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GOTH VS GOTH: Love of Death

GOTH não é lá essas coisas. Aquele típico mangá de 5 capítulos com cara de cancelado, mas que na verdade adapta outra mídia. Nesse casso mais uma das milhares de novels japonesas que nunca vão dar as caras por aqui no ocidente, a não ser que tenha o nome Haruki Murakami no meio.

O livro é assinado por Otsuichi (Hirotaka Adachi), um autor que se especializa em histórias curtas de terror e mistério, e que tem exatamente como sua obra mais famosa Goth, a qual foi amplamente premiada e adaptada. O que me deixa com uma pulga atrás da orelha quanto a qualidade integra da obra, sendo que só pude ir atrás do mangá, ao menos a princípio.

Veja bem, existem diversos pontos positivos na publicação da Shounen Ace. O traço de Kenji Ooiwa é muito bom, perfeito para cenas de gore. Mesmo que muito pouco do mangá se utilize dessa apresentação mais macabra. Culpa do estilo dos casos, eu diria. Ao invés de descobrir quem criou uma abominação de carne e sangue, quase que como apresentando uma obra de arte deturpada, foi escolhido aqui que as histórias subsequentes teriam como foco apenas o sequestro de uma das principais, Yuro Morino. E é aí que começa os problemas.

Por um lado, eu entendo a parte do gore ter sido colocado a escanteio. Era um desejo do autor não mostrar os detalhes das mortes por achar que isso retiraria o gosto da leitura. Ainda assim fica muito estranho terem aprovado cenas tão grotescas a nível de Hannibal logo no início de um shounen. Sim, eu ter mencionado a Shounen Ace não foi à toa, e o pior, nada disso e especulação. O próprio autor do livro publicou uma carta a respeito disso após o último capítulo.

E foi nesse mesmo posfácio que ele explicou a ideia por trás da obra e da natureza dessa mudança de um mistério sobre corpos para um focado nos sequestros de Yuro. Talvez tenha ocorrido uma divergência na tradução, e a parte sobre o gore se refere a tal mudança, visto que as histórias subsequentes mal criam um cenário para uma apresentação mais grotesca. Porém o que mais se destaca nessa fala do autor e o seguinte trecho, que coloco a seguir adaptado para o português.

“O enredo de GOTH tem um conceito simples. A heroína e sempre sequestrada pelo monstro e o herói vai salvá-la. Essa ideia já foi usada amplamente em histórias mais antigas do gênero fantasia. Porem na minha história, personagens como espectros, demônios, vampiros e lobisomens foram substituídos por criminosos inusitados e cruéis.”

Eu entendo a ideia de querer mudar algo a muito estabelecido, porem isso acabou sendo o ponto mais fraco da obra. Colocando Yuro para ser sequestrada e deixando Itsuki Kamiyama como apenas o cara que aparece na hora H, estraga demais o clima da obra. Isso pois tudo acaba sendo ainda mais previsível, o que consequentemente gera certas soluções inconcebíveis para que ocorra o tal resgate “romântico” seguido de uma explicação a lá Sherlock Holmes.

Um clichê continua sendo clichê, independentemente de você alterar um elemento aqui e ali, e o resgate da princesa e um dos mais manjados, seja em livros, mangas, filmes ou até mesmo jogos. Normalmente quando a obra funciona não é porque o clichê foi “reformulado”. Ela funciona, pois, o autor soube escrever o restante do enredo de forma que o clichê teve um bom uso. Foi bem aproveitado por assim dizer.

Enquanto em Goth o tal clichê da princesa e basicamente tudo. Todo capitulo Yuro vai ser sequestrada e Itsuki vai salvar ela no momento H, como já bem falei. Não existe desenvolvimento de mais nada. E o pior, a Yuro so tem alguma evolução no final do mangá, enquanto Itsuki foi muito bem apresentado no capitulo 1, com um enredo que foge desse clichê e que foi bem mais interessante, para então ser descartado em prol da ideia mirabolante do autor. Palmas para isso, só que não.

E eu acredito que nem preciso tocar no quão machista tudo isso soa. Alguns vão dizer que isso é normal na sociedade japonesa ou que não devo ligar pois se trata de um título de 2003. Porem fica difícil defender o autor quando além dele colocar Yuro como fraca, física e mentalmente, e deixar diversos homens como os alfas que pensam e manipulam, ele taca a protagonista em uma das capas de capítulo num traje erótico de sadomasoquismo.

