Arquivos do Blog

On the Screen: Neon Genesis Evangelion – Do mindfuck ao The End.

Anos atrás, quando eu comecei a entrar no mundo dos animes, Evangelion era uma das maiores febres da internet. Desde então sua relevância não caiu nem um pouco, sendo hoje considerado um dos maiores clássicos da animação japonesa.

E não é para menos. Toda a estética do anime, enredo e personagens chamam muita atenção, sendo possivelmente uma das obras mais memoráveis. Dita por alguns até como uma desconstrução dos mechas ou uma reação “noventista” a segunda guerra mundial e as bombas atômicas.

Da pra se tirar muito desse anime, seja analisando a superfície ou até mesmo pausando e lendo pequenos detalhes ao fundo, reparando em sombras, ou como já dito tentando entender como o contesto histórico influenciou na obra. Daria que até da para fazer paralelos com religião e com a psique do próprio diretor, bastando apenas pesquisar mais a fundo.

Porem isso muitas vezes não é algo que se nota numa primeira assistida. Como falei logo no começo, Eva foi um dos primeiros animes que eu assisti, e eu queria entrar um pouco no contesto dessa primeira vista antes de prosseguirmos.

ASSISTINDO PELA PRIMEIRA VEZ

Evangelion me foi introduzido por um amigo no Yahoo Respostas, e podem rir disso. Eu era novo na internet, finalzinho da era discada, e era noob total se tratando de animes. Eu conhecia no máximo Dragon Ball e Yu Yu Hakusho, sendo as coisas mais “underground” que eu consumi, Samurai Champloo, Kimba e aquele anime horrível de Ragnarok. Tudo na TV aberta.

Logo eu aceitava sugestões de qualquer lugar, e poxa, tem lá um site de perguntas né. E podem me julgar o quanto quiserem, mas o povo lá realmente tentava encaminhar pro “caminho otaku” da forma correta, ou em outros termos, não recomendavam apenas modinha.

Conheci muita gente legal lá, que me apresentaram o My Anime List e obras como Trigun, FMP e Ergo Proxy, que hoje são mais mainstream, mas que na época era algo mais abaixo. Não diria que se tratava de algo “true underground” com pouca fanbase, mas era certamente longe do topo.

No meio dessas indicações me falaram de Evangelion, mas da seguinte forma. “Já que você gosta de ação, tem um anime de robôs muito foda, com história legal, que vai ficando confuso, mo mindblow, e que não tem final. Os dois últimos epis não valem. Ah, mas vc pode pular esses e ver o filme que é final verdadeiro. ”

Me pergunto quantas pessoas já ouviram uma descrição assim. Parece até aquele meme do Twitter de “descreva seu anime favorito da pior forma possível”. Dizer que tem ação e algumas partes confusas é ok, mas aqui se trata mais da forma como é dita. Pelo que ele descreveu eu interpretei que seria um anime bom de ação que vai ficando cada vez mais difícil de se entender e que termina de uma forma muito ruim. Para que eu iria ver isso?

Ignorei completamente a indicação. Vi lá meus Samurai 7 e meus Hellsings. Consumi do mais falado ao quase rejeitado, ao menos se tratando do que entrava no conhecimento desses meus amigos, e no fim, na falta do que ver, resolvi pegar Evangelion. Eu já era menos birrento quanto a plot, digamos, e me achava o conhecedor da arte nipônica. Logo, porque não?

Bem, eu não diria que eu era otakinho na época, mas eu assistia animes por um único proposito nesse período. Lutas fodas. Eu gostava de enredos mais complexos, mas se não tivesse aquela luta fantástica de cair o queixo quem caia mesmo era minha vontade de continuar.

Vi o início de Evangelion e segui até aparecer a Asuka. Eu gostei das lutas, mas todo o restante me incomodava. Me dava uma sensação ruim de ver as ações do Shinji e eu sentia um pequeno indicio de depressão vendo a obra. Já o enredo, ignorei, dei o fodesse.

Assisti mais um pouco, não me recordo até qual momento, mas acredito ter sido até o episódio 11, pois ao rever o anime foi até esse ponto que eu tinha algum tipo de lembrança. Mas eu vi tudo, não me entenda errado. Eu parei nesse pedaço e depois fui vendo espaçadamente, empurrando cada vez mais, ao ponto de que assisti algo extremamente picotado e cada vez sem nexo. Eu não conseguia mais juntar o que aconteceu em cada episódio, nem mesmo se tratando dos pontos mais básicos.

Nisso veio os 3 últimos episódios. O episódio 24 é algo que eu me recordo, ao contrário dos outros 15 episódios após o 11º, mas não como algo bom. Eu lembrava desse como sendo algo muito ruim que me incomodou bastante e me deixou mega confuso. E na sequencia temos os episódios 25 e 26, ditos como o mindfuck supremo que deve ser pulado. Imaginem minha reação naquela época a esses 2 episódios. Eu passei a odiar Evangelion, apesar de não o fazer abertamente. Isso pois eu me sentia inferior aos outros por ter entendido absolutamente nada da obra. Ergo Proxy era um passeio comparado a isso.

Anos se passaram, e minha opinião sobre Eva mudou. Eu lembrava desses episódios iniciais como algo muito bom e literalmente apaguei da memória todo o resto, exceto aquela sensação de que era algo confuso e maçante. Mas então 12 anos se passaram, estamos em 2019, e minha mentalidade mudou muito, então porque não assistir para valer e analisar a abra? Foi o que pensei. E olha, acertei em cheio.

REVENDO EVANGELION

Parece piada o que vou falar agora, ainda mais depois de toda essa história, mas ao assistir Eva novamente eu passei a gostar imensamente do anime, ao ponto de que agora eu afirmo com certeza de que essa é uma das melhores obras de animação japonesa que eu assisti. E isso vindo do cara que tinha tanto ódio de Evangelion que isso virou meio que um repelente de todo e qualquer anime do gênero Mecha.

E vamos começar por isso, os mechas. O ponto no qual afirmam que esse anime é uma desconstrução do gênero. Isso pois os robôs Eva não são uma construção inteiramente mecânica, sendo em boa parte algo biológico, como um organismo aliem. E eu acho isso fantástico, pois os próprios robôs existirem e serem os únicos capazes de destruir os ditos anjos é algo extremamente relevante ao plot.

