo a partir desse ponto peço que pare de ler se não viu o filme. Assiste ele e então vem aqui, leia o resto do texto e depois bora conversar. Beleza?

Para ler o resto, click na página 2 abaixo.

On the Screen: O Cristal Encantado – A Era da Resistência (Temporada 1)

Também conhecido como The Dark Crystal: Age of Resistance nos EUA, O Cristal Encantado é uma serie norte americana de Tokusatsu, no mais puro significado da palavra. É aquele tipo de show extremamente focado em efeitos especiais, so que mais de que Kamen Rider, Ultraman ou até mesmo Godzilla. Isso por se tratar de algo sem um humano sequer presente. E talvez esse seja o grande chamariz da série.

Isso se dá, pois, os efeitos são em sua maioria feito por meio de marionetes, e o resultado final é sensacional. Isso graças a coprodutora The Jim Henson Company, outrora conhecida como Muppets Inc. E eu sei, e difícil imaginar que uma produtora de filmes e series infantis faria algo tão vale da estranheza, mas na verdade isso não é novidade. Pois Age of Resistence é uma prequel.

Em 1982 a Jim Henson Company criou um filme intitulado The Dark Cristal, também chamado de O Cristal Encantado no Brasil, e dirigido pelo próprio Jim Henson (Família Dinossauros) e Frank Oz (A Pequena Loja dos Horrores). Juntos eles dirigiram o clássico Labirinto – A Magia do Tempo, além de participarem de diversos projetos dos Muppets. Logo podem ver que não é um projeto qualquer.

Visual do filme de 82, O Cristal Encantado.

Sei que a prequel não tem esses 2 talentos, infelizmente, porem muitos membros da antiga Henson retornaram para esse novo projeto. Isso inclui as filhas de Jim, Brian Froud, o artista conceitual original e o restante da família Froud, designers de maquetes e afins. Além de muitos mestres em marionete, sem contar outras incríveis adições.

Quem mais me surpreendeu nisso foi o diretor, Louis Leterrier (Carga Explosiva 1 e 2, Cão de Briga, O Incrível Hulk [2008], Fúria de Titãs [2010] e Truque de Mestre). O nome dele certamente traria ação para o filme, e realmente não faz feio nessa questão. Mas fico estupefato como ele ajudou no roteiro, edição e até mesmo assumiu papel de câmera, mostrando total dedicação ao projeto e se equiparando nesse sentido diria que a todo o cast, do pintor de cenários a quem faz os movimentos dos terríveis Skeksis.

O visual, a fluidez e o mundo recriado de Thra, com a mais perfeita fidelidade é algo de cair o queixo. Isso tudo também graças a notas dos já mencionados Jim e Frank, sobre detalhes mil esse mundo de um imaginário sinistro.

Louis Leterrier e o general Skeksis.

Eu não vi o primeiro filme, algo que desejo fortemente reparar, mas pelas imagens, vídeos e o documentário de produção do Netflix e inegável as similaridades entre os projetos e a paixão de todos os envolvidos. Por ser uma chance única, por ser algo que marcou a infância, por ter sido do crew original. E isso transparece na qualidade do show.

Jamais imaginei ver marionetes tão bem construídas e interpretação tão convincentes saindo delas. Você fica imerso, por mais que exista aquela sensação inicial que mencionei de vale da estranheza. Pois é tudo muito orgânico, por mais que sejam bonecos em tela verde e cenários de isopor.

E falando em tela verde. Existe grande uso de técnicas modernas, de animatrônica a CGI. Em alguns momentos infelizmente isso quebra a imersão, principalmente em cenas de movimentos mistas entre marionetes e modelos 3D e quando os bonecos são completamente removidos em prol de algo mais rápido, por limitações nas articulações e movimento dos próprios ventríloquos.

2 cenas para comparação, do que se vê em tela e de como a serie foi produzida.

Por outro lado, a serie apresenta aumentos no realismo vindos do 3D, como certas movimentações de rosto dos Gelflings, animais e cenários que não destoam nem um pouco, e que só dá para notar vendo o documentário já mencionado. O que me deixa ainda mais boquiaberto.

Fora que muito desse mundo me lembra produções dos anos 80, com um que de H. R. Giger e Abe’s Oddysee. Fascinação, medo e muita nostalgia. E o roteiro não fica atrás. Parece um épico de alta fantasia a lá Senhor dos Anéis, e já foi dito publicamente que o show foi muito inspirado em Avatar: A lenda de Aang e Game of Thrones. Até mesmo na contagem de corpos e elementos políticos.

 O Cristal Encantado: A Era da Resistência é um show tenebroso, que não tem medo de exaltar questões adultas em algo de classificação baixa. A todo momento achei que alguém iria morrer, principal ou não, o que gera tensão. E os momentos trágicos por morte, traição ou o que seja não são poucos. É um mundo muito mágico, distante, mas ainda assim crível nos momentos certos.

Os terríveis Skeksis.

E se eu não falei nada do enredo até agora é porque ele é basicamente isso. A descoberta de um mundo fantástico para o espectador e a urge de ver o que vai mudar na solene canção de Thra. Um mundo está caindo, coberto pela escuridão e clãs da mesma espécie se veem separados sobre o domínio dos malévolos e imortais skeksis. O resto e o resto, pois tem certos caminhos que so você pode ver, como diria a carismática Aughra.

Sei que estou jogando nomes difíceis a torto e a direto, como Thra ou Gelflings. Mas isso é porque a lore da série é tão fantástica que decorei o nome das raças e o nome de cada personagem. Algo que ao menos comigo não acontecia a um bom tempo.

Elogios para a série não me faltam, como podem ver. Mas por mais que isso tudo seja surpreendentemente fantástico, o destaque pra mim fica com os antagonistas Skeksis. Cada um deles animado por um mestre e dublados por nomes como Benedict Wong, Jason Isaacs, Simon Pegg, Awkwafina e Mark Hamill.

Poderia ficar horas sem fim falando de Dark Crystal, mas vou encerrar aqui com um sonoro ASSISTAM. Não é todo dia que falo de series aqui no blog, logo podem ver o quanto gostei dessa bagaça.

On the Screen: Infinity Train (Temporada 1) – Surpresas infinitas

Eu normalmente não falo de temporadas aqui e raramente escrevo sobre series em andamento, mas Infinity Train é uma exceção. Isso pois esse cartoon seque uma estrutura similar a series como True Dectetive onde cada temporada é um enredo, com a diferença de que a temporada 2 puxa elementos e personagens da primeira, até porque se passa no mesmo mundo. O tal trem infinito.

Mas como se deu isso numa serie do Cartoon Network? Bem, Infinity Train surgiu como um piloto de uma serie em meados de 2010, então em 2016 foi publicado como um curta no aplicativo VOD do Cartoon Network e no canal do YouTube, de maneira similar ao que faziam no Cartoon Cartoons, um antigo bloco de curtas que anteriormente eram pilotos. E que foi de onde surgiu clássicos do canal, como O Laboratório de Dexter, Meninas Super Poderosas, A Vaca e o Frango e Coragem, o Cão Covarde.

