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On the Screen: Allegro Non Troppo – A Fantasia italiana que supera o original

Às vezes é interessante ver filmes simplesmente por ver, sem um grande motivo por trás da escolha. Esse foi o caso de Allegro no Troppo, um filme de animação italiano que eu resolvi ver simplesmente por ser italiano e para somar mais um número na minha lista de animações do Letterbox.

E fazer algo assim pode resultar em algo catastrófico, como ver uma bomba daquelas que tem poder de arrasar seu dia de tão ruim. Mas em outras, pode ser que o filme surpreenda e preencha algum tipo de vão que ainda sobrara na sua coleção de memorias. E mais raro ainda, pode este vir a ser um dos filmes da sua vida. Daqueles que dá orgulho de ter assistido.

E eu tenho orgulho de ter visto Allegro no Troppo. Ainda estou indeciso se este realmente é um dos filmes da minha vida ou uma surpresa tão grande que se sobressaiu a toda e qualquer expectativa, ganhando no fim pontos extras pela originalidade.

Um sentimento que vem logo do começo da obra. Não temos animações, mas sim live action. Pessoas atuando ainda em preto e branco, com um micro enredo focado em sarcasmo e críticas sociais. Então, descobrimos ser uma espécie de parodia de Fantasia, o famoso filme daquele que cara com nome que parece Walter Edisley. Uma das primeiras piadas do filme, que seta bem do que se trata toda obra.

Então temos um apresentador ditador que parece muitas vezes falar sozinho em loucura constante, um desenhista escravo perturbado e criativo, um maestro bufão violento e uma orquestra de velhas prisioneiras.

A ideia é ter orquestra e desenho juntos, igual Fantasia, mas com o desenhista fazendo tudo ao vivo, sem edição. Não é o caso, obviamente, mas isso acaba criando ideias únicas, algumas que surpreendem muito por se tratar de um filme dos anos 70 e de um pais pouco conhecido por animações.

Ao entrar nas animações, o desenhista cria mundos então coloridos, destoando completamente da parte mais real, que se focam em contar histórias no ritmo de peças musicais clássicas. O resultado e algo vibrante, com muitos momentos surrealistas e ainda mais críticas a natureza humana. Chegando ao pessimismo, mas ainda assim apresentando tudo de forma bela e agradável.

Com isso o filme vai alternando entre as partes IRL de comedia e os desenhos orquestrados, e nisso acaba superando muito ao meu ver Fantasia, por trazer algo mais adulto, apesar de ainda apresentável a crianças, e principalmente por conta da alternância que gera um intervalo que quebra aquela constante de músicas seguidas de músicas a qual faz Fantasia ser um tanto difícil de acompanhar. Ao menos pra mim aquilo dava sono, e nunca consegui ver o filme da Disney em uma leva.

Já Allegro foi fácil de ver justamente por conta dessa troca de cenário. E a medida que o filme avança, notamos que o que antes parecia ser um micro enredo ganha volume, e muitas das peças animadas complementam a parte com atores, ao ponto de termos inclusive desenhos, ou personagens dos desenhos, ganhando vida e se misturando aos humanos.

E até aqui tudo soa muito fantástico, mas tenho algumas ressalvas similares ao que falaria sobre Fantasia. Primeiro, o estilo de animação é bem único e experimental em algumas peças, se utilizando inclusive de outras técnicas, como rotoscopia e stop motion. Por um lado, acho isso fantástico, mas por outro sei que é um dos pontos que vai afastar muitos espectadores, por ser bizarro demais.

Ao mesmo tempo, nem todos os curtas são de fácil interpretação e a música permanece constante, sem falas, o que pode causar um grande incomodo. Não é um musical padrão, mas sim o que bem disse no começo. Desenhos que acompanham um ritmo. E no mais, caso não goste dos intervalos com pessoas, e inevitável que boa parte do filme vai ser um pé no saco.

Com tudo isso quero dizer que Allegro Non Troppo não é um filme para todos. Talvez você queira ver ele por partes igual eu fiz com fantasia, o que é bem possível, ou simplesmente ver uma ou outra das peças animadas, se se comprometer ao restante do filme. Eu particularmente acho que a melhor e mais enriquecedora forma e ver o filme na integra, assim notando como tudo se encaixa, porem agora vou me ater a descrever as partes animadas para os demais. Dito isso, aqui acabo o meu review de Allegro com um sonoro “vão assistir”.

Agora se realmente quer so ver partes ou busca conhecer cada animação antes de se decidir se verá ou não, ai segue minha descrição de cada uma. Lembrando que terá spoilers, pois é inevitável nesse ponto. E você verá na integra minha interpretação, a qual pode desviar muito da sua. Tenha esses fatos em mente.

ANIMAÇÕES

Ok, o primeiro “curta” segue ao ritmo de Prélude à l’après-midi d’un faune, de Claude Debussy. Nele acompanhamos um velho Sátiro que busca um amor e assim parte a perseguir jovens ninfas, e para isso constantemente tenta alterar sua aparência para algo mais jovial.

A animação segue com um estilo mais erótico e com coloração meio aquarelada e possui um tom constante de comedia, que lembra desenhos mais infantis. Ele trata, obviamente, da obsessão do homem pelo sexo e juventude.

O segundo “curta” vai ao ritmo de Slavonic Dance No. 7, Op. 46, de Antonín Dvořák. E esse pode realmente ganhar o título de curta, sendo possivelmente o menor seguimento do filme, aqui seguindo uma estrutura que lembra muito o sarcasmo de revistas como a MAD.

Na animação um homem começa a se desvencilhar dos outros, criando cada vez mais cenários para se isolar ou se mostrar diferente do rebanho. E uso essa palavra com ênfase, pois sempre que ele cria essas situações os demais seguem à risca. Assim criando algo muito engraçado e que, apesar de ser um desenho dos anos 70, cai muito bem como uma alegoria a certos líderes da atualidade. Mas no filme em si, é uma ofensa direta ao maestro.

Já o terceiro “curta” pega o Boléro de Ravel, de, bem… Maurice Ravel. Sendo esse o seguimento mais famoso, ilustrando pôsteres e capas do filme. E que se inicia com uma transição direta do real para o imaginário, com um maestro arremessando uma garrafa de Coca-cola que cai no meio do nada e desencadeia uma serie constante de evoluções.

De início vemos uma criatura sem forma, saído da ”soda primal”, que se auto remodela constantemente, então passando para segmentação em diversas criaturas que vão de encontro a predação e evolução como meio de escape a predação, assim surgindo a seleção natural e dando início a um constante acasalamento, sempre a cada novo ato segmentando e evoluindo cada vez mais.

Isso por fim culmina em criaturas gigantescas, similares aos dinossauros, partindo numa marcha constante e sendo eliminadas aos poucos por constantes alterações no planeta, com destaque a um indivíduo, um macaco, que sempre se sobressai, de forma abominável, em cada uma das situações.

A animação nesse caso mostra a evolução das espécies, a supremacia humana e como o homem vai aos poucos destruindo cada vez mais a natureza em prol do progresso. No fim, temos o primeiro personagem a transcender do desenho para o real.

Na quarta parte, Valsa triste, de Jean Sibelius. Uma animação bem soturna, que mostra um gato escalando a última parede de um edifício e vivenciando em memoria os tempos áureos de uma vila. Aqui com pessoas de verdade projetadas de forma transparente no desenho para dar sensação de espíritos e reforçar a ideia de memoria.

Esse é outro seguimento bem curto, com um final bem triste. Ainda assim talvez o mais fraco do filme. Vale notar que a parede do edifício em diversos momentos parece uma lapide.

Na sequência, Concerto in C major, RV 559, de Antonio Vivaldi. Aqui fazendo uma mescla de animação clássica com rotoscopia, em algo mais leve e vivido, provavelmente para se sobressair a melancolia do último seguimento.

Enredo simples, de uma abelha querendo jantar e relaxar, mas que não consegue, pois um casal de humanos busca fazer o mesmo, e num ato de romance e tensão sexual acabam destruindo a natureza envolta. Possivelmente querendo mostrar que o mais mínimo de nossos atos gera alguma consequência ao mundo.

Na penúltima sequencia temos The Firebird Suite, de Igor Stravinsky. E se antes tivemos a seleção natural, agora é a vez do mito de criação, assim iniciando a animação com cenas de stop motion que se utiliza da argila para exemplificar a criação do ser humano. No caso, Adão e Eva.

Quando estes são criados eles se encontram nus, no vazio, e logo a serpente da tentação chega com o fruto proibido. So que temos aqui uma brilhante inversão, onde Adão e Eva recusam a fruta e a serpente prova de seu próprio veneno, digamos.

Ao engolir a maçã a serpente e transportada a um mundo quase alucinógeno comandando por demônios, e numa sequência extremamente rápida, quase impossível de se tirar um print em contexto, vemos deslumbres da vida moderna envolta de pecados como ganancia e luxuria. Criticando assim todo o modo de viver do homem, enfatizando como gostamos de coisas inúteis.

E para o grã finale, o epilogo, temos uma espécie de Igor a lá Frankenstein, procurando o final perfeito. Essa peça especifica não fica bem se vista individualmente, mas so para registrar, nela pulamos entre as músicas Hungarian Dance No. 5, de Johannes Brahms, Toccata and Fugue in D minor, de Johann Sebastian Bach, Hungarian Rhapsody No. 2, de Franz Liszt, e novamente Slavonic Dance No. 7, Op. 46, de Antonín Dvořák. Fora outras músicas não listadas.