Essas maquinas gigantes não estão ali apenas para serem a “armadura de combate” dos protagonistas. Não são apenas uma casca de metal sem vida para garantir sobrevivência num meio inóspito. Esses mechas evoluem junto dos protagonistas. Não num viés de super robô escrachado como em TTGL, mas como se os próprios Evas fossem personagens com histórias e segredos a serem descobertos ao decorrer da trama.

E o mesmo pode ser dito da organização NERV, a qual comanda as operações realizadas pelos Evas. E eu sei que falar que uma organização evolui é bem mais crível do que apontar esses detalhes num robô, mas ao mesmo tempo é ainda mais bizarro dizer que a organização é um personagem. Afinal, não seria melhor afirmar que são os personagens dentro da organização que a refletem?

Até certo ponto sim. De Ikari, o comandante da NERV, para baixo, a organização e definida por esses personagens e suas ações em cada uma das áreas que eles exercem, tendo conflitos diversos e sim, evolução. So que existe um outro grupo de pessoas acima de Ikari, chamado de SEELE.

Com exceção do inicio do anime e algumas cenas do diretor Keel Lorentz, todos os membros da SEELE são representados por monólitos, e são eles que ditam por cima tudo que deve ocorrer na organização. Não estão literalmente ligados a parte de combate e pesquisa dos Evas, mas são eles que dão o veredito final a diversas questões, inclusive no âmbito internacional e envolvendo outras centrais.


Nesse ponto devo admitir que não entendi bem se eles, SEELE, são realmente os superiores da NERV ou alguma organização internacional, similar a ONU. Isso so ficou claro ao ver o filme The End of Evangelion. Portanto, peço que leiam até a parte do The End desse texto.

E é esse grupo de pessoas que eu considero definitivamente um personagem, incluindo Lorentz. Eles têm vozes e opiniões diferentes, mas sempre são vistos discutindo o mesmo assunto, de forma que fica difícil de não os associar a uma única entidade, mesmo que não seja algo factual. Isso somado a representação deles, faz até parecer ser uma única pessoa com múltiplas personalidades, ainda mais se levar em conta que eles nunca desviam muito do raciocino e sempre chegam ao mesmo resultado.

Mas voltando a NERV.  Essa organização tem uma cadeia de comando bem distinta com comandante, vice comandante, chefe de operações, inspetor, e assim vai até chegar nos child (criança), representados por Rei (First Child), Asuka (Second Child) e Shinji (Third Child). Ou em outros termos, os pilotos dos mechas. Sendo a própria nomenclatura deles mais um mistério da trama.

E assim segue Evangelion com diversos mistérios em cima dessas questões de organização, Evas, Childs, Anjos, entre outras, que vão cada vez se aprofundando mais ao decorrer do enredo. Mas sendo os principais e mais interessantes mistérios, ao menos para nos telespectadores, aqueles que envolvem a psique dos personagens.

Não temos aqui um anime com tropes claros de cada arquétipo de personagem. Cada um dos integrantes da NERV, e não incluo apenas as crianças nisso, tem segredos ou apenas detalhes que são escondidos de quem assiste até o momento H, para assim causar um maior impacto. E é através desses pontos, mais os conflitos subsequentes que ocorrem no presente, que vemos a fantástica evolução desses seres que não são nem heróis nem vilões.

E sei que pode parecer estranho tocar nisso so agora, mas vamos ao plot em si. Eva começa com o chamado Segundo Impacto sendo algo bem recente. Um evento quase apocalíptico que destruiu uma área considerável do mundo, e que na sequencia fez com que os Anjos, inimigos da humanidade, voltassem a aterrorizar o planeta. Agora cabe a NERV e aos pilotos do projeto EVA acabar com essa ameaça.

Por tudo que eu falei até então esse parece ser um plot bem raso. Ele é centrado numa ideia bíblica envolvendo coisas como Adão e Eva, lança de Longino e Manuscritos do Mar Morto, até a óbvia reinterpretação do Juízo Final. Porem para aqueles que não estão tão ligados a religião, fica de fato algo de difícil interpretação, e para mim ao menos os acontecimentos que se deram por sequência são apenas referências e no mais o clichê de monstro da semana.

Sei que deve ter algo mais profundo quanto a vinda de 13 anjos e a tentativa de proteção do mundo. Mas para mim foi exatamente o que eu falei. Monstro da Semana. Não consigo pegar a fundo essas partes bíblicas, mas ao menos posso notar a influência de Tokusatsus, Gundam e até mesmo Ideon.

Para saber mais sobre as influências de Evangelion recomendo ler esse Thread e depois ir atrás das obras. https://twitter.com/Nintakun/status/1067398232702107650

E é nesse mundo de monstro da semana que a gente conhece melhor cada personagem, so que de uma forma meio distorcida, digamos. Shinji é aquele principal medroso. Algo visto em obras B como Deadman Wonderland e Mirai Nikki. Mas não apenas por ser um cagão sem poderes que vai ficar no plot quase que como observador. Não. Ele é o mais forte, mais capais, porém mais indeciso e traumatizado. Tem um motivo para ele agir assim, e é por isso que eu não entro no grupo seleto de pessoas que detestam o Shinji.

Ao menos colocando aqui meu ponto de vista sobre o personagem no anime, e excluindo o filme por agora.

Shinji para quem não sabe é um dos protagonistas mais odiados pelos otakus, por conta dessa atitude de bunda mole. O cara que não quer fazer as coisas. So que ele está num contexto muito bem explicado, crível quanto ao afastamento dele e que disponibiliza meios dele se defender, sendo, portanto, um personagem mais incluso em seu próprio mundo, digamos. Ao invés de um chorão que sobrevive por ter amigos fortes.

Fora que a mentalidade dele vai evoluindo de uma forma fantástica ao decorrer da série, segurando bem a tocha de protagonista. Tendo alguns episódios bem marcantes com apenas ele sozinho, em momentos de depressão.