So que o Cartoon Cartoons já tinha o intuito de ver a popularidade e então dar sinal verde para a produção das series. Enquanto Infinity Train foi disponibilizado apenas para preencher vaga, se não porque ele ressurgiria 6 anos após a concepção? Era pra ser apenas mais uma opção dentre tantas outras para se assistir.

Porém, o curta de Infinity Train chegou a ultrapassar a marca de 1 milhão de visualizações em tempo recorde e logo surgiu uma petição para que o Cartoon fizesse o show. Isso tudo ainda em 2016. E parece que a empresa viu o recado e resolveu agradar os fãs, assim lançado Infinity Train em 2019.

Mas nem tudo é tão fácil. Provavelmente queriam uma serie longa, tal qual um Hora de Aventura. So que por mais que a Cartoon tenha sido boazinha, ainda é uma empresa. E nisso Infinity Train foi idealizado como uma minissérie de 10 episódios, cada 1 com 11 minutos. E por mais que isso pareça um problema, sinceramente eu acho que fez o desenho ser ainda melhor.

Sim, eu dei algumas voltas. Pois acho essa “história de origem” bem interessante e porque eu queria chegar nesse ponto da duração. Da forma como isso foi idealizado a primeira conclusão e de que seria um cartoon sem tempo suficiente para apresentar um enredo decente. Porem o que recebemos, graças ao time criativo por trás de Infinity Train, é algo sem furos e com episódios repletos de conteúdo.

Não parece que você está assistindo 11 minutos. Parece que você assiste longos seguimentos que mais parecem um filme Ghibli misturado com algo surreal como Twin Peaks. É um mundo único de fantasia e ficção jamais visto. Mas o melhor mesmo é o mistério interligado diretamente a cada um dos personagens e ao desenvolvimento da protagonista, Tulip.

O trem infinito realmente é um local bizarro, com mundos inteiros em cada vagão e seres ainda mais curiosos. Porem nada é mais intrigante do que a numeração na mão de tulip, que cresce e decresce sem um motivo aparente.  

E acima disso temos vozes misteriosas, monstros tenebrosos e o One-One. Um robozinho com dupla personalidade que busca sua mãe. E sim, até ele é mais um dos mistérios dessa jornada. Com um lado cheio de hype e outro depressivo, que lembra muito O Guia do Mochileiro das Galaxias.

Completando o trio de heróis, temos Atticus, o rei Corgi. Um corajoso e carismático cão que não apenas fala, mas se porta como nobre. E os 3 juntos são simplesmente incríveis, talvez sendo o grupo mais divertido e inusitado que vejo em anos, ao menos se tratando de desenhos. É ótimo ver eles se aventurando em reinos que variam desde montanhas de cristais a um vagão lotado de patos.

Porem a estrela ainda é Tulip e seu drama pessoal. Afinal não começamos no trem, e sim no mundo real com a protagonista fugindo de casa. E esse ponto faz toda a diferença. Um desejo negado, uma família problemática, infância dura, pais separados. Esses e outros detalhes vem a tona constantemente ao decorrer dos episódios, assim tocando em temas bem únicos para algo focado no público infantil.

Além de englobar fantasia, mistério, aventura e sci-fi, Infinity Train é também um coming of age. Uma história de amadurecimento, 100% focada no drama familiar. E eu não poderia enaltecer o quanto isso é importante e como tudo isso transforma a serie numa das melhores coisas que já assisti.

Eu falei acima que é algo para o publico infantil, mas so que de uma forma similar a como as revistas japonesas separam demografias. O foco do Cartoon Network sempre foi crianças, portanto esse é o publico alvo. Porem isso não quer dizer que a obra não possa ressoar com outras faixas etárias.

E eu acredito que Infinity Train é algo para qualquer idade. O roteiro é fenomenal, os personagens são cativantes, o mundo e encantador, e não me faltam elogios aqui. Eu recomendaria essa temporada a qualquer um de olhos fechados, até porque termina. Tudo tem um desfecho, e ai entra a questão de como foi idealizada a temporada 2.

Bem, se você ainda não viu o trailer, fique tranquilo. Eles optaram pela única saída cabível. Em vez de resetar o plot com algum motivo besta eles mantiveram o trem e introduziram um novo personagem, um novo passageiro. E por fim colocaram um secundário da temporada anterior como parte do novo trio central.

Minha única questão mesmo com a temporada 2 vai ser se vão utilizar e como vão utilizar os demais personagens que sobraram. No resto, pode ter certeza de que eu já estou no hype. XD Infinity Train é bom d+.

On the Screen: Neon Genesis Evangelion – Do mindfuck ao The End.

Anos atrás, quando eu comecei a entrar no mundo dos animes, Evangelion era uma das maiores febres da internet. Desde então sua relevância não caiu nem um pouco, sendo hoje considerado um dos maiores clássicos da animação japonesa.

E não é para menos. Toda a estética do anime, enredo e personagens chamam muita atenção, sendo possivelmente uma das obras mais memoráveis. Dita por alguns até como uma desconstrução dos mechas ou uma reação “noventista” a segunda guerra mundial e as bombas atômicas.

Da pra se tirar muito desse anime, seja analisando a superfície ou até mesmo pausando e lendo pequenos detalhes ao fundo, reparando em sombras, ou como já dito tentando entender como o contesto histórico influenciou na obra. Daria que até da para fazer paralelos com religião e com a psique do próprio diretor, bastando apenas pesquisar mais a fundo.

Porem isso muitas vezes não é algo que se nota numa primeira assistida. Como falei logo no começo, Eva foi um dos primeiros animes que eu assisti, e eu queria entrar um pouco no contesto dessa primeira vista antes de prosseguirmos.

ASSISTINDO PELA PRIMEIRA VEZ

Evangelion me foi introduzido por um amigo no Yahoo Respostas, e podem rir disso. Eu era novo na internet, finalzinho da era discada, e era noob total se tratando de animes. Eu conhecia no máximo Dragon Ball e Yu Yu Hakusho, sendo as coisas mais “underground” que eu consumi, Samurai Champloo, Kimba e aquele anime horrível de Ragnarok. Tudo na TV aberta.

Logo eu aceitava sugestões de qualquer lugar, e poxa, tem lá um site de perguntas né. E podem me julgar o quanto quiserem, mas o povo lá realmente tentava encaminhar pro “caminho otaku” da forma correta, ou em outros termos, não recomendavam apenas modinha.

Conheci muita gente legal lá, que me apresentaram o My Anime List e obras como Trigun, FMP e Ergo Proxy, que hoje são mais mainstream, mas que na época era algo mais abaixo. Não diria que se tratava de algo “true underground” com pouca fanbase, mas era certamente longe do topo.

No meio dessas indicações me falaram de Evangelion, mas da seguinte forma. “Já que você gosta de ação, tem um anime de robôs muito foda, com história legal, que vai ficando confuso, mo mindblow, e que não tem final. Os dois últimos epis não valem. Ah, mas vc pode pular esses e ver o filme que é final verdadeiro. ”

Me pergunto quantas pessoas já ouviram uma descrição assim. Parece até aquele meme do Twitter de “descreva seu anime favorito da pior forma possível”. Dizer que tem ação e algumas partes confusas é ok, mas aqui se trata mais da forma como é dita. Pelo que ele descreveu eu interpretei que seria um anime bom de ação que vai ficando cada vez mais difícil de se entender e que termina de uma forma muito ruim. Para que eu iria ver isso?