Itsuki, como já bem falei, é o personagem mais interessante, sendo um tipo de detetive mórbido, frio, e que aparenta ele próprio ser um assassino. E os mistérios não são de todo mal. Existem momentos bem intrigantes, principalmente no porquê de cada vilão ter feito o que fez. E a arte realmente ajuda, dando o tom gótico que a obra necessitava.

Ou seja, parece que faltou adaptar melhor ou expandir mais o apresentado. Talvez evoluir a figura de Yuro transformando ela posteriormente numa espécie de sucessora de Itsuki, ou quem sabe criar algo menos episódico e mais sequencial, com um clima de intriga, explorando essa suspeita de que Itsuki pode ser um assassino, criando assim um clima e talvez ritmo mais próximos de algo como Death Note, que acredito ter uma ambientação gótica muito boa.

E falando em algo gótico, talvez esse seja o ponto mais interessante do mangá. Apresentar a ideia de que se vestir de preto e usar certas maquiagens não e ser propriamente gótico. Mas sim que o gótico seria aquela pessoa que se sente atraída por coisas mórbidas. Tanto que os personagens da obra não se vestem espalhafatosamente, seja seguindo a moda gótica americana ou japonesa.

Mas enfim, me repetindo aqui. Interessante no mínimo, sendo uma possível diversão rápida para alguns, mas nada que vai mudar sua vida. E foi esse ponto de ser interessante, e talvez bom, caso apresentado de outra maneira, que me fez ir atrás do filme de 2008, intitulado GOTH: Love of Death. Ao menos a parte de romance dos protagonistas seria aprofundada se tem um título desses, certo? CERTO?

Na real não, e eu pouco me importo. XD Falei mais por brincadeira. Existe um certo tom de romance platônico presente nas duas obras, so que de forma que a parte platônica está para ambos, o que não faz muito sentido. Acredito que Yuro e Itsuki estejam juntos mais por conta de seus interesses incomuns. Algo que certamente é melhor explorado no filme.

E sabe o que é melhor no filme? Yoru, ao menos ao meu ver, entra mais como uma principal, mas sem roubar o tempo de tela de Itsuki, assim parecendo que os 2 se complementam, ao invés de gerar aquela sensação de que o garoto apenas usa da menina. E eu particularmente gostei muito de ver eles juntos assim.

So que aí vem a pergunta chave. O filme é melhor que o mangá? Mesmo com essa presença maior de Yoru e a “correção” do personagem Itsuki, a resposta é um grande TALVEZ. E eu digo isso pois este é um daqueles filmes “ame ou odeie”. E não é por conta do roteiro ou atuação.

Aqui o ritmo que dita se você vai ver até o fim ou tacar um foda-se. Pois é uma película extremamente lenta e com diversos momentos mais parados de reflexão. Como se o intuito desde o início fosse apresentar algo leve e charmoso, quase que corriqueiro, trazendo aquele tom de slice of life real. Imitando a vida mesmo.

So que ainda assim com uma atmosfera bem surreal e com alguns momentos de pura loucura que são complementados com a estranha forma de agir de cada um dos personagens e pelo cenário gótico / macabro de algumas localidades.

As mortes por outro lado foram muito amenizadas, assim seguindo bem a visão original do autor. Porém, perde-se impacto nelas e o uso de manequins, que são bem óbvios, chega um pouco ao ridículo. Eu particularmente não me importo tanto, visto que a produção cheira a baixo orçamento. Mas acredito que dava para se fazer algo melhor com efeitos práticos.

E falando em efeitos. O filme usa alguns jogos de câmera bem interessante, incluindo one-shot, que é basicamente filmar algo mais longo sem cortes. Melhor que isso eu diria que são as partes que se filma a luz, o que parece ser um puto descuido. Mas que no fim tem um proposito muito grande que não posso entrar em muitos detalhes. Mas resumindo, e verão no Japão.