Uma das minhas partes favoritas do anime, sem dar spoilers, e uma que começa com o Shinji falando “Isso é cheiro de sangue?” E o resto do episódio segue sem se desvencilhar dessa única frase, terminando com o shinji aproximando seu braço da face e falando “O cheiro de sangue não sai”.

Já a Asuka é outra história. Muitas pessoas também detestam ela, e no decorrer do anime eu consegui muito bem entender o porquê. No início eu achava ela apenas uma garota metida, que escondia seus sentimentos e que estava sempre feliz.

So que Asuka evolui tanto quanto o Shinji ao decorrer da série, mostrando sua completa arrogância, traumas e todo o resto. Ela vive uma vida falsa, e se sente frágil o tempo tonto. Existe de fato um porque muito bom de ela tentar sempre ser a melhor e buscar superar o Shinji. Mas eu não consegui não ter raiva e sentir uma certa pena dela, principalmente próximo dos últimos episódios.

Meu momento favorito da Asuka é algo que vai na contramão de todo o resto do anime. Tem um episódio que ela e o Shinji tem de treinar juntos para amplificar a sincronização com os mechas, e eles fazem isso praticando dança sincronizada. O episódio acaba com eles dois lutando em sincronia num bale orquestrado de forma brilhante.

Então temos a Rei. E eu sinceramente não tenho uma opinião sobre ela, sendo está a favorita do público. Talvez por ela ser usada mais como uma ferramenta de narrativa do que como um personagem em si, o que me fez enxergar ela como algo mais próximo aos EVAs desde o começo do anime.

Rei certamente evolui, mas o lance de ter sentimentos reprimidos faz com que essa evolução seja inconstante, e eu particularmente acho que personagens secundários como Ikari e Ritsuko trazem mais a mesa quanto ao lance de sentimentos e drama, mesmo ambos também sendo bem fechados e tendo um papel mais focado em como comandam suas respectivas áreas.

O ponto de maior impacto se tratando de Rei e um pequeno momento em que ela aperta os óculos de Ikari e caem algumas lagrimas. Algo extremamente rápido, mas com uma mensagem bem importante quanto a personagem, e que reflete bem como a sua evolução é mais fechada.

Sei que muitos não consideram, mas eu acho a Misato uma personagem com grau de protagonismo bem maior que a Rei. A chefe de operações da NERV e tutora de Shinji e Asuka passa por algumas das evoluções mais impactantes de todo o anime e é a responsável pela maioria das interações com o restante da NERV.

Fora isso temos o triangulo amoroso entre ela, Ritsuko e Kaji, com direto a intervenção de Asuka e Shinji em alguns momentos mais inocentes. Gosto muito desses períodos mais slice of life que o anime proporciona vez ou outra. E eu adoro como que o Kaji é quase que parte integrante da personagem da Misato.

Para mim o mais impactante em Misato não é um momento, mas a construção para um momento. É ela guardar muitos segredos, ao mesmo tempo que desconhece tantos outros e busca a verdade. Isso leva a uma das cenas de maior drama da obra.

Ou seja, todos os personagens da trama são imperfeitos, com fortes sintomas de depressão, traumas e meio que sem um objetivo de vida. Nenhum deles está na NERV para salvar a humanidade, mas sim para realizar objetivos egoístas, assim nos fazendo refletir sobre a essência do ser humano.

Não existe um vilão claro. Todos os personagens demonstram poder ser capazes tanto do bem como do mal, mas não de forma escrachada, e sim humana. É algo extremamente crível e relacionável. E é por conta disso que Evangelion consegue ser tão impactante.

No máximo daria para dizer que Ikari é o vilão, pois algumas de suas ações gerou sofrimento a boa parte dessas pessoas. Ainda assim ele é mais um ser frustrado, traumatizado, e que demonstra fortes sentimentos quando se trata de Rei, enquanto esconde muitos quanto ao Shinji. E isso sem contar que ele aparenta ser o mais focado na questão de salvar o mundo, não importando que sacrifícios terão de ser feitos.

E em meio a todo esse drama, as lutas meio que ficam em segundo plano. Certamente é legal ver aquelas coreografias fodas e ideias surreais para os anjos, mas é bem mais interessante acompanhar as mudanças causadas ao mundo, os conflitos internos e a evolução no psicológico das pessoas. A ponto de poder se dizer que os Anjos invadindo é meio que o plano de fundo para vermos interações humanas em cenários hostis. Num viés similar o que dizem atualmente sobre os zumbis de The Walking Dead.

E tudo isso junto, ao menos para mim, já é motivo de recomendação. E olha que eu não mencionei a trilha sonora impecável de Shiro Sagisu (Nadia, Bleach, SSSS.GRIDMAN) que usa de música clássica em diversos momentos, mas que surpreende mesmo ao incorporar barulhos que contribuem a tensão ou simplesmente cortar toda a música deixando apenas som ambiente ou em muitas vezes o completo silencio. E sim, esse silencio impacta de forma estupenda.

No tema principal temos Yoko Takahashi (Shakugan no Shana, Pumpkin Scissors, This Ugly Yet Beautiful World), cuja a música mais famosa é justamente A Cruel Angel’s Thesis. Uma das músicas mais marcantes de qualquer anime. E mal tenho espaço aqui para falar da animação. Eles trocam muito de animador, mas fica algo quase imperceptível. O mais chamativo na animação, além da fluidez das lutas, certamente e o já mencionado uso de mensagens subliminares nos fundos, os belos cenários e o corte completo de cenários mais o uso de imagens estáticas. Algo que parece besta, e que certamente teve de ser usado por corte de gastos, mas que claramente foi bem utilizado ao máximo. Graças também à direção impecável de Hideaki Anno (Gunbuster, Nadia, Valis).

Ou seja, até o episódio 24 Neon Genesis Evangelion é altamente recomendado. Mas é se levarmos em conta os dois últimos?

FINAL (EPISÓDIOS 25 E 26)

Essa é a parte mais polemica da obra, pois consiste em 2 episódios, quase que inteiros, com textos passando rapidamente, imagens piscando e dando a sensação de se mesclarem, além de muitas coisas se repetindo e outras deixadas claramente em aberto para interpretação do espectador.