E é isso, esse é o todo de Allegro Non Troppo, tirando a parte real que basicamente mostra figuras ditatoriais judiando das pessoas e um pobre e apaixonado desenhista. Eu ainda reforço que é melhor ver o filme inteiro, mas a escolha é sua. Só espero que no fim se divirta.

GALERIA

On the Screen: Doukyuusei – Um belo romance

Eu resolvi ver Doukyuusei por conta de um gif. Um beijo daqueles bem-dados, só que com um tom muito sereno e animado de forma fantástica, tornando o momento muito belo. Esse beijo era entre 2 homens, os protagonistas Hikaru Kusakabe e Rihito Sajou. E eu me apaixonei naquele momento pela estética da animação e fiquei deslumbrado com a cena. Sou hétero.

Pode parecer estranho terminar a frase anterior assim, com “Sou hétero”. Mas existe um motivo. Com isso quero afirmar que Doukyuusei é uma obra que transcende a barreira da sexualidade. Você pode ir lá assistir sendo heterossexual, homossexual ou qualquer que seja a sua orientação sexual, que a obra vai ter o mesmo impacto.

Logico que existem outras obras das quais eu poderia falar o mesmo, não se engane. Eu não estou descobrindo esse tipo de romance somente agora. É mais que existem obras mais explícitas voltadas para o público LGBTQ, com cenas mais calientes e muito fanservice, da mesma forma que existe isso aos montes para o público hétero.

Porém é difícil achar algo tão puro, focado e bem-feito como Doukyuusei. Você poderia trocar os personagens por duas garotas, ou um homem e uma mulher, que daria na mesma. Isso faz parte do charme da obra e da facilidade de se consumir o produto. É tudo muito natural. Mas ao mesmo tempo a escolha no sexo dos protagonistas é certeira.

De um lado temos esse romance colegial, com todas as intrigas pelas quais muitos passamos nesse período. Desde ciúmes ao sentimento de que tudo vai acabar no terceiro ano, passando por vergonhas e desejos sexuais. Do outro temos um grande slice of life que mostra o amadurecimento de dois rapazes e a descoberta de algo novo e arrasador.

Novamente, tudo isso poderia ter sido passado por qualquer casal, mas a grande diferença fica com a mensagem de aceitação. Isso é tabu para a sociedade, infelizmente, ainda mais entre homens, e à medida que a obra evolui notamos cada vez mais essas nuances até chegar ao fim e mostrar que toda essa vergonha não deveria existir, que devemos ser quem somos, independente de opiniões, e isso é uma mensagem muito forte.

E não é uma mensagem somente para os gays, mas para nos aceitarmos e aceitarmos nossas decisões independente do que seja. Só que, ao ir por esse lado, o filme enfatiza um grupo que merece ser mais aceito. Por isso eu recomendo o filme para que vocês vejam que um romance entre gays é a mesma coisa que qualquer outro romance.

Eu já passei por essas coisas com garotas e foi muito fácil me identificar com os protagonistas, que, diga-se de passagem, são muito carismáticos. Não tem como ver esse filme e não torcer por eles e ficar encantado com um relacionamento tão belo. E completando tudo isso temos uma estética de cair o queixo e dubladores de primeira que trazem uma narração quase poética.

Os únicos pontos que me incomodam são a estrutura do filme e onde ele termina. Tudo ocorre com timeskips constantes e começa do nada e vai parecer a alguns que também chega ao nada. Existe a tal mensagem no final, pontuando muito bem, mas ainda fica aquela sensação de que faltou algo. Ou talvez seja só eu querendo acompanhar mais da vida desse lindo casal.

Dito tudo isso, recomendo fortemente que assistam o belo Doukyuusei. Façam um esforço, vai, confiem em mim nessa, pois a obra é de outro nível.

On the Screen: Hakujaden – O primeiro filme de anime em cores

Sabe, eu adoro procurar animações novas para ver, principalmente filmes. Ao ponto de me considerar quase que um “historiador”. Ok, talvez menos. Aficionado, fã, otaku. Daqueles que vai atrás não apenas dos lançamentos, como de coisas super antigas e que marcaram a indústria. Não importa quem fez, críticas e notas, ou o que seja. Pareceu interessante eu vou lá e assisto com prazer.

Particularmente, eu acho uma atividade extremamente recompensadora, pois quebra um pouco aquela visão de que apenas o estilo atual presta. Que é o superior. Se não ficamos cegos achando que apenas o corriqueiro da indústria, que em sua maioria é um copy paste do estilo do momento, e a arte que devemos idolatrar. E isso não faz bem.

E o mesmo vale para direção, roteiro, efeitos, trilha sonora e até mesmo dublagem. Falta fazer aquela distinção entre o que realmente é bom e ruim levando em conta estilo e época. Além de que deveria ocorrer uma certa apreciação pelo que marcou a indústria, como bem falei no começo. Você achando o filme bom ou não.

Rotoscopia em O Senhor dos Aneis, de 1978.

Um exemplo que eu acho ótimo é o filme de animação de O Senhor dos Anéis, de 1978 de Ralph Bakshi, que influenciou a rotoscopia. Acho ele muito chato, não tem final, mas indiscutivelmente marcou, revolucionou e é um objeto de estudo. E por mais que eu não esteja fazendo um review deste, ou um texto sobre animações no geral, eu acho esses dados fundamentais para o restante da resenha e acredito que a essa altura nem preciso dizer o quão importante eu acredito ser as pessoas mudarem sua maneira de pensar a respeito dessas obras.

Mas enfim. O filme aqui analisado em questão é Hakujaden, também conhecido como The Tale of the White Serpent. Foi o primeiro longa-metragem japonês em cores, tendo estreado nos cinemas em 1958, posteriormente ganhando as telonas mundo a fora em 1961. Ao longo dos anos este foi conhecido por diversos nomes, como Panda and the Magic Serpent, Legend of the White Snake, The Great White Snake e The White Snake Enchantress.

Uma película de 62 anos de idade que impressiona em diversos aspectos, apesar de indiscutivelmente ter ficado datada. E logo no início o filme já mostra isso. “Uma história muito, muito antiga” é cantada num estilo oriental, tanto em ritmo e estilo, como em animação, quase que lembrando uma espécie de cutout com pinturas. Na letra falando sobre um jovem e sua paixão por uma serpente branca de estimação. “Uma história muito, muito antiga” que data da dinastia Song (China, 920-1279), e é intitulada exatamente The Tale of the White Serpent.

O restante do filme então passa a mostrar o jovem, Xu Xian, já adulto e apaixonado por Bai Niang, que seria o avatar humano da serpente branca, agora uma Yokai. Seguindo então em parte o conto folclórico chinês. Digo isso pois metade do filme se foca em “Panda”, como um dos títulos bem diz. Praticamente uma história paralela, meio desconexa em diversos momentos, que mostra as aventuras dos animais de estimação de Xian. Um panda sem nome e um panda Vermelho, chamado Mimi.

A jovem Xiaoqing, o avatar de um peixe Yokai, também se mostra desconexa em diversos momentos, transitando entre o folclore da serpente e as aventuras do panda. E eu diria que essa mistura e o ponto mais fraco de toda a obra. Quebra muito o ritmo e fica parecendo que quando o enredo chinês está mais morno entram os animais para tentar dar um boost na película e trazer ela mais para o estilo ocidental.

É indiscutível que a Toei, estúdio responsável pelo filme, estava buscando se tornar a Disney do oriente. Ao ver o filme logo se nota inspirações nos filmes da Disney, especialmente os dos anos 40 e os curtas de Silly Symphony, além de outros clássicos americanos, como o Popeye de Max Fleischer. Algo presente nas músicas, nas partes dos pandas e em diversos secundários ao longo do filme.

Em contrapartida o filme segue com os principais em um estilo chinês, característico de pinturas clássicas. Tanto isso, quanto a temática central do conto, foi algo escolhido a dedo pelo presidente da Toei, Hiroshi Ōkawa, que desejava por meio do filme amenizar a antiga rivalidade étnica entre Japão e China. Algo histórico que surgiu devido a guerras e que permanece em parte até hoje, sendo um grande ponto de preconceito étnico cultural no pais.

Acho louvável ver um filme tão antigo discutindo essas ideias, mas o ponto mais interessante, e importante, e o próprio conto da serpente. Pois é uma saga bela e trágica de romance envolta em questões de preconceito. Onde a yokai Niang entra com o papel de vítima, sendo constantemente dita como ruim. Primeiro por adultos na abertura do filme e depois, diversas vezes, pelo antagonista Fahai. Um poderoso monge que expurga espíritos desse mundo, e considera todos os entes sobrenaturais como malignos.

Além disso temos partes com teor similar, como quando Xian é exilado e a interação dos pandas com outros animais. Algo bem interessante, ainda mais se visto hoje em dia, devido a discussão constante que temos sobre o preconceito que nos rodeia. Da para associar, entende, por mais que a ideia inicial de tudo isso seja para abordar apenas a xenofobia.

E é isso. Como podem ver existem muitos detalhes legais de se observar em Hakujaden, por mais que seja um filme mal elaborado, confuso e datado, que foi criado para promover o ideal capitalista de se tornar a próxima Disney. Tem realmente muitos, trocentos pontos ruins, e ainda assim eu recomendo o filme. Como estudo, para ver esses detalhes de mensagens políticas e também para se divertir até um certo ponto.