A parte mais bem trabalhada, porem, e o final quando se descobre o assassino. A cena inteira é muito surreal e com base certeira no livro. Algo que digo aqui por ser uma cena bem similar a do mangá em diversos aspectos. So que com pequenos detalhes sutis que tornam tudo mais fluido. E então no desfecho disso temos uma música foda tocando, efeitos de luz e vento. Papeis se rasgam, segredos são revelados, e tudo o que Itsuki faz e andar em câmera lenta, numa cena incrivelmente bela e marcante.

Da para ver claramente que Gen Takahashi tentou ao máximo transformar GOTH em um filme arte, mesmo com o baixo orçamento. E eu particularmente gostei mais do filme. Juntar os melhores trejeitos de cada vilão em um, mais detalhes de cada um dos mistérios e acrescentar pontos de ligação, tornando sequencial como eu bem queria, foi perfeito.

Ainda assim volto a reforçar, o roteiro de nenhum dos dois é algo de outro mundo. Particularmente eu recomendaria o filme, mesmo sendo raro de achar. Mas vai depender se você quer algo rápido para passar o tempo ou algo lento e que tenta ser mais artístico. A escolha é sua, e sinceramente não ir atrás de nenhum dos dois também é uma ótima opção.

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On the Nanquim – Batman: Elmer Fudd

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Esse review foi solicitado por um dos membros do nosso grupo no Discord. Segue a gente lá também! https://discord.gg/C23m628

Recentemente foi anunciado que a DC estaria trazendo novos crossovers com personagens icônicos do passado, porém não o clássico HQ vs HQ, e sim historias envolvendo personagens de desenhos matutinos. Dessa vez é o turno dos Looney Tunes, e muitos associaram o “trazendo novos crossovers com personagens icônicos” como uma referência aos HQs mais modernos e adultos envolvendo personagens da Hanna Barbera, como o indispensável Future Quest, mesmo estes não sendo crossovers e sim uma nova interpretação.

Digo, o já mencionado Future Quest e sim um crossover, mas acaba aí. É um HQ que junta personagens apenas da Hanna Barbera, e todo o resto, Flintstones, Scooby-Doo, Corrida Maluca, entre outros, se mantem num universo próprio. Enquanto esses novos crossovers misturam personagens da DC com os Looney Tunes.

Ainda assim, se o texto não referência Hanna Barbera e afins, o que seria esse antigo crossover? Algo mais do passado? Afinal já vimos o Superman contra Muhammad AliBatman teve aventuras com Hellboy e Starman e o Coringa em certo momento foi o possuidor da Máscara. O histórico da DC é cheio de crossovers, mas nesse caso se trata de algo bem recente. Batman: Elmer Fudd, de 2017.

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Mas o que ou quem seria Elmer Fudd? No Brasil conhecemos o personagem como Hortelino Troca-Letras. Um caçador careca que fala errado e adora perseguir coelhos, sendo o arqui-inimigo do próprio Pernalonga. E é seguindo exatamente a clássica premissa de Temporada de Caça que começa o enredo dessa sombria graphic novel.

Hortelino, ou Elmer Fudd se preferir, anda pelas ruas de Gotham refletindo sobre acontecimentos passados, sempre trocando seus Ls e Rs por Ws de forma a fazer até mesmo o Cebolinha confuso, e ao chegar o bar do Gaguinho, ou Porky, aos poucos entendemos melhor as nuances desse personagem modernizado, além de nos maravilharmos com diversos fanservices e entendermos melhor o porquê de tanta reflexão.

Elmer era casado, com ênfase no ERA. Apaixonado por Silver St. Cloud, antiga paixão de Bruce Wayne por meados dos anos 70, ainda em época de Detetive Comics. Uma personagem sexy, que por algum motivo não consigo deixar de associar a Lola Bunny. Mas voltando ao “ERA”, a temporada de caça ao coelho estava aberta. Silver foi assassinada, e tudo indica que Bugs Bunny, nosso querido Pernalonga, foi o culpado.

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Assim se inicia uma conversa de mesa de bar, com dois velhos rivais em tom depressivo conversando sobre o passado, presente e fim. Ninguém nega nada. Um assassinato ocorreu e outro viria a ocorrer. Um clima bem tenso, sombrio, moderno e maduro para algo que antes era galhofa. Mas ainda assim certas características se mantem. Mesmo humanizado o coelho ainda tem seus dentes, fome por cenouras e rotas erradas. Algumas dessas coisas se tornam piadas, mas algo se sobressai. Pernalonga sempre foi o astuto, e com seu jeito de malandro solta “quem me contratou foi Bruce Wayne”.

