Arquivos do Blog

Resenha: Gamma – E o porquê fanservice nem sempre é a escolha certa

gamma

Esse review foi solicitado por shoucobo, um dos membros do nosso grupo no Discord. Segue a gente lá também! LINK: https://discord.gg/pr2Uhu

No início Gamma me deixou com uma pulga atrás da orelha. Eu não sabia se lia, se não lia. Pois veja bem, por mais que seja indicação de alguém, e por mais que eu deva respeitar tal indicação por ter solicitado ela, o mangá tem um traço que não me agrada muito, além de gêneros que eu não tenho o costume de ler, e existe fanservice na obra, algo pelo qual eu tomei um certo desgosto com o passar dos anos. Fora ter poucos volumes e cara de cancelamento. Leia o resto deste post

On the Nanquim: O Canto das Ondas

O Canto das Ondas

No início de 2018 começamos a resenhar as obras da editora Shockdom. Mais precisamente os títulos que iniciam a linha Timed. Um universo de histórias cuja as temáticas giram em torno de poderes fantásticos que alteraram o mundo como conhecemos, assim gerando uma quase distopia, do subgênero de ficção cientifica de história alternativa. Algo que comentei ao analisar Rio 2031 em fevereiro. Um HQ que também explica muito bem os poderes “mutantes” e a redução do tempo de vida atribuído a esses “novos seres”. Leia o resto deste post

On The Nanquim: Vidas de Papel

vidas de papel.png

Para quem ainda não conhece o Vidas de Papel, esse é um HQ da editora italiana Shockdom, e o segundo da série Timed. A qual conta histórias de personagens superpoderosos, mas que possuem uma grande fraqueza, o tempo. Apesar de poderem mover montanhas eles estão fadados a morrer num tempo que é determinado no momento em que suas habilidades afloram. Podem ser anos, ou podem ser dias. Um conceito que acaba criando um mundo fantástico, o qual você pode conferir com mais detalhes no texto anterior, onde falamos de Rio 2023. Outra obra Timed fantástica.

Confira clicando aqui o review de Rio 2023.

Mas chega disso. Vamos falar de Vidas de Papel, como bem comentei no início. E é algo… complicado. Assim como Rio 2023 o enredo gira entorno da ideia de poderes dos Timed, porem se focando em apenas um indivíduo e caindo de cabeça no drama. Algo que eu desejei ocorrer desde a última leitura, porem que agora não sei se foi a melhor opção.

Digo, o potencial para o drama ainda existe, e o enredo passa isso de forma fenomenal. Não estou a desmerecer a obra. Porem a forma como tudo e contado é difícil de se assimilar. O primeiro empecilho que notamos e o visual, ilustrado pelo italiano Giulio Rincione. Pois apesar de se algo que cai como uma luva na obra, é extremamente alternativo.

Untitled-1.jpg

Falo de expressionismo e impressionismo misturado com um que de Dave McKean (Arkham Asylum, Mr. Punch). Não chega a ter o uso de materiais diversos e técnicas de fotografia, como e o caso de Dave, mas ainda assim a influência, ao menos no meio quadrinista, e óbvia. Talvez para uma melhor adaptação aos quadros.

Quando não é isso temos rabiscos. As vezes sozinhos, mas muitas vezes imersos no restante da obra, dando um tom de surrealismo, de coisas que não deveriam estar juntas. E tudo junto cria um clima de fantasia, de ilusão, de delírio. Assim trazendo o leitor para bem perto da mente de Carl, o protagonista, e fazendo com que as páginas sejam a visão deturpada do personagem.

Ou seja, apesar de underground, não se trata de uma escolha inusitada. Eu pessoalmente acho bem fácil de se acostumar com o traço, e até mesmo vejo a beleza dele em diversas cenas. Fora que fico estupefato quando este complementa perfeitamente a narrativa. Algo sem dúvida difícil para alguns, mas que eu pessoalmente considero mais acessível que as ilustrações do próprio McKean.

Untitled-2.jpg

Agora algo que me incomoda graficamente é o trabalho do letrista, Mirko Guidi. Novamente não é uma escolha ao acaso. As letras tortas complementam a sensação passada pelas ilustrações. Porem elas dificultam tremendamente a leitura, tornando algo que poderia ser prazeroso em uma jornada árdua.