Ignorei completamente a indicação. Vi lá meus Samurai 7 e meus Hellsings. Consumi do mais falado ao quase rejeitado, ao menos se tratando do que entrava no conhecimento desses meus amigos, e no fim, na falta do que ver, resolvi pegar Evangelion. Eu já era menos birrento quanto a plot, digamos, e me achava o conhecedor da arte nipônica. Logo, porque não?

Bem, eu não diria que eu era otakinho na época, mas eu assistia animes por um único proposito nesse período. Lutas fodas. Eu gostava de enredos mais complexos, mas se não tivesse aquela luta fantástica de cair o queixo quem caia mesmo era minha vontade de continuar.

Vi o início de Evangelion e segui até aparecer a Asuka. Eu gostei das lutas, mas todo o restante me incomodava. Me dava uma sensação ruim de ver as ações do Shinji e eu sentia um pequeno indicio de depressão vendo a obra. Já o enredo, ignorei, dei o fodesse.

Assisti mais um pouco, não me recordo até qual momento, mas acredito ter sido até o episódio 11, pois ao rever o anime foi até esse ponto que eu tinha algum tipo de lembrança. Mas eu vi tudo, não me entenda errado. Eu parei nesse pedaço e depois fui vendo espaçadamente, empurrando cada vez mais, ao ponto de que assisti algo extremamente picotado e cada vez sem nexo. Eu não conseguia mais juntar o que aconteceu em cada episódio, nem mesmo se tratando dos pontos mais básicos.

Nisso veio os 3 últimos episódios. O episódio 24 é algo que eu me recordo, ao contrário dos outros 15 episódios após o 11º, mas não como algo bom. Eu lembrava desse como sendo algo muito ruim que me incomodou bastante e me deixou mega confuso. E na sequencia temos os episódios 25 e 26, ditos como o mindfuck supremo que deve ser pulado. Imaginem minha reação naquela época a esses 2 episódios. Eu passei a odiar Evangelion, apesar de não o fazer abertamente. Isso pois eu me sentia inferior aos outros por ter entendido absolutamente nada da obra. Ergo Proxy era um passeio comparado a isso.

Anos se passaram, e minha opinião sobre Eva mudou. Eu lembrava desses episódios iniciais como algo muito bom e literalmente apaguei da memória todo o resto, exceto aquela sensação de que era algo confuso e maçante. Mas então 12 anos se passaram, estamos em 2019, e minha mentalidade mudou muito, então porque não assistir para valer e analisar a abra? Foi o que pensei. E olha, acertei em cheio.

REVENDO EVANGELION

Parece piada o que vou falar agora, ainda mais depois de toda essa história, mas ao assistir Eva novamente eu passei a gostar imensamente do anime, ao ponto de que agora eu afirmo com certeza de que essa é uma das melhores obras de animação japonesa que eu assisti. E isso vindo do cara que tinha tanto ódio de Evangelion que isso virou meio que um repelente de todo e qualquer anime do gênero Mecha.

E vamos começar por isso, os mechas. O ponto no qual afirmam que esse anime é uma desconstrução do gênero. Isso pois os robôs Eva não são uma construção inteiramente mecânica, sendo em boa parte algo biológico, como um organismo aliem. E eu acho isso fantástico, pois os próprios robôs existirem e serem os únicos capazes de destruir os ditos anjos é algo extremamente relevante ao plot.

Essas maquinas gigantes não estão ali apenas para serem a “armadura de combate” dos protagonistas. Não são apenas uma casca de metal sem vida para garantir sobrevivência num meio inóspito. Esses mechas evoluem junto dos protagonistas. Não num viés de super robô escrachado como em TTGL, mas como se os próprios Evas fossem personagens com histórias e segredos a serem descobertos ao decorrer da trama.

E o mesmo pode ser dito da organização NERV, a qual comanda as operações realizadas pelos Evas. E eu sei que falar que uma organização evolui é bem mais crível do que apontar esses detalhes num robô, mas ao mesmo tempo é ainda mais bizarro dizer que a organização é um personagem. Afinal, não seria melhor afirmar que são os personagens dentro da organização que a refletem?

Até certo ponto sim. De Ikari, o comandante da NERV, para baixo, a organização e definida por esses personagens e suas ações em cada uma das áreas que eles exercem, tendo conflitos diversos e sim, evolução. So que existe um outro grupo de pessoas acima de Ikari, chamado de SEELE.

Com exceção do inicio do anime e algumas cenas do diretor Keel Lorentz, todos os membros da SEELE são representados por monólitos, e são eles que ditam por cima tudo que deve ocorrer na organização. Não estão literalmente ligados a parte de combate e pesquisa dos Evas, mas são eles que dão o veredito final a diversas questões, inclusive no âmbito internacional e envolvendo outras centrais.


Nesse ponto devo admitir que não entendi bem se eles, SEELE, são realmente os superiores da NERV ou alguma organização internacional, similar a ONU. Isso so ficou claro ao ver o filme The End of Evangelion. Portanto, peço que leiam até a parte do The End desse texto.

E é esse grupo de pessoas que eu considero definitivamente um personagem, incluindo Lorentz. Eles têm vozes e opiniões diferentes, mas sempre são vistos discutindo o mesmo assunto, de forma que fica difícil de não os associar a uma única entidade, mesmo que não seja algo factual. Isso somado a representação deles, faz até parecer ser uma única pessoa com múltiplas personalidades, ainda mais se levar em conta que eles nunca desviam muito do raciocino e sempre chegam ao mesmo resultado.

Mas voltando a NERV.  Essa organização tem uma cadeia de comando bem distinta com comandante, vice comandante, chefe de operações, inspetor, e assim vai até chegar nos child (criança), representados por Rei (First Child), Asuka (Second Child) e Shinji (Third Child). Ou em outros termos, os pilotos dos mechas. Sendo a própria nomenclatura deles mais um mistério da trama.

E assim segue Evangelion com diversos mistérios em cima dessas questões de organização, Evas, Childs, Anjos, entre outras, que vão cada vez se aprofundando mais ao decorrer do enredo. Mas sendo os principais e mais interessantes mistérios, ao menos para nos telespectadores, aqueles que envolvem a psique dos personagens.

Não temos aqui um anime com tropes claros de cada arquétipo de personagem. Cada um dos integrantes da NERV, e não incluo apenas as crianças nisso, tem segredos ou apenas detalhes que são escondidos de quem assiste até o momento H, para assim causar um maior impacto. E é através desses pontos, mais os conflitos subsequentes que ocorrem no presente, que vemos a fantástica evolução desses seres que não são nem heróis nem vilões.

E sei que pode parecer estranho tocar nisso so agora, mas vamos ao plot em si. Eva começa com o chamado Segundo Impacto sendo algo bem recente. Um evento quase apocalíptico que destruiu uma área considerável do mundo, e que na sequencia fez com que os Anjos, inimigos da humanidade, voltassem a aterrorizar o planeta. Agora cabe a NERV e aos pilotos do projeto EVA acabar com essa ameaça.