Tal qual no desenho basta palavras para mudar a mente de Elmer, e assim começa a temporada de caça ao morcego. Uma brilhante exploração de um personagem meio desaparecido em anos recentes, mas que ainda está no panteão de mais famosos Looney Toones. E um enredo dark sem dúvida, mas tem muito espaço para fazer os fãs sorrirem, seja com os já mencionados fanservices, o embate de 2 ícones ou o dialogo fantástico.

Sem dúvida um enredo com uma boa dose de suspense e reviravoltas, que surpreende bastante devido à natureza do crossover e se mostra até mesmo mais maduro e moderno que as já mencionadas HQs da Hanna Barbera. Ainda assim minha parte favorita e como o papel do Hortelino e do Pernalonga se invertem, fazendo você pensar quem realmente é o herói, se é que existe um. Tudo isso culminando num final excepcional que promete derrubar até o cavaleiro das trevas.

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Únicos pontos negativos para mim são a fala do Elmer, já que li a versão americana e é necessário um bom conhecimento em inglês e muita atenção para poder entender os diálogos e fazer tudo ser mais fluido, e a duração do enredo, pois tudo acaba num piscar de olhos e te deixa querendo mais. Elmer Fudd seria um ótimo personagem para uma serie, investigando e distorcendo o mundo dos Looney Toones, mas infelizmente esse é apenas um especial. Uma graphic novel de ocasião única que deixara muitos órfãos, tal como eu.

E destoando um bocado do clima que acabei de descrever, ao final da história principal temos uma pequena homenagem ao curta mais famoso do Hortelino, onde com humor impecável e ajuda da burrice do principal combinada com a astucia do Pernalonga e intrusão do Batman temos a mais hilária temporada de caça ao morcego que você possa imaginar. Não chega aos pés da parte central do HQ, mas ainda assim é uma boa adição.

Tudo isso escrito por nada mais do que Tom King, e ilustrado de forma realista e fluida pelo fenomenal Lee Weeks. Tom também escreve a parte mais cômica, porem o lápis passa para Byron Vaughns que traz algo mais cartoon para a mesa.

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Batman: Elmer Fudd recentemente foi republicado nos EUA na coletânea DC Meets Looney Tunes, junto dos crossovers Legion of Super-Heroes / Bugs Bunny, Martian Manhunter / Marvin the Martian, Lobo / Road Runner, Jonah Hex / Yosemite Sam e Wonder Woman/Tasmanian Devil. Histórias que envolvem respectivamente os Looney Tunes Pernalonga, Marvin: O Marciano, Papa-Léguas, Eufrazino e Taz: O Demônio da Tasmânia como principais.

Para agosto de 2018 a DC promete repetir o feito trazendo crossovers com Mulher-Gato, Harley Quinn, Coringa e Lex Luthor encontrando Piu-Piu e Frajola, Gossamer, Patolino e Gaguinho.

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On The Nanquim: Vidas de Papel

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Para quem ainda não conhece o Vidas de Papel, esse é um HQ da editora italiana Shockdom, e o segundo da série Timed. A qual conta histórias de personagens superpoderosos, mas que possuem uma grande fraqueza, o tempo. Apesar de poderem mover montanhas eles estão fadados a morrer num tempo que é determinado no momento em que suas habilidades afloram. Podem ser anos, ou podem ser dias. Um conceito que acaba criando um mundo fantástico, o qual você pode conferir com mais detalhes no texto anterior, onde falamos de Rio 2023. Outra obra Timed fantástica.

Confira clicando aqui o review de Rio 2023.

Mas chega disso. Vamos falar de Vidas de Papel, como bem comentei no início. E é algo… complicado. Assim como Rio 2023 o enredo gira entorno da ideia de poderes dos Timed, porem se focando em apenas um indivíduo e caindo de cabeça no drama. Algo que eu desejei ocorrer desde a última leitura, porem que agora não sei se foi a melhor opção.

Digo, o potencial para o drama ainda existe, e o enredo passa isso de forma fenomenal. Não estou a desmerecer a obra. Porem a forma como tudo e contado é difícil de se assimilar. O primeiro empecilho que notamos e o visual, ilustrado pelo italiano Giulio Rincione. Pois apesar de se algo que cai como uma luva na obra, é extremamente alternativo.