Acreditasse que o motivo disso ter ocorrido seja a falta de verba para o show, ainda mais que aquilo que falei de imagens estáticas e outros efeitos, como aquilo de se piscar imagens que acabei de falar, aparece mais predominante a medida que se aproxima do final da série. Sendo os 2 últimos episódios construídos com o mínimo de dinheiro possível, repetindo inclusive linhas de diálogos e frames antigos de animação.

Porem isso explica apenas a parte da animação. Apesar de ter essa repetição de diálogos, muito do texto desses dois episódios ainda é original. Talvez algo escrito as presas, formulado para substituir o original pois não iria bater com a animação.

Ainda assim existem outras teorias mais predominantes, ao menos quanto ao enredo desses dois últimos episódios. Tem aquilo de que Anno deu realmente o foda-se pro anime e resolveu tacar ali o seu ponto de vista sobre a indústria. Algo que não descarto, pois tem um seguimento inteiramente animado do jeito clássico que parodia o início de um anime escolar, sendo talvez a parte mais digerível desse mindfuck.

Porem essa hipótese eu deixaria exclusiva para esse seguimento, e ao mesmo tempo descartaria. Pois veja, o restante desses dois episódios não encaixa na ideia de mostrar a revolta quanto a indústria. Pois realmente é passado algo dentro de contexto se prestar atenção mais a fundo.

A repetição é sim extrema, talvez para gerar a ideia de estarmos vendo um conflito interno muito grande. Tudo realmente gira entorno disso. Conflitos internos dos personagens Shinji, Asuka, Rei e Misato. São dois episódios inteiros sobre depressão, drama, trauma, e outros temas levantados ao decorrer da série, mas excluindo a ação e demais pontos relevantes apenas a NERV.

Nisso entra a teoria de que eu mais gostei, e que eu fortemente aceito, ao menos nesse momento. Que seria a de que o anime acabou de fato no episódio 24 e que tudo isso mostrado na sequência e apenas um complemento, um prologo. Algo mostrando alguns acontecimentos extras, mas que como já falei se foca demais nessa ideia da mente das pessoas, desejos, objetivos, etc.

Ao mesmo tempo outra boa teoria, que quase que complementa essa, e a de que esses trechos mais vagos e complexos foram montados dessa forma para que cada espectador encontrasse ali o seu próprio entendimento do que ocorreu no anime.

Acho isso interessante pois a parte de complemento ao enredo e notas do psicológico entra melhor no episódio 25, enquanto a parte de interpretação e o descontento com a indústria, porque não, encaixa melhor no 26.

So que isso também gera outro problema. O do 26 ser o real mindfuck da porra toda. Ele é o episódio onde tem mais disso de interpretação de cada espectador e teorias para lá e para cá. E acho que boa parte disso se deve a menção de instrumentalidade e a questionável cena de “Parabéns Shinji!”

Instrumentalidade é uma teoria surgida da teologia. E eu mesmo entendi o conceito bem por cima, por isso deixo aqui um link para melhor entendimento. (Em inglês) https://en.wikipedia.org/wiki/Instrumentality_(theology)

Pelo que entendi sobre instrumentalidade, isso entraria no contexto da obra sobre a ideia de deus e o homem terem interpretações diferentes sobre o texto sagrado, assim justificando a visão de Anno sobre o apocalipse e demais eventos, ou o entendimento de personagens como Ikari daquilo profetizado no decorrer do anime. O que por vez faria de Shinji nesse último episódio apenas um avatar do espectador, já que tanto ele quanto quem assiste está sendo teoricamente ensinado sobre a instrumentalidade.

E esse ensinamento da instrumentalidade é mais uma das teorias que tentam justificar o final. E ainda assim é mais uma que não consigo enxergar sozinha, pois como já falei é algo quase que exclusivamente pertinente ao episódio 26.

Quanto a cena do “Parabéns Shinji!”, essa eu acredito ser a parte mais sem nexo do anime. Não entendo se é uma mensagem do diretor para com os espectadores, para com a indústria ou até mesmo algo mais pessoal ou religioso, visto a linha “meus filhos”. Eu não consigo deixar de pensar que é um momento desnecessário e surreal.

A melhor interpretação que consigo dar para aquilo seria uma parabenizarão por entender sua psique, a instrumentalização, e outras coisas faladas no final e ao decorrer da série, incluindo a conclusão da parte dos Anjos. E ainda fica o questionamento se tem mesmo tudo isso interligado, ou nada, ou somente um elemento que faz sentido dentre tantas teorias.

Talvez por isso que tantos aceitem a teoria de que o final é uma grande merda, e não to brincando aqui. Falo de que o anime ficou sem verba, Anno não teve como fazer o final que queria e então tacou um monte de coisa sem contexto na tela, com uma, muitas ou talvez até nenhuma informação. Mas que se foda, pois este não seria o verdadeiro final.

Como falei antes, eu no momento inclino mais para a falta de verba e a parte sobre fechar buracos, mais o prologo sobre o psicológico de cada personagem. Isso no episódio 25 e 26. Já pensando no 26 e naquilo que apenas ele traz a mesa, ai eu realmente não sei o que pensar. A parte da instrumentalidade, se eu tiver entendido, e interessante, mas desnecessária. E acho que esse é quase que o sentimento unanime quanto ao final do anime. Acho o 25 é passável, mas quando são 2 episódios assim acho que até o mais assíduo dos fãs se questiona se não era melhor ter tido so um “mindfuck” ou ter acabado no 24.

Sei que existe ainda a questão contratual, e uma vez contratados para fazer 26 episódios não seria viável, mesmo sem verba, parar antes do 26. Mas ainda assim eu gostaria que o anime não tivesse ido tão longe nessas loucuras todas, e olha que eu genuinamente gostei dos 2 últimos episódios nessa segunda assistida.

Logo, apesar de todos os porem, eu acredito que valha sim assistir Neon Genesis Evangelion até o 26, sem pular do 24 para o filme. Principalmente por esse anime ter sido um marco histórico da animação japonesa e que vale ser assistido tanto para entender o que presam nele como para ver aquilo que consideram tão polêmico.