Por tudo que eu falei até então esse parece ser um plot bem raso. Ele é centrado numa ideia bíblica envolvendo coisas como Adão e Eva, lança de Longino e Manuscritos do Mar Morto, até a óbvia reinterpretação do Juízo Final. Porem para aqueles que não estão tão ligados a religião, fica de fato algo de difícil interpretação, e para mim ao menos os acontecimentos que se deram por sequência são apenas referências e no mais o clichê de monstro da semana.

Sei que deve ter algo mais profundo quanto a vinda de 13 anjos e a tentativa de proteção do mundo. Mas para mim foi exatamente o que eu falei. Monstro da Semana. Não consigo pegar a fundo essas partes bíblicas, mas ao menos posso notar a influência de Tokusatsus, Gundam e até mesmo Ideon.

Para saber mais sobre as influências de Evangelion recomendo ler esse Thread e depois ir atrás das obras. https://twitter.com/Nintakun/status/1067398232702107650

E é nesse mundo de monstro da semana que a gente conhece melhor cada personagem, so que de uma forma meio distorcida, digamos. Shinji é aquele principal medroso. Algo visto em obras B como Deadman Wonderland e Mirai Nikki. Mas não apenas por ser um cagão sem poderes que vai ficar no plot quase que como observador. Não. Ele é o mais forte, mais capais, porém mais indeciso e traumatizado. Tem um motivo para ele agir assim, e é por isso que eu não entro no grupo seleto de pessoas que detestam o Shinji.

Ao menos colocando aqui meu ponto de vista sobre o personagem no anime, e excluindo o filme por agora.

Shinji para quem não sabe é um dos protagonistas mais odiados pelos otakus, por conta dessa atitude de bunda mole. O cara que não quer fazer as coisas. So que ele está num contexto muito bem explicado, crível quanto ao afastamento dele e que disponibiliza meios dele se defender, sendo, portanto, um personagem mais incluso em seu próprio mundo, digamos. Ao invés de um chorão que sobrevive por ter amigos fortes.

Fora que a mentalidade dele vai evoluindo de uma forma fantástica ao decorrer da série, segurando bem a tocha de protagonista. Tendo alguns episódios bem marcantes com apenas ele sozinho, em momentos de depressão.


Uma das minhas partes favoritas do anime, sem dar spoilers, e uma que começa com o Shinji falando “Isso é cheiro de sangue?” E o resto do episódio segue sem se desvencilhar dessa única frase, terminando com o shinji aproximando seu braço da face e falando “O cheiro de sangue não sai”.

Já a Asuka é outra história. Muitas pessoas também detestam ela, e no decorrer do anime eu consegui muito bem entender o porquê. No início eu achava ela apenas uma garota metida, que escondia seus sentimentos e que estava sempre feliz.

So que Asuka evolui tanto quanto o Shinji ao decorrer da série, mostrando sua completa arrogância, traumas e todo o resto. Ela vive uma vida falsa, e se sente frágil o tempo tonto. Existe de fato um porque muito bom de ela tentar sempre ser a melhor e buscar superar o Shinji. Mas eu não consegui não ter raiva e sentir uma certa pena dela, principalmente próximo dos últimos episódios.

Meu momento favorito da Asuka é algo que vai na contramão de todo o resto do anime. Tem um episódio que ela e o Shinji tem de treinar juntos para amplificar a sincronização com os mechas, e eles fazem isso praticando dança sincronizada. O episódio acaba com eles dois lutando em sincronia num bale orquestrado de forma brilhante.

Então temos a Rei. E eu sinceramente não tenho uma opinião sobre ela, sendo está a favorita do público. Talvez por ela ser usada mais como uma ferramenta de narrativa do que como um personagem em si, o que me fez enxergar ela como algo mais próximo aos EVAs desde o começo do anime.

Rei certamente evolui, mas o lance de ter sentimentos reprimidos faz com que essa evolução seja inconstante, e eu particularmente acho que personagens secundários como Ikari e Ritsuko trazem mais a mesa quanto ao lance de sentimentos e drama, mesmo ambos também sendo bem fechados e tendo um papel mais focado em como comandam suas respectivas áreas.

O ponto de maior impacto se tratando de Rei e um pequeno momento em que ela aperta os óculos de Ikari e caem algumas lagrimas. Algo extremamente rápido, mas com uma mensagem bem importante quanto a personagem, e que reflete bem como a sua evolução é mais fechada.

Sei que muitos não consideram, mas eu acho a Misato uma personagem com grau de protagonismo bem maior que a Rei. A chefe de operações da NERV e tutora de Shinji e Asuka passa por algumas das evoluções mais impactantes de todo o anime e é a responsável pela maioria das interações com o restante da NERV.

Fora isso temos o triangulo amoroso entre ela, Ritsuko e Kaji, com direto a intervenção de Asuka e Shinji em alguns momentos mais inocentes. Gosto muito desses períodos mais slice of life que o anime proporciona vez ou outra. E eu adoro como que o Kaji é quase que parte integrante da personagem da Misato.

Para mim o mais impactante em Misato não é um momento, mas a construção para um momento. É ela guardar muitos segredos, ao mesmo tempo que desconhece tantos outros e busca a verdade. Isso leva a uma das cenas de maior drama da obra.

Ou seja, todos os personagens da trama são imperfeitos, com fortes sintomas de depressão, traumas e meio que sem um objetivo de vida. Nenhum deles está na NERV para salvar a humanidade, mas sim para realizar objetivos egoístas, assim nos fazendo refletir sobre a essência do ser humano.

Não existe um vilão claro. Todos os personagens demonstram poder ser capazes tanto do bem como do mal, mas não de forma escrachada, e sim humana. É algo extremamente crível e relacionável. E é por conta disso que Evangelion consegue ser tão impactante.

No máximo daria para dizer que Ikari é o vilão, pois algumas de suas ações gerou sofrimento a boa parte dessas pessoas. Ainda assim ele é mais um ser frustrado, traumatizado, e que demonstra fortes sentimentos quando se trata de Rei, enquanto esconde muitos quanto ao Shinji. E isso sem contar que ele aparenta ser o mais focado na questão de salvar o mundo, não importando que sacrifícios terão de ser feitos.

E em meio a todo esse drama, as lutas meio que ficam em segundo plano. Certamente é legal ver aquelas coreografias fodas e ideias surreais para os anjos, mas é bem mais interessante acompanhar as mudanças causadas ao mundo, os conflitos internos e a evolução no psicológico das pessoas. A ponto de poder se dizer que os Anjos invadindo é meio que o plano de fundo para vermos interações humanas em cenários hostis. Num viés similar o que dizem atualmente sobre os zumbis de The Walking Dead.

E tudo isso junto, ao menos para mim, já é motivo de recomendação. E olha que eu não mencionei a trilha sonora impecável de Shiro Sagisu (Nadia, Bleach, SSSS.GRIDMAN) que usa de música clássica em diversos momentos, mas que surpreende mesmo ao incorporar barulhos que contribuem a tensão ou simplesmente cortar toda a música deixando apenas som ambiente ou em muitas vezes o completo silencio. E sim, esse silencio impacta de forma estupenda.