Me vi quase que me arrastando e tive de terminar um conto curto, de poucas páginas, 65 para ser exato, em dois dias. Porem deixo aqui uma ressalva. A Shockdom me enviou uma versão de imprensa em PDF e com qualidade inferior a versão final impressa. Isso é algo bem comum, porem sinto que dessa vez a qualidade do arquivo me impossibilita de confirmar que o que falo a respeito da fonte é verídico. Logo é possível que você compre o físico e tenha uma experiência superior à minha nesse quesito.

Seguindo. Após contornar as dificuldades de ler e assimilar a arte, vem a questão de interpretar o texto. Marco Rincione fica a cargo do enredo, sendo este o ponto alto do Fumetti, mas ainda assim uma pequena complicação. Veja bem, a história aqui contada vagueia bastante, tentando propositalmente confundir, assim fazendo este acreditar no que está e não está a sua frente. Algo essencial na narrativa, e que no final nos leva ao questionamento.

Untitled-3.jpg

Em Vidas de Papel seguimos Carl, um Timed cujo poder e entrar na mente de outras pessoas e assimilar tudo que a. Numa descrição do próprio personagem, e como se ele enxergasse em segundos toda a vida do coadjuvante em primeira pessoa, como se a estivesse absorvendo-a para si, ao mesmo tempo que assiste os milhares de pensamentos conflitantes que existem na mente de um ser humano.

Ao mesmo tempo Carl tem um poder complementar. Sua habilidade primaria e tão poderosa que ele tem de se isolar das pessoas para não enlouquecer, e sua secundaria ajuda nessa solidão. Tudo que ele desenha no papel ganha vida, portanto o nome do HQ, Vidas de Papel. Porem eles são mais que construtos. São praticamente pessoas com sentimentos e inteligência própria, tal qual eu e você. Ou talvez seja isso que o autor queira. Seria essa percepção mais uma ilusão?

É basicamente isso que mais aflige Carl. Ele é um ser quase onisciente, com poder de criação. Características de um deus, porem em uma entidade perfeitamente humana, com suas falhas e desejos. Algo que sobrecarrega. Imagina ter algo assim em suas mãos? Seria caso de megalomania, narcisismo, loucura ou agorafobia. Talvez tudo junto, ou por etapas. Mas sem dúvida algo que a longo prazo abalaria qualquer indivíduo.

Untitled-4.jpg

Essa é a mágica de Vidas de Papel. O personagem se questiona, e a medida em que o leitor prossegue existem questões que parecem direcionadas a ele, e não ao Carl. E então chegamos a um clímax e um final alucinantes. Tudo na obra e muito lento, menos o pensamento. E este acelera junto do nosso, em uníssono, nas últimas páginas. Nos levando então a refletir sobre tempo, vida, morte, deus, realidade e continuidade. Assim culminando não em respostas, mas sim em reflexão.

Logo é uma pena, e ao mesmo tempo uma vantagem, que a obra não seja tão acessível. Gostaria mesmo que fosse uma leitura para todos. Porem essa inclusão tiraria parte da liberdade dos autores, e, portanto, no fim à conclusão que me vem é que insista. Olhe torto para a obra, mas continue, siga com a leitura caso algo que comentei aqui ou algum outro elemento da trama lhe faça querer mais. Tente enxergar além do traço alternativo, da sinopse bizarra, das letras estranhas e leia mais de uma vez se precisar. Pois é tudo isso junto que constitui uma obra, e não cada elemento separado.

Fico feliz de ter tido o prazer de ler esse Fumetti maravilhoso dos gêmeos Rincione, e estou ainda mais animado para o terceiro HQ dessa saga da Shockdom. O qual mais uma vez terá roteiro de Marco Rincione. Sendo este o belo O Canto das Ondas.

vidas de papel.jpg

Dito isso, agradeço por ter lido o texto até aqui. Espero que goste ainda mais da leitura de Vidas de Papel, o qual pode ser adquirido na loja da Shockdom. E peço apenas que comente aí embaixo o que achou, compartilhe com os amigos e deixe seu like. Pois, é… wordpress tem dessas também.