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Falo de expressionismo e impressionismo misturado com um que de Dave McKean (Arkham Asylum, Mr. Punch). Não chega a ter o uso de materiais diversos e técnicas de fotografia, como e o caso de Dave, mas ainda assim a influência, ao menos no meio quadrinista, e óbvia. Talvez para uma melhor adaptação aos quadros.

Quando não é isso temos rabiscos. As vezes sozinhos, mas muitas vezes imersos no restante da obra, dando um tom de surrealismo, de coisas que não deveriam estar juntas. E tudo junto cria um clima de fantasia, de ilusão, de delírio. Assim trazendo o leitor para bem perto da mente de Carl, o protagonista, e fazendo com que as páginas sejam a visão deturpada do personagem.

Ou seja, apesar de underground, não se trata de uma escolha inusitada. Eu pessoalmente acho bem fácil de se acostumar com o traço, e até mesmo vejo a beleza dele em diversas cenas. Fora que fico estupefato quando este complementa perfeitamente a narrativa. Algo sem dúvida difícil para alguns, mas que eu pessoalmente considero mais acessível que as ilustrações do próprio McKean.

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Agora algo que me incomoda graficamente é o trabalho do letrista, Mirko Guidi. Novamente não é uma escolha ao acaso. As letras tortas complementam a sensação passada pelas ilustrações. Porem elas dificultam tremendamente a leitura, tornando algo que poderia ser prazeroso em uma jornada árdua.

Me vi quase que me arrastando e tive de terminar um conto curto, de poucas páginas, 65 para ser exato, em dois dias. Porem deixo aqui uma ressalva. A Shockdom me enviou uma versão de imprensa em PDF e com qualidade inferior a versão final impressa. Isso é algo bem comum, porem sinto que dessa vez a qualidade do arquivo me impossibilita de confirmar que o que falo a respeito da fonte é verídico. Logo é possível que você compre o físico e tenha uma experiência superior à minha nesse quesito.

Seguindo. Após contornar as dificuldades de ler e assimilar a arte, vem a questão de interpretar o texto. Marco Rincione fica a cargo do enredo, sendo este o ponto alto do Fumetti, mas ainda assim uma pequena complicação. Veja bem, a história aqui contada vagueia bastante, tentando propositalmente confundir, assim fazendo este acreditar no que está e não está a sua frente. Algo essencial na narrativa, e que no final nos leva ao questionamento.

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Em Vidas de Papel seguimos Carl, um Timed cujo poder e entrar na mente de outras pessoas e assimilar tudo que a. Numa descrição do próprio personagem, e como se ele enxergasse em segundos toda a vida do coadjuvante em primeira pessoa, como se a estivesse absorvendo-a para si, ao mesmo tempo que assiste os milhares de pensamentos conflitantes que existem na mente de um ser humano.

Ao mesmo tempo Carl tem um poder complementar. Sua habilidade primaria e tão poderosa que ele tem de se isolar das pessoas para não enlouquecer, e sua secundaria ajuda nessa solidão. Tudo que ele desenha no papel ganha vida, portanto o nome do HQ, Vidas de Papel. Porem eles são mais que construtos. São praticamente pessoas com sentimentos e inteligência própria, tal qual eu e você. Ou talvez seja isso que o autor queira. Seria essa percepção mais uma ilusão?

É basicamente isso que mais aflige Carl. Ele é um ser quase onisciente, com poder de criação. Características de um deus, porem em uma entidade perfeitamente humana, com suas falhas e desejos. Algo que sobrecarrega. Imagina ter algo assim em suas mãos? Seria caso de megalomania, narcisismo, loucura ou agorafobia. Talvez tudo junto, ou por etapas. Mas sem dúvida algo que a longo prazo abalaria qualquer indivíduo.

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Essa é a mágica de Vidas de Papel. O personagem se questiona, e a medida em que o leitor prossegue existem questões que parecem direcionadas a ele, e não ao Carl. E então chegamos a um clímax e um final alucinantes. Tudo na obra e muito lento, menos o pensamento. E este acelera junto do nosso, em uníssono, nas últimas páginas. Nos levando então a refletir sobre tempo, vida, morte, deus, realidade e continuidade. Assim culminando não em respostas, mas sim em reflexão.