No tema principal temos Yoko Takahashi (Shakugan no Shana, Pumpkin Scissors, This Ugly Yet Beautiful World), cuja a música mais famosa é justamente A Cruel Angel’s Thesis. Uma das músicas mais marcantes de qualquer anime. E mal tenho espaço aqui para falar da animação. Eles trocam muito de animador, mas fica algo quase imperceptível. O mais chamativo na animação, além da fluidez das lutas, certamente e o já mencionado uso de mensagens subliminares nos fundos, os belos cenários e o corte completo de cenários mais o uso de imagens estáticas. Algo que parece besta, e que certamente teve de ser usado por corte de gastos, mas que claramente foi bem utilizado ao máximo. Graças também à direção impecável de Hideaki Anno (Gunbuster, Nadia, Valis).

Ou seja, até o episódio 24 Neon Genesis Evangelion é altamente recomendado. Mas é se levarmos em conta os dois últimos?

FINAL (EPISÓDIOS 25 E 26)

Essa é a parte mais polemica da obra, pois consiste em 2 episódios, quase que inteiros, com textos passando rapidamente, imagens piscando e dando a sensação de se mesclarem, além de muitas coisas se repetindo e outras deixadas claramente em aberto para interpretação do espectador.

Acreditasse que o motivo disso ter ocorrido seja a falta de verba para o show, ainda mais que aquilo que falei de imagens estáticas e outros efeitos, como aquilo de se piscar imagens que acabei de falar, aparece mais predominante a medida que se aproxima do final da série. Sendo os 2 últimos episódios construídos com o mínimo de dinheiro possível, repetindo inclusive linhas de diálogos e frames antigos de animação.

Porem isso explica apenas a parte da animação. Apesar de ter essa repetição de diálogos, muito do texto desses dois episódios ainda é original. Talvez algo escrito as presas, formulado para substituir o original pois não iria bater com a animação.

Ainda assim existem outras teorias mais predominantes, ao menos quanto ao enredo desses dois últimos episódios. Tem aquilo de que Anno deu realmente o foda-se pro anime e resolveu tacar ali o seu ponto de vista sobre a indústria. Algo que não descarto, pois tem um seguimento inteiramente animado do jeito clássico que parodia o início de um anime escolar, sendo talvez a parte mais digerível desse mindfuck.

Porem essa hipótese eu deixaria exclusiva para esse seguimento, e ao mesmo tempo descartaria. Pois veja, o restante desses dois episódios não encaixa na ideia de mostrar a revolta quanto a indústria. Pois realmente é passado algo dentro de contexto se prestar atenção mais a fundo.

A repetição é sim extrema, talvez para gerar a ideia de estarmos vendo um conflito interno muito grande. Tudo realmente gira entorno disso. Conflitos internos dos personagens Shinji, Asuka, Rei e Misato. São dois episódios inteiros sobre depressão, drama, trauma, e outros temas levantados ao decorrer da série, mas excluindo a ação e demais pontos relevantes apenas a NERV.

Nisso entra a teoria de que eu mais gostei, e que eu fortemente aceito, ao menos nesse momento. Que seria a de que o anime acabou de fato no episódio 24 e que tudo isso mostrado na sequência e apenas um complemento, um prologo. Algo mostrando alguns acontecimentos extras, mas que como já falei se foca demais nessa ideia da mente das pessoas, desejos, objetivos, etc.

Ao mesmo tempo outra boa teoria, que quase que complementa essa, e a de que esses trechos mais vagos e complexos foram montados dessa forma para que cada espectador encontrasse ali o seu próprio entendimento do que ocorreu no anime.

Acho isso interessante pois a parte de complemento ao enredo e notas do psicológico entra melhor no episódio 25, enquanto a parte de interpretação e o descontento com a indústria, porque não, encaixa melhor no 26.

So que isso também gera outro problema. O do 26 ser o real mindfuck da porra toda. Ele é o episódio onde tem mais disso de interpretação de cada espectador e teorias para lá e para cá. E acho que boa parte disso se deve a menção de instrumentalidade e a questionável cena de “Parabéns Shinji!”

Instrumentalidade é uma teoria surgida da teologia. E eu mesmo entendi o conceito bem por cima, por isso deixo aqui um link para melhor entendimento. (Em inglês) https://en.wikipedia.org/wiki/Instrumentality_(theology)

Pelo que entendi sobre instrumentalidade, isso entraria no contexto da obra sobre a ideia de deus e o homem terem interpretações diferentes sobre o texto sagrado, assim justificando a visão de Anno sobre o apocalipse e demais eventos, ou o entendimento de personagens como Ikari daquilo profetizado no decorrer do anime. O que por vez faria de Shinji nesse último episódio apenas um avatar do espectador, já que tanto ele quanto quem assiste está sendo teoricamente ensinado sobre a instrumentalidade.

E esse ensinamento da instrumentalidade é mais uma das teorias que tentam justificar o final. E ainda assim é mais uma que não consigo enxergar sozinha, pois como já falei é algo quase que exclusivamente pertinente ao episódio 26.

Quanto a cena do “Parabéns Shinji!”, essa eu acredito ser a parte mais sem nexo do anime. Não entendo se é uma mensagem do diretor para com os espectadores, para com a indústria ou até mesmo algo mais pessoal ou religioso, visto a linha “meus filhos”. Eu não consigo deixar de pensar que é um momento desnecessário e surreal.

A melhor interpretação que consigo dar para aquilo seria uma parabenizarão por entender sua psique, a instrumentalização, e outras coisas faladas no final e ao decorrer da série, incluindo a conclusão da parte dos Anjos. E ainda fica o questionamento se tem mesmo tudo isso interligado, ou nada, ou somente um elemento que faz sentido dentre tantas teorias.

Talvez por isso que tantos aceitem a teoria de que o final é uma grande merda, e não to brincando aqui. Falo de que o anime ficou sem verba, Anno não teve como fazer o final que queria e então tacou um monte de coisa sem contexto na tela, com uma, muitas ou talvez até nenhuma informação. Mas que se foda, pois este não seria o verdadeiro final.

Como falei antes, eu no momento inclino mais para a falta de verba e a parte sobre fechar buracos, mais o prologo sobre o psicológico de cada personagem. Isso no episódio 25 e 26. Já pensando no 26 e naquilo que apenas ele traz a mesa, ai eu realmente não sei o que pensar. A parte da instrumentalidade, se eu tiver entendido, e interessante, mas desnecessária. E acho que esse é quase que o sentimento unanime quanto ao final do anime. Acho o 25 é passável, mas quando são 2 episódios assim acho que até o mais assíduo dos fãs se questiona se não era melhor ter tido so um “mindfuck” ou ter acabado no 24.

Sei que existe ainda a questão contratual, e uma vez contratados para fazer 26 episódios não seria viável, mesmo sem verba, parar antes do 26. Mas ainda assim eu gostaria que o anime não tivesse ido tão longe nessas loucuras todas, e olha que eu genuinamente gostei dos 2 últimos episódios nessa segunda assistida.

Logo, apesar de todos os porem, eu acredito que valha sim assistir Neon Genesis Evangelion até o 26, sem pular do 24 para o filme. Principalmente por esse anime ter sido um marco histórico da animação japonesa e que vale ser assistido tanto para entender o que presam nele como para ver aquilo que consideram tão polêmico.