Se você gosta de filmes Disney, contos folclóricos e animações como Popeye, dá para ignorar a literal mescla de dois filmes em um e se diverti um pouco. Não vai ser nada de outro mundo, mas dá para se apreciar sem olhar tantos detalhes a animação fluida, belas músicas e o conto da serpente branca em si.

Eu acho que dava pra ser mais Disney, no sentido de desvirtuar mais o conto em prol de algo épico, removendo a parte dos pandas, ou dividir 100% em dois filmes. Mas não tem como não ficar impressionado no fim, ainda mais se tratando de uma animação de 58.

E um último adendo, mais como curiosidade. O filme nos estados unidos foi um tremendo fracasso e ele se deu razoavelmente bem na Europa. Nos EUA ele foi picotado, renomeado (Panda and the Magic Serpent) e teve diversos pontos orientais “adaptados” para a cultura norte americana. Isso inclui chamar o panda vermelho de gato… Me pergunto o porquê o filme não foi bem aceito.

On the Screen: Godzilla Raids Again (1955) – Sequencia desnecessária?

Seguindo com a maratona de Godzilla, chegamos ao segundo filme da era Showa. Godzilla: Raids Again. Um longa que sai apenas um ano após o original, em 55, e que tenta ser a sequência direta do clássico.

E coloco ênfase nesse “tenta”. O filme é literalmente uma sequência, porem elimina diversos fatores que fizeram do primeiro um sucesso. O cast inteiro foi trocado, com exceção de breves aparições de Takashi Shimura. A direção passou do incomparável Ishirō Honda para Motoyoshi Oda. E o que muitos consideram a pior parte. O roteiro remove quase que 100% as menções a armamentos nucleares, guerra e preservação de espécies, deixando apenas o mínimo possível para ser considerado uma sequência.

E agora você deve estar se perguntando, afinal, sobre o que é esse filme? E eu posso dar duas respostas a isso. A primeira é que se trata de uma tentativa de lucrar em cima do grande kaijuu, iniciando assim a leva de filmes “Godzilla Versus” com a primeira aparição do monstro Anguirus.

O embate entre os monstros é mostrado de forma muito estranha, colocando eles como antigos rivais. Tudo é realizado de dia, eliminando assim o terror presente no primeiro. Mas o ponto que mais me irrita, aqui entrando em spoilers do filme de 54, é que o antigo Godzilla morreu e aqui existe outro Godzilla, filho do primeiro, e acabou ai a explicação. E tudo isso dá uma sensação tremenda de filme meia boca construído as presas pra gerar grana.

As únicas coisas que se mantem do primeiro é que se trata de um filme mais sério, com grande foco nos personagens. E eu gostaria muito que isso tivesse sido removido. Pois o plot inteiro, ao menos na minha opinião, parece ser algo que deveria ter recebido um tom mais cômico com foco nos monstros, tal qual muitos filmes que veriam a seguir na série.

Digo isso pois se tirarmos que existe o monstro, o filme inteiro é sobre a vida do personagem Koji Kobayashi, interpretado por Minoru Chiaki. E eu não sei quanto a vocês, mas eu fui ver Godzilla e não esse cara. Se o enredo ainda fizesse sentido colocando o monstro no centro eu relevaria, mas se trata de uma série de cenas inúteis que tentam inutilmente construir o personagem para o grande clímax do filme. E mais uma vez o longa falha miseravelmente.

Nada tem impacto em Rides Again. É um filme tremendamente chato, sem proposito para o espectador e que apesar de ter somente 82 minutos eu tive de assistir no período de 3 dias, tamanha minha insatisfação com o filme, mais o fato de que é chato pra caralho, e repito mais umas mil vezes se precisar. É muito, muito CHATO!

Um longa tão ruim que eu quase desisti de fazer essa maratona com o segundo filme e eu imagino que seja a maior barreira existente na hora de ir atrás da franquia Godzilla. Pois todo mundo nessa altura do campeonato sabe que os filmes mudam após o primeiro, e assistir isso logo na sequencia causa a impressão de que todo o resto vai ser uma tremenda merda.

Na minha opinião é um filme desnecessário que não so pode, mas deve ser pulado. A não ser que você já seja um fã hardcore do lagarto e queira marcar os checkbox da sua listinha para dizer que viu absolutamente tudo de Godzilla.

O único detalhe que passa para o filme seguinte, King Kong vs Godzilla, é a questão do iceberg que remete ao final de Raids Again. E mesmo isso pode ser ignorado, so servindo como um misero detalhe que tenta ligar os filmes.

Mas enfim, o pior acabou, ou assim espero. No próximo texto dessa maratona vou encarar o “clássico inusitado” King Kong vs Godzilla. Que já adianto, é melhor do que eu esperava. E que comparado a Raids é uma obra de arte.

On the Screen: Godzilla (1954) – A era do grande kaiju começa!

Recentemente resolvi rever Godzilla, o filme de 1954. O primeirão mesmo. Preto e branco raiz, produzido no Japão. Sei que muitos iam preferir ler sobre um filme mais moderno, como os Godzillas da Legendary, ou o Shin Godzilla do Hideaki Anno, diretor de nada mais que Evangelion. Até porque batem sempre na mesma tecla de “vejam o clássico” e “ele é sobre bombas nucleares”.

So que sim, vejam os clássicos, e sim, tem as paradas da bomba sendo referenciadas, e isso é foda. Não tem como fugir disso, até por estarmos falando de um filme da década de 50, cheio de efeitos práticos que ainda assim convence muito. Acredite, saber que é um homem numa roupa de borracha destruindo maquetes não muda o fato de que aquele é Godzilla.

A presença do monstro é assustadora, e isso para mim faz o filme. Pois enquanto o gigante se esconde as pessoas pesquisam e comentam a respeito dele, quase que como se fosse um deus antigo de Lovecraft. Não tem jump scare, gore ou truques baratos modernos. É um monstro clássico, e isso deveria bastar.

Pois é através dessa formula que ele consegue agradar, ao meu ver, quem busca terror, sci-fi ou um monstrão detonando tudo. Sejá você adulto ou criança, Godzilla é um prato cheio e merece sim o status que possui. Porém, por mais obvio que seja dizer isso, não é para todos e vale algumas ressalvas. Talvez até mais do que vangloriar de pé.

Eu acho que o filme envelheceu muito bem, não apenas nos efeitos. Mas existem momentos em que a época da película fica aparente, fora o fato de ser preto e branco. Acho que é uma barreira que muitos deveriam romper, mas ainda assim uma barreira. Porém o ponto negativo principal fica com o ritmo e atores.

É um filme lento e as cenas de destruição talvez durem mais do que devia. Novamente algo que cai no gosto pessoal, mas que vale a menção. Até porque quando eu era mais novo eu dormia tentando ver Godzilla.

Já quanto os atores, eu não diria que são todos ruins. Gosto muito da atuação de Takashi Shimura, por exemplo. Porem existem cenas em que que os personagens recebem cortes bruscos para mudar de um sentimento ao outro, como por exemplo indo de susto para choro. Não fica natural. E isso é extremamente evidente quando Momoko Kôchi está contracenando.

E isso pode ser erro dos atores de não conseguir fazer a sena sequencialmente correta, como pode muito bem ser uma falha do editor. Sei que é um cargo na produção muitas vezes ignorado, mas é um dos mais importantes na hora de definir se o filme tem um visual de amador ou não. Pois imagine se o Gozilla teleportase pelo cenário o quão ruim seria? Um bom editor evitaria essa sensação mesclando bem as cenas, e infelizmente isso não ocorre com certos atores.

Mas graças a deus nenhuma dessas coisas que menciono são uma constante. O filme é extremamente divertido e interessante. Se você é adulto vai notar a sutileza do plot sobre armamentos nucleares e guerra, enquanto uma criança se divertiria com o monstrão soltando fogo e pisando em prédios. Tanto que após um tempo os filmes seguiram por esse caminho de tentar levar as telas algo mais “infantilizado”. Na falta de outra palavra.

Se isso é bom ou ruim? Olha, depende do filme. Eu gosto muito do tom sério do primeiro, mas o segundo filme tem um plot tão sem graça que eu preferia que fosse algo esculachado. Cada filme tem seu estilo, uns mais zuera que os outros, e é por isso que pretendo continuar essa viagem pelo universo de Godzilla. E quem sabe ao terminar as eras eu não faço um resumo delas como pretendia no começo, não é?

On the Screen: Neon Genesis Evangelion – Do mindfuck ao The End.

Anos atrás, quando eu comecei a entrar no mundo dos animes, Evangelion era uma das maiores febres da internet. Desde então sua relevância não caiu nem um pouco, sendo hoje considerado um dos maiores clássicos da animação japonesa.

E não é para menos. Toda a estética do anime, enredo e personagens chamam muita atenção, sendo possivelmente uma das obras mais memoráveis. Dita por alguns até como uma desconstrução dos mechas ou uma reação “noventista” a segunda guerra mundial e as bombas atômicas.

Da pra se tirar muito desse anime, seja analisando a superfície ou até mesmo pausando e lendo pequenos detalhes ao fundo, reparando em sombras, ou como já dito tentando entender como o contesto histórico influenciou na obra. Daria que até da para fazer paralelos com religião e com a psique do próprio diretor, bastando apenas pesquisar mais a fundo.