On the Nanquim: RIO 2031

rio2031.png

Recentemente fomos reapresentados a serie O Homem do Castelo Alto, um dos originais da Amazon Prime, o qual adapta o clássico livro de Philip K. Dick e que apresenta uma história alternativa onde os nazistas venceram segunda guerra mundial guerra. Os heróis brasileiros ganharam um pouco mais de destaque nacional, com obras como Alfa e Dias de Horror. E o ilustrador Gabriel Picolo fechou contrato com a DC comics para fazer uma serie dos Jovens Titãs. E apesar disso tudo, porque ninguém fala da Shockdom?

Sei que nada disso parece ter ligação, mas vou chegar lá. Primeiro deixe-me apresentar vocês a Shockdom. Uma editora italiana, que para a alegria dos brasileiros, chegou ao Brasil em 2017. E logo de cara já foi publicando obras nacionais, como a serie em tiras Razão e Emoção, além da inédita série de heróis Timed.

E é justamente de Timed que vamos falar aqui, começando com Rio 2031. Um ponto de partida para toda uma linha de histórias fantásticas, a qual vamos resenhar título por título aqui no Mangatom.

CAPA RIO

Mas o que tem de tão especial em Rio 2031. E a resposta está justamente no parágrafo inicial desse texto. Num futuro não muito distante o mundo vê um súbito surgimento de super seres, porém não naquela ideia de Marvel e DC onde poucos são dotados, e sim algo que se assemelha a My Hero Academia, fazendo assim com que super-humanos superem em número os sem poderes, porem com um twist.

Em My Hero Academia quando os primeiros poderosos surgiram existiu conflito, mas é algo pouco mencionado, pois não diz respeito ao enredo, o qual mostra um mundo de heróis muito depois do surgimento. Enquanto em Rio 2031 os heróis, aqui chamados Timed, surgiram a pouco tempo, e em números alarmantes, o que acabou encadeando na Guerra Fria. Pois no mundo de Timed esse evento nunca havia ocorrido, e quando surge vem de maneira similar ao ocorrido no já mencionado O Homem do Castelo Alto, assim criando uma linha de história alternativa.

A Guerra Fria de Timed é um conflito pela supremacia entre os Estados Unidos e a Rússia, com a visão de ser a guerra para acabar com todas as outras guerras. Porem ao invés de se focar em investimentos na tecnologia, se trata de uma corrida para ver quem tem os melhores super-humanos e que pode utilizar das forças deles para mudar cenários ao redor do mundo, e assim assimilar tais localidades como aliados.

2.jpg

E na frente dessas duas superpotências temos duas megacorporações, a Newstate, nos estados unidos, e a Thenation na Rússia. Sendo assim não temos um embate entre capitalismo e comunismo, e sim entre duas formas distintas de capitalismo. Algo que infelizmente é mal explorado na trama, e acaba caindo mais como uma ferramenta para o autor discutir problemas sociais, assim fazendo de Rio 2031 mais uma ficção social do que cientifica, mesmo tendo mechas e carros voadores em segundo plano.

Uma perda imensa, mas que acaba destacando o ponto alto da trama. Apesar do HQ ser de heróis, eles não são lá essas coisas. As personalidades são legais, mas não temos tempo de nos sentirmos atraídos por eles, e os poderes são basicamente o seu típico time dos X-Men, com algumas mudanças interessantes que logo falo. Menciono eles, pois é justamente essa abordagem social que dá charme a trama e não os poderosos.

Para alguns isso vai soar como algo escroto, mas pense nos Timed como recursos narrativos para se passar não uma mensagem, mas um questionamento. Com dois grupos em conflito, mesmo tendo um lado vencedor e um perdedor, acabamos acompanhando por igual a visão de ambos, junto do ponto de vista de cada personagem, por mais ínfimo que seja, assim nos fazendo tomar um lado, mesmo que inconscientemente. Ou seja, temos uma rara história sem protagonistas, com um enredo bem trabalhado e uma boa construção de mundo, daqueles que faz você querer mais ao final da trama.

4.jpg

E nesse momento acho que me precipitei, pois já deixei bem claro que gostei imensamente da proposta de Rio 2031 e da série Timed, porem a resenha não acabou, pois chegou a hora de tocar no porque esse é um HQ interessante sobre heróis, mesmo eu tendo posto eles meio que de escanteio. O que obviamente complementa boa parte do que falei.