Quanto aquela teoria do final falso. Ela dita que o final verdadeiro seria o filme The End of Evangelion, enquanto tem uma última teoria que diz que os episódios 25 e 26 se passam na mente do Shinji, e que o filme seria os acontecimentos em tempo real. E vamos tirar a limpo se é isso ou não agora, assistindo The End of Evangelion.

THE END OF EVANGELION

E caso eu não tenha deixado claro no parágrafo anterior, eu estou escrevendo essa parte do texto após ver The End of Evangelion. Ou em outros termos, eu escrevi um monte sem realmente assistir ao final verdadeiro da série.

Sim, esse é o final, e aquilo de final falso para o episódio 25 e 26 ainda não faz o menor sentido. E sabe o que também não tem nexo? O final da série ser os pensamentos de Shinji e o filme ser as ações do rapaz.

Colocando um pouco mais em contexto. Em boa parte de The End o Shinji fica estático. Parado mesmo, e temos cenas similares com Asuka, mais algumas outras um tanto quanto surreais com Rei, e isso sem entrar em spoilers. Falando primeiramente de pontos que poderiam ter os tais pensamentos, os quais por vez seriam os episódios finais do anime.

So que o primeiro contra-argumento aí seria exatamente esse da Asuka e da Rei. Ambas claramente têm seus arcos de pensamento nos episódios 25 e 26, não apenas o Shinji. E a Misato também tem um arco de reflexão, e no END ela não para um segundo para dar tempo de alguma reflexão mais complexa. Um trejeito bem natural da personagem.

Quanto aquilo de ser o final verdadeiro. Eu diria que ambos são o verdadeiro, so que THE END e o final melhor elaborado e com algumas mudanças. Da para notar isso em parte dos diálogos e por conta de cenas praticamente iguais, so que agora colocadas num melhor contexto, sendo elas aquelas que fechavam pontas no enredo ou que trabalham o já mencionado psicológico do Shinji. O que talvez tenha causado essa confusão quanto a ser um sonho ou pensamento do protagonista.

Isso por vez dita que os episódios finais da série têm revelações relevantes quanto ao filme, e que, portanto, não seria de todo mal pular os episódios 25 e 26 para evitar o spoiler ou simplesmente “fugir” do mindfuck. Ainda assim, eu que vos escrevo, permaneço com a ideia de que se deve assistir o final da série por se tratar de algo que marcou a história dos animes, e para notar o quanto conseguiram fazer com tão pouco. Sem contar que é divertido ver e bolar teorias e os tais spoilers não atrapalham nem um pouco.

Outro ponto a favor disso de ver os finais E o filme, mesmo o filme sendo literalmente duas partes intituladas episódio 25 e episódio 26, e que o longa também é bem confuso. Parece que Hideki Anno planejava sim desde o começo explodir cabeças, e boa parte das pessoas, independente do que assistir, ainda vai ficar bem confusa.

So que o filme também tem os seus pros. Enquanto o final da série mostra um incrível malabarismo de orçamento e apresenta pontos diversos a serem pensados, alguns que nem ao menos são mencionados no filme, a película completa o enredo com um visual deslumbrante, mais digestível, e com muito mais informações pertinentes.

É apenas em The End of Evangelion que vemos e entendemos o final de cada um dos personagens, excluindo completamente o “Parabéns Shinji!” que agora mais do que nunca acredito ter sido uma mensagem pessoal disfarçada. Porém o filme também remove a conversa sobre instrumentalismo e a cena em que Anno dá um esporro na indústria. Dois pontos desnecessários, principalmente no viés de entretenimento, mas que se mostraram no mínimo interessantes.

Voltando ao filme, ele completa o arco de todos os personagens, deixando mais clara a relação que cada um tem com o próximo, sendo as maiores evoluções referentes a Shinji, Asuka, Rei, Misato e Ikari.

Esse último chega a ser algo surpreendente. Pois sabemos de seus sentimentos para com Rei, mas nunca foi de fato mostrado o porque ele fez tudo aquilo, e o filme entrega numa cena perfeita tudo que Ikari foi ao decorrer do anime, o tornando um humano ainda mais falho, e o removendo daquela visão de que ele era o grande vilão.

Na verdade, quem se volta mais para o papel do vilão é a organização SEELE, que erroneamente eu achei ser parte da NERV. A relação das duas fica bem mais clara no filme, apesar de que aquele papo de serem personagens ainda se encaixa perfeitamente. Sendo que o enredo do filme gira exatamente entre o conflito interno de ambas. E devo ressaltar, feito de forma brilhante, ao mostrar que o humano sempre é seu próprio inimigo, seja por atos bélicos, seja por traição, seja por conta de sua própria mente.

Também entendemos melhor por conta do filme o ocorrido no episódio 24, e as implicações do passageiro personagem Kaworu, e temos como bônus um novo prologo. Tudo isso junto resultando num filme fenomenal, com ação, mindfuck, depressão, e todo resto que fez da série tão popular.

E quanto aos principais… SHINJI E UM DOS MAIORES FILHOS DA PUTA DOS ANIMES! Sério, eu tinha de tirar isso do peito. Voltei a gostar um tanto mais da Asuka, e a Rei finalmente parece ser mais relevante do que uma boneca de porcelana que abre a boca vez ou outra. Mas dentre todas as mudanças apresentadas no filme, a maior obviamente foi a do protagonista. Eu achava o Shinji um personagem ok no anime e agora penso seriamente que ele deveria ter morrido uma morte horrível.

Isso que falei acima é extremamente pessoal, e eu não garanto que você vai ter a mesma reação. Eu apenas não gostei do personagem no filme, e acho que boa parte disso é por ele ter tido meio que uma recaída quanto a sua evolução. Sei que é algo que faz sentido mediante o que acontece no episódio 24 e que encaixa perfeitamente no plot, mas EU não consigo gostar. Ele vira mais um instrumento de movimentação do enredo, mais do que a própria Rei, e já sabem minha opinião quanto a isso.