Porem isso muitas vezes não é algo que se nota numa primeira assistida. Como falei logo no começo, Eva foi um dos primeiros animes que eu assisti, e eu queria entrar um pouco no contesto dessa primeira vista antes de prosseguirmos.

ASSISTINDO PELA PRIMEIRA VEZ

Evangelion me foi introduzido por um amigo no Yahoo Respostas, e podem rir disso. Eu era novo na internet, finalzinho da era discada, e era noob total se tratando de animes. Eu conhecia no máximo Dragon Ball e Yu Yu Hakusho, sendo as coisas mais “underground” que eu consumi, Samurai Champloo, Kimba e aquele anime horrível de Ragnarok. Tudo na TV aberta.

Logo eu aceitava sugestões de qualquer lugar, e poxa, tem lá um site de perguntas né. E podem me julgar o quanto quiserem, mas o povo lá realmente tentava encaminhar pro “caminho otaku” da forma correta, ou em outros termos, não recomendavam apenas modinha.

Conheci muita gente legal lá, que me apresentaram o My Anime List e obras como Trigun, FMP e Ergo Proxy, que hoje são mais mainstream, mas que na época era algo mais abaixo. Não diria que se tratava de algo “true underground” com pouca fanbase, mas era certamente longe do topo.

No meio dessas indicações me falaram de Evangelion, mas da seguinte forma. “Já que você gosta de ação, tem um anime de robôs muito foda, com história legal, que vai ficando confuso, mo mindblow, e que não tem final. Os dois últimos epis não valem. Ah, mas vc pode pular esses e ver o filme que é final verdadeiro. ”

Me pergunto quantas pessoas já ouviram uma descrição assim. Parece até aquele meme do Twitter de “descreva seu anime favorito da pior forma possível”. Dizer que tem ação e algumas partes confusas é ok, mas aqui se trata mais da forma como é dita. Pelo que ele descreveu eu interpretei que seria um anime bom de ação que vai ficando cada vez mais difícil de se entender e que termina de uma forma muito ruim. Para que eu iria ver isso?

Ignorei completamente a indicação. Vi lá meus Samurai 7 e meus Hellsings. Consumi do mais falado ao quase rejeitado, ao menos se tratando do que entrava no conhecimento desses meus amigos, e no fim, na falta do que ver, resolvi pegar Evangelion. Eu já era menos birrento quanto a plot, digamos, e me achava o conhecedor da arte nipônica. Logo, porque não?

Bem, eu não diria que eu era otakinho na época, mas eu assistia animes por um único proposito nesse período. Lutas fodas. Eu gostava de enredos mais complexos, mas se não tivesse aquela luta fantástica de cair o queixo quem caia mesmo era minha vontade de continuar.

Vi o início de Evangelion e segui até aparecer a Asuka. Eu gostei das lutas, mas todo o restante me incomodava. Me dava uma sensação ruim de ver as ações do Shinji e eu sentia um pequeno indicio de depressão vendo a obra. Já o enredo, ignorei, dei o fodesse.

Assisti mais um pouco, não me recordo até qual momento, mas acredito ter sido até o episódio 11, pois ao rever o anime foi até esse ponto que eu tinha algum tipo de lembrança. Mas eu vi tudo, não me entenda errado. Eu parei nesse pedaço e depois fui vendo espaçadamente, empurrando cada vez mais, ao ponto de que assisti algo extremamente picotado e cada vez sem nexo. Eu não conseguia mais juntar o que aconteceu em cada episódio, nem mesmo se tratando dos pontos mais básicos.

Nisso veio os 3 últimos episódios. O episódio 24 é algo que eu me recordo, ao contrário dos outros 15 episódios após o 11º, mas não como algo bom. Eu lembrava desse como sendo algo muito ruim que me incomodou bastante e me deixou mega confuso. E na sequencia temos os episódios 25 e 26, ditos como o mindfuck supremo que deve ser pulado. Imaginem minha reação naquela época a esses 2 episódios. Eu passei a odiar Evangelion, apesar de não o fazer abertamente. Isso pois eu me sentia inferior aos outros por ter entendido absolutamente nada da obra. Ergo Proxy era um passeio comparado a isso.

Anos se passaram, e minha opinião sobre Eva mudou. Eu lembrava desses episódios iniciais como algo muito bom e literalmente apaguei da memória todo o resto, exceto aquela sensação de que era algo confuso e maçante. Mas então 12 anos se passaram, estamos em 2019, e minha mentalidade mudou muito, então porque não assistir para valer e analisar a abra? Foi o que pensei. E olha, acertei em cheio.

REVENDO EVANGELION

Parece piada o que vou falar agora, ainda mais depois de toda essa história, mas ao assistir Eva novamente eu passei a gostar imensamente do anime, ao ponto de que agora eu afirmo com certeza de que essa é uma das melhores obras de animação japonesa que eu assisti. E isso vindo do cara que tinha tanto ódio de Evangelion que isso virou meio que um repelente de todo e qualquer anime do gênero Mecha.

E vamos começar por isso, os mechas. O ponto no qual afirmam que esse anime é uma desconstrução do gênero. Isso pois os robôs Eva não são uma construção inteiramente mecânica, sendo em boa parte algo biológico, como um organismo aliem. E eu acho isso fantástico, pois os próprios robôs existirem e serem os únicos capazes de destruir os ditos anjos é algo extremamente relevante ao plot.

Essas maquinas gigantes não estão ali apenas para serem a “armadura de combate” dos protagonistas. Não são apenas uma casca de metal sem vida para garantir sobrevivência num meio inóspito. Esses mechas evoluem junto dos protagonistas. Não num viés de super robô escrachado como em TTGL, mas como se os próprios Evas fossem personagens com histórias e segredos a serem descobertos ao decorrer da trama.

E o mesmo pode ser dito da organização NERV, a qual comanda as operações realizadas pelos Evas. E eu sei que falar que uma organização evolui é bem mais crível do que apontar esses detalhes num robô, mas ao mesmo tempo é ainda mais bizarro dizer que a organização é um personagem. Afinal, não seria melhor afirmar que são os personagens dentro da organização que a refletem?

Até certo ponto sim. De Ikari, o comandante da NERV, para baixo, a organização e definida por esses personagens e suas ações em cada uma das áreas que eles exercem, tendo conflitos diversos e sim, evolução. So que existe um outro grupo de pessoas acima de Ikari, chamado de SEELE.

Com exceção do inicio do anime e algumas cenas do diretor Keel Lorentz, todos os membros da SEELE são representados por monólitos, e são eles que ditam por cima tudo que deve ocorrer na organização. Não estão literalmente ligados a parte de combate e pesquisa dos Evas, mas são eles que dão o veredito final a diversas questões, inclusive no âmbito internacional e envolvendo outras centrais.


Nesse ponto devo admitir que não entendi bem se eles, SEELE, são realmente os superiores da NERV ou alguma organização internacional, similar a ONU. Isso so ficou claro ao ver o filme The End of Evangelion. Portanto, peço que leiam até a parte do The End desse texto.

E é esse grupo de pessoas que eu considero definitivamente um personagem, incluindo Lorentz. Eles têm vozes e opiniões diferentes, mas sempre são vistos discutindo o mesmo assunto, de forma que fica difícil de não os associar a uma única entidade, mesmo que não seja algo factual. Isso somado a representação deles, faz até parecer ser uma única pessoa com múltiplas personalidades, ainda mais se levar em conta que eles nunca desviam muito do raciocino e sempre chegam ao mesmo resultado.

Mas voltando a NERV.  Essa organização tem uma cadeia de comando bem distinta com comandante, vice comandante, chefe de operações, inspetor, e assim vai até chegar nos child (criança), representados por Rei (First Child), Asuka (Second Child) e Shinji (Third Child). Ou em outros termos, os pilotos dos mechas. Sendo a própria nomenclatura deles mais um mistério da trama.

E assim segue Evangelion com diversos mistérios em cima dessas questões de organização, Evas, Childs, Anjos, entre outras, que vão cada vez se aprofundando mais ao decorrer do enredo. Mas sendo os principais e mais interessantes mistérios, ao menos para nos telespectadores, aqueles que envolvem a psique dos personagens.

Não temos aqui um anime com tropes claros de cada arquétipo de personagem. Cada um dos integrantes da NERV, e não incluo apenas as crianças nisso, tem segredos ou apenas detalhes que são escondidos de quem assiste até o momento H, para assim causar um maior impacto. E é através desses pontos, mais os conflitos subsequentes que ocorrem no presente, que vemos a fantástica evolução desses seres que não são nem heróis nem vilões.

E sei que pode parecer estranho tocar nisso so agora, mas vamos ao plot em si. Eva começa com o chamado Segundo Impacto sendo algo bem recente. Um evento quase apocalíptico que destruiu uma área considerável do mundo, e que na sequencia fez com que os Anjos, inimigos da humanidade, voltassem a aterrorizar o planeta. Agora cabe a NERV e aos pilotos do projeto EVA acabar com essa ameaça.