Enfim, Timed. Porque Timed? Sim, existe um motivo por trás do nome. Conhecem o Homen-Hora ou anime Tiger & Bunny? Se não, deixa eu explicar. Em ambos os exemplos o herói possui um poder incrível que pode ser utilizado por apenas uma hora. Mas e se, após essa uma hora de ativação, o herói morrer? Esses são os Timed. Heróis que tiveram seus poderes despertados e que desde então sabem o tempo que tem nesse mundo. Porem nada de 1 hora, e sim espaços como 5 ou 7 anos de vida.

É muito? Sim e não. Esse é o tempo que nos é apresentado em Rio 2031. Porém é deixado claro que esse tempo vai variar de pessoa para pessoa, sem contar que você não precisa ser um gênio para saber que isso pode ser usado para afetar a psique de um personagem. Algo que não foi explorado em Rio #1, mas que pode causar um impacto fantástico em edições futuras ou em outras series da linha Timed. Sendo este, ao menos para mim, um chamariz imenso para ir atrás dos outros títulos da Shockdom.

3

Voltando rapidamente aos heróis de Rio 2031, apesar deu ter comparado a X-Men, existe um outro detalhe, além do tempo de vida, que separa este da série da Marvel. E por incrível que pareça também tem ligação com os poderes. Pois aqui um personagem com super velocidade não tem apenas super velocidade. Ele possui um poder complementar de super resistência para aguentar o atrito durante a movimentação. E na mesma ótica uma heroína com intangibilidade também possui levitação, assim evitando que ela atravesse o chão indeterminadamente. Ainda são Mercúrio e Lince Negra, porem com uma lógica maior aplicada em cima dos poderes.

E eles ganham vida graças ao Brasileiro Gabriel Picolo, o qual mencionei no começo. Um ilustrador de mão cheia, super gente fina, que tem ideias incríveis, como desenhar os Titãs em roupa casual, o que lhe garantiu o trampo na DC, desenhar a famosa série 365 Days of Doodles e criar o “romance moderno” Ícaro e o Sol. Uma serie de ilustrações que coloca o mito clássico como dois jovens apaixonados. Um favorito pessoal meu. Mas que não menciono atoa. Pois a personagem Sol serve claramente de base para a heroína Magick. O que me leva a pergunta, onde ele enfiou o gato preto em Rio 2031? Vou deixar essa solta para os fãs do Picolo responderem.

E junto dele temos o italiano Giuseppe Andreozzi, o que torna essa uma obra Ítalo-brasileira. Você provavelmente ouviu pouco dele, pois é um cara focado mais em estudo, sendo fundador e professor de roteiro da Creativ Art School, e antes de ir para a Shockdom trabalhou apenas em um projeto, a série de zumbis Mors tua. Sua primeira obra na editora foi Black Screen, a qual ainda não tem previsão de sair no Brasil.

1.jpg

Com isso temos juntos 2 quadrinista bem experientes, que vieram polindo suas habilidades ao longo dos anos, mesmo que não fazendo HQ em si. O que não é um demérito, pelo contrário. Falo de um ilustrador fantástico de longa data e um roteirista que ensina milhares sua arte. Um time extremamente competente que trouxe uma das HQs de heróis mais interessantes dos últimos anos.

É algo excepcional? Não. Mas é um quadrinho de herói muito bom! E isso que vale as vezes saca. Ignore os clichês de um gênero saturado e busque enxergar o diferencial. Eu tenho certeza que você verá isso em RIO 2031, e quem sabe nas outras series da Timed. Tá curioso? Pois bem, já dou uma canja. Pois nos dias seguintes eu vou resenhar aqui justamente os títulos que dão continuidade a ideia desse mundo, os quais são Vidas de Papel e O Canto das Ondas. Ainda não li essas, mas estou empolgadíssimo!

E você, o que achou de Rio 2031? Animou para ler? Achou uma ideia batida? O que acha que é necessário para um HQ de herói decolar? Comenta aí para a gente nos comentários. Ah, é não deixa de curtir! Tem dessas no WordPress também. =P