Logo é uma pena, e ao mesmo tempo uma vantagem, que a obra não seja tão acessível. Gostaria mesmo que fosse uma leitura para todos. Porem essa inclusão tiraria parte da liberdade dos autores, e, portanto, no fim à conclusão que me vem é que insista. Olhe torto para a obra, mas continue, siga com a leitura caso algo que comentei aqui ou algum outro elemento da trama lhe faça querer mais. Tente enxergar além do traço alternativo, da sinopse bizarra, das letras estranhas e leia mais de uma vez se precisar. Pois é tudo isso junto que constitui uma obra, e não cada elemento separado.

Fico feliz de ter tido o prazer de ler esse Fumetti maravilhoso dos gêmeos Rincione, e estou ainda mais animado para o terceiro HQ dessa saga da Shockdom. O qual mais uma vez terá roteiro de Marco Rincione. Sendo este o belo O Canto das Ondas.

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Dito isso, agradeço por ter lido o texto até aqui. Espero que goste ainda mais da leitura de Vidas de Papel, o qual pode ser adquirido na loja da Shockdom. E peço apenas que comente aí embaixo o que achou, compartilhe com os amigos e deixe seu like. Pois, é… wordpress tem dessas também.

On The Nanquim: Beasts of Burden

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 Sei que muitos estão curiosos para saber do que se trata Beasts of Burden por ser um lançamento do Pipoca & Nanquim. Não apenas uma editora, mas fonte de muitos para se conhecer novas obras. Porém não foi isso que me fez ir atrás do título, e sim um fato talvez menor para vocês, mas grandioso para mim. Um simples elogio de Mike Mignola, autor de Hellboy.

Hoje sei que existe uma certa amizade entre os autores das obras, e inclusive um crossover que junta os personagens, logo a quem diga ser uma “venda casada”. Porém não acredito ser esse o caso. O HQ é sim de qualidade, seja esta atestada por Mignola ou pela façanha de levar o Prêmio Eisner em diversas categorias, em 2004, 2005, 2007, 2010 (em duas), 2011 e 2015, o que não é para qualquer um.

Beasts of Burden certamente é um fenômeno. E ah aqueles que não entendam o porquê. Em seu exterior vemos um livro sobre cachorros falantes em aventuras, o que logo remete a Disney e filmes infantis como Bud ou Beethoven. Quando na verdade seria preferível associar a obras como Martin Mystere, IT ou o recente Stranger Things.

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No enredo acompanhamos um grupo de cães, e ocasionais gatos, que vivem na pacata cidade de Burden Hill. Um local envolto em mistérios que tem tido um aumento alarmante no número de casos sobrenaturais. O que leva eventualmente o grupo a se tornar uma espécie de vigia contra o mal, assim reforçando os ranques da mítica Sociedade dos Cães Sábios.

Inicialmente a história é apresentada de forma episódica sem um objetivo central, por fim caminhando para coisas vagas como “defender a área” ou “encontrar a fonte do mal”, o que deixa muito em aberto, assim dando uma liberdade enorme ao autor. Algo que Evan Dorkin (Dork, Superman and Batman: World’s Funnest) utiliza com maestria.

E assim somos presenteados com histórias curtas com fantasmas, zumbis, entidades cósmicas, e todo o panteão de seres sobrenaturais, conhecidos ou não pela massa, e até mesmo alguns surgidos de acontecimentos reais, como o Rei Rato e a chuva de sapos. Se não algo com base em obras consagradas, nem que brevemente. Como ocorre no capítulo 4, onde vemos obvias referências a Um Lobisomem Americano em Londres e Em Busca de Watership Down.

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Montagem com diversas páginas para ilustrar as referencias a Um Lobisomem Americano em Londres e Watership Down.

Porém o que brilha no fim sãos os personagens, suas personalidades e como eles lidam com a situação, além da clara mescla entre comedia, terror e drama. Aqui cada um dos animais recebe uma característica ampliada. Ace é o líder, valente e decisivo. Rex e forte, valentão, porem medroso. Pugs e metido, sarcástico e ranzinza. Whitey é brincalhão, agitado e fala o que vem. Jack é calmo e centrado. E Orphan é esperto e safo.