Por tudo que eu falei até então esse parece ser um plot bem raso. Ele é centrado numa ideia bíblica envolvendo coisas como Adão e Eva, lança de Longino e Manuscritos do Mar Morto, até a óbvia reinterpretação do Juízo Final. Porem para aqueles que não estão tão ligados a religião, fica de fato algo de difícil interpretação, e para mim ao menos os acontecimentos que se deram por sequência são apenas referências e no mais o clichê de monstro da semana.

Sei que deve ter algo mais profundo quanto a vinda de 13 anjos e a tentativa de proteção do mundo. Mas para mim foi exatamente o que eu falei. Monstro da Semana. Não consigo pegar a fundo essas partes bíblicas, mas ao menos posso notar a influência de Tokusatsus, Gundam e até mesmo Ideon.

Para saber mais sobre as influências de Evangelion recomendo ler esse Thread e depois ir atrás das obras. https://twitter.com/Nintakun/status/1067398232702107650

E é nesse mundo de monstro da semana que a gente conhece melhor cada personagem, so que de uma forma meio distorcida, digamos. Shinji é aquele principal medroso. Algo visto em obras B como Deadman Wonderland e Mirai Nikki. Mas não apenas por ser um cagão sem poderes que vai ficar no plot quase que como observador. Não. Ele é o mais forte, mais capais, porém mais indeciso e traumatizado. Tem um motivo para ele agir assim, e é por isso que eu não entro no grupo seleto de pessoas que detestam o Shinji.

Ao menos colocando aqui meu ponto de vista sobre o personagem no anime, e excluindo o filme por agora.

Shinji para quem não sabe é um dos protagonistas mais odiados pelos otakus, por conta dessa atitude de bunda mole. O cara que não quer fazer as coisas. So que ele está num contexto muito bem explicado, crível quanto ao afastamento dele e que disponibiliza meios dele se defender, sendo, portanto, um personagem mais incluso em seu próprio mundo, digamos. Ao invés de um chorão que sobrevive por ter amigos fortes.

Fora que a mentalidade dele vai evoluindo de uma forma fantástica ao decorrer da série, segurando bem a tocha de protagonista. Tendo alguns episódios bem marcantes com apenas ele sozinho, em momentos de depressão.


Uma das minhas partes favoritas do anime, sem dar spoilers, e uma que começa com o Shinji falando “Isso é cheiro de sangue?” E o resto do episódio segue sem se desvencilhar dessa única frase, terminando com o shinji aproximando seu braço da face e falando “O cheiro de sangue não sai”.

Já a Asuka é outra história. Muitas pessoas também detestam ela, e no decorrer do anime eu consegui muito bem entender o porquê. No início eu achava ela apenas uma garota metida, que escondia seus sentimentos e que estava sempre feliz.

So que Asuka evolui tanto quanto o Shinji ao decorrer da série, mostrando sua completa arrogância, traumas e todo o resto. Ela vive uma vida falsa, e se sente frágil o tempo tonto. Existe de fato um porque muito bom de ela tentar sempre ser a melhor e buscar superar o Shinji. Mas eu não consegui não ter raiva e sentir uma certa pena dela, principalmente próximo dos últimos episódios.

Meu momento favorito da Asuka é algo que vai na contramão de todo o resto do anime. Tem um episódio que ela e o Shinji tem de treinar juntos para amplificar a sincronização com os mechas, e eles fazem isso praticando dança sincronizada. O episódio acaba com eles dois lutando em sincronia num bale orquestrado de forma brilhante.

Então temos a Rei. E eu sinceramente não tenho uma opinião sobre ela, sendo está a favorita do público. Talvez por ela ser usada mais como uma ferramenta de narrativa do que como um personagem em si, o que me fez enxergar ela como algo mais próximo aos EVAs desde o começo do anime.

Rei certamente evolui, mas o lance de ter sentimentos reprimidos faz com que essa evolução seja inconstante, e eu particularmente acho que personagens secundários como Ikari e Ritsuko trazem mais a mesa quanto ao lance de sentimentos e drama, mesmo ambos também sendo bem fechados e tendo um papel mais focado em como comandam suas respectivas áreas.

O ponto de maior impacto se tratando de Rei e um pequeno momento em que ela aperta os óculos de Ikari e caem algumas lagrimas. Algo extremamente rápido, mas com uma mensagem bem importante quanto a personagem, e que reflete bem como a sua evolução é mais fechada.

Sei que muitos não consideram, mas eu acho a Misato uma personagem com grau de protagonismo bem maior que a Rei. A chefe de operações da NERV e tutora de Shinji e Asuka passa por algumas das evoluções mais impactantes de todo o anime e é a responsável pela maioria das interações com o restante da NERV.

Fora isso temos o triangulo amoroso entre ela, Ritsuko e Kaji, com direto a intervenção de Asuka e Shinji em alguns momentos mais inocentes. Gosto muito desses períodos mais slice of life que o anime proporciona vez ou outra. E eu adoro como que o Kaji é quase que parte integrante da personagem da Misato.

Para mim o mais impactante em Misato não é um momento, mas a construção para um momento. É ela guardar muitos segredos, ao mesmo tempo que desconhece tantos outros e busca a verdade. Isso leva a uma das cenas de maior drama da obra.

Ou seja, todos os personagens da trama são imperfeitos, com fortes sintomas de depressão, traumas e meio que sem um objetivo de vida. Nenhum deles está na NERV para salvar a humanidade, mas sim para realizar objetivos egoístas, assim nos fazendo refletir sobre a essência do ser humano.

Não existe um vilão claro. Todos os personagens demonstram poder ser capazes tanto do bem como do mal, mas não de forma escrachada, e sim humana. É algo extremamente crível e relacionável. E é por conta disso que Evangelion consegue ser tão impactante.

No máximo daria para dizer que Ikari é o vilão, pois algumas de suas ações gerou sofrimento a boa parte dessas pessoas. Ainda assim ele é mais um ser frustrado, traumatizado, e que demonstra fortes sentimentos quando se trata de Rei, enquanto esconde muitos quanto ao Shinji. E isso sem contar que ele aparenta ser o mais focado na questão de salvar o mundo, não importando que sacrifícios terão de ser feitos.

E em meio a todo esse drama, as lutas meio que ficam em segundo plano. Certamente é legal ver aquelas coreografias fodas e ideias surreais para os anjos, mas é bem mais interessante acompanhar as mudanças causadas ao mundo, os conflitos internos e a evolução no psicológico das pessoas. A ponto de poder se dizer que os Anjos invadindo é meio que o plano de fundo para vermos interações humanas em cenários hostis. Num viés similar o que dizem atualmente sobre os zumbis de The Walking Dead.

E tudo isso junto, ao menos para mim, já é motivo de recomendação. E olha que eu não mencionei a trilha sonora impecável de Shiro Sagisu (Nadia, Bleach, SSSS.GRIDMAN) que usa de música clássica em diversos momentos, mas que surpreende mesmo ao incorporar barulhos que contribuem a tensão ou simplesmente cortar toda a música deixando apenas som ambiente ou em muitas vezes o completo silencio. E sim, esse silencio impacta de forma estupenda.

No tema principal temos Yoko Takahashi (Shakugan no Shana, Pumpkin Scissors, This Ugly Yet Beautiful World), cuja a música mais famosa é justamente A Cruel Angel’s Thesis. Uma das músicas mais marcantes de qualquer anime. E mal tenho espaço aqui para falar da animação. Eles trocam muito de animador, mas fica algo quase imperceptível. O mais chamativo na animação, além da fluidez das lutas, certamente e o já mencionado uso de mensagens subliminares nos fundos, os belos cenários e o corte completo de cenários mais o uso de imagens estáticas. Algo que parece besta, e que certamente teve de ser usado por corte de gastos, mas que claramente foi bem utilizado ao máximo. Graças também à direção impecável de Hideaki Anno (Gunbuster, Nadia, Valis).

Ou seja, até o episódio 24 Neon Genesis Evangelion é altamente recomendado. Mas é se levarmos em conta os dois últimos?

FINAL (EPISÓDIOS 25 E 26)

Essa é a parte mais polemica da obra, pois consiste em 2 episódios, quase que inteiros, com textos passando rapidamente, imagens piscando e dando a sensação de se mesclarem, além de muitas coisas se repetindo e outras deixadas claramente em aberto para interpretação do espectador.

Acreditasse que o motivo disso ter ocorrido seja a falta de verba para o show, ainda mais que aquilo que falei de imagens estáticas e outros efeitos, como aquilo de se piscar imagens que acabei de falar, aparece mais predominante a medida que se aproxima do final da série. Sendo os 2 últimos episódios construídos com o mínimo de dinheiro possível, repetindo inclusive linhas de diálogos e frames antigos de animação.

Porem isso explica apenas a parte da animação. Apesar de ter essa repetição de diálogos, muito do texto desses dois episódios ainda é original. Talvez algo escrito as presas, formulado para substituir o original pois não iria bater com a animação.

Ainda assim existem outras teorias mais predominantes, ao menos quanto ao enredo desses dois últimos episódios. Tem aquilo de que Anno deu realmente o foda-se pro anime e resolveu tacar ali o seu ponto de vista sobre a indústria. Algo que não descarto, pois tem um seguimento inteiramente animado do jeito clássico que parodia o início de um anime escolar, sendo talvez a parte mais digerível desse mindfuck.

Porem essa hipótese eu deixaria exclusiva para esse seguimento, e ao mesmo tempo descartaria. Pois veja, o restante desses dois episódios não encaixa na ideia de mostrar a revolta quanto a indústria. Pois realmente é passado algo dentro de contexto se prestar atenção mais a fundo.