Tem outros detalhes mais cruciais a trama que eu não gostei, mas não vale ressaltar por revelar muito sobre o plot. O que vale dizer aqui é que o filme é bom. Entretém e faz você pensar, seguindo à risca a qualidade da série e demonstrando com primor todas as ideias depressivas e existencialistas de Anno. E, portanto, eu também recomendo o filme, ou melhor, o considero crucial.

No fim eu acabo enxergando Neon Genesis Evangelion com outros olhos. Uma visão mais madura e um tanto quanto focada na análise. Aquele tipo de olhar que busca um algo a mais, e que nesse caso a serie realmente entrega. Eu acho esse um anime quase que perfeito, centrando meu porem quase que exclusivamente nos últimos episódios e no filme, tirando algumas questões menores, como o que aconteceu com os amigos do Shinji. Logo recomendo Evangelion na integra a todos, como um grande fã de animes. Mas ressalto que você deve esperar um plot depressivo, confuso e surrealista, com cenas de gore e relações abusivas. No restante, vejam.

Por fim, so para esclarecer uma pequena polemica quanto ao início do filme vou dar aqui um pequeno spoiler. O review já acabou nesse ponto e você não precisa ler.

The End começa com o Shinji tentando acordar uma Asuka em coma, e em certo momento ele vira o corpo inerte da garota com raiva, assim deixando a mostra os seios e a calcinha da garota. O filme corta, em certo momento mostra a porta trancada, e quando volta Shinji está com as mãos sujas de goza.

Algumas pessoas interpretaram a cena como um estupro, mas não acho que seja esse o caso, pois o corpo de Asuka não foi movido. Shinji deve ter se masturbado com aquela visão, e logo após solta um “i’m so fucked up.”

Não estou aqui justificando a ação. Essa cena é um dos motivos pelo qual eu não gosto do personagem. Todo o tratamento que ele dá para a Asuka no decorrer do filme é de abuso, claramente. E sei que existe o lance da atração de um pelo outro, e que também existe a raiva predominante em ambos. São cenas que fazem sentido no plot, e termino aí.

Se você se sente incomodado (a) por esse tipo de situação, evite o filme. Eu particularmente não achei pesado, e acredito que a mensagem proposta pela cena seja exatamente a da frase “i’m so fucked up.” Mostrando mais uma vez o lado sujo da humanidade e o quanto esse protagonista e o tremendo de um merda.

On the Nanquim: O Canto das Ondas

O Canto das Ondas

No início de 2018 começamos a resenhar as obras da editora Shockdom. Mais precisamente os títulos que iniciam a linha Timed. Um universo de histórias cuja as temáticas giram em torno de poderes fantásticos que alteraram o mundo como conhecemos, assim gerando uma quase distopia, do subgênero de ficção cientifica de história alternativa. Algo que comentei ao analisar Rio 2031 em fevereiro. Um HQ que também explica muito bem os poderes “mutantes” e a redução do tempo de vida atribuído a esses “novos seres”. Leia o resto deste post

Review: Juuni Taisen – O battle Royale de Nisio Isin

Curte animes? Tá atrás de um novo canal sobre esse assunto? Então confere ai no link o primeiro review do ! Espero que gostem. ^^

Review: Juuni Taisen – O battle Royale de Nisio Isin

Assista, comente, compartilhe! Queremos sua opinião!

On The Nanquim: Vidas de Papel

vidas de papel.png

Para quem ainda não conhece o Vidas de Papel, esse é um HQ da editora italiana Shockdom, e o segundo da série Timed. A qual conta histórias de personagens superpoderosos, mas que possuem uma grande fraqueza, o tempo. Apesar de poderem mover montanhas eles estão fadados a morrer num tempo que é determinado no momento em que suas habilidades afloram. Podem ser anos, ou podem ser dias. Um conceito que acaba criando um mundo fantástico, o qual você pode conferir com mais detalhes no texto anterior, onde falamos de Rio 2023. Outra obra Timed fantástica.

Confira clicando aqui o review de Rio 2023.

Mas chega disso. Vamos falar de Vidas de Papel, como bem comentei no início. E é algo… complicado. Assim como Rio 2023 o enredo gira entorno da ideia de poderes dos Timed, porem se focando em apenas um indivíduo e caindo de cabeça no drama. Algo que eu desejei ocorrer desde a última leitura, porem que agora não sei se foi a melhor opção.

Digo, o potencial para o drama ainda existe, e o enredo passa isso de forma fenomenal. Não estou a desmerecer a obra. Porem a forma como tudo e contado é difícil de se assimilar. O primeiro empecilho que notamos e o visual, ilustrado pelo italiano Giulio Rincione. Pois apesar de se algo que cai como uma luva na obra, é extremamente alternativo.

Untitled-1.jpg

Falo de expressionismo e impressionismo misturado com um que de Dave McKean (Arkham Asylum, Mr. Punch). Não chega a ter o uso de materiais diversos e técnicas de fotografia, como e o caso de Dave, mas ainda assim a influência, ao menos no meio quadrinista, e óbvia. Talvez para uma melhor adaptação aos quadros.

Quando não é isso temos rabiscos. As vezes sozinhos, mas muitas vezes imersos no restante da obra, dando um tom de surrealismo, de coisas que não deveriam estar juntas. E tudo junto cria um clima de fantasia, de ilusão, de delírio. Assim trazendo o leitor para bem perto da mente de Carl, o protagonista, e fazendo com que as páginas sejam a visão deturpada do personagem.

Ou seja, apesar de underground, não se trata de uma escolha inusitada. Eu pessoalmente acho bem fácil de se acostumar com o traço, e até mesmo vejo a beleza dele em diversas cenas. Fora que fico estupefato quando este complementa perfeitamente a narrativa. Algo sem dúvida difícil para alguns, mas que eu pessoalmente considero mais acessível que as ilustrações do próprio McKean.

Untitled-2.jpg

Agora algo que me incomoda graficamente é o trabalho do letrista, Mirko Guidi. Novamente não é uma escolha ao acaso. As letras tortas complementam a sensação passada pelas ilustrações. Porem elas dificultam tremendamente a leitura, tornando algo que poderia ser prazeroso em uma jornada árdua.