Quanto aquela teoria do final falso. Ela dita que o final verdadeiro seria o filme The End of Evangelion, enquanto tem uma última teoria que diz que os episódios 25 e 26 se passam na mente do Shinji, e que o filme seria os acontecimentos em tempo real. E vamos tirar a limpo se é isso ou não agora, assistindo The End of Evangelion.

THE END OF EVANGELION

E caso eu não tenha deixado claro no parágrafo anterior, eu estou escrevendo essa parte do texto após ver The End of Evangelion. Ou em outros termos, eu escrevi um monte sem realmente assistir ao final verdadeiro da série.

Sim, esse é o final, e aquilo de final falso para o episódio 25 e 26 ainda não faz o menor sentido. E sabe o que também não tem nexo? O final da série ser os pensamentos de Shinji e o filme ser as ações do rapaz.

Colocando um pouco mais em contexto. Em boa parte de The End o Shinji fica estático. Parado mesmo, e temos cenas similares com Asuka, mais algumas outras um tanto quanto surreais com Rei, e isso sem entrar em spoilers. Falando primeiramente de pontos que poderiam ter os tais pensamentos, os quais por vez seriam os episódios finais do anime.

So que o primeiro contra-argumento aí seria exatamente esse da Asuka e da Rei. Ambas claramente têm seus arcos de pensamento nos episódios 25 e 26, não apenas o Shinji. E a Misato também tem um arco de reflexão, e no END ela não para um segundo para dar tempo de alguma reflexão mais complexa. Um trejeito bem natural da personagem.

Quanto aquilo de ser o final verdadeiro. Eu diria que ambos são o verdadeiro, so que THE END e o final melhor elaborado e com algumas mudanças. Da para notar isso em parte dos diálogos e por conta de cenas praticamente iguais, so que agora colocadas num melhor contexto, sendo elas aquelas que fechavam pontas no enredo ou que trabalham o já mencionado psicológico do Shinji. O que talvez tenha causado essa confusão quanto a ser um sonho ou pensamento do protagonista.

Isso por vez dita que os episódios finais da série têm revelações relevantes quanto ao filme, e que, portanto, não seria de todo mal pular os episódios 25 e 26 para evitar o spoiler ou simplesmente “fugir” do mindfuck. Ainda assim, eu que vos escrevo, permaneço com a ideia de que se deve assistir o final da série por se tratar de algo que marcou a história dos animes, e para notar o quanto conseguiram fazer com tão pouco. Sem contar que é divertido ver e bolar teorias e os tais spoilers não atrapalham nem um pouco.

Outro ponto a favor disso de ver os finais E o filme, mesmo o filme sendo literalmente duas partes intituladas episódio 25 e episódio 26, e que o longa também é bem confuso. Parece que Hideki Anno planejava sim desde o começo explodir cabeças, e boa parte das pessoas, independente do que assistir, ainda vai ficar bem confusa.

So que o filme também tem os seus pros. Enquanto o final da série mostra um incrível malabarismo de orçamento e apresenta pontos diversos a serem pensados, alguns que nem ao menos são mencionados no filme, a película completa o enredo com um visual deslumbrante, mais digestível, e com muito mais informações pertinentes.

É apenas em The End of Evangelion que vemos e entendemos o final de cada um dos personagens, excluindo completamente o “Parabéns Shinji!” que agora mais do que nunca acredito ter sido uma mensagem pessoal disfarçada. Porém o filme também remove a conversa sobre instrumentalismo e a cena em que Anno dá um esporro na indústria. Dois pontos desnecessários, principalmente no viés de entretenimento, mas que se mostraram no mínimo interessantes.

Voltando ao filme, ele completa o arco de todos os personagens, deixando mais clara a relação que cada um tem com o próximo, sendo as maiores evoluções referentes a Shinji, Asuka, Rei, Misato e Ikari.

Esse último chega a ser algo surpreendente. Pois sabemos de seus sentimentos para com Rei, mas nunca foi de fato mostrado o porque ele fez tudo aquilo, e o filme entrega numa cena perfeita tudo que Ikari foi ao decorrer do anime, o tornando um humano ainda mais falho, e o removendo daquela visão de que ele era o grande vilão.

Na verdade, quem se volta mais para o papel do vilão é a organização SEELE, que erroneamente eu achei ser parte da NERV. A relação das duas fica bem mais clara no filme, apesar de que aquele papo de serem personagens ainda se encaixa perfeitamente. Sendo que o enredo do filme gira exatamente entre o conflito interno de ambas. E devo ressaltar, feito de forma brilhante, ao mostrar que o humano sempre é seu próprio inimigo, seja por atos bélicos, seja por traição, seja por conta de sua própria mente.

Também entendemos melhor por conta do filme o ocorrido no episódio 24, e as implicações do passageiro personagem Kaworu, e temos como bônus um novo prologo. Tudo isso junto resultando num filme fenomenal, com ação, mindfuck, depressão, e todo resto que fez da série tão popular.

E quanto aos principais… SHINJI E UM DOS MAIORES FILHOS DA PUTA DOS ANIMES! Sério, eu tinha de tirar isso do peito. Voltei a gostar um tanto mais da Asuka, e a Rei finalmente parece ser mais relevante do que uma boneca de porcelana que abre a boca vez ou outra. Mas dentre todas as mudanças apresentadas no filme, a maior obviamente foi a do protagonista. Eu achava o Shinji um personagem ok no anime e agora penso seriamente que ele deveria ter morrido uma morte horrível.

Isso que falei acima é extremamente pessoal, e eu não garanto que você vai ter a mesma reação. Eu apenas não gostei do personagem no filme, e acho que boa parte disso é por ele ter tido meio que uma recaída quanto a sua evolução. Sei que é algo que faz sentido mediante o que acontece no episódio 24 e que encaixa perfeitamente no plot, mas EU não consigo gostar. Ele vira mais um instrumento de movimentação do enredo, mais do que a própria Rei, e já sabem minha opinião quanto a isso.

Tem outros detalhes mais cruciais a trama que eu não gostei, mas não vale ressaltar por revelar muito sobre o plot. O que vale dizer aqui é que o filme é bom. Entretém e faz você pensar, seguindo à risca a qualidade da série e demonstrando com primor todas as ideias depressivas e existencialistas de Anno. E, portanto, eu também recomendo o filme, ou melhor, o considero crucial.

No fim eu acabo enxergando Neon Genesis Evangelion com outros olhos. Uma visão mais madura e um tanto quanto focada na análise. Aquele tipo de olhar que busca um algo a mais, e que nesse caso a serie realmente entrega. Eu acho esse um anime quase que perfeito, centrando meu porem quase que exclusivamente nos últimos episódios e no filme, tirando algumas questões menores, como o que aconteceu com os amigos do Shinji. Logo recomendo Evangelion na integra a todos, como um grande fã de animes. Mas ressalto que você deve esperar um plot depressivo, confuso e surrealista, com cenas de gore e relações abusivas. No restante, vejam.

Por fim, so para esclarecer uma pequena polemica quanto ao início do filme vou dar aqui um pequeno spoiler. O review já acabou nesse ponto e você não precisa ler.

The End começa com o Shinji tentando acordar uma Asuka em coma, e em certo momento ele vira o corpo inerte da garota com raiva, assim deixando a mostra os seios e a calcinha da garota. O filme corta, em certo momento mostra a porta trancada, e quando volta Shinji está com as mãos sujas de goza.