A repetição é sim extrema, talvez para gerar a ideia de estarmos vendo um conflito interno muito grande. Tudo realmente gira entorno disso. Conflitos internos dos personagens Shinji, Asuka, Rei e Misato. São dois episódios inteiros sobre depressão, drama, trauma, e outros temas levantados ao decorrer da série, mas excluindo a ação e demais pontos relevantes apenas a NERV.

Nisso entra a teoria de que eu mais gostei, e que eu fortemente aceito, ao menos nesse momento. Que seria a de que o anime acabou de fato no episódio 24 e que tudo isso mostrado na sequência e apenas um complemento, um prologo. Algo mostrando alguns acontecimentos extras, mas que como já falei se foca demais nessa ideia da mente das pessoas, desejos, objetivos, etc.

Ao mesmo tempo outra boa teoria, que quase que complementa essa, e a de que esses trechos mais vagos e complexos foram montados dessa forma para que cada espectador encontrasse ali o seu próprio entendimento do que ocorreu no anime.

Acho isso interessante pois a parte de complemento ao enredo e notas do psicológico entra melhor no episódio 25, enquanto a parte de interpretação e o descontento com a indústria, porque não, encaixa melhor no 26.

So que isso também gera outro problema. O do 26 ser o real mindfuck da porra toda. Ele é o episódio onde tem mais disso de interpretação de cada espectador e teorias para lá e para cá. E acho que boa parte disso se deve a menção de instrumentalidade e a questionável cena de “Parabéns Shinji!”

Instrumentalidade é uma teoria surgida da teologia. E eu mesmo entendi o conceito bem por cima, por isso deixo aqui um link para melhor entendimento. (Em inglês) https://en.wikipedia.org/wiki/Instrumentality_(theology)

Pelo que entendi sobre instrumentalidade, isso entraria no contexto da obra sobre a ideia de deus e o homem terem interpretações diferentes sobre o texto sagrado, assim justificando a visão de Anno sobre o apocalipse e demais eventos, ou o entendimento de personagens como Ikari daquilo profetizado no decorrer do anime. O que por vez faria de Shinji nesse último episódio apenas um avatar do espectador, já que tanto ele quanto quem assiste está sendo teoricamente ensinado sobre a instrumentalidade.

E esse ensinamento da instrumentalidade é mais uma das teorias que tentam justificar o final. E ainda assim é mais uma que não consigo enxergar sozinha, pois como já falei é algo quase que exclusivamente pertinente ao episódio 26.

Quanto a cena do “Parabéns Shinji!”, essa eu acredito ser a parte mais sem nexo do anime. Não entendo se é uma mensagem do diretor para com os espectadores, para com a indústria ou até mesmo algo mais pessoal ou religioso, visto a linha “meus filhos”. Eu não consigo deixar de pensar que é um momento desnecessário e surreal.

A melhor interpretação que consigo dar para aquilo seria uma parabenizarão por entender sua psique, a instrumentalização, e outras coisas faladas no final e ao decorrer da série, incluindo a conclusão da parte dos Anjos. E ainda fica o questionamento se tem mesmo tudo isso interligado, ou nada, ou somente um elemento que faz sentido dentre tantas teorias.

Talvez por isso que tantos aceitem a teoria de que o final é uma grande merda, e não to brincando aqui. Falo de que o anime ficou sem verba, Anno não teve como fazer o final que queria e então tacou um monte de coisa sem contexto na tela, com uma, muitas ou talvez até nenhuma informação. Mas que se foda, pois este não seria o verdadeiro final.

Como falei antes, eu no momento inclino mais para a falta de verba e a parte sobre fechar buracos, mais o prologo sobre o psicológico de cada personagem. Isso no episódio 25 e 26. Já pensando no 26 e naquilo que apenas ele traz a mesa, ai eu realmente não sei o que pensar. A parte da instrumentalidade, se eu tiver entendido, e interessante, mas desnecessária. E acho que esse é quase que o sentimento unanime quanto ao final do anime. Acho o 25 é passável, mas quando são 2 episódios assim acho que até o mais assíduo dos fãs se questiona se não era melhor ter tido so um “mindfuck” ou ter acabado no 24.

Sei que existe ainda a questão contratual, e uma vez contratados para fazer 26 episódios não seria viável, mesmo sem verba, parar antes do 26. Mas ainda assim eu gostaria que o anime não tivesse ido tão longe nessas loucuras todas, e olha que eu genuinamente gostei dos 2 últimos episódios nessa segunda assistida.

Logo, apesar de todos os porem, eu acredito que valha sim assistir Neon Genesis Evangelion até o 26, sem pular do 24 para o filme. Principalmente por esse anime ter sido um marco histórico da animação japonesa e que vale ser assistido tanto para entender o que presam nele como para ver aquilo que consideram tão polêmico.

Quanto aquela teoria do final falso. Ela dita que o final verdadeiro seria o filme The End of Evangelion, enquanto tem uma última teoria que diz que os episódios 25 e 26 se passam na mente do Shinji, e que o filme seria os acontecimentos em tempo real. E vamos tirar a limpo se é isso ou não agora, assistindo The End of Evangelion.

THE END OF EVANGELION

E caso eu não tenha deixado claro no parágrafo anterior, eu estou escrevendo essa parte do texto após ver The End of Evangelion. Ou em outros termos, eu escrevi um monte sem realmente assistir ao final verdadeiro da série.

Sim, esse é o final, e aquilo de final falso para o episódio 25 e 26 ainda não faz o menor sentido. E sabe o que também não tem nexo? O final da série ser os pensamentos de Shinji e o filme ser as ações do rapaz.

Colocando um pouco mais em contexto. Em boa parte de The End o Shinji fica estático. Parado mesmo, e temos cenas similares com Asuka, mais algumas outras um tanto quanto surreais com Rei, e isso sem entrar em spoilers. Falando primeiramente de pontos que poderiam ter os tais pensamentos, os quais por vez seriam os episódios finais do anime.

So que o primeiro contra-argumento aí seria exatamente esse da Asuka e da Rei. Ambas claramente têm seus arcos de pensamento nos episódios 25 e 26, não apenas o Shinji. E a Misato também tem um arco de reflexão, e no END ela não para um segundo para dar tempo de alguma reflexão mais complexa. Um trejeito bem natural da personagem.

Quanto aquilo de ser o final verdadeiro. Eu diria que ambos são o verdadeiro, so que THE END e o final melhor elaborado e com algumas mudanças. Da para notar isso em parte dos diálogos e por conta de cenas praticamente iguais, so que agora colocadas num melhor contexto, sendo elas aquelas que fechavam pontas no enredo ou que trabalham o já mencionado psicológico do Shinji. O que talvez tenha causado essa confusão quanto a ser um sonho ou pensamento do protagonista.

Isso por vez dita que os episódios finais da série têm revelações relevantes quanto ao filme, e que, portanto, não seria de todo mal pular os episódios 25 e 26 para evitar o spoiler ou simplesmente “fugir” do mindfuck. Ainda assim, eu que vos escrevo, permaneço com a ideia de que se deve assistir o final da série por se tratar de algo que marcou a história dos animes, e para notar o quanto conseguiram fazer com tão pouco. Sem contar que é divertido ver e bolar teorias e os tais spoilers não atrapalham nem um pouco.

Outro ponto a favor disso de ver os finais E o filme, mesmo o filme sendo literalmente duas partes intituladas episódio 25 e episódio 26, e que o longa também é bem confuso. Parece que Hideki Anno planejava sim desde o começo explodir cabeças, e boa parte das pessoas, independente do que assistir, ainda vai ficar bem confusa.

So que o filme também tem os seus pros. Enquanto o final da série mostra um incrível malabarismo de orçamento e apresenta pontos diversos a serem pensados, alguns que nem ao menos são mencionados no filme, a película completa o enredo com um visual deslumbrante, mais digestível, e com muito mais informações pertinentes.

É apenas em The End of Evangelion que vemos e entendemos o final de cada um dos personagens, excluindo completamente o “Parabéns Shinji!” que agora mais do que nunca acredito ter sido uma mensagem pessoal disfarçada. Porém o filme também remove a conversa sobre instrumentalismo e a cena em que Anno dá um esporro na indústria. Dois pontos desnecessários, principalmente no viés de entretenimento, mas que se mostraram no mínimo interessantes.

Voltando ao filme, ele completa o arco de todos os personagens, deixando mais clara a relação que cada um tem com o próximo, sendo as maiores evoluções referentes a Shinji, Asuka, Rei, Misato e Ikari.

Esse último chega a ser algo surpreendente. Pois sabemos de seus sentimentos para com Rei, mas nunca foi de fato mostrado o porque ele fez tudo aquilo, e o filme entrega numa cena perfeita tudo que Ikari foi ao decorrer do anime, o tornando um humano ainda mais falho, e o removendo daquela visão de que ele era o grande vilão.

Na verdade, quem se volta mais para o papel do vilão é a organização SEELE, que erroneamente eu achei ser parte da NERV. A relação das duas fica bem mais clara no filme, apesar de que aquele papo de serem personagens ainda se encaixa perfeitamente. Sendo que o enredo do filme gira exatamente entre o conflito interno de ambas. E devo ressaltar, feito de forma brilhante, ao mostrar que o humano sempre é seu próprio inimigo, seja por atos bélicos, seja por traição, seja por conta de sua própria mente.