São personalidades conflitantes e complementares ao mesmo tempo, que trabalham juntas para criar um clima de comedia ou tensão de forma incrível. Você se importa com eles, como grupo e como indivíduo. Algo posto à prova nas sequencias de drama e suspense. Você fica com o coração na mão. Ainda mais que secundários muitas vezes são descartados num piscar de olhos e de forma brutal. Afinal aqui não se poupa detalhes para o gore.

Tudo isso no belíssimo traço e cores de Jill Thompson (Sandman, Mulher-Maravilha). Sendo aqui aplicado um detalhamento que me deixa estupefato. Cada animal e monstro apresentado e desenhado de maneira estupenda, sendo fácil diferenciar os diversos tipos de pelagem, além da interação destes com elementos diversos, como água ou vento. Mas o que realmente impressiona e como ela consegue demonstrar expressões tanto faciais como corporais de maneira perfeita. Quase humana, talvez?

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Sendo assim é inegável afirmar que Beasts of Burden é um trabalho de extrema qualidade, perfeito para quem busca uma aventura mais dark e não enjoa fácil com gore. Uma obra adulta e profunda sem igual e que não pode faltar na coleção. Logo parabenizo o Pipoca & Nanquim pela escolha da publicação e espero ansioso pelo próximo álbum.

Vale ressalvar que Rituais Animais, o primeiro encadernado, conta com 8 historias, publicadas pela Dark Horse entre 2003 e 2009, mais extras, assim totalizando 188 páginas em capa dura com verniz e lombada em material que remete a couro.

 

Outras 6 historias foram publicadas pela Dark Horse, entre 2010 e 2016, incluindo o crossover com Hellboy, e devem no futuro compor outra edição.

Todas as 14 histórias conjuntas ainda não finalizam a obra, e, portanto, Beasts of Burden se encontra em publicação, com 4 historias previstas na série principal e uma minissérie paralela com Benjamin Dewey (The Autumnlands, I Was The Cat) que contará acontecimentos envolvendo a Sociedade dos Cães Sábios. Ambos dando continuidade de onde parou a série.

No momento a edição física se encontra indisponível na Amazon e deve haver uma reimpressão em Março. Ainda assim e possível adquirir a versão brasileira em formato digital, também por meio da Amazon. E caso isso não te satisfaça, não se alarme. Tenho certeza que garimpando um pouco você deve encontrar o HQ uma hora ou outra em sebos ou similares, sem contar que sempre existe a opção de pegar a versão da Dark Horse, a qual recentemente foi republicada.

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Atom 5: Jogos para fugir do Natal

Não curte o Natal ou está de saco cheio de reuniões de família? Então se prepare, pois está lista é para você! Uma fina seleção dos melhores games para poder passar o feriado trancado no quarto, so você e teu amado computador. Diz se esse não é o significado do Natal?

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On the Nanquim: A Saga do Tio Patinhas

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Sei que é estranho fazer um review de A Saga do Tio Patinhas em pleno 2017. Afinal, todo mundo conhece o personagem. Dentre os nerds metade sabe que o quão importante é a história de Don Rosa e a prestigia. Já a outra metade também conhece a obra, porem a evita sobe aquele velho pretexto de que “Disney é infantil”, em certos casos chegando ao cumulo de afirmar que “Disney só tem merda”. Algo absurdo nos dias de hoje, mas que infelizmente existe. Leia o resto deste post

Resenha em Massa – Franquia Coraline

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De livro para quadrinho, de quadrinho para o cinema. Adaptação. Uma palavra que gera medo no coração de todos os nerds. Adorada por uns, odiada por outros, mas ainda assim temida, pois mesmo aqueles que tomam a notícia por algo bom sabem as chances que isso tem de dar errado. Leia o resto deste post

On the Screen: Prince of Stride – Alternative

On the Screen: Hibike! Euphonium – Curtindo a vida com música.

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“Você gosta de música?” “Não”. Virou resposta padrão. Conheço bandas e sei algumas letras, mas não sou fanático. Basicamente, eu escuto mas não sei conversar sobre, pior ainda se entrar com detalhes técnicos. Não sei nem dizer o que seria uma partitura, ainda assim me fascino com obras como Beck e Whiplash. Existe algo magico nesses contos de superação.

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On the Nanquim: Pinóquio (Pinocchio)

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