Algumas pessoas interpretaram a cena como um estupro, mas não acho que seja esse o caso, pois o corpo de Asuka não foi movido. Shinji deve ter se masturbado com aquela visão, e logo após solta um “i’m so fucked up.”

Não estou aqui justificando a ação. Essa cena é um dos motivos pelo qual eu não gosto do personagem. Todo o tratamento que ele dá para a Asuka no decorrer do filme é de abuso, claramente. E sei que existe o lance da atração de um pelo outro, e que também existe a raiva predominante em ambos. São cenas que fazem sentido no plot, e termino aí.

Se você se sente incomodado (a) por esse tipo de situação, evite o filme. Eu particularmente não achei pesado, e acredito que a mensagem proposta pela cena seja exatamente a da frase “i’m so fucked up.” Mostrando mais uma vez o lado sujo da humanidade e o quanto esse protagonista e o tremendo de um merda.

On the Nanquim: O Canto das Ondas

O Canto das Ondas

No início de 2018 começamos a resenhar as obras da editora Shockdom. Mais precisamente os títulos que iniciam a linha Timed. Um universo de histórias cuja as temáticas giram em torno de poderes fantásticos que alteraram o mundo como conhecemos, assim gerando uma quase distopia, do subgênero de ficção cientifica de história alternativa. Algo que comentei ao analisar Rio 2031 em fevereiro. Um HQ que também explica muito bem os poderes “mutantes” e a redução do tempo de vida atribuído a esses “novos seres”. Leia o resto deste post

Review: Juuni Taisen – O battle Royale de Nisio Isin

Curte animes? Tá atrás de um novo canal sobre esse assunto? Então confere ai no link o primeiro review do ! Espero que gostem. ^^

Review: Juuni Taisen – O battle Royale de Nisio Isin

Assista, comente, compartilhe! Queremos sua opinião!

On The Nanquim: Vidas de Papel

vidas de papel.png

Para quem ainda não conhece o Vidas de Papel, esse é um HQ da editora italiana Shockdom, e o segundo da série Timed. A qual conta histórias de personagens superpoderosos, mas que possuem uma grande fraqueza, o tempo. Apesar de poderem mover montanhas eles estão fadados a morrer num tempo que é determinado no momento em que suas habilidades afloram. Podem ser anos, ou podem ser dias. Um conceito que acaba criando um mundo fantástico, o qual você pode conferir com mais detalhes no texto anterior, onde falamos de Rio 2023. Outra obra Timed fantástica.

Confira clicando aqui o review de Rio 2023.

Mas chega disso. Vamos falar de Vidas de Papel, como bem comentei no início. E é algo… complicado. Assim como Rio 2023 o enredo gira entorno da ideia de poderes dos Timed, porem se focando em apenas um indivíduo e caindo de cabeça no drama. Algo que eu desejei ocorrer desde a última leitura, porem que agora não sei se foi a melhor opção.

Digo, o potencial para o drama ainda existe, e o enredo passa isso de forma fenomenal. Não estou a desmerecer a obra. Porem a forma como tudo e contado é difícil de se assimilar. O primeiro empecilho que notamos e o visual, ilustrado pelo italiano Giulio Rincione. Pois apesar de se algo que cai como uma luva na obra, é extremamente alternativo.

Untitled-1.jpg

Falo de expressionismo e impressionismo misturado com um que de Dave McKean (Arkham Asylum, Mr. Punch). Não chega a ter o uso de materiais diversos e técnicas de fotografia, como e o caso de Dave, mas ainda assim a influência, ao menos no meio quadrinista, e óbvia. Talvez para uma melhor adaptação aos quadros.

Quando não é isso temos rabiscos. As vezes sozinhos, mas muitas vezes imersos no restante da obra, dando um tom de surrealismo, de coisas que não deveriam estar juntas. E tudo junto cria um clima de fantasia, de ilusão, de delírio. Assim trazendo o leitor para bem perto da mente de Carl, o protagonista, e fazendo com que as páginas sejam a visão deturpada do personagem.

Ou seja, apesar de underground, não se trata de uma escolha inusitada. Eu pessoalmente acho bem fácil de se acostumar com o traço, e até mesmo vejo a beleza dele em diversas cenas. Fora que fico estupefato quando este complementa perfeitamente a narrativa. Algo sem dúvida difícil para alguns, mas que eu pessoalmente considero mais acessível que as ilustrações do próprio McKean.

Untitled-2.jpg

Agora algo que me incomoda graficamente é o trabalho do letrista, Mirko Guidi. Novamente não é uma escolha ao acaso. As letras tortas complementam a sensação passada pelas ilustrações. Porem elas dificultam tremendamente a leitura, tornando algo que poderia ser prazeroso em uma jornada árdua.

Me vi quase que me arrastando e tive de terminar um conto curto, de poucas páginas, 65 para ser exato, em dois dias. Porem deixo aqui uma ressalva. A Shockdom me enviou uma versão de imprensa em PDF e com qualidade inferior a versão final impressa. Isso é algo bem comum, porem sinto que dessa vez a qualidade do arquivo me impossibilita de confirmar que o que falo a respeito da fonte é verídico. Logo é possível que você compre o físico e tenha uma experiência superior à minha nesse quesito.

Seguindo. Após contornar as dificuldades de ler e assimilar a arte, vem a questão de interpretar o texto. Marco Rincione fica a cargo do enredo, sendo este o ponto alto do Fumetti, mas ainda assim uma pequena complicação. Veja bem, a história aqui contada vagueia bastante, tentando propositalmente confundir, assim fazendo este acreditar no que está e não está a sua frente. Algo essencial na narrativa, e que no final nos leva ao questionamento.

Untitled-3.jpg

Em Vidas de Papel seguimos Carl, um Timed cujo poder e entrar na mente de outras pessoas e assimilar tudo que a. Numa descrição do próprio personagem, e como se ele enxergasse em segundos toda a vida do coadjuvante em primeira pessoa, como se a estivesse absorvendo-a para si, ao mesmo tempo que assiste os milhares de pensamentos conflitantes que existem na mente de um ser humano.

Ao mesmo tempo Carl tem um poder complementar. Sua habilidade primaria e tão poderosa que ele tem de se isolar das pessoas para não enlouquecer, e sua secundaria ajuda nessa solidão. Tudo que ele desenha no papel ganha vida, portanto o nome do HQ, Vidas de Papel. Porem eles são mais que construtos. São praticamente pessoas com sentimentos e inteligência própria, tal qual eu e você. Ou talvez seja isso que o autor queira. Seria essa percepção mais uma ilusão?

É basicamente isso que mais aflige Carl. Ele é um ser quase onisciente, com poder de criação. Características de um deus, porem em uma entidade perfeitamente humana, com suas falhas e desejos. Algo que sobrecarrega. Imagina ter algo assim em suas mãos? Seria caso de megalomania, narcisismo, loucura ou agorafobia. Talvez tudo junto, ou por etapas. Mas sem dúvida algo que a longo prazo abalaria qualquer indivíduo.