Também entendemos melhor por conta do filme o ocorrido no episódio 24, e as implicações do passageiro personagem Kaworu, e temos como bônus um novo prologo. Tudo isso junto resultando num filme fenomenal, com ação, mindfuck, depressão, e todo resto que fez da série tão popular.

E quanto aos principais… SHINJI E UM DOS MAIORES FILHOS DA PUTA DOS ANIMES! Sério, eu tinha de tirar isso do peito. Voltei a gostar um tanto mais da Asuka, e a Rei finalmente parece ser mais relevante do que uma boneca de porcelana que abre a boca vez ou outra. Mas dentre todas as mudanças apresentadas no filme, a maior obviamente foi a do protagonista. Eu achava o Shinji um personagem ok no anime e agora penso seriamente que ele deveria ter morrido uma morte horrível.

Isso que falei acima é extremamente pessoal, e eu não garanto que você vai ter a mesma reação. Eu apenas não gostei do personagem no filme, e acho que boa parte disso é por ele ter tido meio que uma recaída quanto a sua evolução. Sei que é algo que faz sentido mediante o que acontece no episódio 24 e que encaixa perfeitamente no plot, mas EU não consigo gostar. Ele vira mais um instrumento de movimentação do enredo, mais do que a própria Rei, e já sabem minha opinião quanto a isso.

Tem outros detalhes mais cruciais a trama que eu não gostei, mas não vale ressaltar por revelar muito sobre o plot. O que vale dizer aqui é que o filme é bom. Entretém e faz você pensar, seguindo à risca a qualidade da série e demonstrando com primor todas as ideias depressivas e existencialistas de Anno. E, portanto, eu também recomendo o filme, ou melhor, o considero crucial.

No fim eu acabo enxergando Neon Genesis Evangelion com outros olhos. Uma visão mais madura e um tanto quanto focada na análise. Aquele tipo de olhar que busca um algo a mais, e que nesse caso a serie realmente entrega. Eu acho esse um anime quase que perfeito, centrando meu porem quase que exclusivamente nos últimos episódios e no filme, tirando algumas questões menores, como o que aconteceu com os amigos do Shinji. Logo recomendo Evangelion na integra a todos, como um grande fã de animes. Mas ressalto que você deve esperar um plot depressivo, confuso e surrealista, com cenas de gore e relações abusivas. No restante, vejam.

Por fim, so para esclarecer uma pequena polemica quanto ao início do filme vou dar aqui um pequeno spoiler. O review já acabou nesse ponto e você não precisa ler.

The End começa com o Shinji tentando acordar uma Asuka em coma, e em certo momento ele vira o corpo inerte da garota com raiva, assim deixando a mostra os seios e a calcinha da garota. O filme corta, em certo momento mostra a porta trancada, e quando volta Shinji está com as mãos sujas de goza.

Algumas pessoas interpretaram a cena como um estupro, mas não acho que seja esse o caso, pois o corpo de Asuka não foi movido. Shinji deve ter se masturbado com aquela visão, e logo após solta um “i’m so fucked up.”

Não estou aqui justificando a ação. Essa cena é um dos motivos pelo qual eu não gosto do personagem. Todo o tratamento que ele dá para a Asuka no decorrer do filme é de abuso, claramente. E sei que existe o lance da atração de um pelo outro, e que também existe a raiva predominante em ambos. São cenas que fazem sentido no plot, e termino aí.

Se você se sente incomodado (a) por esse tipo de situação, evite o filme. Eu particularmente não achei pesado, e acredito que a mensagem proposta pela cena seja exatamente a da frase “i’m so fucked up.” Mostrando mais uma vez o lado sujo da humanidade e o quanto esse protagonista e o tremendo de um merda.

GOTH VS GOTH: Love of Death

GOTH não é lá essas coisas. Aquele típico mangá de 5 capítulos com cara de cancelado, mas que na verdade adapta outra mídia. Nesse casso mais uma das milhares de novels japonesas que nunca vão dar as caras por aqui no ocidente, a não ser que tenha o nome Haruki Murakami no meio.

O livro é assinado por Otsuichi (Hirotaka Adachi), um autor que se especializa em histórias curtas de terror e mistério, e que tem exatamente como sua obra mais famosa Goth, a qual foi amplamente premiada e adaptada. O que me deixa com uma pulga atrás da orelha quanto a qualidade integra da obra, sendo que só pude ir atrás do mangá, ao menos a princípio.

Veja bem, existem diversos pontos positivos na publicação da Shounen Ace. O traço de Kenji Ooiwa é muito bom, perfeito para cenas de gore. Mesmo que muito pouco do mangá se utilize dessa apresentação mais macabra. Culpa do estilo dos casos, eu diria. Ao invés de descobrir quem criou uma abominação de carne e sangue, quase que como apresentando uma obra de arte deturpada, foi escolhido aqui que as histórias subsequentes teriam como foco apenas o sequestro de uma das principais, Yuro Morino. E é aí que começa os problemas.

Por um lado, eu entendo a parte do gore ter sido colocado a escanteio. Era um desejo do autor não mostrar os detalhes das mortes por achar que isso retiraria o gosto da leitura. Ainda assim fica muito estranho terem aprovado cenas tão grotescas a nível de Hannibal logo no início de um shounen. Sim, eu ter mencionado a Shounen Ace não foi à toa, e o pior, nada disso e especulação. O próprio autor do livro publicou uma carta a respeito disso após o último capítulo.

E foi nesse mesmo posfácio que ele explicou a ideia por trás da obra e da natureza dessa mudança de um mistério sobre corpos para um focado nos sequestros de Yuro. Talvez tenha ocorrido uma divergência na tradução, e a parte sobre o gore se refere a tal mudança, visto que as histórias subsequentes mal criam um cenário para uma apresentação mais grotesca. Porém o que mais se destaca nessa fala do autor e o seguinte trecho, que coloco a seguir adaptado para o português.

“O enredo de GOTH tem um conceito simples. A heroína e sempre sequestrada pelo monstro e o herói vai salvá-la. Essa ideia já foi usada amplamente em histórias mais antigas do gênero fantasia. Porem na minha história, personagens como espectros, demônios, vampiros e lobisomens foram substituídos por criminosos inusitados e cruéis.”

Eu entendo a ideia de querer mudar algo a muito estabelecido, porem isso acabou sendo o ponto mais fraco da obra. Colocando Yuro para ser sequestrada e deixando Itsuki Kamiyama como apenas o cara que aparece na hora H, estraga demais o clima da obra. Isso pois tudo acaba sendo ainda mais previsível, o que consequentemente gera certas soluções inconcebíveis para que ocorra o tal resgate “romântico” seguido de uma explicação a lá Sherlock Holmes.

Um clichê continua sendo clichê, independentemente de você alterar um elemento aqui e ali, e o resgate da princesa e um dos mais manjados, seja em livros, mangas, filmes ou até mesmo jogos. Normalmente quando a obra funciona não é porque o clichê foi “reformulado”. Ela funciona, pois, o autor soube escrever o restante do enredo de forma que o clichê teve um bom uso. Foi bem aproveitado por assim dizer.

Enquanto em Goth o tal clichê da princesa e basicamente tudo. Todo capitulo Yuro vai ser sequestrada e Itsuki vai salvar ela no momento H, como já bem falei. Não existe desenvolvimento de mais nada. E o pior, a Yuro so tem alguma evolução no final do mangá, enquanto Itsuki foi muito bem apresentado no capitulo 1, com um enredo que foge desse clichê e que foi bem mais interessante, para então ser descartado em prol da ideia mirabolante do autor. Palmas para isso, só que não.

E eu acredito que nem preciso tocar no quão machista tudo isso soa. Alguns vão dizer que isso é normal na sociedade japonesa ou que não devo ligar pois se trata de um título de 2003. Porem fica difícil defender o autor quando além dele colocar Yuro como fraca, física e mentalmente, e deixar diversos homens como os alfas que pensam e manipulam, ele taca a protagonista em uma das capas de capítulo num traje erótico de sadomasoquismo.

Itsuki, como já bem falei, é o personagem mais interessante, sendo um tipo de detetive mórbido, frio, e que aparenta ele próprio ser um assassino. E os mistérios não são de todo mal. Existem momentos bem intrigantes, principalmente no porquê de cada vilão ter feito o que fez. E a arte realmente ajuda, dando o tom gótico que a obra necessitava.

Ou seja, parece que faltou adaptar melhor ou expandir mais o apresentado. Talvez evoluir a figura de Yuro transformando ela posteriormente numa espécie de sucessora de Itsuki, ou quem sabe criar algo menos episódico e mais sequencial, com um clima de intriga, explorando essa suspeita de que Itsuki pode ser um assassino, criando assim um clima e talvez ritmo mais próximos de algo como Death Note, que acredito ter uma ambientação gótica muito boa.

E falando em algo gótico, talvez esse seja o ponto mais interessante do mangá. Apresentar a ideia de que se vestir de preto e usar certas maquiagens não e ser propriamente gótico. Mas sim que o gótico seria aquela pessoa que se sente atraída por coisas mórbidas. Tanto que os personagens da obra não se vestem espalhafatosamente, seja seguindo a moda gótica americana ou japonesa.