Me vi quase que me arrastando e tive de terminar um conto curto, de poucas páginas, 65 para ser exato, em dois dias. Porem deixo aqui uma ressalva. A Shockdom me enviou uma versão de imprensa em PDF e com qualidade inferior a versão final impressa. Isso é algo bem comum, porem sinto que dessa vez a qualidade do arquivo me impossibilita de confirmar que o que falo a respeito da fonte é verídico. Logo é possível que você compre o físico e tenha uma experiência superior à minha nesse quesito.

Seguindo. Após contornar as dificuldades de ler e assimilar a arte, vem a questão de interpretar o texto. Marco Rincione fica a cargo do enredo, sendo este o ponto alto do Fumetti, mas ainda assim uma pequena complicação. Veja bem, a história aqui contada vagueia bastante, tentando propositalmente confundir, assim fazendo este acreditar no que está e não está a sua frente. Algo essencial na narrativa, e que no final nos leva ao questionamento.

Untitled-3.jpg

Em Vidas de Papel seguimos Carl, um Timed cujo poder e entrar na mente de outras pessoas e assimilar tudo que a. Numa descrição do próprio personagem, e como se ele enxergasse em segundos toda a vida do coadjuvante em primeira pessoa, como se a estivesse absorvendo-a para si, ao mesmo tempo que assiste os milhares de pensamentos conflitantes que existem na mente de um ser humano.

Ao mesmo tempo Carl tem um poder complementar. Sua habilidade primaria e tão poderosa que ele tem de se isolar das pessoas para não enlouquecer, e sua secundaria ajuda nessa solidão. Tudo que ele desenha no papel ganha vida, portanto o nome do HQ, Vidas de Papel. Porem eles são mais que construtos. São praticamente pessoas com sentimentos e inteligência própria, tal qual eu e você. Ou talvez seja isso que o autor queira. Seria essa percepção mais uma ilusão?

É basicamente isso que mais aflige Carl. Ele é um ser quase onisciente, com poder de criação. Características de um deus, porem em uma entidade perfeitamente humana, com suas falhas e desejos. Algo que sobrecarrega. Imagina ter algo assim em suas mãos? Seria caso de megalomania, narcisismo, loucura ou agorafobia. Talvez tudo junto, ou por etapas. Mas sem dúvida algo que a longo prazo abalaria qualquer indivíduo.

Untitled-4.jpg

Essa é a mágica de Vidas de Papel. O personagem se questiona, e a medida em que o leitor prossegue existem questões que parecem direcionadas a ele, e não ao Carl. E então chegamos a um clímax e um final alucinantes. Tudo na obra e muito lento, menos o pensamento. E este acelera junto do nosso, em uníssono, nas últimas páginas. Nos levando então a refletir sobre tempo, vida, morte, deus, realidade e continuidade. Assim culminando não em respostas, mas sim em reflexão.

Logo é uma pena, e ao mesmo tempo uma vantagem, que a obra não seja tão acessível. Gostaria mesmo que fosse uma leitura para todos. Porem essa inclusão tiraria parte da liberdade dos autores, e, portanto, no fim à conclusão que me vem é que insista. Olhe torto para a obra, mas continue, siga com a leitura caso algo que comentei aqui ou algum outro elemento da trama lhe faça querer mais. Tente enxergar além do traço alternativo, da sinopse bizarra, das letras estranhas e leia mais de uma vez se precisar. Pois é tudo isso junto que constitui uma obra, e não cada elemento separado.

Fico feliz de ter tido o prazer de ler esse Fumetti maravilhoso dos gêmeos Rincione, e estou ainda mais animado para o terceiro HQ dessa saga da Shockdom. O qual mais uma vez terá roteiro de Marco Rincione. Sendo este o belo O Canto das Ondas.

vidas de papel.jpg

Dito isso, agradeço por ter lido o texto até aqui. Espero que goste ainda mais da leitura de Vidas de Papel, o qual pode ser adquirido na loja da Shockdom. E peço apenas que comente aí embaixo o que achou, compartilhe com os amigos e deixe seu like. Pois, é… wordpress tem dessas também.

On The Nanquim: Beasts of Burden

beasts of burden.png

 Sei que muitos estão curiosos para saber do que se trata Beasts of Burden por ser um lançamento do Pipoca & Nanquim. Não apenas uma editora, mas fonte de muitos para se conhecer novas obras. Porém não foi isso que me fez ir atrás do título, e sim um fato talvez menor para vocês, mas grandioso para mim. Um simples elogio de Mike Mignola, autor de Hellboy.

Hoje sei que existe uma certa amizade entre os autores das obras, e inclusive um crossover que junta os personagens, logo a quem diga ser uma “venda casada”. Porém não acredito ser esse o caso. O HQ é sim de qualidade, seja esta atestada por Mignola ou pela façanha de levar o Prêmio Eisner em diversas categorias, em 2004, 2005, 2007, 2010 (em duas), 2011 e 2015, o que não é para qualquer um.

Beasts of Burden certamente é um fenômeno. E ah aqueles que não entendam o porquê. Em seu exterior vemos um livro sobre cachorros falantes em aventuras, o que logo remete a Disney e filmes infantis como Bud ou Beethoven. Quando na verdade seria preferível associar a obras como Martin Mystere, IT ou o recente Stranger Things.

bob_01_12

No enredo acompanhamos um grupo de cães, e ocasionais gatos, que vivem na pacata cidade de Burden Hill. Um local envolto em mistérios que tem tido um aumento alarmante no número de casos sobrenaturais. O que leva eventualmente o grupo a se tornar uma espécie de vigia contra o mal, assim reforçando os ranques da mítica Sociedade dos Cães Sábios.

Inicialmente a história é apresentada de forma episódica sem um objetivo central, por fim caminhando para coisas vagas como “defender a área” ou “encontrar a fonte do mal”, o que deixa muito em aberto, assim dando uma liberdade enorme ao autor. Algo que Evan Dorkin (Dork, Superman and Batman: World’s Funnest) utiliza com maestria.