Untitled-4.jpg

Essa é a mágica de Vidas de Papel. O personagem se questiona, e a medida em que o leitor prossegue existem questões que parecem direcionadas a ele, e não ao Carl. E então chegamos a um clímax e um final alucinantes. Tudo na obra e muito lento, menos o pensamento. E este acelera junto do nosso, em uníssono, nas últimas páginas. Nos levando então a refletir sobre tempo, vida, morte, deus, realidade e continuidade. Assim culminando não em respostas, mas sim em reflexão.

Logo é uma pena, e ao mesmo tempo uma vantagem, que a obra não seja tão acessível. Gostaria mesmo que fosse uma leitura para todos. Porem essa inclusão tiraria parte da liberdade dos autores, e, portanto, no fim à conclusão que me vem é que insista. Olhe torto para a obra, mas continue, siga com a leitura caso algo que comentei aqui ou algum outro elemento da trama lhe faça querer mais. Tente enxergar além do traço alternativo, da sinopse bizarra, das letras estranhas e leia mais de uma vez se precisar. Pois é tudo isso junto que constitui uma obra, e não cada elemento separado.

Fico feliz de ter tido o prazer de ler esse Fumetti maravilhoso dos gêmeos Rincione, e estou ainda mais animado para o terceiro HQ dessa saga da Shockdom. O qual mais uma vez terá roteiro de Marco Rincione. Sendo este o belo O Canto das Ondas.

vidas de papel.jpg

Dito isso, agradeço por ter lido o texto até aqui. Espero que goste ainda mais da leitura de Vidas de Papel, o qual pode ser adquirido na loja da Shockdom. E peço apenas que comente aí embaixo o que achou, compartilhe com os amigos e deixe seu like. Pois, é… wordpress tem dessas também.

On The Nanquim: Beasts of Burden

beasts of burden.png

 Sei que muitos estão curiosos para saber do que se trata Beasts of Burden por ser um lançamento do Pipoca & Nanquim. Não apenas uma editora, mas fonte de muitos para se conhecer novas obras. Porém não foi isso que me fez ir atrás do título, e sim um fato talvez menor para vocês, mas grandioso para mim. Um simples elogio de Mike Mignola, autor de Hellboy.

Hoje sei que existe uma certa amizade entre os autores das obras, e inclusive um crossover que junta os personagens, logo a quem diga ser uma “venda casada”. Porém não acredito ser esse o caso. O HQ é sim de qualidade, seja esta atestada por Mignola ou pela façanha de levar o Prêmio Eisner em diversas categorias, em 2004, 2005, 2007, 2010 (em duas), 2011 e 2015, o que não é para qualquer um.

Beasts of Burden certamente é um fenômeno. E ah aqueles que não entendam o porquê. Em seu exterior vemos um livro sobre cachorros falantes em aventuras, o que logo remete a Disney e filmes infantis como Bud ou Beethoven. Quando na verdade seria preferível associar a obras como Martin Mystere, IT ou o recente Stranger Things.

bob_01_12

No enredo acompanhamos um grupo de cães, e ocasionais gatos, que vivem na pacata cidade de Burden Hill. Um local envolto em mistérios que tem tido um aumento alarmante no número de casos sobrenaturais. O que leva eventualmente o grupo a se tornar uma espécie de vigia contra o mal, assim reforçando os ranques da mítica Sociedade dos Cães Sábios.

Inicialmente a história é apresentada de forma episódica sem um objetivo central, por fim caminhando para coisas vagas como “defender a área” ou “encontrar a fonte do mal”, o que deixa muito em aberto, assim dando uma liberdade enorme ao autor. Algo que Evan Dorkin (Dork, Superman and Batman: World’s Funnest) utiliza com maestria.

E assim somos presenteados com histórias curtas com fantasmas, zumbis, entidades cósmicas, e todo o panteão de seres sobrenaturais, conhecidos ou não pela massa, e até mesmo alguns surgidos de acontecimentos reais, como o Rei Rato e a chuva de sapos. Se não algo com base em obras consagradas, nem que brevemente. Como ocorre no capítulo 4, onde vemos obvias referências a Um Lobisomem Americano em Londres e Em Busca de Watership Down.

Untitled-2

Montagem com diversas páginas para ilustrar as referencias a Um Lobisomem Americano em Londres e Watership Down.

Porém o que brilha no fim sãos os personagens, suas personalidades e como eles lidam com a situação, além da clara mescla entre comedia, terror e drama. Aqui cada um dos animais recebe uma característica ampliada. Ace é o líder, valente e decisivo. Rex e forte, valentão, porem medroso. Pugs e metido, sarcástico e ranzinza. Whitey é brincalhão, agitado e fala o que vem. Jack é calmo e centrado. E Orphan é esperto e safo.

São personalidades conflitantes e complementares ao mesmo tempo, que trabalham juntas para criar um clima de comedia ou tensão de forma incrível. Você se importa com eles, como grupo e como indivíduo. Algo posto à prova nas sequencias de drama e suspense. Você fica com o coração na mão. Ainda mais que secundários muitas vezes são descartados num piscar de olhos e de forma brutal. Afinal aqui não se poupa detalhes para o gore.

Tudo isso no belíssimo traço e cores de Jill Thompson (Sandman, Mulher-Maravilha). Sendo aqui aplicado um detalhamento que me deixa estupefato. Cada animal e monstro apresentado e desenhado de maneira estupenda, sendo fácil diferenciar os diversos tipos de pelagem, além da interação destes com elementos diversos, como água ou vento. Mas o que realmente impressiona e como ela consegue demonstrar expressões tanto faciais como corporais de maneira perfeita. Quase humana, talvez?

dh_book_of_witchcraft_099_rougher.jpg

Sendo assim é inegável afirmar que Beasts of Burden é um trabalho de extrema qualidade, perfeito para quem busca uma aventura mais dark e não enjoa fácil com gore. Uma obra adulta e profunda sem igual e que não pode faltar na coleção. Logo parabenizo o Pipoca & Nanquim pela escolha da publicação e espero ansioso pelo próximo álbum.

Vale ressalvar que Rituais Animais, o primeiro encadernado, conta com 8 historias, publicadas pela Dark Horse entre 2003 e 2009, mais extras, assim totalizando 188 páginas em capa dura com verniz e lombada em material que remete a couro.

 

Outras 6 historias foram publicadas pela Dark Horse, entre 2010 e 2016, incluindo o crossover com Hellboy, e devem no futuro compor outra edição.

Todas as 14 histórias conjuntas ainda não finalizam a obra, e, portanto, Beasts of Burden se encontra em publicação, com 4 historias previstas na série principal e uma minissérie paralela com Benjamin Dewey (The Autumnlands, I Was The Cat) que contará acontecimentos envolvendo a Sociedade dos Cães Sábios. Ambos dando continuidade de onde parou a série.

No momento a edição física se encontra indisponível na Amazon e deve haver uma reimpressão em Março. Ainda assim e possível adquirir a versão brasileira em formato digital, também por meio da Amazon. E caso isso não te satisfaça, não se alarme. Tenho certeza que garimpando um pouco você deve encontrar o HQ uma hora ou outra em sebos ou similares, sem contar que sempre existe a opção de pegar a versão da Dark Horse, a qual recentemente foi republicada.

beasts of burden