Mas enfim, me repetindo aqui. Interessante no mínimo, sendo uma possível diversão rápida para alguns, mas nada que vai mudar sua vida. E foi esse ponto de ser interessante, e talvez bom, caso apresentado de outra maneira, que me fez ir atrás do filme de 2008, intitulado GOTH: Love of Death. Ao menos a parte de romance dos protagonistas seria aprofundada se tem um título desses, certo? CERTO?

Na real não, e eu pouco me importo. XD Falei mais por brincadeira. Existe um certo tom de romance platônico presente nas duas obras, so que de forma que a parte platônica está para ambos, o que não faz muito sentido. Acredito que Yuro e Itsuki estejam juntos mais por conta de seus interesses incomuns. Algo que certamente é melhor explorado no filme.

E sabe o que é melhor no filme? Yoru, ao menos ao meu ver, entra mais como uma principal, mas sem roubar o tempo de tela de Itsuki, assim parecendo que os 2 se complementam, ao invés de gerar aquela sensação de que o garoto apenas usa da menina. E eu particularmente gostei muito de ver eles juntos assim.

So que aí vem a pergunta chave. O filme é melhor que o mangá? Mesmo com essa presença maior de Yoru e a “correção” do personagem Itsuki, a resposta é um grande TALVEZ. E eu digo isso pois este é um daqueles filmes “ame ou odeie”. E não é por conta do roteiro ou atuação.

Aqui o ritmo que dita se você vai ver até o fim ou tacar um foda-se. Pois é uma película extremamente lenta e com diversos momentos mais parados de reflexão. Como se o intuito desde o início fosse apresentar algo leve e charmoso, quase que corriqueiro, trazendo aquele tom de slice of life real. Imitando a vida mesmo.

So que ainda assim com uma atmosfera bem surreal e com alguns momentos de pura loucura que são complementados com a estranha forma de agir de cada um dos personagens e pelo cenário gótico / macabro de algumas localidades.

As mortes por outro lado foram muito amenizadas, assim seguindo bem a visão original do autor. Porém, perde-se impacto nelas e o uso de manequins, que são bem óbvios, chega um pouco ao ridículo. Eu particularmente não me importo tanto, visto que a produção cheira a baixo orçamento. Mas acredito que dava para se fazer algo melhor com efeitos práticos.

E falando em efeitos. O filme usa alguns jogos de câmera bem interessante, incluindo one-shot, que é basicamente filmar algo mais longo sem cortes. Melhor que isso eu diria que são as partes que se filma a luz, o que parece ser um puto descuido. Mas que no fim tem um proposito muito grande que não posso entrar em muitos detalhes. Mas resumindo, e verão no Japão.

A parte mais bem trabalhada, porem, e o final quando se descobre o assassino. A cena inteira é muito surreal e com base certeira no livro. Algo que digo aqui por ser uma cena bem similar a do mangá em diversos aspectos. So que com pequenos detalhes sutis que tornam tudo mais fluido. E então no desfecho disso temos uma música foda tocando, efeitos de luz e vento. Papeis se rasgam, segredos são revelados, e tudo o que Itsuki faz e andar em câmera lenta, numa cena incrivelmente bela e marcante.

Da para ver claramente que Gen Takahashi tentou ao máximo transformar GOTH em um filme arte, mesmo com o baixo orçamento. E eu particularmente gostei mais do filme. Juntar os melhores trejeitos de cada vilão em um, mais detalhes de cada um dos mistérios e acrescentar pontos de ligação, tornando sequencial como eu bem queria, foi perfeito.

Ainda assim volto a reforçar, o roteiro de nenhum dos dois é algo de outro mundo. Particularmente eu recomendaria o filme, mesmo sendo raro de achar. Mas vai depender se você quer algo rápido para passar o tempo ou algo lento e que tenta ser mais artístico. A escolha é sua, e sinceramente não ir atrás de nenhum dos dois também é uma ótima opção.

Vou voltar a escrever sobre animações

Review de anime no YouTube não rola.


Alguns dos vídeos publicados no Nanquim Animado

Então, eu já avisei no Twitter, mas deixando claro a todos, eu resolvi desistir do Nanquim Animado. Para quem estava por fora, o NaAn, como gosto de chamar, era um canal focado em animes que eu criei esse ano. E no começo foi tudo às mil maravilhas. Eu acho que daria certo, não nego. Mas por mais que eu fosse elogiado ou recebesse um “sempre fui fã” eu não sabia como escapar dos flags e strikes.

Colocando em contexto, quando se faz o upload de um vídeo ao YouTube, a plataforma analisa o seu vídeo para ver se está de acordo com as regras. Simultaneamente bots analisam o vídeo em busca de conteúdo que possa ferir direitos autorais. Coisas como anime, música, e até imagens ou logomarcas podem ferir esses direitos. E uma vez detectado você pode receber um flag ou um strike, dependendo da gravidade.

O flag pode gerar diversas repercussões. Pode proibir o vídeo de ser exibido em certos países, pode reivindicar a monetização, assim pegando todo o dinheiro de dito vídeo, pode remover o áudio por completo, e assim vai. Já o strike remove o vídeo por completo e fica marcado na sua conta. Três strikes e o seu canal inteiro e removido do YouTube.

Como enganar um bot. A ultima solução?

Renderização 3D de um robô tentando solucionar um cubo de madeira

Nos últimos meses, mais precisamente desde Julho, eu venho tentando criar conteúdo pro NaAn. Sakura, Violet Evergarden, Batman, Capitão Cueca, etc. Eu tentei fazer review de tudo que você possa imaginar, mas sempre vinha o maldito flag. Mais precisamente dois. Proibida a exibição e monetização reivindicada. Mas enfim, existem maneiras de passar disso.

A mais conhecida e você contestar o que foi marcado pelo bot com seus próprios argumentos, e por mais que eu saiba como funciona as leis de direitos autorais brasileira e americana, além de regulamentos do próprio YouTube, a minha resposta era sempre negada, digamos. Então sobrava tentar se utilizar de métodos menos ortodoxos.  

Para enganar o bot você pode diminuir o vídeo, espelhar, mudar o tempo, fazer cortes, etc. Eu tentei de tudo até que so me sobrou coisas como deixar o vídeo muito torto ou simplesmente gravar estilo vlog sem algo para ilustrar, e eu realmente não to afim de fazer isso ou buscar mais soluções. Muito menos descartar todo o trabalho que eu fiz e pular para o próximo vídeo. É algo muito frustrante isso.

O blog se chama M A N G A tom, não YouTube.

Algumas das resenhas de mangás que publicamos ao longo dos anos.

Simultâneo a essa minha tentativa falha de virar “influencer de anime” eu vinha tacando para a frente, diria que até nas coxas, o meu canal de jogos indie, o Indie-A-tom. Aos poucos eu consegui recuperar o ritmo, e passei a investir mais em games retro e green content, como é o caso dos vídeos de top.

Porem como vocês devem ter notado isso criou um novo problema. O blog aqui, o Mangatom, virou a casa da mãe joana. Tem de tudo nessa joça, menos conteúdo otaku. No blog chamado M A N G A tom. Onde já se viu isso né? Perdeu-se a identidade do site por completo. Isso pois eu vinha me focando em 3 canais, se contar o canal para o qual trabalho IRL. E sendo um destes um local praticamente inativo.

Ai no final de outubro eu resolvi acabar com essa ideia de vídeo de anime ao mesmo tempo que resolvi me focar mais em leituras de mangás usando do tempo que eu gastava em vão com o NaAn. So que eu to trabalhando, o Indie-A-tom ainda dá um trabalho do caramba e querendo ou não muitos dos mangás bons tem volumes a rodo e eu sou um cara que lê bem devagar.

Porem anime, ou melhor, não so anime, como desenhos e filmes. Seja animação americana, live action ou simplesmente coisa de weebo. São bem mais fáceis de acompanhar e de se chegar ao final, já dando margem para um bom review. Fora ser um conteúdo bem mais popular que mangá.

Eu não vou desistir de escrever sobre mangás. Hello, M A N G A tom. Mas fazer reviews de animes e todo esse resto ae me dá tempo de focar em ler com calma as obras que eu realmente quero trazer para o blog. E é pensando assim que eu oficialmente retomo o quadro On the Screen.

Espero que estejam tão ansiosos quanto eu, e espero que finalmente de certo essa bagaça. Eu mesmo já cansei de ver apenas vídeo embutido na página inicial. Da um nervoso viu.

Alguns dos poucos reviews de anime resenhados no blog

Resenha: Koe no Katachi (A Voz do Silêncio)

Koe no Katachi

Atenção: Esse texto tem como base a obra completa de 2013, assim se referindo ao ocorrido em 7 volumes.

Quando eu termino de ler algo já busco juntar ideias e ir direto escrever, mesmo que saia algo ruim, apenas para registrar o pensamento e depois reescrever contendo aquilo que achei interessante inicialmente. Mas em raras ocasiões a obra me afeta de alguma forma que me impede de realizar tal ato, seja por me fazer sentir triste, eufórico ou pensativo. E no meio disso temos Koe no Katachi, que me deixou… chateado. (?) Leia o resto deste post

Você sabe o que é Stop Motion?

Neste vídeo explicamos detalhadamente o que é Stop Motion, passando pela sua história e apresentando diversas técnicas fantásticas! Mais informações na descrição do vídeo.