E assim somos presenteados com histórias curtas com fantasmas, zumbis, entidades cósmicas, e todo o panteão de seres sobrenaturais, conhecidos ou não pela massa, e até mesmo alguns surgidos de acontecimentos reais, como o Rei Rato e a chuva de sapos. Se não algo com base em obras consagradas, nem que brevemente. Como ocorre no capítulo 4, onde vemos obvias referências a Um Lobisomem Americano em Londres e Em Busca de Watership Down.

Untitled-2

Montagem com diversas páginas para ilustrar as referencias a Um Lobisomem Americano em Londres e Watership Down.

Porém o que brilha no fim sãos os personagens, suas personalidades e como eles lidam com a situação, além da clara mescla entre comedia, terror e drama. Aqui cada um dos animais recebe uma característica ampliada. Ace é o líder, valente e decisivo. Rex e forte, valentão, porem medroso. Pugs e metido, sarcástico e ranzinza. Whitey é brincalhão, agitado e fala o que vem. Jack é calmo e centrado. E Orphan é esperto e safo.

São personalidades conflitantes e complementares ao mesmo tempo, que trabalham juntas para criar um clima de comedia ou tensão de forma incrível. Você se importa com eles, como grupo e como indivíduo. Algo posto à prova nas sequencias de drama e suspense. Você fica com o coração na mão. Ainda mais que secundários muitas vezes são descartados num piscar de olhos e de forma brutal. Afinal aqui não se poupa detalhes para o gore.

Tudo isso no belíssimo traço e cores de Jill Thompson (Sandman, Mulher-Maravilha). Sendo aqui aplicado um detalhamento que me deixa estupefato. Cada animal e monstro apresentado e desenhado de maneira estupenda, sendo fácil diferenciar os diversos tipos de pelagem, além da interação destes com elementos diversos, como água ou vento. Mas o que realmente impressiona e como ela consegue demonstrar expressões tanto faciais como corporais de maneira perfeita. Quase humana, talvez?

dh_book_of_witchcraft_099_rougher.jpg

Sendo assim é inegável afirmar que Beasts of Burden é um trabalho de extrema qualidade, perfeito para quem busca uma aventura mais dark e não enjoa fácil com gore. Uma obra adulta e profunda sem igual e que não pode faltar na coleção. Logo parabenizo o Pipoca & Nanquim pela escolha da publicação e espero ansioso pelo próximo álbum.

Vale ressalvar que Rituais Animais, o primeiro encadernado, conta com 8 historias, publicadas pela Dark Horse entre 2003 e 2009, mais extras, assim totalizando 188 páginas em capa dura com verniz e lombada em material que remete a couro.

 

Outras 6 historias foram publicadas pela Dark Horse, entre 2010 e 2016, incluindo o crossover com Hellboy, e devem no futuro compor outra edição.

Todas as 14 histórias conjuntas ainda não finalizam a obra, e, portanto, Beasts of Burden se encontra em publicação, com 4 historias previstas na série principal e uma minissérie paralela com Benjamin Dewey (The Autumnlands, I Was The Cat) que contará acontecimentos envolvendo a Sociedade dos Cães Sábios. Ambos dando continuidade de onde parou a série.

No momento a edição física se encontra indisponível na Amazon e deve haver uma reimpressão em Março. Ainda assim e possível adquirir a versão brasileira em formato digital, também por meio da Amazon. E caso isso não te satisfaça, não se alarme. Tenho certeza que garimpando um pouco você deve encontrar o HQ uma hora ou outra em sebos ou similares, sem contar que sempre existe a opção de pegar a versão da Dark Horse, a qual recentemente foi republicada.

beasts of burden

 

Indie-A-tom: Downfall – Hotel dos Horrores (+ Sorteio de The Cat Lady)

Atenção: O texto presente aqui é um roteiro de gravação, então, apesar de ser perfeitamente possível ver minha opinião através deste, sugiro assistir ao vídeo pois ele possui leves alterações.

Último review do ano! Porém não o ultimo vídeo. Algo que vou entrar em mais detalhes no final do Review de Downfall. Mas antes de prosseguirmos, tenho de parar e falar um pouco a respeito de The Cat Lady, último jogo resenhado. Afinal um é meio que sequência do outro.

Leia o resto deste post

Indie-A-tom: The Cat Lady – Gatos, Suicídio e escolhas difíceis + Sorteio de key

Atenção: O texto presente aqui é um roteiro de gravação, então, apesar de ser perfeitamente possível ver minha opinião através deste, sugiro assistir ao vídeo pois ele possui leves alterações.

Jogos de Point and Click, ou aventura se preferir, são normalmente bem coloridos, muitas vezes cartunescos e repletos de comedia. Até mesmo aqueles de temática um pouco mais séria, como Primordia, tendem para esse lado light ao menos no enredo.

Leia o resto deste post

Resenha: Nigeru Otoku (O Homem que Foge)

nigeru-otoko

Existem certas obras que você lê, curte algum detalhe, detesta outro, e por mais que lhe agrade se chegar alguém para lhe perguntar “E então, o que achou?” você trava. Não sabe exatamente o que comentar a respeito. E foi assim que terminei minha leitura de Nigeru Otoku, O Homem que Foge. Sem conseguir me expressar.

Leia o resto deste post

Resenha: Dragon Head

Dragon Head

Esse é um daqueles títulos em que fico realmente sem saber se recomendo ou não, mesmo tendo gostado. Pois a conclusão e as reviravoltas contidas na obra são daquelas que vão cair no gosto de uns e serem odiadas eternamente por outros, fora alguns fatores que simplesmente devem afastar leitores independentemente do entusiasmo. Leia o resto deste post

Resenha: Koe no Katachi (A Voz do Silêncio)

Koe no Katachi

Atenção: Esse texto tem como base a obra completa de 2013, assim se referindo ao ocorrido em 7 volumes.

Quando eu termino de ler algo já busco juntar ideias e ir direto escrever, mesmo que saia algo ruim, apenas para registrar o pensamento e depois reescrever contendo aquilo que achei interessante inicialmente. Mas em raras ocasiões a obra me afeta de alguma forma que me impede de realizar tal ato, seja por me fazer sentir triste, eufórico ou pensativo. E no meio disso temos Koe no Katachi, que me deixou… chateado. (?) Leia o resto deste post